PENTECOSTES ( Jo 20, 19-23)

( Pe Ignácio dos padres escolápios)

 

CIRCUNSTÂNCIAS: Dia: o primeiro da semana. No grego temos uma frase um pouco esquisita: mia ton sabbaton, que a vulgata traduz por una sabbatorum e que poderíamos traduzir por uma dos sábados, pois dia (Emera) é feminino em grego; ou melhor pela primeira dos sábados pois o cardinal faz as vezes de ordinal na Koiné. Como sabbaton era usado no lugar de semana, mia ton sabbaton equivalia ao primeiro dia após o sábado ou seja o domingo. Hora: A hora seria a tarde ou entardecer em que se iniciava o novo dia. Portanto seria o entardecer do domingo, desse mesmo dia  em que a tumba estava vazia e Jesus apareceu a Maria de Magdala (Jo 20, 11-18) e aos dois discípulos de Emaús (Jo 24, 13-35), situada a 11 km de Jerusalém (60 estádios). No cômputo antigo seria segunda feira, pois os dias começavam ao entardecer e não às doze horas da noite como é o caso atual. No cômputo atual era domingo à noite.

FECHADAS: As portas estavam fechadas ou melhor trancadas. A vulgata diz fores clausae. Como o plural fores é singular conceitualmente a tradução seria porta fechada. Por isso devemos recorrer ao grego que tem Thyra,  portas em plural e traduzir trancadas as portas onde eles estavam. A intenção do evangelista é declarar que materialmente não havia meio de uma pessoa entrar. Só que o corpo de Cristo ressuscitado era material, mas diferente. Como a luz, que é matéria, atravessa o vidro ou como o som, também material, atravessa as paredes para não falar dos neutrinos, também o corpo de Cristo podia atravessar as paredes da casa e apresentar-se, ficando de pé  no meio deles (tradução a mais literal possível).

DISCIPULOS: Mathetês, era o estudante ou aluno de um determinado Mestre. Seu sentido era bem mais amplo do que aluno e implicava discípulo, seguidor ou partidário, ou no caso os doze, reduzidos a onze pela desaparição de Judas e que constituíam os apóstolos ou colégio apostólico. Sabemos que destes últimos faltava Tomé, que seria o centro do relato seguinte(Jo 20, 24-29) e que também estavam presentes os dois de Emaús, um dos quais pelo menos não pertencia ao colégio apostólico. Que Jesus tinha outros seguidores além dos doze está claro porque em At 1, 23 aparecem dois, Barsabás e Matias e em Lc 10, 1 são setenta (ou setenta e dois segundo alguns códices), tanto como nações pagãs, os discípulos que envia com uma missão praticamente igual aos dos doze apóstolos, ou colégio apostólico. O número de pessoas da reunião prévia para a escolha de Matias era de cento e vinte.(At 1, 15). Quantos e quais eram os que, nesta tardia hora do domingo, estavam no cenáculo, ou sala superior, que em Lucas 22,11 recebe o mesmo nome(katalyma) que  em Marcos 14, 14. Katalima era  também  o nome do lugar que em Belém foi excluído ao casal José e Maria  por estar cheio de gente no parto da Virgem em Lc 2, 7? Esse aposento recebe também o nome de anogeon (lugar alto) em Lc 22, 12 e de yperoon ou habitação superior.em At 1, 13. A esta sala geralmente damos o nome de cenáculo.

MEDO DOS JUDEUS: No dia de Pentecostes o narrador dos Atos dirá que os apóstolos apareceram em público com parresia, traduzido por intrepidez(2,29) que será em repetidas ocasiões usado quando os apóstolos assumem sua missão de anunciar publicamente sua fé em Cristo Jesus.

EIRENE: A tradução da palavra é paz. Com toda certeza que traduz o Shalom hebraico. Também significa prosperidade, bem, saúde, inteireza e segurança. Shalom ocorre mais de 250 vezes no AT. A LXX usa vocábulos do tipo Sozô, Eirene e Teleios para traduzir Shalom. Shalom significa ausência de contenda em aproximadamente 50 a 60 usos como no caso de 1Rs 4, 25.que reflete a segurança dos tempos de Salomão porque os paises vizinhos tinham sido subjugados. Mais do que ausência de guerra diríamos que significa harmonia e inteireza. Outras 25 vezes é a saudação de despedida Jz 19, 20. Desejar shalom é abençoar alguém assim como reter o Shalom implica maldição. No sentido moderno é bom dia ou boa tarde ou até logo. Shalom é o resultado da atividade divina na aliança (berit shalom, Nm 25, 12 ou Is 54, 10)entre o homem e Deus como Gn 15, 15., e também o resultado da retidão de conduta(Is 32, 27), representando o estado de plenitude e realização devido à presença de Javé. Deus é a fonte de paz. Ele dirá Shalom a seu povo.(Sl 85, 8), a Davi em 1Cr 22, 9-10. Shalom é sinônimo de tranquilidade, sossego, descanso. Na Bênção aarônica (Nm 6, 24-26) que identifica o homem a quem Deus dá a paz, com aquele que é abençoado, guardado e tratado graciosamente por Javé. É a prosperidade que chega ao homem por meio da dádiva divina. O Messias, o filho maior de Davi, é identificado como Príncipe da Paz: sar shalom que traz prosperidade e retidão à terra. No NT Paulo chama de Deus da paz [Rm 15, 33] a quem identifica com o Pai de Jesus Cristo, que por sua vez é o artífice da paz com Deus [Rm 5,1] e entre os dois povos que reuniu tirando o muro de separação; por isso o chama de nossa paz [Ef 2, 14], pois realizou a paz pelo sangue de sua cruz [Cl 1, 20]. Melquisedec rei de Shalem é por seu sacerdócio figura de Cristo. Shalém significa justiça e em segundo lugar paz [Hb 7, 2]. Paz, pois, significa reconciliação com Deus e entre os homens.

MÃOS E LADO:Para Lucas eram mãos e pés, já que ele não tinha falado da ferida do lado. Já João, que tinha dado ênfase à ferida do lado, pela lança deseja mostrar esta última como testemunho de que o que estava presente era o mesmo que foi pendurado na cruz. Embora não constasse que os crucificados tivessem seus pés transpassados, pois o termo exato[stauroo] era ser empalado ou pendurado, sabemos hoje que realmente havia crucificados em que os pés eram também perfurados como no caso de Jehohanam, encontrado em 1998 num ossário perto de Jerusalém.Temos por outra parte o testemunho de Justino mártir que afirma foram traspassados os pés de Jesus. Das cinco feridas resultou a devoção das cinco chagas.

ALEGRARAM-SE: João omite o medo e a apreensão que se apoderou  dos discípulos pensando verem um espírito. Foi para tirar as dúvidas que mostrou a eles suas feridas e os convidou a tocar seu corpo porque um espírito não tem ossos nem carne.(Lc 24, 37-39). Pela primeira vez o evangelista chama Jesus de Senhor. Alguma coisa tinha mudado. Não mais era o Jesus de Nazaré, profeta, mestre e taumaturgo; mas agora estava na posição de domínio completo não só com autoritas mas com potestas e imperium. Por isso será O Senhor.

A PAZ E O ENVIO: De novo a paz para indicar um significado mais específico do que uma simples saudação. Era uma frase que, sem verbo, indicava não um desejo mas um dom. Poderíamos traduzir Trago-vos a paz. Ou seja a reconciliação, a concórdia, o perdão. Não só para vocês mas para o mundo inteiro. Por isso Jesus recorre à sua missão como enviado para enviar os discípulos. Emprega o apostello para determinar sua missão e pempo para qualificar a incumbência dos apóstolos. Porém ambos os  verbos podem ser homônimos de uma mesma tarefa, que exigia uma total dedicação. Por isso a Igreja define desde agora os discípulos como apóstolos, enviados. Logicamente Jesus definirá essa missão em seguida. Por uma ação acompanhada de significado com palavras explicativas. É o que constitui o sacramento ou misterium como era denominado na antiga igreja. O sopro é próprio de vida nova como lemos em Gn 2,7: lhe soprou nas narinas o fôlego da vida e Adam passou a ser ente [espírito] vivo. O importante é que existe uma transformação, devida a um nefesh, um sopro de vida[pnoés  zoés em grego da LXX] que é transmitido pela ação direta de Deus; ou seja, seu sopro, onde está o poder e a vida.Aqui também os discípulos recebem do novo Senhor, Jesus, transformado no Cristo da vida, um novo impulso vital. A paz está intimamente unida ao perdão. Para maiores detalhes ver o comentário do segundo domingo da Páscoa deste mesmo ano.

RECEBEI  ESPÍRITO DIVINO:  O grego não tem artigo para distingui-lo de o Espírito o Sagrado [=Santo] que o mesmo João usa com os dois artigos definidos quando em 14, 26 fala do Paráclito, pessoa, e não de um dom impessoal ou qualidade e poder recebidos, como é o caso do batismo no espírito santo de João 1, 3. Neste caso pois, sem afirmar de modo categórico, podemos dizer que os apóstolos receberão um poder divino especial para perdoar os pecados. Com isto podemos responder à pergunta: Quando receberam o Espírito Santo os apóstolos: no dia do Pentecostes ou no domingo de Ressurreição? Como dom impessoal foi recebido ministerialmente no domingo da Ressurreição. Como dom pessoal, com tudo o que implicava essa presença do Espírito, ele foi recebido no dia de Pentecostes, dando como fruto todos os dons preternaturais que com sua presença ocasiona.

O PERDÃO: A frase está precedida por uma partícula condicional: se  ou quando perdoardes; de modo que a tradução seria quando ou sempre que perdoardes os pecados de alguém (ou de alguns) eles estão perdoados. Quando os retiverdes de alguém serão retidos. A interpretação destas palavras segundo a antiga Igreja é a de uma potestas [faculdade ou real poder] de perdoar os pecados. Por isso foram condenados os novacianos  discípulos de Novaciano que pretendia a sede apostólica à morte do papa Fabiano (250) e que, consagrado por três bispos dissidentes, promoveu uma igreja cismática, caracterizada por um rigor extremo em matéria de penitência. O Tridentino qualificou como herética a doutrina protestante que entendia as palavras de João 20, 23 como potestas unicamente de pregar o evangelho. Como existem dois termos na faculdade dada aos apóstolos- perdoar ou condenar- daí que a Igreja fala de uma faculdade jurídica ou exercida através e um juízo em que a escuta do réu é importante para a sentença que pode ser absolutória ou condenatória.

PISTAS: 1) A total vitória sobre a morte só será possível no dia da ressurreição em que  estas almas[separadas dos seus corpos] se unirão com os mesmos ( Credo do povo de Deus 28). Schillebeeckz escreveu: diversas cripto-heresias estão se estendendo entre teólogos e leigos católicos. Muitos não aceitam de fato a alma separada e rejeitam o interim [escatologia das almas separadas do corpo], coincidindo a ressurreição com o primeiro momento que segue à morte. Por isso falam de ressurreição progressiva. O fundamento é a idéia falsa de que o AT não admitia a dualidade de corpo/alma, mas que autor tão esclarecido e aliás protestante como Althaus reconhece existirem textos bíblicos favoráveis a essa dualidade que afirma contradizem o pensamento central do Novo testamento(?).O conceito da morte como separação da alma do corpo a quem Paulo chama mansão é claro em 2 Cr 5,6-10. No NT também a alma pode viver, gozar ou sofrer fora do corpo como diz Paulo em outra ocasião 2 Cr 12, 2- 3. 2) Contra os modernos como Grass que admitem em Cristo ressuscitado unicamente um corpo espiritual, sem matéria está este relato de João e o sobretudo o paralelo de Lucas em que Jesus afirma eu sou, porque um espírito não tem carne nem ossos. como vedes que eu tenho [Lc 24, 39]. A desaparição do corpo de Jesus na tumba está em favor dos que acreditam na ressurreição do corpo. A ciência moderna favorece esta idéia da ressurreição corporal. Não existe uma célula em nosso corpo atual que seja original. E assim como faz vinte anos podíamos afirmar este é meu corpo agora sem nenhuma célula original podemos também afirmar este é meu corpo. O corpo ressuscitado será pois o nosso corpo independentemente de ter ou não ter células anteriormente pertencentes ao corpo com o qual tenhamos morrido. 3) A paz é tão importante que o Deus nosso é o Deus da paz, da reconciliação, do perdão da admissão como irmãos a todos independentemente de qual é a origem ou a forma atual da pessoa. Como dizia S. Geanne Baretta, aos médicos, aquele que está a nossa frente é sempre um irmão e como tal devemos tratá-lo. Para outras pistas ver II Domingo da Páscoa.

EXEMPLO: Um velho pároco costumava dizer do Espírito Santo, desconhecido pela maioria dos fiéis,que era o mais santo dos santos na terra e o único santo a ser cultuado nos céus. Dizia ele que era chamado Espírito da Verdade,  comunicada por Cristo e gravada para sempre nos evangelhos. Verdade que Ele dirige e comunica através da Igreja com as declarações do Colégio Apostólico (Papa e Bispos) e o senso comum dos fiéis, porque Ele é o Mestre interior que ensina as coisas íntimas como disse Agostinho iluminando a nossa razão natural para que encontre a Verdade. Espírito de Santidade [de justiça, segundo a tradução comum], que ele demonstra através das heróicas vidas dos confessores e das mais heróicas mortes dos mártires ao longo da História como frutos de sua santidade, para todos os que aspiram a viver segundo a virtude. Espírito de Bondade, pois inacessível por sua natureza se manifesta acessível por sua bondade dentro dos que o aceitam como diz Basílio o Grande. Espírito de Vida nova, que se comunica por meio dos sacramentos de forma especial. Inicia-a no Batismo, cujas águas Ele santifica com sua presença para assim impregnadas possam santificar por sua vez como diz Tertuliano. Na Confirmação reafirma essa vida que se identifica com o Espírito Santo pelo aceite da unção segundo Hesíquio, vida que se renova com a comida por meio de uma eucaristia que na epíclese( invocação) recebe a ação direta do Espírito Santo para mudar o pão e vinho em corpo e sangue do Senhor. Vida que pedida se recupera pela penitência, que pode ser em confissão particular segundo Teodoro de Mopsuestia. Finalmente Consolador. E a respeito disto o pároco dizia: impressionou-me uma anedota que ouvi uma vez. Morreu o esposo de uma senhora, vizinha de uma criança. No momento do velório do cadáver a menina pediu sua mãe que lhe permitisse ir consolar sua vizinha. Mãe você saberá como eu o faço. E ao voltar do velório a mãe perguntou: Que podias tu dizer para aliviar a dor de nossa vizinha? A menina respondeu: Eu não falei nada, mãe. Eu simplesmente me abraçei a ela e chorei com ela. Assim dizia o velho pároco é a consolação do Espírito Santo: une-se a chorar conosco.