V DOMINGO DO TEMPO COMUM
Lucas 5, 1-1
A PESCA MILAGROSA.-OS PRIMEIROS DISCÍPULOS
(Pe. Ignácio, dos padres escolápios)

LUGARES PARALELOS: Mateus ( 4, 18-2) e Marcos ( 1, 16-20) oferecem relatos paralelos a este de Lucas. Porém falta neles alguns detalhes importantes, sem os quais o chamado dos primeiros discípulos tem um ar de efeito sobrenatural. Lucas inicia o programa do ministério de Jesus proclamando, em primeiro lugar sua missão como enviado divino, com o discurso em Nazaré, para depois ser ouvido multidão às margens do lago de Genesaré. Lucas, ante o caso singular de serem pescadores, mal vistos como classe no mundo da oikumene( sob o domínio romano), explica sua eleição com detalhes que a justificam. O ensinamento de Jesus, proferido do barco como nova cátedra da qual ensina seu evangelho para não ser esmagado pela multidão, deu lugar a que: sendo o barco de Simão Pedro, será este a cátedra da qual o Espírito fala à Igreja. A pesca milagrosa simbolicamente identifica pescadores de peixes com seguidores que procuram discípulos e ampliam sua obra em todos os lugares e tempos. Os primeiros cristãos verão no peixe o símbolo mais exato daquele que desenhavam como peixe e chamavam Iesus Xristós Theou Uiós Soter, com as letras em negrito formando o nome do peixe em grego, que extensivamente é lido Jesus Cristo, de Deus Filho, Salvador. Assim pescadores e peixes, discípulos e conversos, estão intimamente unidos na barca de Pedro e em Jesus que é representado pela figura simbólica do peixe. Existe também um paralelo com Jo 21, 4-11 relato de especial importância para a vocação de Pedro em que anuncia a grande quantidade de gentios que formariam parte do reino com a captura de grande número de peixes.

A PALAVRA DE DEUS: Em grego "do Deus ", provindo dEle. A tradução melhor seria do Único Deus. De modo que a palavra de Jesus se confunde com a palavra divina ou que tem origem em Deus. Jesus estava de pé junto à margem e era praticamente impossível não ser oprimido ou apertado pela multidão, impedindo que sua voz chegasse a todos os ouvintes. Por isso escolhe o cimo de um monte (Mt 5, 1) ou o portal de uma casa (Mc 2, 2). Aqui ele escolhe um barco de pesca que Marcos com propriedade chama ploiarion (barquinho), diminutivo de ploion, barco em geral ou nave. Alguns manuscritos gregos importantes também usam ploiarion neste relato, com mais propriedade do que ploion. No inglês distinguem entre small ship e ship em geral. Somente Marcos e João fazem distinção entre barquinho e barco. A primeira palavra sai duas vezes em Marcos(3,9 e 4, 36) e 4 vezes em João. O ploion, barco, é usado em todas as ocasiões por Mateus,12 vezes, e 8 vezes em Lucas. Sem dúvida que estes fatos confirmam que Marcos, discípulo de Pedro e João, o pescador de Betsaida são as fontes e até autores dos dois evangelhos a eles atribuídos. Lucas não conhecia a geografia do norte da Palestina e fala de barcos em geral, sem saber que os pequenos botes dos pescadores deveriam ter uma palavra mais apropriada. Porém o mais importante é a palavra de Jesus. Nós sabemos que em grande parte consistia em parábolas, tomadas da vida quotidiana, exemplos que se gravavam melhor nos ânimos dos ouvintes. E eram sobre o novo Reino: O amor com que Deus acolhia os pecadores, os perdidos aparentemente, e sempre acompanhado de curas, algumas das quais podemos dizer verdadeiros milagres, que João denomina sinais.

A BARCA DE PEDRO: Simeão ou Simão como abreviatura, recebe uma preeminência notável por parte do terceiro evangelista. Na eleição dos apóstolos ele figura em todas as listas em primeiro lugar e Lucas diz que era Simão ao qual deu o nome de Pedro, no qual coincide com Marcos. Mateus dirá Simão a quem chamam Pedro. Simeão significa famoso e Pedro é a tradução latina de petra (rocha em grego) que por sua vez traduz o Kefas aramaico. A barca de Pedro deu lugar a diversos simbolismos: Nave que como a antiga arca de Noé salva do naufrágio universal. Nave com certeza dirigida ao porto de salvação. Nave de onde podemos melhor ouvir a voz do Senhor Jesus, como aconteceu no lago. Nave transformada em cátedra de verdade pela escolha divina.

EPISTÁTES: É uma palavra própria de Lucas. Os outros sinópticos usam didáskalos (= mestre) ou rabi, palavra de origem semita com o mesmo significado. Epistátes, originalmente com o significado de chefe (o que é superior ou está por cima) tem o significado de mestre com poder de mando, com o poder que dá a sabedoria, assim como didáskalos tem o significado de mestre que ensina. Em Lucas somente os discípulos chamam Jesus de epistátes, porque submetidos ao seu domínio e direção enquanto os outros o chamam de didáskalos.

A PESCA: Segundo alguns comentaristas a narração é um duplicado de João 21,6, a pesca frutífera dirigida por Jesus após a sua ressurreição. O motivo é a tendência a não admitir o milagre ou o sobrenatural nos relatos evangélicos. Porém os detalhes em ambos relatos são completamente diferentes, embora as pessoas e a geografia sejam comuns. Por isso devemos admitir uma cena própria independente para o relato de hoje. Esta é a única interpretação verdadeiramente lógica: Jesus quis indicar como sinal o que devia acontecer com os pescadores de peixes que logo, logo, transformar-se-iam em "captadores de homens vivos". Essa é a tradução de Zogron grego. O fato constituiu para Pedros e seus companheiros um verdadeiro milagre. Basta contemplá-lo com o espírito religioso com que os pescadores do rio Iguassú encontraram a imagem da santa que hoje conhecemos como Aparecida. Precisamente Pedro contempla o fato como uma Epifania, uma demonstração de alguém que é superior, (o epistátes já o indicava) com poderes extraordinários, próprios de uma manifestação divina.

PECADOR: É por isso que em espontânea adoração se prostra para beijar os pés de Jesus, como um escravo fazia com seu amo: é a proskinesis, em que os pés neste caso são substituídos por joelhos, embora alguns manuscritos falem de pés. O importante é que Pedro acompanha sua ação com umas palavras nas quais não unicamente expressa sua admiração mas também sua profunda humildade: Sou homem pecador. É o não sou digno, dito com expressão de reconhecimento de sua indignidade. Pecador aqui é um adjetivo, diferente de quando é usado como nome com o significado de gentio, como na frase de publicanos e pecadores. ( ver Lc 7, 34). Por isso dirá Paulo: Nós somos judeus de nascimeno, não pecadores(descendentes) dos gentios ( Gl 2, 15). Sem dúvida que esta disposição de aceitar o mal e o erro dentro da vida como própria responsabilidade é a melhor disposição para se tornar instrumento da intervenção divina. É o caso de Isaías em 6, 5. Por isso dirá Jesus: Serás importante pois te tornarás captador de homens vivos.

A NOVA PESCA: De agora em diante o pescador terá um novo ofício: apanhará vivos os homens. Essa a tradução literal do texto. Que significa esta metáfora que muda a vida de Pedro e a vida de muits homens enredados na sua nova rede? É a metáfora que recolhe seres humanos para aumentar o Reino. Jeremias no capítulos 16 diz como o Senhor recolherá para a volta do exílio através de pescadores e caçadores, os homens. Era um momento de esperança e de atuação direta de Jahweh para bem de seu povo. Também Amós 4,2 usa o simbolismo do peixe fisgado pelos anzóis dos pescadores, neste caso para julgar os malvados. Porém, no nosso caso, Pedro é escolhido para bem dos homens, para congregá-los, salvados da morte (por isso vivos) e preservados para a vida, ao formar parte do Reino como seguidores de Jesus. Evidentemente que os outros discípulos que aqui deixam tudo e se reúnem com Jesus tem o mesmo ofício. Mas é Pedro, sempre singularmente, quem recebe diretamente essa incumbência de modo especial. Um emprego material é substituído por uma missão totalmente espiritual e atemporal.

PISTAS: 1o) A pesca dos homens para a entrada no Reino segue os grandes traços da pesca milagrosa de hoje. Podemos comparar como trabalhamos inutilmente confiando em nossos esforços. Mas se confiamos na palavra do Senhor, este será quem definitivamente suscita as pessoas para que elas aceitem a doutrina do evangelho. 2o) Depois de uma pesca milagrosa, Jesus atua favorecendo a ação dos discípulos, aqueles que abandonaram tudo( e aí está a força do êxito). Ao que parece o lago atual (o mundo) não tem peixes, os tempos são os piores, ou as circunstâncias o desaconselham, mas o verdadeiro discípulo só espera a voz do Mestre para começar a trabalhar. 3o) É necessário que toda a Igreja ative sua consciência de missão. Junto com Pedro, também foram chamados outros discípulos. Assistimos a uma venda de igrejas protestantes. A Igreja de Inglaterra, como exemplo, vendeu 1600 templos em menos de quatro décadas. Assistimos a um vazio de jovens nas igrejas católicas da Europa. Mas como afirmava um líder eclesiástico, os resultados não se medem pelos números, mas pela qualidade dos discípulos. O homem põe seu esforço mas a rede necessária é a palavra, e ela trabalha em silêncio quando os operários dormem.(Mc 4, 26-27). 4o) O anúncio sempre deve ser a vitória de Cristo crucificado e ressuscitado, :seu triunfo sobre a morte, sobre o mal(Lc 4, 21). sua escolha dos irremediavelmente perdidos, sua mensagem de salvação aos pecadores que nele encontram a mais ardorosa das acolhidas. Os resultados nem sempre serão visíveis; mas terão um fim escatológico definitivo de salvação, porque o Pai sempre está à espera do filho pródigo.

EXEMPLO: reuniram-se três amigos sacerdotes para estudar qual seria o melhor meio de pastoral. João disse que a oração, pois Jesus antes de pregar sempre se retirava a orar. Tiago afirmou que, como Paulo, deveríamos nos aproveitar dos meios de comunicação, a media moderna e assim anunciar o evangelho. Pedro, por último disse: nem sabemos como orar e sempre nas orações pedimos por triunfos pessoais com o qual tiramos o protagonismo de Deus e é por isso que nada conseguimos. Pessoalmente eu acredito que é através do amor que devemos atuar no mundo moderno. Teresa de Calcutá, conquistou a admiração do mundo atual e não sabemos quantas conversões obteve através de seu amor aos pobres. Mas não devemos esquecer que essa caridade é produto da oração que em definitivo suscita os verdadeiros apóstolos..