AS BEM-AVENTURANÇAS
(Pe. Ignácio, dos padres escolápios)
INTRODUÇÃO: Após um versículo (17) para emoldurar as circunstâncias em que o discurso foi proclamado, Lucas inicia o ensino aos discípulos com um exórdio: as bem-aventuranças. Mateus, no capítulo V, também fala sobre esse discurso que simbolicamente substitui o de Moisés ao povo de Israel, após descer do monte depois de ter falado com Deus(Ex 19, 25). Lucas tem a intenção prevalecente de indicar que o discurso de Jesus foi escutado por todos os povos, embora grande parte do mesmo fosse dirigido aos seus discípulos(17). Mateus diz que o discurso foi feito no monte, enquanto Lucas afirma que foi depois de descer do monte numa planície do mesmo, o que se conforma melhor com o Êxodo. Mateus afirma que o discurso foi dirigido à multidão e aos discípulos indiscriminadamente(5, 1) e Lucas dirige as palavras de Jesus única ou principalmente aos seus discípulos aos quais olha especialmente (6, 20). O tema inicial é constituído pelas bem-aventuranças. Mateus é mais prolixo e mais catequético de modo a introduzir explicações dentro do texto, como vemos ao classificar em espírito os pobres da primeira bem-aventurança. Podemos dizer que Lucas conserva com maior pureza as palavras do Mestre, embora, como faz Mateus, também ele tira a água para seu moinho. Mateus escreve para os judeus de modo especial, Lucas para os gentios com o espírito de Paulo que declarava descobrir o mistério escondido durante as gerações precedentes (Ef 3, 4-6).
DISCÍPULOS: A palavra grega é Mathetés, aluno ou discípulo. O verbo que dá origem à palavra é Matheo, aprender. Mateus também dirige o discurso aos discípulos. A palavra é mais abrangente que os doze, ou apóstolos, e inclui todos aqueles que de alguma maneira pretendem escutar Jesus e seguir seus ensinamentos como parte principal de suas vidas. A vós que me escutais, dirá no versículo 27. Jesus parece que, nesta época, profeticamente olha para um futuro próximo em que seus seguidores serão todos os que na primeira parte das bem-aventuranças ele anuncia. Por isso dá a eles um motivo de esperança, que a primitiva cristiandade não poderia esquecer. É uma constatação da realidade a acontecer no futuro e portanto é também um plano divino do que deveria suceder. Por isso entre as três opções interpretativas deste trecho (promessa de graça, exortação ética e regime de vida da comunidade) optamos pela primeira. Deus está convosco- vem dizer o Mestre-, não vos preocupeis, nem pela pobreza, nem pela fome, nem pela tristeza, nem pela perseguição. É muito pedir para aqueles que vivem num mundo que busca a riqueza, a saciedade, as festanças e os aplausos. Logicamente os acréscimos de Mateus transformam o que era um simples relato-promessa de graciosa providência divina, em regra de vida comunitária e portanto em exortação ética de complemento essencial O uso das chamadas passivas teológicas em que o agente sobreentendido é o próprio Deus, confirma a escolha que fizemos dessa promessa contínua e providencial de Deus sobre os que têm como prioridade a escuta evangélica.
BEM-AVENTURANÇAS: Talvez a tradução do plural do Makários(favorecido pela sorte) seja benditos de Deus ou abençoados por Deu, mais do que felizes ou ditosos. Na realidade o Makários grego denota a felicidade interna de uma pessoa determinada. Por isso a fórmula é uma felicitação dada a um determinado sujeito pela sorte que lhe coube. Em hebraico existem dois verbos dos quais se origina o adjetivo bendito ou ditoso, dependendo do sujeito: Barak dirigido a Deus que significa bendito (Eulogemenos em grego) e Ashar do qual o Esher de ditoso ao homem ( makários em grego). Evidentemente Jesus abençoa o homem e portanto usou o Esher há-ish (bendito o homem). Em português podemos traduzir tanto feliz como bendito. Creio que esta última fórmula está mais em consonância com o espírito do evangelho, especialmente o de Lucas, pois é um anúncio da graça, do favor divino aos homens por parte de Deus.(Lc 4,19). A razão de preferir bendito como tradução está reforçada pela segunda parte do hemistíquio em que o prêmio está em passiva, e sabemos que o sujeito desses verbos é quase sempre Deus. A versão inglesa do King James traduz por Blessed (abençoado). Como nota podemos dizer que estas felicitações são denominadas pelos expertos como macarismos, palavra inventada ou tomada do grego dos textos originais.
POBRES: A palavra grega Ptochós, significa mendigo no sentido de pobreza material absoluta, e traduziria o Dal hebráico: é um pobre de solenidade, dos que pedem esmolas. A palavra Anaw (plural anawim e daí anawé Jahweh) significa humilde, impotente ou manso. O anawé Jahweh serão os piedosos de Javé. Vejamos como traduzem os setenta alguns textos em que entra o anawin:. Os humildes experimentam Deus como seu apoio único no Sl 10, 17: "Senhor, atendeste o desejo dos humildes (Penes=que vive do trabalho), tranquilizas seu coração, tens o ouvido atento". Esperam em Deus e são guiados por Ele no Sl 37, 11:"Os mansos( Prays= manso): possuirão a terra, gozarão de uma paz total". São louvados por serem melhores que os orgulhosos em Provérbios 16:19: "Melhor ser humilde(Prays) de espírito com os humildes do que repartir o despojo com os soberbos". Regozijam-se quando Deus é louvado e o buscam(Sl 69, 32-33 :"Vejam isso os aflitos (Tapeinos=baixo) e se alegrem; quanto a vós que buscais a Deus, que o vosso coração reviva. Porque Jahweh responde aos necessitados (Penes), e não despreza os seus prisioneiros. Isaías 61, 1 afirma que para tais pessoas(Ptochos) o ungido do Senhor irá pregar. Lemos no Salmo 76: 8-9: "Eles têm consciência da aprovação divina e confiam que no eschaton(fim) Deus os salvará, ao levantar-se Elohim para julgar e salvar todos os humildes (Prays) da terra". Tenho procurado a tradução grega dos setenta. Nas diversas citações; no versículo citado, entre parêntesis, está a palavra grega que traduz o anawim correspondente. A tradução que em grego dos setenta traz Ptochós (Is 61,1) hoje é traduzida por humildes na bíblia ecumênica, na italiana e na versão do King James; por abatidos em Nácar Colunga e atribulados em AV (versão autorizada evangélica). Unicamente a versão oficial espanhola segue o grego dos setenta e traduz pobres. Como temos visto os tradutores gregos não usam uma única expressão para anaw e portanto não podemos simplesmente afirmar que essa expressão se reduz a pobres materiais, máximo que em grego comum significaria propriamente mendigos.
POBRES EM ESPÍRITO: No lugar paralelo, Mateus usa esta expressão que lemos em Pr 16, 19 no original hebraico. Este versículo, traduzido pela AV diz: "Melhor é ser humilde de espírito(pray thumos grego, correspondente ao shafal ruach hebraico) com os humildes (tapeinos ou anawim)do que repartir o despojo com os soberbos". É uma consequência do versículo anterior que afirma a soberba preceder à ruína, e a altivez do espírito à queda. Voltando ao texto de Lucas das bem-aventuranças, Pobres a secas, é a versão do terceiro evangelista. E esta tradução é a que usam comumente todas as versões. São aqueles a quem um autor diz que chamam às portas divinas clamando: Senhor, tende piedade. REINO DE DEUS: Mateus fala do Reino dos céus, expressão própria dos judeus, mas difícil de entender pelos gentios, para os quais o Reino de Deus tinha sentido. Dizer que o Reino é deles, significa que encontrarão facilidades para entrar nele. Que receberão o Reino como um privilégio e dom extraordinário, como uma mercê da benevolência divina. É entrar dentro do amor privilegiado de Deus, é o termo escatológico das verdadeiras bem-aventuranças. Podemos partir da pobreza real para a pobreza voluntária que é basicamente a condição para a entrada no Reino, porque não se pode servir a dois senhores.(Mt 6, 24). A História é testemunha de que não unicamente a Ordem dos Templários, mas muitas outras acabaram por acumular riquezas em demasia e ruíram estrepitosamente.
TENDES FOME AGORA: Dirigido a seus discípulos Jesus fala da fome. Como na bem-aventurança anterior o problema não é espiritual mas material. A fome tem sido uma pandêmia universal em determinadas épocas. Hoje mesmo ela é o problema número um em certos países da África, Ásia e América do Sul. Que fome é essa? Mateus fala da fome de justiça, ou seja de santidade ou honestidade, ou da justiça divina que significa santificação. As expressões de Lucas são mais universalmente humanas do que as de Mateus que são mais bíblicas e próprias das comunidades primitivas cristãs. Lucas omite "ter sede", com o qual elimina a expressão vetero-testamentária de Isaías em 49, 10 e 65, 13. SERÉIS SACIADOS: É uma referência ao banquete escatológico do Reino, como Is 25, 6 ou Sl 107, 3-9. O próprio Lucas fala tematicamente deste assunto em 14, 16-24 e promete esse banquete a todos os servos vigilantes(12, 37). Devemos ter cuidado ao interpretar ao pé da letra palavras que podem ter um significado simbólico porque expressam realidades escatológicas dos últimos tempos, absolutamente finais.
CHORAIS AGORA: Embora existem vários verbos para chorar, especialmente dakruo (derramar lágrimas) o klaio deste parágrafo significa chorar a gritos como um menino. O agora indica que a promessa é para os últimos tempos, ou seja a nova era do novo Reino. POIS RIREIS: É rara a expressão que em Mateus se traduz por: os que sofrem serão consolados. O choro assim tão ostensível parece ligar esta bem-aventurança com a seguinte ou seja com a opressão que causa dor e vítimas. Temos que recordar Lc 2, 25 e portanto esperar a consolação de Israel como libertação dos inimigos. Na escatologia dos tempos de Cristo serão os cristãos perseguidos pelos judeus. É exatamente o que lemos no salmo 126 nos versículos 1-2: "Quando o Senhor restaurou a sorte de Sião( ......)nossa boca se encheu de riso".
ÓDIO DOS HOMENS: O verbo ESTE indica plural 2a pessoa traduzido por sois. Ainda dirigido aos discípulos para expressar uma esperança final e portanto uma bênção divina que prevalecerá sobre a aparentemente funesta circunstância inicial. Que esperarão dos homens os discípulos de Jesus? Lucas usa quatro verbos assim como Mateus em 5, 11. Entre ambos só um é comum: o insulto com oneidizo, traduzido ao latim por maledicere em Mateus, e exprobravere em Lucas, significa insultar num caso e injuriar no outro. Em Lucas é o ódio, o ostracismo ( expulsão da sinagoga), o insulto e finalmente a rejeição da pessoa (do nome no original) como maligna ou infame; sendo do nome indica sua origem semítica ou talvez se refira ao nome de cristão. Na Shemoné Ezré, a oração das dezoito bênçãos, existia uma duodécima bênção contra os sectários(Birkat Há-Minim), introduzida pelo rabino Gamaliel em Jabné depois da destruição do segundo templo. Esta oração que alguns conhecem como Tefilá(prece) ou Amida(de pé) pela forma de ser realizada, tinha essa maldição contra os cristãos, devido à sua condição de discípulos de Cristo (filho do homem). O evangelho apócrifo de Tomás reduz este versículo ao ódio e à perseguição, que aparece no segundo hemistíquio em Mateus. RAZÃO: essa perseguição é a causa da alegria e do pular de gozo, porque a recompensa (misthós) é grande no céu, já que também seus pais fizeram o mesmo com os profetas. Sem dúvida que Lucas escreve este parágrafo, levado pela experiência como discípulo de Paulo, primeiro perseguidor, e logo perseguido ao mesmo tempo, que mostra a morte de Jesus como modelo da morte dos discípulos que seguem a linha dos verdadeiros profetas.
AS IMPRECAÇÕES: OUAI é a expressão que inicia cada uma das quatro em contraposição às bem-aventuranças. A interjeição não é da literatura clássica, mas dos escritos do período romano, possivelmente uma transcrição do romano VAE. Precedem os mal-aventurados segundo a providência divina no NT., ameaçando-os com angústias, sofrimentos, aflições. São os ricos, os satisfeitos, os não oprimidos pelas preocupações, os que gozam de boa reputação, e que estavam ouvindo nesse momento as palavras de Jesus. A ênfase da recriminação recai sobre a precariedade de sua felicidade atual.
OS RICOS: Já receberam sua Paráklesis, consolação ou conforto. Do grego podemos afirmar que já retêm em totalidade a felicidade que buscavam. Não terão mais oportunidade nem maior da que já alcançaram. O grego indica uma riqueza opulenta, abastada, suficiente para não trabalhar e viver em abundância, como diz a parábola do rico opulento e epulário em banquetes e vestidos finíssimos (Lc 16, 19). Eles dificilmente entrarão a formar parte do Reino e de sua ditosa bem-aventurança (Mt 19, 23).
OS FARTOS: O verbo em particípio perfeito indica uma plenitude total, uma satisfação completa. A mal-aventurança está na ordem do Magnificat de Maria em Lucas 1, 53 : Encheu de bens os famintos e despediu vazios os ricos.
OS ALEGRES: Usa Lucas o mesmo vero Guelao que no versículo 21. É o riso franco e sonoro. Porque o lamento, como nos dias de luto, será o fim dos tais com o pranto correspondente.
OS APLAUDIDOS: Logicamente é o louvor como ministros da palavra de Deus, não como atores de teatro ou pessoas públicas da política ou das armas. Porque é assim que foram recebidos os falsos profetas que só falavam as coisas que agradavam os ouvintes. Esta imprecação é o oposto da Bem-aventurança do versículo 22. Temos exemplos no AT: O rei de Israel reuniu 400 profetas que alagaram seu ego contra um só que foi contrário a sua vontade de luta.(1 Rs 22,6).
CONCLUSÃO: Parece que esse início do discurso é uma preparação a seus discípulos de como é a realidade vista pelos olhos divinos, que são em definitivo os únicos verdadeiros. É também um chamado à autêntica e decisiva felicidade, contrária ao que os judeus da época esperavam do messiado do ungido do Senhor. Está na linha do ouvistes, eu porém vos digo(Mt 5, 25). Não são normas de conduta mas promessas de futuro para os que encontram dificuldades em seguir estritamente o evangelho. Jesus põe diante dos discípulos a alternativa felicidade/desgraça e inverte os valores da sociedade. A uma situação pobreza/riqueza em que Deus está favorecendo os que mais têm no sentido total do termo (ver Mt 13, 12 )a nova escolha de Deus é os que menos têm pois Ele completará a deficiência com sua abundância. O Rei Deus escolhe o que o mundo despreza. Como o conto do bêbado que é salvo por um arrependimento final, Deus justifica os que os homens não conseguem amar.
PISTAS: 1)Devemos olhar os pobres, os famintos, os atribulados, os excluídos como os preferidos de Deus. Tratá-los como se fossem os ricos, os abastados, os satisfeitos e os honrados e assim seguiremos as palavras de Jesus, expressão da vontade do Rei Deus que os escolhe. Não porque sejam melhores eticamente mas porque essa é sua vontade de mudar o mundo. De fato se essa fosse também nossa escolha o mundo que nós chamamos de injusto e estruturalmente pecador seria bem diferente. A redenção revolucionária teria chegado onde não chega a política humana, a economia de mercado e distinção de classes social. 2)Segundo os fariseus Deus está entre os que obedecem as exigência da lei; alguns cristãos afirmam que o encontramos na experiência interna de nossa intimidade, muitos não duvidariam de encontrá-lo na santidade dos ritos sagrados, os mais severos o esperam no juízo final e Teresa de Ávila nos deleita assegurando que se encontra entre as panelas. Sem tirar importância a cada asseveração, deveremos escutar com mais atenção as bem-aventuranças para tirar conclusões pessoais, como seria o amor à pobreza voluntária, uma correta austeridade de vida, uma simplicidade de escolha excluente de todo luxo e ostentação e uma aceitação da crítica mordaz e da solidão criterial por não comungar com soluções fáceis e receitas egoístas em matéria como sexo, matrimônio, filhos e ética social e política.3) A perseguição é a última das bem-aventuranças. Hoje também a Igreja é perseguida, talvez tanto como era no Império Romano. Mas vejamos alguns dados esquecidos pela imprensa porque não são "notícia": Foram 33 os missionários ou sacerdotes mortos violentamente no ano passado. No Pakistão os cristãos são perseguidos pelo fato de serem cristãos. Na Turquia a perseguição é ideológica e se impede expressar sua fé, marginando-os. O Cardeal Van Thuan passou onze anos preso , nove dos quais incomunicado no Vietname. Na China tem sido queimados 3 mil templo cristãos, todos os bispos estão ou no cárcere ou detidos sob arresto domiciliar; quatro freiras em Moçambique estão ameaçadas de morte por ter delatado a subtração de órgãos de pessoas vivas raptadas para tal operação. Subscrevo o que afirma um autor eclesiástico: A corrupção que invade o mundo em quase todos os níveis, causa grandes derrotas à verdade e à justiça.
EXEMPLO: Entre os vários sucessos que atraem a atenção dos jornalistas por sua singularidade estava o acontecido num avião da Americn Air Lines em vôo de los Ângeles a New York. Ao iniciar o vôo um co-piloto avisou: Os que forem cristãos levantem a mão. Ninguém o fez. Temiam serem mortos por um terrorista suicida. Tudo não passou de uma broma de mal gosto. Mas se no meio da assembléia dominical formulássemos a questão em forma diferente: quem quiser ser pobre, passar fome, sofrer ou ser desprezado levante a mão, ou seja quem quiser no mundo de hoje ser sacerdote, ou religioso levante a mão. Qual seria a resposta? .