VII DOMINGO (Lc 24, 46 -53)
(Pe. Ignácio dos padres escolápios)
EDEI: A palavra pode ser traduzida
por era necessário. Existem em grego três palavras para expressar certa
necessidade de fato. Dei implica uma necessidade imposta pelos planos
divinos de conservação do mundo ou
de salvação do mesmo. Khrei como necessidade física, dependendo das
circunstâncias e dos tempos em que a atuação se produz; e finalmente efeilei
com o significado de ser a opção mais própria e conveniente. Aqui o texto
usa o dei em tempo imperfeito que poderíamos traduzir por era necessário porque estava escrito. A Vulgata diz oporterbat
(= era conveniente) com isso rebaixa um pouco a força do original grego. Como
a Escritura era considerada a voz de Javé, podemos nos perguntar: onde está
escrito no AT que o Cristo, o Ungido ou Messias devia passar por estas três
coisas: padecer, erguer-se dentre os mortos, sendo que este último deveria ser feito no terceiro dia?
No trecho paralelo de Lc 24, 26-27, usa-se o mesmo verbo dei para padecer
e entrar na sua glória. E a começar por Moisés, discorrendo por todos os profetas, expôs a
seu respeito o que constava em todas as Escrituras.Vamos tentar explicar esta
difícil passagem. O único lugar que podemos ver como profético sobre os sofrimentos
do Cristo atribuído a MOISÉS é Gn 3, 14: Porei inimizade entre ti ( a serpente)
e a mulher, entre a tua descendência e o seu descendente. Este te ferirá a
cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar. Um outro texto que pode ser aduzido
é o do Ex 12, 46: Não lhe quebrareis osso nenhum, referido ao cordeiro
pascal que João traz como cumprido em Cristo na hora de sua morte em 19, 36.
Pelo que diz respeito aos PROFETAS,
temos as seguintes passagens: Salmo 22, 1-31. Dele citaremos : Meu
Deus, meu Deus por que me abandonastes?(2)
Sou um verme e não um homem, vergonha dos homens, escárnio da plebe(7).Todos
os que me vêem zombam de mim; caçoam e meneiam a cabeça [Mc 15, 29](8).
Que Javé o liberte; que o liberte já que o ama[Mt 27, 43](9). Secou-se
o meu vigor como um caco de barro e a língua se me apega ao céu da boca[Jo
19, 28](15)Uma súcia de malfeitores
me rodeia. Furam minhas mãos e meus pés [(16). Repartem minha roupa e sorteiam
minha túnica[Mc 15, 23](19). Ou o Salmo 69, 22: Quando tenho sede dão-me
vinagre a beber [Jo 19, 29]. O Salmo 34, 20: Nenhum dos seus ossos
será quebrado [Jo 19, 36]. Temos também o testemunho de Isaias em
53, 1-12: Como raiz de uma terra seca, não tinha aparência nem formosura,
olhamo-lo mas nenhuma beleza havia que nos agradasse(2)Era desprezado e o
mais rejeitado entre os homens[Mt 27,21 e 27-31], homens das dores
e que sabe o que é padecer; e, como
um de quem os homens escondem o rosto,era desprezado e dele não fizemos caso[Mt
27, 23].(3)Certamente ele tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas
dores levou sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus e oprimido[Mt
27, 39-44] (4) Mas ele foi traspassado [Mt 27, 35e Jo 19, 34] pelas
nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades o castigo que nos traz
a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras(=chagas) fomos sarados [Mt
27,26], (5)...O Senhor fez cair sobre ele a iniqüidade de todos nós(6).
Ele foi oprimido e humilhado[Mt 27, 27-31] mas não abriu a boca, como
cordeiro foi levado ao matadouro, e, como ovelha muda perante os seus tosquiadores
ele não abriu a boca[Mt 27, 12-14] (7). Por juízo opressor foi arrebatado,e
de sua linhagem quem dele cogitou. Porquanto foi cortado da terra dos viventes,
por causa da transgressão do meu povo, foi ele ferido(8). Designaram-lhe a
sepultura com os perversos, mas com o rico esteve na sua morte [Mt27,
60], posto que nunca fez injustiça nem dolo algum se achou em sua boca(9)....quando
der ele a sua alma como oferta pelo pecado, verá a sua posteridade e prolongará
seus dias[Mt 28,6] (10) Ele virá o fruto do penoso trabalho
de sua alma e ficará satisfeito o meu Servo, o Justo, com o seu conhecimento,
justificará a muitos, porque as iniqüidades deles levará sobre si.(11). Temos
também o testemunho de Daniel no capítulo 9,26: e depois de sessenta e
duas semanas, será morto o Ungido e já não estará. E o povo de um príncipe
que há de vir destruirá a cidade e o santuário e seu fim a tribulação e após
o final da guerra, a desolação.Quanto a sua ressurreição encontramos
estas duas passagens da Escritura. Salmo 16:10
Pois não deixarás a minha alma na morte nem permitirás que o teu
Santo veja corrupção, que segundo os critérios da época começava ao terceiro
dia. Daí que Paulo possa afirmar que ressuscitou ao terceiro dia segundo
as Escrituras.( 1 Cor 15, 4). Isto
é também conforme ao que diz Oséias em 6, 2: Depois de dois dias nos revigorará e ao
terceiro dia nos levantará e viveremos
diante dele.O texto hebraico tem uma outra versão de 16, 10: Não me
entregarás à morte, nem deixarás que teu amigo fiel desça à tumba. Talvez
algumas das citações não sejam nos tempos atuais suficientes para determinar
uma profecia estritamente dita em sentido histórico ou verdadeiro, mas a ideologia
da época, como vemos nas citações dos evangelhos, permitia como profecia qualquer
relação com os fatos, seja de palavras, seja de idéias. Como exemplo podemos
ver Mateus 27, 9-10 sobre a morte de Judas. Para provar como os evangelhos
são palavras medidas e responsáveis podemos comparar estas palavras de Jesus
com as que dirigiu aos dois de Emaús. Neste caso (Lc 27, 26-27)Jesus diz:
Não era necessário que o Cristo padecesse tudo isso e entrasse na sua glória?
E começando por Moisés e por todos os profetas interpretou-lhes em todas as
Escrituras o que a ele dizia respeito. No caso atual (Lc 24, 46) dirá:
Pois assim está escrito que o Cristo padecerá e se erguerá dos mortos no
terceiro dia. Como vemos nesta segunda intervenção, a ressurreição, que
por motivos óbvios não entrava na primeira tem lugar preferente.
A METANOIA: Na despedida, Jesus
ordena aos apóstolos qual deve ser o objetivo principal de sua pregação: a
metânoia e o perdão dos pecados. A palavra metãnoia traduzida por arrependimento,
significa em verdade uma mudança de mentalidade, própria de quem tem visto
uma nova maneira de viver completamente oposta àquela que até o presente foi
experimentada. É a conversão que experimenta todo aquele que como um impacto
vital encontra Jesus como o evangelho, a boa nova, a ele de modo especial
anunciada. Conversão que tem o amor como base da motivação da vida nova (Jo
15, 9). Conversão para abandonar o culto ao dinheiro para servir ao único
Deus(Lc 16, 13); e aprender que é servindo aos outros que alcançaremos a verdadeira
grandeza (Mc 9, 35). O perdão dos pecados é a outra parte essencial
do Kêrigma (= anúncio) apostólico. Hoje em que uns 30% da população
moderna sofre de ansiedade e depressão, o anúncio do perdão, que é proclamação
de paz interior, é mais necessário do que nunca. O perdão não é unicamente
perdão dado por outros, os ofendidos, mas perdão interior dado a si mesmo,
que origina a paz. A dependência de um Deus que me ama, evita qualquer derrota
que possa causar desânimo e frustração, para finalizar na inutilidade da desesperação.Um
dato determinante é que na Suécia, onde a vida é a de mais alta qualidade
material possível, o número de suicídios é dos mais altos da Europa. Estamos
feitos para o triunfo e para a felicidade, só que não sabemos qual é o verdadeiro
triunfo e em que consiste a verdadeira felicidade. Mas para todo cristão verdadeiro,
foram escritas estas palavras de Paulo: Sabemos que Deus coopera
em tudo para o bem daqueles que o amam ( Rm 8, 28). E Glória, honra e paz para todo aquele que pratica o bem (Rm
2, 10).
MÁRTIRES: A palavra significa
testemunha. Os apóstolos eram testemunhas da ressurreição de Jesus como Cristo-Senhor.
Por isso Matias foi eleito já que além de ser testemunha da vida
de Jesus, acompanhando-o era testemunha da sua ressurreição(At 1, 21-22),
porque a mensagem cristã tem como base acreditável a ressurreição de Cristo(
At 17, 31). Todos os mártires com sua vida testemunharam que Jesus vive e
é Senhor, como era o grito dos primitivos cristãos.
JERUSALÉM: Era a cidade donde
deviam permanecer até serem revestidos do poder do alto, poder que pertencia
ao reino propriamente de Deus. Isto era uma referência ao Espírito Divino
com que estariam dotados para o ministério. Por isso os conduziu em direção
a Betânia que estava a quinze estádios(185 m cada)ou seja 2775 m de Jerusalém(Jo
11, 18).Também em Betânia estava o monte das Oliveiras que estava a um quilômetro
de Jerusalém, ou a uma jornada de sábado ou dois mil côvados(= 0,45 m cada
um) ou um total de 900 m. Por isso
não existe contradição entre Lucas e
Atos 1. Foi no cume do monte dos Oliveiras, situado na jurisdição de Betânia
que Jesus se despediu dos discípulos.
LEVANTANDO SUAS MÃOS: Era o gesto que Aarão fez ao benzer o povo
segundo Lv 9, 27; bênção que foi depois encomendada aos sacerdotes segundo
a fórmula de Nm 8, 23: O Eterno te abençoe e te guarde, etc.Também nesta situação
Jesus abençoou os apóstolos O verbo usado em grego eulogeo é traduzido
por louvar ou benzer, pedir a Deus que abençoe uma coisa ou uma pessoa consagrando-a.
É o mesmo verbo usado quandoJesus abençoou os pães antes de multiplica-los,
(Mt 14, 19) ou no momento da transubstanciação do pão (Mt 26,26) que, no caso
do vinho, será de ação de graças [eukharistesas] porque provavelmente
era o cálice da benção (1Cr 10, 16) ou de ação de graças, o terceiro dos quatro
cálices que eram bebidos como ritual durante a ceia pascal e com o qual se
terminava o Hallel ou salmos 115-228.
E terminado o banquete se recitava a bênção do quarto cálice chamado
cálice do Hallel (Mt 14, 25)
SEPAROU-SE: Enquanto os abençoava
separou-se deles e era elevado ao céu. Era a Ascensão. Atos 1, 9-11 dará outros
detalhes como a nuvem e a visão dos dois anjos com a mensagem de que ele descerá
do mesmo modo que subiu.
ADORANDO-O: O proskineo
inicialmente significava beijar as mãos como um cachorro faz com as do dono.
Mas entre os orientais, seguindo o exemplo persa, significava cair de joelhos
e tocar com a fronte o chão como sinal de um profundo respeito.Usado no NT
como homenagem ao Sumo sacerdote, a Deus, ou a Cristo, ou a um ser de procedência
divina.
NO TEMPLO: E voltando a Jerusalém
com grande alegria, continuamente estavam no templo louvando e bendizendo
a Deus. Atos dirá que estavam reunidos na sala superior da casa onde acostumavam
ficar, perseverando na oração com algumas mulheres, entre as quais Maria,
mãe de Jesus e com os irmãos (= parentes)dele.
PISTAS: 1) Nas palavras de Jesus
temos uma clara previsão dos planos divinos de Salvação, reduzida ao sofrimento
de um por todos, cujo símbolo é a cruz. A cruz era uma realidade humilhante
para a alma e dolorosa para o corpo do justiçado.Jesus se transformou num
condenado que teve ambos sofrimentos em grau extremo. 2) É realmente admirável
comprovar como os profetas do AT previram os sofrimentos e o triunfo de Jesus
de modo que Paulo podia afirmar: Cristo morreu por nossos pecados, foi sepultado,
ressuscitou ao terceiro dia tudo segundo
as Escrituras(1 Cr 15, 4).Muitos modernos que estão de ânimo decaído , deveriam
ler com espírito de esperança estas palavras para aprender que o triunfo só
se consegue depois de um grande sacrifício e tribulação. 3) a Metânoia, essa
mudança de atitude, é necessária para que o evangelho tenha toda a.força de
sua verdade e impulsione uma nova forma de vida mais em conformidade com as
palavras do Senhor. 4) A ascensão à vista de todos é um fato histórico que
avalia a sua ressurreição. Ele estará à direita de Deus como mediador e intercessor.
Já não o veremos mais na terra e somente o encontraremos no reino das realidades
eternas que não são sensíveis.
EXEMPLO: A mártir mais moderna
do amor de Jesus é S. Gianna Beretta Molla (1922-1962), declarada santa neste
último domingo por João Paulo II. Nascida de uma família numerosa de 13 filhos
sendo ela o número 10, foi desde sua juventude uma cristã convencida: aceitava
a vida como um maravilhoso dom de Deus, tinha uma grande confiança na Providência
e estava convencida da necessidade e força da oração.À parte seus estudos,
dedicava-se ao apostolado como membro da sociedade de S; Vicente de Pauol
.Graduada em medicina e cirurgia pela universidade de Pavia, abriu clínica
própria após especialização em pediatria em Milão em 1952. dando atenção às
mães, crianças velhos e necessitados. Durante seus estudos atendia missa diariamente,
e após o jantar rezava o terço. Ela escreveu: Deixemos o passado à misericórdia
de Deus, o futuro na sua Providência, pois nossa tarefa é viver santamente
o momento presente Já que todas as forças das trevas e do mal estão hoje unidas,
é necessário que as forças do bem formem um dique e barreira para afirmar:
daqui não se pode passar. Ela compôs esta prece a Jesus: Ó Jesus, Te
prometo que me submeterei a tudo que me aconteça. Somente peço que me dês
a conhecer tua vontade.( aos 15 anos após um retiro) Escreveu cinco páginas
como doutora sobre o que ela chamava a beleza de nossa Missão. Eis alguns
trechos:O homem é o objeto de nosso trabalho e ciência e O HOMEM nos diz:
ajudai-me. Um outro: Tende um cuidado amoroso. pensando de cada paciente
como de um irmão. Agi com delicadeza.Como um sacerdote pode tocar o corpo
de Jesus, nós doutores podemos tocar esse mesmo corpo em nossos doentes.
Quando grávida com um tumor no útero, ela disse:Renovo meu voto ao Senhor
de entregar minha vida. Estou pronta a qualquer coisa para salvar meu filho.E
ela disse ao marido: Pietro, se deves escolher entre mim e a criança, não
duvides: escolhe- eu te peço- a criança. Salva-a. Outros pensamentos:
Nosso corpo é um cenáculo, uma custódia: através de seu cristal o mundo
deve contemplar Deus. A gente conquista o paraíso com os deveres diários cumpridos.
Ninguém pode amar sem sofrer e sofrer sem amar. Contempla as mães que realmente
amam seus filhos: quantos sacrifícios elas fazem por eles! Estão dispostas
a tudo, até dar seu sangue para que seus filhos cresçam sadios, bons e fortes.
Podemos concluir que o aborto é falta de amor, porque uma mãe não quer
se sacrificar preferindo a morte do seu filho ao sacrifício da maternidade.