SAGRADA FAMÍLIA (Lc 2, 41-52)
JESUS PERDIDO E ACHADO NO TEMPLO
(Pe Ignácio, dos padres escolápios)
INTRODUÇÃO:
No evangelho de hoje, encontramos as primeiras palavras de Jesus, pronunciadas
para demonstrar que toda a sua vida e missão decorre
de sua relação última e íntima com o Pai. Isto significa que essa missão provém
do próprio mistério de Deus como Trino e da sua providência como vontade salvífica para a humanidade. Contudo, esta providência
processa-se dentro do mistério da Encarnação, onde
Jesus vai aprendendo a viver a vida humana como qualquer outro homem. Por isso,
tanto sua vida adulta como sua infância têm valor de paradigma para todos nós. Parece que além de dar provas da
verdadeira natureza humana de Jesus, o Espírito Santo quis deixar um exemplo
para todos os adolescentes de como devia ser seu comportamento com os pais
terrenos e com o Pai dos céus. Este é o ensinamento que se deriva de seu
exemplo, quando perdido e achado no templo e quando voltando a Nazaré crescia
em todas as ordens.
A PÁSCOA:
E iam os pais dele cada ano a Jerusalém
na festa da Páscoa (41). Et ibant parentes
eius per omnes annos in Hierusalem in die collemni paschae.Goneis<1118> [goneis,
parentes em latim, ambos no plural], significa pais ou progenitores. AS FESTAS: A lei de Moisés mandava a
peregrinação a Jerusalém de todos os maiores de treze anos nas três festas
principais: Páscoa, Pentecostes e Tabernáculos. Não
parece que tiveram obrigação os galileus e, muito menos, as mulheres. Era a lei escrita no Deuteronômio 16, 16: Três vezes
no ano, todo varão entre ti aparecerá perante o SENHOR, teu Deus, no lugar que
escolher, na Festa dos Pães Asmos, e na Festa das
Semanas, e na Festa dos Tabernáculos; porém não
aparecerá de mãos vazias perante o SENHOR. PÁSCOA:
Começava nas vésperas do 15 de Nissan e durava sete dias. Comemorava o Êxodo ou saída de Israel da
escravidão do Egito. Os dois ritos de caráter religioso eram a proibição de
comer pão fermentado durante toda a semana. Era substituído pelo pão sem
fermento [matzá].
O segundo rito é a comida ritual do cordeiro na refeição chamada de seder pessah [ordem
da páscoa], que poderíamos traduzir por programa pascal. Cada pai relata ao
filho a história do Êxodo. A mesa deve estar munida de diversos pratos
especiais que simbolizam acontecimentos históricos daquela época. De
acordo com a tradição, a primeira celebração de Pessach
ocorreu há 3500 anos, quando de acordo com a Torá,
Deus enviou as dez pragas sobre o povo do Egito. Antes da
décima praga, o profeta Moisés foi instruído a pedir para que cada família hebréia sacrificasse
um cordeiro e molhasse os umbrais (mezuzót)
das portas, para que não fossem acometidos pela morte de seus primogênitos.
Chegada a noite, os hebreus comeram a carne do cordeiro, acompanhada de pães ázimos e ervas amargosas (como o rábano,
por exemplo). À meia-noite, um anjo enviado por Deus feriu de morte todos os primogênitos egípcios, desde os
primogênitos dos animais até mesmo os primogênitos da casa do Faraó.
Então o Faraó,
temendo ainda mais a Ira Divina, aceitou liberar o povo de Israel para
adoração no deserto, o que levou ao Êxodo. Como recordação desta liberação, e
do castigo de Deus
sobre Faraó
foi instituído para todas as gerações o sacrifício de Pessach.
É importante notar que Pessach significa a passagem,
porém a passagem do anjo da morte, e não a passagem dos hebreus pelo Mar
Vermelho ou outra passagem qualquer, apesar do nome evocar vários simbolismos.
Um segundo Pessach era celebrado em 14 de Iyar,para que pessoas que na
ocasião do primeiro Pessach estivessem
impossibilitadas de ir ao Tabernáculo, fosse por motivos de impureza , ou por
viagem.
Pessach caracterizava-se por ser uma das
três festas de peregrinação ao Templo de Jerusalém. Um mês antes da
festividade , Jerusalém tinha suas estradas reformadas e poços restabelecidos
para garantir o conforto dos peregrinos. Geralmente todos aqueles que
distanciavam trinta dias de jornada de Jerusalém
vinham para as festividades, o que aumentava a população de cerca de 50 mil
para cerca de três milhões. Estes peregrinos geralmente hospedavam-se na cidade
e cidades vizinhas, acampando ou em casa de conhecidos. Em 14 de Abib
[= primavera, mês assim chamado pela Torah que
corresponde ao primeiro mês do ano, comumente chamado de Nissan],
pela manhã, o chametz (alimento fermentado)
era eliminado e os sacerdotes do Templo preparavam-se para Pessach.
O trabalho secular encerrava-se ao meio-dia e iniciavam-se os sacrifícios às
quinze horas. A oferenda de Pessach constituía-se de
cordeiros ou cabritos, machos, de um ano de idade, e abatidos pela família (era
permitido um cordeiro por família) em qualquer lugar no pátio do Templo. O shochet [açogueiro ritual]
efetuava o abate, e o sangue era recolhido pelos cohanim [sacerdotes] em recipientes de prata e
ouro, que passavam de um para outro até
o cohen
próximo ao altar, que derramava o sangue na base do mesmo. O recipiente vazio
depois retornava para novo uso. Estes recipientes não podiam possuir fundo
plano par evitar a coagulação do sangue. Em seguida, o animal era pendurado e
esfolado, e, aberto, tinha suas entranhas limpas de todo e qualquer excremento.
A gordura das entranhas, o lóbulo do fígado, os dois rins com a gordura sobre
estes e a cauda até a costela eram retirados e colocados em um recipiente, salgados
e queimados sobre o altar. As oferendas de Pessach
eram feitas em três grupos, cada um tinha, no mínimo, trinta homens. O primeiro
grupo deveria entrar e quando o pátio do Templo estivesse cheio, os portões
eram fechados. Os levitas entoavam o Halel [salmos 113-118] e
repetiam-no (se necessário) até que todos houvessem sacrificado seus animais. A
cada vez que o Halel era entoado, os cohanim
tocavam três toques de shofar
[trombeta de chifre de carneiro]: Tekiá, Teruá e Tekiá. Após a
oferenda queimada das partes do sacrifício, os portões eram abertos, o primeiro
grupo saia, e entrava o segundo e iniciava-se novamente o processo. E assim com
o terceiro grupo. Após todos terem saído, lavava-se o pátio da sujeira que ali
acumulara. Um duto de água atravessava o pátio do Templo e havia um lugar por
onde ele saía. Quando queria se lavar o chão, era fechada a saída e a água
transbordava inundando o recinto. Depois, abria-se a saída e a água saia com
todas as sujeiras acumuladas, ficando o chão completamente limpo. Deixando o
templo, cada família carregava seu animal sacrificado e o assava, fazendo em
suas casas uma ceia festiva, onde todos se vestiam de branco. Esta ceia seguia
os princípios do atual sêder de Pessah, com exceção da inclusão do cordeiro
pascal. Após a ceia, muitos iam para as ruas festejar, enquanto outros iam para
o Templo, que abria suas portas à meia-noite .
Com a destruição do Segundo Templo,
A impossibilidade de haver um local de reunião
e sacrifício, impossibilitou a continuação dos sacrifícios de cordeiros.
Inicia-se então a transformação de Pessach em uma
noite de lembranças, sem o sacrifício
pascal. Pessach é hoje uma festa central do Judaísmo
e serve como uma conexão entre o povo judeu e sua história. Antes do ínicio
da festa, os judeus removem todos os alimentos fermentados (chamados chametz) de seus lares e os queimam. Não é permitido
permanecer com chametz durante a Pessach. Os objetos de chametz
são escondidos, e, outros, passíveis de um processo de casherização
[purificação] são mantidos; os utilizados para cozinhar passam pelo fogo, e os
de comidas frias passam pela água. É proibido realizar qualquer trabalho depois
de meio-dia de 14 de Nissan, ainda que um judeu possa
permitir que um goy
[não judeu] realize este trabalho. A festa de Pessach
é antes de tudo uma festa familiar, onde nas primeiras duas noites (somente na
primeira em Israel)
é realizado um jantar especial chamado de Sêder de Pessach. Desta refeição somente devem
participar judeus e gentios convertidos ao judaísmo. Neste sêder
a história do Êxodo do Egito é narrada, e se faz as leituras das bênçãos, das
histórias da Hagadá, de parábolas e canções judaicas. Durante a
refeição, come-se pão ázimo e ervas
amargas, e utiliza-se roupa de sair para lembrar-se do "sair apressado da
terra do Egito". Kadesh
(קדש -
santificação): Recitação do kidush
[oração da consagração do dia do sábado ou dia de festa, quando o chefe de
família, com o copo de vinho na mão, dá graças pela criação e a libertação do
Êxodo] e a ingestão do primeiro copo de vinho. Urchatz (ורחץ -
lavagem): Lavagem de mãos. Karpas (כרפס):
Mergulha-se karpas (batata, ou outro vegetal),
em água salgada. Recita-se a bênção e a karpas é
comida em lembrança às lágrimas do sofrimento do povo de Israel. Yachatz
(יחץ -
divisão da matzá):A matzá [pão ázimo] é partida ao
meio e embrulha-se o pedaço maior e separando-o de lado para o Afikoman Maguid
(מגיד -
conto): Afikoman refere-se à matzá escondida em Yachatz,
comida ao final da refeição. Conta-se a história do
êxodo do Egito e sobre a instituição de Pessach. Inclui
a recitação das "Quatro perguntas" e bebe-se o segundo copo de vinho.
Rachatzá
(רחצה -
lavagem): Segunda lavagem de mãos. Motzi Matzá (מוציא מצה): O
chefe da casa ergue os três pedaços de matzá e faz as
bênçãos das matzot. As matzot
são partidas e distribuídas. Maror (מרור -raiz
forte): São comidas as raízes fortes, relembrando a escravidão e
o sofrimento dos judeus no Egito. Korech (כורך
-sanduíche): Faz-se um sanduíche com a matzá,
maror [amargo] e charosset
[mistura de macãs, nozes, amêndoas, tâmaras ou passas
trituradas, cuja cor lembra a do barro do qual eram obrigados os israelitas a
fazer tijolos . Shulchan Orech
(שולחן עורך): É
realizada a refeição festiva. Tzafon (צפון - escondido): Aqui
é comida a matzá que havia sido guardada. Barech
(ברך - Bircat HaMazon): É
recitada a bênção após as refeições. Bebe-se o terceiro copo de vinho. Halel
(הלל
-louvor): Salmos e cânticos são recitados. Bebe-se o quarto copo de
vinho. Nirtza
(נירצה - ser
aceito): Alguns cânticos são entoados e têm-se o costume de
finalizar o jantar com os votos de LeShaná HaBa'á B'Yerushalaim -
"Ano que vem em Jerusalém" como afirmação de confiança na redenção
final do povo judeu. (Todas as ch equivalem ao j
espanhol).
CHAG MATZOT :
(festa dos
pães ázimos) é o nome dado aos sete dias de
comemoração após Pessach. De acordo com a Torá
é proibido ingerir chametz durante este
período. Sete dias você comerá matzot, mas no
primeiro dia manterá a levedura fora de sua casa; porque aquele que comer pão
fermentado será cortado do povo de Israel. O primeiro dia será uma festa, e o
sétimo dia será uma festa; nenhuma forma de trabalho será feita, exceto o
trabalho que gera alimentação. Observe este dia de uma geração em geração para
sempre. No décimo quarto dia do primeiro mês ao por do sol comerás pão sem
levedura, até o vigésimo primeiro dia do mês à noite (Êxodo,
12: 14-18). E Moisés disse ao povo: Lembre-se deste dia no qual saiu do
Egito, da escravidão; pois por força de sua mão, Deus te tirou daquele lugar, e
nenhum pão fermentado será comido. Você está se libertando neste dia do mês de Abib.
Assim, quando Deus
o levar para a terra dos Canaanitas, dos Hititas, dos Amoritas, dos Hivitas, e dos Jebuseus, que Ele
jurou a seus pais lhes dar, uma terra onde flui o leite e o mel, você manterá
este serviço neste mês. Sete dias você comerá pão sem levedura, e no sétimo dia
será uma festa de homenagem a Deus. ( Êxodo
12, 3-6).
CURIOSIDADES:
OS DOZE ANOS:
Quando pois, sucedeu os doze anos (sic), subindo eles a Jerusalém seguindo o costume
da festa, (42) e completados os dias, ao voltarem eles, permaneceu Jesus, o
filho, em Jerusalém e não conheceu Josef e a mãe dele (43). Consummatisque diebus cum redirent remansit puer Iesus
in Hierusalem et non cognoverunt parentes eius and fulfilling the days, in their returning, the boy
Jesus stayed in
PERDIDO: Assim, terminados os dias, ao voltarem
eles, permaneceu Jesus, o menino, em Jerusalém e não conheceu Josef e a mãe
dEle (43).Todavia, considerando Ele estar
na caravana regressaram um caminho de um dia e o procuravam entre os familiares
e os conhecidos (44). Consummatisque diebus cum redirent remansit puer Iesus
in Hierusalem et non cognoverunt parentes eius. Existimantes autem illum esse in comitatu venerunt iter diei et
requirebant eum inter
cognatos et notos. JERUSALÉM: יְרוּשָׁלַיִם
(Yerushalayim) O nome procede das palabras shalem ou shalom (שלם'), que significa paz e yeru (ירו),
casa ou ciudad,
pelo qual significa casa ou cidade da paz. Desde os tempos de Nosso senhor a
cidade tem sido conquistada 11 vezes e destruída totalmente 5. Segundo a
opinião dos arqueólogos a Jerusalém bíblica descansa sobre uma capa de entulho
de 20 m de altura. É impossível reencontrar a Jerusalém de 2000 anos atrás. No
ano 70 dC aconteceu o que foi escrito: Jerusalém será pisada pelos gentios até que
se cumpram os tempos das nações (Lc 21, 24). Ao
mesmo tempo rotularam-se todas as vizinhanças num rádio de 18 km, transformando-as
num deserto calcáreo que ainda subexiste.
Mais tarde os romanos destruíram totalmente os restos da cidade na rebelião de
Ben Kochba. Adriano fundou sobre as ruínas uma nova
cidade, Aelia Capitolina.
Duzentos anos mais tarde a Imperatriz Helena buscou e encontrou o Santo
Sepulcro. Em 614 foi destruída pelos persas; em 637
conquistada pelo califa Omar; em 1072 pelos seljúcitas;
em 1099 pelos cruzados cristãos; em 1187 pelo sultão Saladino
e em 1617 pelos turcos osmalíes; em 1917 pelo
exército inglês e em 1948 foi em parte conquistada pelas tropas judias, sendo
dividida em duas partes com um único acesso: a porta de Maldelbaum.
Na guerra relâmpago em 1967 Jerusalém foi reconquistada pelos judios, assim permanecendo até agora. O Muro das Lamentações: É
o último resto do templo destruído pelos romanos. Está composto de gigantescos silhares de até 1.80 m de altura e 11 de comprimento. Onze
fileiras estão cobertas pelas ruínas, 14 ainda são visíveis. Nas sextas feiras
e dias de festa, homens de longas barbas grises beijam as pedras, chorando a
destruição do templo. A CARAVANA: O Sinodia grego sunodia <4923> [comitatus latino] indica um caminhar juntos, uma
caravana. Caminhavam dispostos em três seções: Na vanguarda, estavam os mais
jovens dispostos a repelir os bandidos com bastões e até espadas. No centro,
mulheres e crianças menores de doze anos e na retaguarda os mais velhos com os
meninos maiores de doze anos. Os menores de doze anos podiam pois, estar com as
mulheres ou com os anciãos. Somente à noite é que os membros de uma mesma
família se encontravam. Geralmente acostumavam percorrer 32 km por dia. Mas
isso dependia das fontes de água. A primeira jornada era até Bet-Horom a 16 km de Jerusalém, talvez pela dificuldade de
encontrar água numa outra parada. No total eram três dias até a Galiléia. Foi assim que a ausência de Jesus, só foi notada
ao fim da primeira jornada. Mais um dia de volta e mais um dia até encontrá-lo
no templo. No tota,l os três dias de que fala o
evangelista, a não ser que o numeral seja tomado no lugar do indefinido, no
lugar de adjetivos que as línguas semitas carecem, como alguns, poucos, vários,
etc. de modo que o número três deixa de ser um cardinal para se transformar em
plural mais ou menos indefinido. O salmo 121 é o salmo dos peregrinos quando
chegam à vista de Jerusalém: Que alegria
quando me disseram : Vamos para a casa do Senhor! Já estão pisando nossos pés tuas portas, Jerusalém! Entre estes
salmos chamados de Graduais, que eram cantados pelos peregrinos judeus em seu
caminho para Jerusalém, está o De Profundis [desde as
profundezas]. Eles cantam a chegada ao templo, a recepção pelos sacerdotes que
nele habitam, sua exortação sapiencial e posterior bênção. Este grupo de salmos
desde o 119 ao 133 (numeração hebraica) inclui não unicamente a última etapa da
peregrinação e suas emoções à vista do templo e da cidade santa, mas também
todas as partes do caminho desde o início até a sua culminação. São 15 salmos
de subida ou progressivos, embora seja difícil delimitar cada etapa dado que
freqüentemente o acento está nas experiências pessoais, em descrições de uma
circunstância especial etc. Abarcam desde as motivações e preparativos (119)
até a despedida do templo para iniciar o regresso (133). Assim como o trabalho
agrícola é mais agradável acompanhado de cantos, numa peregrinação até a cidade
santa e o templo, de uma duração relativamente longa cantar e salmodiar é tão espontâneo como construtivo, dado que a
memória de Javé o torna presente como um companheiro a
mais de caminho. Assim, a saída do Egito constitui a primeira jornada. O desterro
e o retorno da Babilônia nos tempos de Esdras e Neemias,
a segunda jornada. A influência dos profetas que atribui a Jerusalém ser luz
das gentes que se dirigem a ela como cabeça da humanidade, a terceira jornada.
A
VOLTA: E não o tendo encontrado, voltaram a Jerusalém, procurando-o(45). Et non invenientes
regressi sunt in Hierusalem requirentes eum. A volta solitária deve
ter acontecido, pois a caravana prosseguiria seu lento caminhar se afastando
das terras de Jerusalém. Os judeus da época estavam acostumados a dormir na
intempérie para o qual escolhiam uma pedra sobre a qual reclinavam a cabeça
como um travesseiro, ( Gn
28, 11), que Jesus nem isso tinha como posse própria (Mt 8, 20). Dormiam envoltos
na clâmide ou manto que lhes servia de cobertor. Por
isso era importante que o manto fosse devolvido antes do anoitecer ao pobre que
o tinha penhorado (Ex 22, 25).
O ENCONTRO: E sucedeu após três dias, o
encontraram no templo, estando sentado no meio dos mestres e escutando-os e
perguntando-os (46). Et factum est post
triduum invenerunt illum in templo sedentem in medio doctorum audientem illos et interrogantem. Estavam maravilhados porém todos
os seus ouvintes sobre sua inteligência e suas respostas(47). Stupebant autem omnes qui
eum audiebant super prudentia et responsis
eius. Os três dias foram contados assim: o primeiro
até Bet-horon como caminho de volta para a Galiléia, pois era a cidade de referência onde água e mantimentos
podiam se comprar. O segundo de volta e o terceiro, após uma breve busca, no
templo. A palavra usada por Lucas didaskalwi [didaskaloi, doctores
latino] não é a usual para designar os
escribas (Nomikoi ou grammateis);
didáskalos é a palavra com a qual Lucas designa o
próprio Jesus (15 vezes) e que as línguas modernas traduzem por doutores. Há
quem considere que no templo existia uma sinagoga e que nesta se ensinava a lei aos pequenos como em todas as demais da Palestina.
Pode ser. Mas também era costume ensinar aos discípulos entre as colunas do
pórtico de Salomão, como Jesus tinha costume de fazer no templo: "estava sentado ensinando"(Mt 26,
55). Que os discípulos perguntassem era comum. Assim foram as perguntas dos
fariseus (Mt 22, 15+), dos saduceus (Mt 22, 23 +) e
do doutor da lei (Mt 22, 41+). A Rabi Hanina
se atribui este ditado: "Tenho
aprendido muito dos meus mestres e mais dos meus condiscípulos...Porém de meus
discípulos mais do que todos". Efetivamente, na ala leste do átrio dos
gentios, coberta por um teto sustentado por colunas estava o pórtico de
Salomão. Eram 112 colunas em fila formando duas fileiras sobre as quais
descansava um teto que protegia do sol e da chuva. No lado que dava para a
torrente de Cedron um muro de contenção de
aproximadamente 150 m de altura transformava o templo numa fortaleza inexpugnável.
Durante as manhãs o pórtico servia de sala de aula para os diversos mestres de
Israel. O muro que dava para a torrente de Cedron
impedia os raios do sol nascente e era o lugar onde em semicírculo o mestre
lecionava estando seus discípulos ouvindo-o de pé ou sentados modo índio, como
parece que foi o caso de Jesus. Geralmente o mestre se assentava sobre uma
almofada que os discípulos preparavam de antemão. Logicamente os comentários
eram sobre as Escrituras, pois os judeus da época pensavam que nelas estava contida
toda a ciência necessária para uma vida feliz. Dizem que o muro foi inaugurado
na festa da Dedicação [hanukah] também chamada das
luzes para comemorar os dois milagres que narram as crônicas hebréias: o
milagre de um punhado de soldados ter sobrevivido aos ataques do poderoso Antíoco Epífanes, o selêucida, e o milagre da luz. Segundo uma tradição antiga,
as luzes do menorah,
o candelabro dos sete braços, tinham sido extinguidas pelo selêucida. Quando os macabeus
reconquistaram o templo, eles buscaram óleo fresco, bento para reacender a
chama entre as ânforas do templo, escondidas nos porões do mesmo. Porém só
encontraram o suficiente para um só dia. Usaram-no para reacender o candelabro
e milagrosamente ele durou 8 dias. Daí que na festa,
nos dias de hoje, nas casas, eles acendem oito lâmpadas uma a cada noite para
comemorar este fato, acendendo a primeira chamada shamash ou servidora e com sua luz são acesas as outras, até que todo o
candelabro aparece iluminado. É o candelabro de 8 braços. Jesus durante a festa
se proclamou neste pórtico como luz do mundo (Jo 10
23) e os apóstolos o usaram para pregar a boa-nova em
duas ocasiões segundo o livro dos Atos: 3,11 e 5, 12. Num inciso, o evangelista
declara que a presença de Jesus, perante os mestres não foi um estar passivo,
mas um comparecimento ativo que deixava todos admirados tanto pelas perguntas
como pelas respostas cheias de sabedoria e bom senso.
A QUEIXA: E tendo-o visto, se admiraram, e a ele sua mãe disse: Filho, por que
nos fizeste assim? Eis que teu pai e eu,
angustiados, te buscávamos (48). Et videntes admirati sunt
et dixit mater eius ad illum
fili quid fecisti nobis sic ecce pater tuus
et ego dolentes quaerebamus
te. São duas as afirmações deste versículo: A
admiração pelo fato de ver seu filho como um discípulo aproveitado entre os
maiores doutores. E depois a queixa própria da angústia de quem, sem saber nada,
perdeu um filho, ainda adolescente. A queixa ocupa o primeiro lugar e merece
uma resposta. Maria chama José de pai e isto é de uma importância relevante
para a hagiografia de S José. Para todos os efeitos ele era verdadeiro esposo
de Maria e fazia o papel de pai de Jesus. Não unicamente Maria, mas Jesus
chamava de pai a José tal e como os conterrâneos o faziam (Mt 13, 55).
A RESPOSTA: E lhes disse: Já que me buscáveis, não sabíeis
que nas (coisas) do meu pai devo
estar? (49). E eles não compreenderam a palavra que lhes falou (50). Ait
ad illos quid est quod me quaerebatis
nesciebatis quia in his quae Patris
mei sunt oportet me esse. Et ipsi non intellexerunt
verbum quod locutus est ad illos. Temos traduzido por já que o grego oti <3754> [‘oti, visto que, porque, entanto] que
une a busca com a falta de conhecimento de onde deveriam encontrá-lo. Assim a queixa de Maria se transforma em reclamação por parte de
Jesus. Esse
lugar era en toiv [em tois, que pode significar nas coisas, negócios; mas que tem
um significado próprio de casa, domicílio ou propriedade] que devemos traduzir
por casa, ou seja templo, já que o verdadeiro Pai de Jesus era Deus. Podemos
pois traduzir por: a) Na casa do meu Pai. Foi a preferida pelos padres da
Igreja contra os gnósticos que rejeitavam o AT e o
Deus dos hebreus. Com estas palavras Jesus declara ser seu Pai o mesmo que
habitava o templo de Jerusalém, ou seja Jahveh (Sl 23,6). b) Nos assuntos do meu Pai: como a vulgata traduz
o texto grego. c) Entre os amigos do meu Pai, pois os pais, Maria e José o
buscaram inutilmente entre os consangüíneos e conhecidos. Em definitivo: A
resposta é que não era entre estes últimos mas entre os que eram amigos e
conhecidos do Pai. O verdadeiramente importante era que Jesus devia amoldar sua
vida às exigências de seu Pai, exatamente como o diria com toda clareza em Mt
12, 48 quando o procuram seus parentes. O evangelista
comenta que Maria e José não compreenderam as palavras de Jesus. Sabiam que o
verdadeiro Pai era Deus, mas por que agora se afastar deles sem dizer uma
palavra para angustiá-los? A vida pública de Jesus parece iniciar-se neste
momento em que as obrigações para com os pais terrenos não são suficientes para
impedir seus deveres verdadeiros. A incompreensão de Maria duraria inclusive
até os momentos em que Jesus toma como único dever a pregação do reino (Mt 12,
46 e Mc 3, 31).
A FAMÍLIA DE NAZARÉ: E desceu
com eles e veio a Nazaré e era-lhes obediente e sua mãe guardava todas estas as
palavras em seu coração(51). Et descendit cum eis et venit
Nazareth et erat subditus illis et mater eius
conservabat omnia verba haec in corde suo. O termo desceu é técnico como tantos outros nos evangelhos que indicam
claramente a historicidade dos mesmos. Era assim que se chamava qualquer ida ao
norte pois Jerusalém estava na montanha e a Galiléia,
especialmente a planície do Esdrelon e as margens do
lago de Genesaret estavam francamente em níveis inferiores
ao da montanha da Judéia. O evangelista afirma três coisas: 1) Nazaré seria a
morada durante os anos da juventude e maturidade de Jesus. 2) Jesus se
comportou como verdadeiro filho na família de José/Maria
ou seja em total e submissa obediência. 3) Maria retinha todas as palavras [remata indica palavras e fatos a elas
relacionados] conservadas em seu coração que hoje diríamos memória.
O CRESCIMENTO: E Jesus crescia em sabedoria e
estatura e graça para com Deus e os homens(52). Et Iesus proficiebat sapientia aetate et gratia apud Deum et homines. Mais do que crescer a tradução seria fazia progressos, avançava. Sabedoria sofia <4860> [sofia, sapientia] atributo
próprio de Deus que governa o mundo, criado por ele e qualidade que comunica
aos homens para se guiar na vida. Diferente da gnosis ou simples
conhecimento, a Sofia é uma virtude
prática de como se conduzir com a prudência e o discernimento que oferece a
verdade última em Deus alicerçada.
A hlikia <2244> [Helikia
que pode ser idade ou estatura corporal]. No grego clássico é idade. Mas Lucas
traz um versículo em que é francamente estatura corporal (Lc
19, 40). Graça caris <5485> [charis, gratia]
graça
no sentido de favor, proteção,
prerrogativa de parte de Deus e dos homens. Não podemos confundir esta graça
como a que foi nos tempos de Lutero ocasião de disputa com os católicos, como
parte da justificação. Podemos dizer que por parte de Deus, a graça constitui o
conjunto de privilégios e favores concedidos por Deus a seus eleitos. De parte
dos homens, é o conjunto de qualidades que tornam um sujeito
agradável, amável, digno de admiração e louvor. Pedro afirmará no seu
discurso diante de Cornélio que Jesus passou fazendo o bem (At 10, 18). É por isso
que os homens o admiravam e consideravam digno de encômio. É notável ver como Lucas repete em 2,52 o que
tinha dito em 2,40:"O menino crescia e se fortalecia,
cheio de sabedoria, e a graça de Deus estava nele". Tomando como
modelo 1 Samuel 2:26: "Mas o jovem
Samuel crescia em estatura e no favor do Senhor e dos homens". O único
novo no Jesus de Lucas é o crescimento em sabedoria, sem dúvida uma clara
conclusão de seu contato com os mestres de Israel. Porque a graça de Deus pode
ser traduzida pelo "O senhor estava
com ele". Graça aqui significa agrado, pois vemos como Lucas acomoda o
dito de Samuel a Jesus. A medida que Jesus crescia ia
mostrando com fatos a sua sabedoria e cada vez mais Deus estava com ele e os
homens admiravam sua bondade de modo que mais e mais cada dia era digno da
admiração e beneplácito de Deus e dos homens.
PISTAS: 1) Se perdermos um
filho onde o encontraríamos no mundo atual? Na discoteca, no campo de futebol,
na Igreja? O exemplo de Jesus em se
instruir nas verdades da religião é único talvez na história dos homens.
2) Os pais de Jesus
levaram o menino para a festa religiosa. Quantos acompanham seus filhos aos
domingos na celebração da festa da santa missa?
3) Temos visto como
a religião dos judeus era uma memória da história de Israel dirigida por Deus,
que tinham que agradecer como festa comemorativa. O Natal deveria ser uma
memória festiva de nossa salvação e se está transformando numa festa pagã.
4)
Os judeus subiam a Jerusalém cantando. Nossa peregrinação, que é nossa vida,
deve ser um canto de louvor. Por isso é importante o canto durante a Missa.
EXEMPLO: A alegria do nascimento de Jesus
não é unicamente uma alegria externa mas deve acompanhar os momentos mais
difíceis de nossa vida. Loló [Manuel Lozano Garrido] era professor de educação básica,
jornalista e escritor. Ele esteve sentado numa cadeira de rodas durante 28
anos. Lucy sua irmã declarava: a dor era uma
constante em todo seu corpo, como se tivesse cravadas
agulhas nos poros de sua pele. Nos seus 10 últimos anos ficou cego. Não obstante
era uma pessoa alegre e sempre sorria. Escreveu nove livros, fundou a revista
Sinai para doentes, colaborou em jornais e revistas. Mas o principal evento de
sua vida foi que soube converter a dor em alegria. A causa era a esperança em
Cristo e em suas promessas. Viveu as bem-aventuranças com
suma intensidade. Daí sua alegria, seu sorriso e seu bom humor. Como diz
Costa Beauregard: A esperança é uma primeira
felicidade que prediz outra maior. Diante deste exemplo não podemos
render-nos só porque a dor toma conta de parte de nossa vida.
FRASE:
Diz um provérbio espanhol: Uma vida em que não cai uma lágrima é como um
deserto em que não cai uma gota de água: só gera serpentes.