IV
DOMINGO DO TEMPO COMUM
Lc
4, 21-30
Pe. Ignácio, dos padres escolápios
AS HAFTAROTH: A palavra é o plural de Haftará palavra que significa conclusão. Era um techo dos Neviim(profetas)que era lido em voz alta na sinagoga, após a leitura da Torá (lei) ou melhor da Parashá (trecho lido no dia da lei) com o qual finalizava praticamente o serviço matutino (Shaharit) do Sábado. O trecho da Haftorá trata geralmente do assunto similar ao texto da Torá ao qual corresponde. Neste caso, como explicamos em anterior artigo, era o de Iscais 61, 1-2, com a diferença entre os textos grego e masorético (os que fixaram o texto hebraico hoje definitivo, da palavra Massorá=tradição). O importante é que Jesus não comenta os pobres como nas bem-aventuranças (Lc 6,20) mas insiste no tempo de salvação, aqui e agora. Após, pois, a leitura do trecho, Jesus entregou o rolo ao assistente (Hyperetes, ou seja servidor) e sentou-se. Sabemos pela tradição que nesta época os livros da Torá eram rolos de pergaminho, enrolados em duas varas curtas( Eitz Hayim) que terminavam em sendas romãs(Rimonim),uma coroa(keter), um escudo de prata(Tass) com os símbolos das 12 tribus, semelhante ao pendurado no peito do sumo sacerdote, embora este Tass ou Tzit não esteja em uso pelos sefardies(judeus de origem hispana). O pergaminho tinha um forro de seda ou veludo, que estava bordado nas bordas. Após a leitura, o servidor enrolava o rolo da direita até não ficar espaço entre os dois rolos, e amarrava o conjunto com uma faixa (Mapá). Entregado o rolo Jesus sentou-se. A palavra sagrada era escutada de pé. A palavra e os comentários dos sábios eram escutados sentados. Daí que Jesus, uma vez terminada a leitura, se assentasse. A cadeira, chamada cathedra (cátedra) tem um significado ritual e dogmático muito sugestivo(Mt 23,2). Como exemplo, a Igreja celebra a festa da cátedra de S. Pedro como símbolo de sua infalibilidade em matéria de fé e costumes. Na basílica do Vaticano temos essa cátedra representada como trono iluminado através da luz filtrada do Espírito Santo figurado em forma de pomba por Bernini, no que é chamada a glória do dito arquiteto.
AMÉM: Ao usar "o assentou-se" Lucas quer indicar que Jesus fala como Mestre, com a autoridade de um enviado por Jahweh. Por isso usa a palavra Amém empregada 6 vezes em seu evangelho e sempre com afirmações que indicam uma autoridade como a que a tradição atribuía a Moisés após sua visão no Sinai. O próprio Lucas nos dá a tradução desta palavra no versículo 25: sobre a verdade eu vos digo. Os rabis, como juramento de suas afirmações declaravam Beemet, que poderíamos traduzir com fidelidade (logicamente à lei e costumes). Esta é a firmação de Jesus, corroborada pelos dois exemplos de duas grandes figuras do javísmo em tempos difíceis como eram os de Acab e Jezrael no reino do norte, Israel. Em I Rs 17,14 Elias afirma: Assim diz Senhor Deus de Israel. A essa afirmação corresponde o amém de Jesus. É pois, uma afirmação muito grave que foi sem dúvida a causa de querer matá-lo.
MÉDICO: Jesus cita um provérbio, Mashal é o titulo dado ao mesmo, que Lucas traduz por parábola: Médico cura-te a ti mesmo(23). Os judeus tinham com o mesmo significado, as máximas de "médico cura tua coxeadura" ou "vai curar a ti mesmo". O parágrafo seguinte nos aclara que Lucas não escreve uma história cronologicamente ordenada. Interessam-lhe os fatos e as verdades teológicas. Sem ter narrado cura ou milagre algum, os habitantes de Nazaré esperam que ele faça entre eles o que já tinha feito em Cafarnaum(23). É ilógico porque tem como base o que não foi notificado de antemão.
NA VERDADE: Como um homem de quem se conhecia um pai ignorante quanto a ciência da Lei, e um filho que nada tinha feito para merecer qualquer mestrado na mesma, se atrevia a proclamar semelhante autoridade? Porque Jesus interpreta a Escritura de modo a se declarar ele mesmo profeta. Por isso diz que os dois exemplos, o de Elias e o de Eliseu provam que ele tampouco realizaria milagres em sua terra, porque ninguém é profeta na sua pátria (24). A asseveração está confirmada por Mateus(13, 57) e Marcos (6,4)onde em outros termos lemos que um profeta é desestimado, não tem crédito (atimós) em sua pátria, no ambiente de sua casa e de sua família.
O CASTIGO: Sabemos unicamente por estas palavras de Lucas que a fome durou três anos e seis meses. Os seis meses não foram contados no livro dos Reis 18, 1. Também Tiago (5,17)recolhe essa tradição que parece própria dos livros apocalípticos como Dn 7,25.(um tempo, dois tempos e metade de um tempo) Não existe outra fonte para saber a duração do castigo por causa da impiedade de Acab, rei de Israel A falta de fé impediu Jesus de mostrar seu poder miraculoso e só conseguiu curar alguns doentes(Mc) que para Mateus foram poucos casos de curas de enfermidades leves como indica a palavra Arrostós (débil) grega.
A IRA: Somente Lucas termina seu evangelho em tom desagradável: Seus conterrâneos reagem de modo irado e violento. As causas eram, sem dúvida, que Jesus afirma ter havido melhores resultados em qualquer outro lugar que não fosse sua aldeia. Indiretamente Jesus os compara com os perseguidores dos antigos profetas como Acab e Jezabel, além de afirmar que a nenhuma viúva entre eles(os de sua aldeia) foi enviado e que ninguém deles seria curado. Marcos conclui esta visita de modo diferente: é Jesus quem fica admirado pela falta de confiança nele do seu povo e por isso não pode curar a ninguém à exceção de uns poucos doentes.
INTENTO DE DESPENHÁ-LO: Como a um malfeitor que a lei mandava ser executado fora da cidade, expulsam Jesus e intentam despenhá-lo do cume do morro que dominava a vila. Embora não fosse uma morte tradicional temos o caso dos dez mil edomitas que foram assim mortos pelos judeus em tempo de Amazias, rei de Judá (2 Cr 25, 13). Seria um linchamento injusto também do ponto de vista da lei pois não se podia julgar nem condenar em dia de Sábado. Ex 35,3, ao ordenar que não devia ser aceso fogo nesse dia, impedia que o fogo fossse aplicado como pena de morte e daí deduziam que outro castigo da mesma natureza era também proibido pela lei. O problema é que a atual Nazaré não tem semelhante montanha cortada em precipício, e que este só se pode encontrar a 3km de distância, que ultrapassa em muito o caminho do Sábado. Uma solução é que existissem dois tempos diferentes entre o tumulto da sinagoga e a solução de despenhar Jesus, que teria sucedido em tempo diferente, mas que a cronologia de Lucas, totalmente imperfeita como notamos no início, reuniu numa única jornada.
PISTAS: 1) Lucas enfoca de modo global a missão de Jesus como um fracasso a partir da perspectiva de seus conterrâneos mais imediatos. E assim repetir-se-ia em termos mais mais abrangentes ao contemplá-la do ponto de vista da nação judaica. O episódio de Nazaré é pois, paradigmático. Sua pátria não é a pequena Nazaré, mas toda a Palestina. Esse seu fracasso dá-se também nos que esperam um Jesus pregador/milagreiro, para satisfazer deficiências corporais ou carências materiais. E há tantas igrejas que nisso colocam o fundamental do evangelho! Não podemos esquecer porém que a proclamação fundamental é a pessoa de Cristo.-2) O mundo moderno, dirigido fundamentalmente por slogans publicitários, admite Jesus como figura secundária ao lado de Bush, relegado por futebolistas, atores e cantores, que ocupam o ranking superior de sua escolha. Ou a História nada conta de autêntico e verdadeiro ou ela está mal contada e a culpa é nossa, ministros e testigos de sua palavra.-3) As palavras de Isaias comentadas por Jesus iniciaram a famosa opção preferencial pelos pobres , que o papa atual mudou em amor preferencial pelos mesmos. Comentava um sacerdote: não é só mudança de palavras mais suaves mas mudança total de visão: na primeira o trabalho evangélico se torna humano e individual, com o que isso acarreta de incerteza, reducionismo ideológico; quando é o amor nos referimos principalmente ao amor de Deus e jamais equivocaremos o caminho porque é assim que podemos traduzir(o wai hebraico é tamém porque) o anuncio angélico: glória a Deus no mais alto dos céus porque oferece paz aos homens que ele ama.-4) O versículo 22 indica claramente que o filho do Panthera, apelido da família segundo escritos judaicos e antigos documentos cristãos, jamais deixou sua terra para exibir uma ciência e sabedoria de origem tibetana, como afirma o que hoje podemos chamar de pura lenda fição.
EXEMPLO: Um pároco explicava desta maneira o amor preferencial pelos pobres que seus fregueses tinham dificuldade em compreender: Num dos bombardeios da guerra do Golfo, quando começou a soar a sirene, uma mãe cobriu com seu corpo o filho aleijado e com síndrome de Down. Os outros quatro filhos os deixou à sua sorte. Felizmente ninguém se machucou na hora . Mas perguntada a mãe por que tinha escolhido aquele filho que tanto trabalho lhe dava no lugar dos outros mais sadios, ela respondeu: ele só tem a mim e só de mim depende. Assim a Igreja faz quando ama preferentemente os pobres, pois ela é mãe especialmente dos mais necessitados.