INTRODUÇÃO: O discurso de hoje forma parte do extensíssimo sermão da ceia final de Jesus com os doze, dividido em dois pelo final do capítulo 14: Levantai-vos! Partamos daqui! Na primeira seção, da qual forma parte o evangelho de hoje, Jesus se despede, deixando um outro acompanhante, o Paráclito, para que não se sintam órfãos. Jesus afirma que a hora final de sua vida será de grande glória para Deus e por isso ele também será o grande glorificado.
QUANDO ELE SAIU: Jesus esperou a que o traidor saísse para falar abertamente sobre os instantes finais de sua vida. Com isto Jesus se dirige àqueles a quem pode transmitir sem travas suas palavras. Caso não as entendessem na ocasião, elas ficariam gravadas de modo que constituíssem o testamento de Jesus. Por isso era interessante que o evangelista falasse da saída: O discurso era para os verdadeiros discípulos.
AGORA: Nun em grego. Jesus estava esperando sua hora que chegava nestes últimos momentos. Por isso se despede dos doze. A hora de Jesus era a hora do Filho do Homem. Esta expressão, que basicamente significava uma pessoa humana, era usada na época indicando também o eu pessoal, à semelhança como se diz a gente em português. Porém, em Jesus tem um significado particular: É a expressão usada por Jesus para indicar a parte humana de sua personalidade; ou dito de outra maneira, o homem que formava parte dEle. Ao mesmo tempo é um título messiânico velado, não incluído na tradição judaica. Está tomado de Daniel 7, 13-14 em que o novo reino, permanente, está representado pela figura de um homem que procede do céu, de Deus, em oposição aos reinos que brotam do abismo, lugar do maligno. A hora tem um significado peculiar. É a hora da prisão, como vemos em Jo 7, 30 e 8, 30. É também a hora de seu sofrimento em Jo 12, 27, previsto como solitário, ao ser abandonado por todos, a exceção do Pai, em Jo 16, 32, cálice que Jesus degustará em total abandono segundo Mt 27, 56. Mas também é a hora em que isso tudo servirá para dar glória ao Pai, tal como está no evangelho de hoje (31) que constitui uma repetição do 12, 23. E por buscar unicamente a glória do Pai também o Filho será por sua vez glorificado com a máxima glória, de modo que perante sua pessoa se dobre todo joelho dos seres celestes, dos terrestres e dos que vivem sob a terra (Fp 2, 10). Assim ele é o Senhor (idem 11). Por isso ele foi constituído Filho de Deus, com poder,pela ressurreição dentre os mortos (Rm 1, 4). Ressurreição que estava prevista após a morte, segundo Rm 14,9 para se tornar Senhor dos vivos e dos mortos. Em Ef 1,20-21 Deus o fez sentar à sua direita muito acima de qualquer Principado (arkhés) e Autoridade (exousias) e Poder (dynamis)e Senhorio(Kyriostes. Palavras que se entendem melhor tendo como explicação as filosofias do tempo nas quais, entre Deus e os homens, existiam uma série de eons dominadores das esferas celestes.Este agora é imediato(Euthus), e assim termina o versículo.
A GLÓRIA: No ANTIGO TESTAMENTO existem três palavras que podem significar gloria no sentido de superioridade, de majestade. Se se trata de Javé o significado é de transcendência. A primeira é éder no sentido de superIoridade. Javé é poderoso por libertar o povo do Egito e portanto glorificado em santidade ou magnificus in sanctitate (Vulgata) em Ex 15, 10. Por isso sua majestade é conhecida pelos filisteus que falam das mãos destes grandiosos deuses (1 Sm 4,8), já que eles eram politeístas. O nome de Javé é glorioso em poder e majestade quão magnífico é teu nome(= tua pessoa) pois expuseste nos céus a tua majestade ( Sl 8,1-2) Dessa palavra temos a derivada addir que significa poderoso, nobre, principal, grandioso. O messias era addir (=príncipe) que procedia do povo em Jr 30, 21.Existe uma frase muito interessante: derivada da raiz comum adr. Ela é hadret qadish traduzida por beleza de santidade ou como doxa tou onomatis autou (majestade de seu nome) em grego e na vulgata décor sanctus (Sl 29,2) A terceira palavra com conotações mais diretas com a divindade é kabod,. usada como nome (glória) e como adjetivo(glorioso), que pode ser traduzida por reputação, admiração, reconhecimento. Esta é propriamente a palavra que é traduzida ao grego por doxa, palavra grega que nos clássicos significava boa fama., opinião favorável com respeito a uma pessoa. Logicamente ao se referir a Javé a palavra tem o significado de uma manifestação visível relacionada principalmente com o Tabernáculo: a doxa do Senhor apareceu na nuvem(Ex 16, 10). É a auto-revelação divina que manifesta seu desejo de realizar sua obra ou estar presente (habitar) entre os homens por Ele escolhidos. Temos exemplos desta manifestação no fogo que consumiu o sacrifício de Abraão (Gn 15, 17); na sarça ardente de Moisés(Ex 3,3-5), porque o lugar sendo santo, os pés deviam estar descalços como correspondia a um escravo. Glória que rodeou o templo de Salomão na sua inauguração(1 Rs 8, 10-11). O fogo que consumiu o sacrifício de Elias no monte Carmelo onde pede ao Senhor que manifeste ser Ele o condutor do povo(1 Rs18, 37-38). A doxa-qabod está pois relacionada com a santidade (= unicidade e transcendência) de Javé. Em resumo: Doxa identifica-se com a pessoa. A nível humano a glória acompanha à pessoa do rei (Mt 6, 29). Também a glória era buscada como honra e distinção pelos grandes mestres de Israel (Jo 12, 43). A glória humana é o reconhecimento da superioridade de uma pessoa com respeito a outras de nível inferior. Quando se refere a Deus, a glória divina se manifesta nos seus atributos especiais: poder, sabedoria fidelidade e misericórdia de modo especial, porque neles se manifesta a unívoca e peculiar unicidade da divindade. Esta glória de Deus se manifesta de modo especial em Jesus (Jo 1, 14) como unigênito do Pai. Glória que pela primeira vez manifestou a seus discípulos em Caná da Galiléia quando transformou a água em vinho (Jo 2, 11), porque assim revelou com seu poder quem realmente ele era. No NOVO TESTAMENTO a doxa do Pai é vista no seu Filho(Jo 1, 14)vimos sua glória, glória como do unigênito que (consistia) na plenitude de misericórdia e de fidelidade.Pois assim parece que deve ser traduzida a frase grega pleres kharitos kai aletheias. Pois reflete o hesed (bondade, misericórdia, amor) we emet (firmeza, verdade, fidelidade, veracidade) dos textos hebraicos referidos a Javé-Deus. E em 17, 1-5: Pai, é chegada a hora; glorifica teu Filho(...) como lhe conferiste autoridade sobre toda a carne, a fim de que conceda a vida eterna a todos os que lhe deste (...) Eu te glorifiquei na terra consumando a obra que me confiaste. E agora glorifica-me ó Pai contigo mesmo com a glória que eu tive junto de ti antes que houvese mundo. A Vulgata usa o verbo clarificare que em ativa significa clarificar, tornar célebre. A gloria do Filho foi vista de modo especial na transfiguração quando apareceram envoltos em glória as três figuras que a Vulgata traduz in majestate Mas a glória máxima é o seu triunfo sobre a morte como consequência da sua vitória contra o pecado por meio de sua obediência até a morte e morte de cruz (Pela qual Deus o sobreexaltou grandemente (Fp 2, 9). Em resumo: Sem recorrer às palavras de Paulo, e somente usando expressões de João, a glória que Jesus pede nessa hora é a autoridade sobre a morte, pois o sarx carne) representa a parte mortal do homem. Essa autoridade lhe dá o poder de dar a vida eterna aos que lhe seguem, vida que ele mesmo tinha, unido ao Pai, como glória antes que o mundo existisse.Temos traduzido um tanto livremente os parágrafos, visando as idéias antes do que a literalidade do texto.
FILHINHOS: Existem em grego três palavras para filho: Teknon (de tikto gerar) é o filho gerado pelos pais. Uios com um significado mais geral pois pode se referir até os filhotes de animais, e Pais que em geral significa criança e por amplitude filho ou escravo. A palavra que agora estudamos, um diminutivo de teknon seria traduzida por filhinhos, com um significado de ternura muito peculiar. Filhos muito amados talvez. Provavelmente era a palavra com a qual os Rabis, considerados verdadeiros pais, se dirigiam àqueles que eram seus discípulos.
UM POUCO: O versículo, um tanto escuro, pode ser completado com 14, 19. Um pouco e o mundo não me verá, mas vós me vereis porque eu vivo e vós me vereis. Quer dizer que ele promete se tornar visível após a morte e que a morte dos discípulos não será obstáculo para estar na companhia de Jesus porque também eles estarão vivos após a morte dos mesmos.
NOVO MANDATO: Distinguimos em grego Nomos (=lei, como a mosaica), Dogma (=decreto como os civis) e Entolê (=preceito). João usa aqui entolê indicando que não é uma lei completa mas um preceito particular, embora seja distintivo para seus discípulos. O velho mandato de amar o próximo como a nós mesmos(Lv 19, 18) é substituído por amar como Jesus amou. Qual a diferença? No amor estilo AT do levítico, entre o próximo e meu ego posso optar por mim. Mas com o exemplo do que Jesus fez por todos, especialmente por seus discípulos, o próximo ocupa o lugar preeminente: primeiro ele , logo eu; de modo que a vida deve ser dada por ele. Nisto conhecerão que sois meus dscípulos. A identidade do discípulo é a de saber amar como Cristo nos amou.O amor de Jesus se manifesta em duas vertentes: 1)com respeito a seus amigos: ninguém tem maior amor que o que dá sua vida por seus amigos(Jo 15, 13). 2) E por parte dos inimigos: Cristo morreu por nós quando ainda éramos pecadores (Rm 5, 8). Por isso não existe pecado maior do que a falta de amor ente os discípulos de Cristo.
PISTAS: 1)Partimos da palavra glorificar. Que significa nos lábios de Jesus? Não é certamente um louvor externo, devido a uma fama adquirida por fatos meritórios, reconhecidos por todos. A glorificação tem como meta final a exaltação sobre toda a obra da criação. Esta é como a base material sobre a qual opera a obra redentora de Jesus, dando-lhe uma vida nova que se prolongará na eternidade para assim ser uma matéria diferente da inerte e mortal que conhecemos. A redenção ou salvação, é entendida como uma nova orientação de toda a natureza (Rm 8, 21) para ter como mestre e chefe o Filho do Homem, Jesus de Nazaré, que passa a ter como Cristo a mesma categoria e majestade que a do Javé-Deus de Israel. 2) Porém antes da glorificação final, como ressurreição e vida nova do Universo, Jesus glorificará o Pai pela obediência estrita, dolorosa e solitária. Como pela desobediência de um o pecado entrou no mundo , e os muitos(todos) se tornaram pecadores assim também pela obediência de um só (até a morte e morte de cruz) os muitos(todos) se tornarão justificados (Rm 5, 17-19). Sua paixão e morte como pecado, mas não como pecador, trouxe sobre si a culpa e a pena do pecado em forma substancial justificando os verdadeiros pecadores( 2Cr 5, 21). Nesse se tornar pecado está a sua máxima humilhação. Por isso ele será levantado (glorificado). Primeiro na cruz, que só através da fé o contemplamos como verdadeiramente exaltado como o contempla o Pai, tornando-se a cruz símbolo de sua exaltação. E logo na sua ressurreição feito primícia e obra suprema da nova Natureza por ele renovada e revitalizada. 3) O preceito novo: A novidade do mandamento é o novo conceito de amor, não reservado unicamente aos amigos, mas ampliado aos inimigos. Eu porém vos digo:amai os vossos inimigo e orai pelos que vos perseguem(Mt 5,44). Novidade por estar na linha do mandato recebido do pai por Jesus de dar a vida como mandato do Pai (Jo 10, 18 e 14, 31) de modo que a vida de Jesus é um ato de obediência ao Pai. Novidade, porque o amor provém da relação com Jesus como modelo da relação com o Pai. Novidade, porque introduz um elemento comparativo e lógico para exigir semelhante amor: Deus nos ama assim, e nós devemos corresponder, porque Paulo afirma: Deus demostrou seu amor para conosco pelo fato de Cristo ter morrido por nós quando ainda éramos pecadores (Rm 5, 8) Novidade porque é esse amor que revela se realmente somos discípulos do mestre e não outra forma de fidelidade.
EXEMPLO: Nos tempos em que Bernardo, o grande reformador cisterciense, purificou sua ordem tendo como base a pobreza, a lenda conta que havia um mosteiro muito pobre e que, seguindo o exemplo de Bernardo, era muito devoto de Nossa Senhora, até tal ponto que, ao morrer o abade, o novo candidato deixou sua cadeira ou trono no coro sem ocupa-lo, livre, afirmando que ele era um a mais do coro e que o lugar preeminente o deixava para ser ocupado pela Mãe de Deus, porque também ela foi a que estava presente entre os discípulos na oração até Pentecostes. Agradou tanto este pormenor e a devoção que encontrava entre os monges que Nossa Senhora um dia veio recompensá-los e apareceu no meio do coro para se assentar no trono a ela reservado. Tinha no colo o menino Jesus. Os monges alegraram-se imensamente após o susto e medo inicial. Então o abade D. Bento apresentou-se para dedicar a Nossa Senhora uma saudação em latim: Meritíssima et excelentíssima Domina nostra et mater Jesu! A oração foi esplêndida como era o latim em que o prior tinha mergulhado como copista. D. Plácido, como poeta, dirigiu uma esplêndida laudatória em honra de Maria. D. Angélico, organista foi quem depois alegrou com uma belíssima composição musical os circunstantes. D. Serafim apresentou uma miniatura com fundo de ouro. E assim todos, um por um louvaram e agradeceram a Senhora que tão graciosamente os visitava. Faltava o último, o Irmão da horta a quem tinham visto cavar dia sim e dia não. Abúndio era seu nome. Pequeno de estatura e também pequeno de dotes e qualidades de espírito. Abúndio ficou no meio do coro e disse: Dona. Eu tive um pai que era feirante cômico ambulante e eu aprendi dele que os meninos gostam dos cômicos e riem muito com seus jogos. Eu aprendi um jogo que para que o menino Jesus se alegre vou fazer aqui. Abúndio tirou do bolso umas laranjas e com elas fez o malabarismo que fazem os cômicos de circo. O menino Jesus que até então estava como dormido, despertou e sorria e sorria vendo as laranjas subir e cair uma e outra vez nas mãos do monge. Quando o jogo acabou, o menino aplaudiu gozosamente. E Nossa Senhora disse ao monge que parecia envergonhado por não haver oferecido coisa melhor: Abúndio, meu filho, você me deu o melhor prazer porque ele tornou meu Jesus alegre e contente. Até aí a lenda. Neste mês de maio podemos usar a lenda como argumento para fazer alguma coisa em louvor de quem é nossa Mãe e Mãe de Jesus.