IV DOMINGO DA PÁSCOA( Jo 10, 27-30)
AS VERDADEIRAS OVELHAS

 

PREFÁCIO: Os quatro versículos do domingo atual pertencem a um discurso de Jesus pronunciado durante a festa da Dedicação (Chanucá com ch=jota espanhola, ou encénias em grego) no pórtico de Salomão(Jo 10, 23), resguardado do vento invernal por ser o único fechado do lado do oriente de onde provinha o vento frio nessa época(novembro- dezembro). Pouco meses antes na festa das Tendas(sukoth) ou tabernáculos (Jo 7,2) Jesus tinha pronunciado duas parábolas que indicavam sua função perante o povo de Israel: Ele era a porta (Jo 10, 7) e ele era o pastor verdadeiro de um rebanho que se supunha ser o povo escolhido por descendência ( Jo 10, 11).Mas nesta ocasião os judeus, formando um círculo como se fossem discípulos do novo Mestre, dirigem-lhe duas perguntas importantes: És tu Messias? És tu Filho de Deus? (sic no grego). São as mesmas perguntas que servirão para condená-lo no Sinédrio, presidido por Caifás. A primeira foi claramente e especificamente perguntada (Jo, 10, 24). A segunda será implicitamente introduzida no versículo 33. Na resposta à primeira das mesmas, Jesus declara ironicamente que não vê nos seus interrogadores suas ovelhas; e com isso reclama da sinceridade dos mesmos de ouvir uma voz que deveriam escutar como a voz verdadeira do pastor.(27). Com esta afirmação se inicia o evangelho de hoje.

MINHAS OVELHAS: Jesus claramente esclarece que existem dois tipos de ouvintes: os que constituem ou formarão parte de seu rebanho (suas ovelhas) e os que vendo suas obras, os sinais que dirá o evangelista, fecham seus ouvidos à voz de quem deveria ser seu pastor e por isso se desgarram de seu rebanho desde o início. A tradução direta do texto grego seria: as ovelhas, as minhas, ouvem a minha voz e eu conheço as mesmas e (elas) me seguem (27). Ao afirmar que tem um rebanho a cuidar e pastorear Jesus se apresenta como Pastor, mas um pastor do qual depende a vida do rebanho. Ele tem como fim a vida dessas ovelhas a ele encomendadas pelo Pai. A própria vida pessoal não é tão importante como a vida do rebanho pelo qual ele dará sua vida.(10, 11). Porém o tema principal da metáfora do trecho de hoje é a distinção entre o seu rebanho e o grupo dos desgarrados que não querem ou não escutam a voz do verdadeiro e único pastor. Jesus afirma ter um verdadeiro conhecimento de quem são suas ovelhas ( a palavra probaton indica gado menor como ovelhas e cabras) e que distingui-las não é difícil, pois são aquelas que escutam sua voz.É por isso que os judeus sentados na sus frente aparentemente como discípulos não formam parte de seu rebanho. Não vieram para escutar a sua voz mas para interrogar sobre seu ministério como pastor.

VIDA ETERNA: Zoé aiônios (vita aeterna em latim)é o termo usado várias vezes pelo evangelista. Vamos explicar o significado começando pelo aiônios. A palavra tem sua origem em aion derivado de aiei ou aei sempre, inalterado. No inglês ser[a o everlasting, que dura sempre, ou perpétuo. Sem fim seria talvez a melhor tradução, preferida à eterna, usada nas línguas vernáculas latinas. Zoe derivada de Zaô estar vivo não teria conotação especial de não estar acompanhada pelo adjetivo que a qualifica e determina. É portanto uma vida especial em que a qualidade tem tanta importância como a duração.O próprio evangelista explicará em que consiste (neste mundo) essa vida para sempre: Em conhecer-te a ti (Pai) como único Deus e ao Filho que enviaste(Jo 17, 3). Porque ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar (Mt 11, 27).Os evangelhos falam de conhecimento ginosko (João) ou melhor de reconhecimento epiginosko (Mateus) não no sentido de volver a conhecer, mas de admitir e entender plenamente o que estamos vendo ou sentindo. S. Tomás dirá que a bem-aventurança consistirá em contemplar a essência divina como visão beatífica, ou seja como contemplação-causa de nossa felicidade; porque algo disso terão também os proscritos em certo grado, mas como visão oposta, causante de temor, dos quais se pode afirmar o que dizia o apóstolo Tiago dos demônios: que também acreditam mas tremem (Tg 2, 19). Muito se fala de que Deus castiga, mas na realidade Ele se mostra como é, bondade e verdade, que os condenados rejeitaram durante sua vida; e agora se contemplam tão distantes que não agüentam essa visão ou conhecimento intelectual puro e direto. Contava uma pessoa que teve uma visão da presença do anjo do mal e sentiu tal perturbação interior como presença mórbida do mal que seu corpo tremia de temor e sobressalto. Pois bem, o que aquela pessoa sentiu diante da presença do mal, os condenados sentirão diante da presença do Bem. Acostumados a escolher-se a si mesmos em puro egoísmo de paixões e orgulho, o amor e a bondade divinos, agora manifestados como inalcançáveis, serão seu maior tormento, porque serão causa de se ver representados como opostos frontalmente ao que eles escolheram e viveram. Todos nós sabemos o quanto é desagradável a presença de uma pessoa com a qual tivemos uma duríssima discussão ou foi motivo de uma morte de um familiar. Por isso a presença divina, que será motivo de felicidade para os que não rejeitaram o bem e a verdade, será motivo de profunda mágoa e rejeição para os que sempre optaram pela mentira e a maldade como fontes de sua vida. O mal dos outros, que eles escolheram como bem próprio, será agora visto como MAL em si mesmo que eles escolherão definitivamente, sabendo que é BEM para os outros e mal para eles mesmos.Tornar-se-ão Pecado não para remir como Jesus os outros (2 Co 5,21) mas para ver em si mesmos a justiça divina que como dizem almas místicas é terrível quando é vista sem ter como sombra a sua misericórdia(Hb 10, 31) A angústia de Jesus e a tristeza de Getsêmani eles a experimentarão não como redenção mas como desesperação. Pois a (verdadeira)vida era a luz dos homens, já que o que foi feito nele era a vida (Jo 1,4). Por isso a fé, que é entrega e submissão à verdade divina em Jesus claramente manifestada pelas obras extraordinárias de sua vida pública, é a resposta à luz que veio aos seus e estes não a receberam(1,11).

O MAIOR DE TODOS: Há duas interpretações diferentes: Meu Pai que mas deu é maior do que todos e Pelo que respeita a meu Pai o que me deu é maior do que todas as coisas. Neste ponto também a Vulgata opta pela segunda pelo fato de que traduz o meizon pelo neutro maius, que se refere ao objeto dado. A segunda opção é também a preferida pela tradução evangélica RA: Aquilo que meu Pai me deu é maior do que tudo. A primeira está em conformidade com o versículo anterior que afirma ninguém tem poder para arrebatar essas ovelhas dele, e aduz como razões duas absolutamente essenciais: 1a são gado que o Pai encomendou e 2a o poder do mesmo é superior a qualquer força oposta, pois não existe maior. A segunda hipótese realça o valor que para ele têm as ovelhas como máximo bem a ele encomendado pelo Pai. Cremos que a primeira hipótese é a mais correta, pois até o final deste versículo adapta-se melhor à mesma: Por isso(kai =e) ninguém as poderá arrebatar da mão do Pai. A Vulgata acrescenta meu

SOMOS UM: O grego Hen é neutro de modo que deveríamos traduzir eu e o Pai somos uma única coisa. Este texto serviu como chave para as controvérsias trinitárias dos primeiros séculos do cristianismo. Por uma parte os sabelianos ou monarquistas viram nele a identidade total do Filho com o Pai de modo que não havia distinção, e por outra parte os arianos só encontravam nele a união de vontades e não de substância. Um comentarista, seguindo S. Agostinho escreve: Pela palavra somos, fica refutado Sabélio e pela palavra um, acontece o mesmo com Ário.

PISTAS: 1) Se em versículos anteriores Jesus se afirma como porta única e pastor verdadeiro, agora nos encontramos com uma definição que demarca suas ovelhas separando-as daquelas do rebanho que não é o seu próprio.Quem são elas? As que escutam sua voz e o obedecem. Mas esta voz está determinada pelos evangelhos, que a conservam escrita, e pela tradição, que a preserva transmitida. 2) A incumbência do pastor é cuidar delas de modo que não pereçam nem sejam arrebatadas do rebanho por mãos estranhas e tenham a vida eterna. Qual é, pois, no dia de hoje a base da segurança de estarmos no verdadeiro rebanho, ou de sermos verdadeiras ovelhas, já que sempre existiram heresias de separação(2Pd 2,1)? Dado que a Escritura é tão diversa e erroneamente interpretada( 2 Pd 3, 16) mais do que o escrito em si é a interpretação que avalia o sentido da palavra. Portanto essa interpretação não pode ser deixada ao gosto e arbítrio pessoal(2 Pd 1, 20) mas feita por aqueles a quem Jesus declara: Quem a vós ouve é a mim que ouve (Lc 10, 16) Por isso o magistério universal constitui a base da segurança de que nós escutamos a verdadeira voz do Senhor Jesus. 3) A vida eterna da qual Jesus fala e que não explica aqui, é o oposto à morte eterna. Como Jesus e o Pai são um , assim os discípulos devem ser um também( Jo 17,11) entre si e com Jesus. Para essa unidade a melhor ascese (=prática) é se desprender do que egoisticamente procuramos começando a repartir nossa riqueza, tanto material como espiritual, com os que são mais pobres. Isso que os pais fazem com seus filhos, deve ser feito com todos, pois todos somos irmãos em Cristo e filhos de Deus. O exame de consciência que realizamos é falho demais; pois sempre nos detemos no mal que causamos. Devemos nos interrogar pelo bem que não compartimos; pois há maior mal que causar inveja ou deixar famintos a quem poderíamos saciar? Então veremos a raiz do mal que dentro de nós existe e veremos como nossas vidas são bastante deficientes e pecadoras. Olhar pelo bem que devemos realizar é sentire cum Christo, é abundar em suas riquezas disponíveis, é aprender a amar que em definitivo é entrega e sacrifício. É perder a vida para encontrar a eternidade( Mc 8, 35); porque se a verdadeira vida consiste, com diz Paulo, na fé, na esperança e no amor (1 Cor 13,13) é este, que não perece, o que a determina na eternidade(idem 13, 8).

EXEMPLO: Contam que um agricultor recebeu um prêmio porque com paciência e trabalho tinha logrado o melhor milho da região. Ao receber o prêmio, ele chamou os vizinhos e deu como semente o melhor milho de seus campos. Ao ser recriminado por isso dizendo que sua produção perderia valor pois haveria outros com a mesma qualidade, ele respondeu: Estou rodeado pelos campos de meus vizinhos. Se eles semeiam milho de inferior qualidade o meu milho obtido com tanto trabalho receberá dos campos contíguos pólen que fará perder a sua qualidade. Dando a semente aos vizinhos eu preservo a minha qualidade da deterioração que é melhor do que perder o mercado.