VI DOMINGO DA PÁSCOA ( Jo 14, 23-29)
(Pe. Ignácio, dos padres escolápios)
INTRODUÇÃO: O trecho de hoje é parte do discurso de despedida,
pronunciado por Jesus durante a sua última ceia com os discípulos. À pergunta
de Judas, não o Iscariotes, de por que Jesus se manifestava aos discípulos e
não fazia o mesmo com o mundo, Jesus responde com a perícope que vamos
comentar.
SE ALGUÉM ME AMA: Com estas palavras Jesus responde à pergunta de
Judas. É inútil falar a quem não quer ouvir que é como não querer obedecer.
Quem, pelo contrário, o ama guardará as palavras como um tesouro sagrado e por
isso também será amado do Pai, pois, como dirá a continuação, a palavra de
Jesus não é propriamente sua, mas é a que lhe dita aquele que o envia(24). O
verbo usado é agapao (em hebraico agab) que tem uma peculiar acepção
respeito a outros verbos como fileo ou erao. Este último, do qual
derivam as palavras Eros e erótico, refere-se ao amor entre esposos ou
namorados. Fileo é o amor entre amigos e Agapao é o preferido para o amor de Deus
para com os homens e a resposta amorosa destes últimos. Agapao é logicamente o
verbo empregado no evangelho de hoje. Geralmente a tradução da segunda parte do
versículo é guarda meus preceitos; mas não vemos como aqui essa
interpretação seja a mais apropriada, devida sem dúvida aos versículos
anteriores 16 e 21. O sentido é que o amor acarreta que a palavra ouvida seja
guardada como quem conserva em depósito uma fórmula sagrada. Por esse cuidado
em reter as palavras de Jesus o Pai virá (ou far-se-á presente) e
faremos residência nele (23,b).Como paralelismo, Jesus dirá que quem
não o ama não guarda suas palavras.(24,a). E acrescenta uma razão para
que suas palavras sejam ouvidas e guardadas: Pois a palavra que escutais não
é minha, mas do Pai que me enviou(24,b). E Jesus termina o assunto com isto
vos tenho dito quando ainda permaneço convosco (25).
O PARÁCLITO: Para resolver o problema de sua ausência, Jesus
propõe um novo mestre a quem dá o nome de Parakletos. A primeira vez que
aparece a voz Parakletos é em 14, 16: Eu rogarei ao Pai e ele vos dará outro
Paráclito para que convosco permaneça para sempre. Qual é o significado
desta voz? Em termos jurídicos o Paráclito era o advogado defensor. A Vulgata
não traduz o grego e conserva o termo grego parácletos. As bíblias evangélicas,
seguindo a tradução de Lutero, usam o termo Consolador. A Bíblia Oficial
católica italiana também aceita o Consolador; mas a usual na Italia conserva o
Paráclito; a espanhola Defensor e a KJ, ou do rei James, Confortador, que pode
ser traduzido por quem Alivia ou Consola. Provavelmente o papel do Espírito
Santo é ser Mestre da verdade(26), que a revelará plenamente, anunciando as
coisas vindouras.(16, 13); Confortador em momentos de tristeza e solidão dos
discípulos(16); e finalmente Defensor de Jesus pelo seu testemunho da verdade
(15, 26 e 16, 7-11). Segundo nos diz a História, nos julgamentos judaicos, não
existia o papel de advogado defensor que era substituído pelas testemunhas
favoráveis ao réu. E este era precisamente o papel do Espírito Santo:
testemunhar em favor de Jesus, como diz 16, 8, estabelecendo a culpabilidade
dos três grandes causadores da morte de Jesus: o mundo (inimigo do reino); o
pecado como se fosse um ser pessoal, e finalmente o Príncipe do mundo que é
Satanás. E atuando positivamente como testemunha da santidade ou sacralidade
(justiça) de Jesus como Filho do Pai, pois agora está à direita dEle.
A PAZ:
A Eirene de João parece ser diferente da saudação Shalom
hebraica. Esta saudação era dada, tanto ao se encontrar como ao se despedir.
Jesus dará agora a paz como despedida para renová-la quando pela primeira vez
encontrar os doze após sua ressurreição. A palavra sai cinco vezes nos últimos
capítulos de seu evangelho. Duas antes da paixão, como preparação às dificuldades
ante os sucessos contrários que abalariam a confiança dos discípulos no Mestre;
e três outras vezes após o triunfo da ressurreição, como reafirmação de perdão
e amizade. Jesus distingue ente sua paz e a paz do mundo. A sua paz é um dom,
um presente, uma espécie de herança, derivada de sua partida. O objetivo dessa
paz é evitar a perturbação da mente(coração) que invadirá os discípulos e a
timidez e o medo ao se apresentar como tais ante as autoridades que condenaram
Jesus (Mc 13, 11). Este quer evitar a tristeza, o desânimo e a falta de
confiança e fé dos discípulos, tal como sentiram os dois caminhantes de Emaús.
Por isso o Espírito que Jesus promete enviar recebe o título de Consolador ou
Confortador.
VOLTAREI:
Os doze ficarão órfãos por um pequeno tempo, o mais difícil, porque estarão
ausentes os dois Paráclitos. Mas se realmente me amásseis, vos alegraríeis,
porque vou ao Pai, já que o Pai é maior do que eu.Jesus sem dúvida se
refere ao seu triunfo após sua ressurreição, a esse estar à direita de Deus(Mc
14, 62). A segunda parte do versículo( o Pai é maior) foi usada pelos
arianos para negar a divindade da pessoa de Cristo.Mas realmente o que Jesus
quis dizer é que ele, como Filho do Homem, ou seja enquanto homem como era
visto em Jesus de Nazaré, estava submetido à vontade de Deus.
PARA QUE CREIAIS: Jesus se antecipa às dúvidas, desânimos e
incertezas dos doze. Ele declara o que estava a acontecer para que os
discípulos tivessem uma noção exata dos fatos vindouros e não perdessem a fé e
a confiança nele, já que ele os perdoava e os acontecimentos estavam previstos
nos planos de Deus, que eram, antes de tudo, de perdão e paz; especialmente
para os que acreditavam em Jesus como enviado de Deus.
PISTAS: 1o) São quatro os pontos principais de que trata o
evangelho.1- Deveis escutar e guardar minhas palavras como norma e guia de
conduta; porque assim faria quem realmente me ama. Máxime que estas minhas
palavras provém de Deus do qual sou seu enviado. 2- Os enviarei um Paráclito
que vos confortará e acompanhará nas horas difíceis em que vos sentireis como
órfãos sem mim.3- Por isso a paz, essa tanquilidade de ânimo para hoje e
esperança do amanhã, estará sempre convosco. Não duvideis do presente, nem
temais o futuro. 4- Destas minhas palavras tendes uma certeza e segurança: eu
predisse esses acontecimentos. Eles são circunstanciais, mas o triunfo será
eterno. Tende fé em mim. 2o) A preocupação de Jesus com seus
discípulos, quando ele sabia das horas tão funestas como lhes esperavam, indica um profundo amor pelos seus que não
quer abandonar: por minha parte não perderei uma só dos que me
confiastes, exceto o filho da perdição.(Jo 17,12). 3o) A paz não é uma palavra vã, mas um dom
recebido do Pai por meio da entrega de sua vida como grão que morre para
surgir uma nova vida(Jo 12, 24)
EXEMPLO: Entre as estórias que contam dos
antigos padres do deserto está esta que dizem foi protagonizada pelo grande
Pacômio, cuja fama era universal como diretor de almas. Contam que um jovem,
atribulado por suas lutas interiores, procurou o mestre, a quem acreditava
cheio do espírito de Jesus, para pedir conselho e consolo. Padre- dizia o
angustiado jovem- Eu sinto dentro de mim como se existissem dois cachorros, um
bom e outro mau que lutam entre si . O bom me diz o que eu devo fazer e sempre termina me recomendando o bem como
base de minha futura felicidade. O mau reclama a satisfação de meus desejos já,
já; e me aconselha: é agora que encontras a tua felicidade não esperes pela
sorte do amanhã. Padre, estou indeciso porque não sei qual dos dois vencerá em
mim. E o venerável ancião respondeu: Vencerá aquele cachorro que alimentares.