VII DOMINGO DO TEMPO COMUM(Lc 6, 27-38)
2a PARTE DO DISCURSO DA PLANÍCIE: O AMOR

ALLA: Jesus acaba de terminar a última das mal-aventuranças em que previne seus discípulos contra os falsos aplausos por parte dos judeus porque foi assim que seus antepassados receberam os vaticínios dos falsos profetas. E introduz uma nova seção com uma preposição de contraste começando uma nova parte de seu discurso: é a resposta cristã dada aos perseguidores que são os verdadeiros inimigos. Essa resposta consiste no novo mandato do amor verdadeiro. Por isso esta introdução é solene e reiterativa: a vós que me escutais (que quereis me seguir) eu vos digo, proclamará Jesus em tom solene e ritual.

OS INIMIGOS: Quais e quem são eles? Pelo que até agora temos visto são os que no versículo 22 Jesus declara que são os homens que vos odeiam, os excluem, os amaldiçoam e tratam de infame ou maligno o vosso nome por causa de mim. Jesus se refere ao nome de cristão e aos que por serem cristãos são de tal forma perseguidos pelos outros homens, especialmente pelos judeus cujos pais ou antepassados assim perseguiam os verdadeiros profetas. Estes são principalmente os inimigos a quem o próprio Jesus manda amar, um amor que se demostra em fazer o bem a esses que vos odeiam. Exatamente como ele fez na cruz, como o protomártir Estêvão fez na hora da morte.

OS TRÊS DEGRAUS DO AMOR: Jesus enumera três formas de amor ao inimigo, inimigo que pode ser além do perseguidor do nome cristão, ser um inimigo pessoal por outras causas evidentemente injustas por parte do opositor: Fazer o bem a ele, falar bem dele, orar por ele. Corresponde aos três degraus em que o ódio se manifesta: a separação, a maledicência, e difamação do versículo 22. Se eles o fazem contra o nome de Cristo, vocês devem fazê-lo em meu nome, porque eu vos ordeno(27). Geralmente estas palavras de Jesus são tomadas em termos gerais para todo inimigo pessoal, mas como temos visto mais parecem ser dirigidas aos discípulos perseguidos pelo fato de serem seguidores de Jesus. Mateus, no lugar paralelo fala unicamente de rogar pelos peseguidores(5, 44), o que confirma a escolha por nós feita dos verdadeiros inimigos, embora a vulgata acrescenta fazei o bem aos que vos odeiam, sem dúvida uma explicação do que é amar verdadeiramente. As três formas de responder à inimizade serão completadas pela casuística que aparentemente é irreal mas que se olharmos a realidade da perseguição dos primeiros cristãos, mais parecem fatos reais e repetitivos que mera casuística farisaica.

CASUÍSTICA: A) A BOFETADA O grego Typto significa golpear como o latim (percutere) que a Vulgata traduz. Aliás essa versão latina é uma tradução extremamente literal e fiel do grego do NT e por isso serve para entender melhor o significado do texto original. Bater ou ferir é a tradução que se encontra em Português. A face, tradução portuguesa um tanto incorreta do Siagon grego que significa mandíbula ou queixo, maxila como em latim.(maxilla). No lugar paralelo, Mateus usa o verbo Rapizo que significa dar uma paulada, exatamente como a que recebeu Jesus segundo Jo 18, 22 na frente de Caifás, Sumo sacerdote. Há duas traduções deficientes: Face é prosopon e não Siagon, como temos esclarecido. Tipto é diferente de Kolafizo, este sim no sentido de esbofetear. Como deveríamos traduzir o versículo? "A quem te der uma paulada num dos queixos apresenta-lhe o outro". Mateus tem uma versão mais rica em detalhes: é o queixo direito que é golpeado, o qual em termos costumeiros da época significava além do golpe, uma injúria, pois feita com a mão esquerda do agressor ou com o revés da mão direita. Sabemos como os canhotos eram considerados como possessos do diabo e como a esquerda era considerada a via diabólica por excelência, especialmente porque Jesus disse aos de sua esquerda: Ide, malditos(Mt 25, 41). Os judeus tinham como norma: quem bater seu próximo no pescoço com o punho fechado deve dar a ele um shekel ou ciclo de prata equivalente a um mês de trabalho. Outros, como Maimônides, falam de bater com a palma da mão na bochecha e então serão 200 zuzim(= 40 ciclos) ou 400 zuzim(= 100 ciclos) se é com o revés da mesma, como se fosse com a mão esquerda. O revide está proibido neste caso como parte do mandato de Jesus. B) A CAPA: Também temos outro caso, o daquele que arrebata (Airo, remover pela força em grego) o manto; não lhe proibamos que tome a túnica, o vestido interior. Praticamente o tal espoliado ficava nu. Mateus leva o caso ao juiz querendo algum proveito do contencioso; a esse que quer até tua capa entrega tua túnica (5, 40). C) A CONTENDA JUDICIAL: A quem te pede dá. Realmente não é única e propriamente o caso de um necessitado que pede alguma coisa para comer ou vestir, mas é o caso de alguém que entra no tribunal pedindo compensação, como lemos em Mateus (6, 30). Isso indica a segunda parte do versículo: não impeças a quem arrebata o que é teu. São dois casos partiulares o golpe do rosto e o roubo da capa e um caso geral: a contenda judicial pelo que pensas te pertencer. É melhor perder uma prenda, a posse de um bem ,que suscitar um inimigo. Esta é a conduta divina como depois veremos.

SOLUÇÃO FINAL: Jesus dá uma regra de ouro como solução destes casos, precedida de um Kai , que traduz o waw hebraico. Podemos, dada a pobreza das línguas semitas em proposições, traduzir porque no lugar do simples e conjuntivo: Porque, como quereis que os homens vos façam, assim fazei-o também a eles de modo semelhante. Os rabinos proclamavam a regra de ouro em termos negativos: Não façais... Também Tobias usa a fórmula negativa nos conselhos dados a seu filho(Tb 4, 15). É uma base de reflexão cristã saber que a prática do bem é mais importante do que evitar o mal. Aqui encontramos a base da conduta de Deus para com os malvados e pecadores. Segundo Mateus esta é a lei e os profetas, termos que indicam a vontade divina. Esta é a primeira razão que serve para uma vida pacífica e de concórdia entre todos os homens. Porém existe uma nova razão: Porque se amais os amigos qual seria a vossa bondade, ( ou quem poderia agradecer-vos), já que também os gentios amam aqueles que os amam(30).Porque se fazeis o bem aos que vos fazem bem, qual é vossa bondade? Pois também os gentios fazem o mesmo(31).À parte a tradução do waw pelo porque que facilita a compreensão temos escolhido bondade como tradução de Charis que geralmente traduzimos por mérito ou recompensa, ou poderia agradecer-vos? Poderíamos traduzir também por: Qual o favor que estamos fazendo (aos nossos inimigos) se só amamos os que nos amam? Também temos escolhido pagãos ou melhor gentios como tradução de pecadores, pois aqui pecadores não é um adjetivo, mas um nome e sabemos como Paulo fala ter nascido de pais judeus e não de pecadores da gentilidade(Gl 2, 15).Confirmamos o anterior na base de uma máxima entre os judeus: Se um gentio mostra ser afável com um judeu oferecendo um favor, o judeu está obrigado a retribuir o mesmo. O mesmo podemos dizer do segundo caso, fazer o bem e do terceiro, emprestar, com os mesmos termos de comparação de bondade com os gentios a quem os judeus consideravam como incapazes de fazer o bem.

EXPLICAÇÃO: O versículo 35 é o grande resumo do tema do amor aos inimigos, geralmente os perseguidores do cristianismo como dissemos antes e em particular os que foram relatados em linhas anteriores. Contudo para amar os inimigos é preciso fazer o bem a eles, emprestar sem esperar retribuição. Assim vosso galardão será grande e sereis filhos do Altíssimo(Deus). Porque ele é benigno com os desagradecidos e maus. Como diz Abraham bem Dior, confirmando nossas palavras anteriores, não existe diferença para ele entre os que estão à sua direita e os que ocupam sua esquerda.

A MISERICÓRDIA: existem duas palavras Eleemon e Oiktirmon para indicar uma pessoa misericordiosa ou compassiva. O primeiro vocábulo é usado por Mateus nas bem-aventuranças e o segundo unicamente por Lucas neste versículo. Eleemon é mais conhecido porque temos o Kyrie, eleison (Senhor, tem piedade) da Missa que é praticamente a única palavra remanescente do antigo grego usado na liturgia romana. Oiktirmon é o preferido por Lucas como mais nobre e referido a Deus e não aos homens. Lucas olha o mal do mundo sob o aspecto da misericórdia divina, o atributo mais notável de Deus com respeito à História humana. Isso explica o mal do mundo. Deus se comporta como Jesus exige que procedam seus discípulos com seus inimigos. Proteger os amigos não tem Charis, não demostra bondade (o maior atributo divino) mas egoísmo. Amar os inimigos, como o Pai fez ao enviar o seu Filho para salvá-los (João 3, 16) é imitar a conduta divina e não se contentar com a conduta dos pecadores, pois não amar os inimigos reduziria a atitude divina à conduta dos malvados. O nome de Deus é o de Misericordioso (Rahamani), dirão os judeus. Misericordioso como em Ex 34.6, em que os setenta usam as duas palavras Theós Oiktirmon kai Eleemon (Deus clemente e misericordioso).

EXPLANAÇÃO: Já sem casuísticas e talvez como comentário temos os versículos 37 e 38 :Não julgueis e não sereis julgados. Não condeneis e não sereis condenados. Perdoai (as dívidas) e sereis perdoados(37). Daí, e no vosso seio vos será retribuída uma medida recalcada, sacudida , transbordante porque com a medida com que medis, sereis medidos.(38) Logicamente o juízo e a condenação serão particulares, no pensamento, ou melhor na corte judicial? É uma questão que pode ser discutida. Certamente o último versículo nada tem a ver com tribunais civis ou causas criminais. São duas proibições e dois mandatos positivos. A passiva teológica implica Deus na conduta generosa dos que tentam imitá-lo. A medida, tomada dos padrões áridos do tempo, bem apertada e sobreabundante é o prêmio divino a essa conduta humana que o imita. A conclusão é que a conduta humana determina a recompensa ou o castigo divino.

CONCLUSÕES E PISTAS: 1) Vemos como Jesus se dirige aos seus conterrâneos e discípulos. Temos a necessidade de extrapolar sua mensagem. Daí que o texto da vulgata seja válido para os que não entendiam o grego. Daí que também no dia de hoje tenhamos necessidade de bons exegetas que nos indiquem qual é o alcance das palavras históricas que foram escritas com diversas intenções e particularidades por dois magníficos intérpretes das mesmas, como Lucas e Mateus.2) O conjunto inicia-se com uma profecia de perseguição, para terminar com uma linha geral de conduta pautada pelo modo de proceder divino, modelo de todo discípulo de Cristo como o Pai é o modelo de seu filho. Essa conduta é rica em misericórdia.(Nm 14, 18), como deve ser a nossa. 3) A misericórdia divina explica a existência do mal no mundo sem recorrer a um deus do mal como seria o dos gnósticos ou a um diabo superpoderoso. Deus espera a convesrão do pecador e se isso não se dá ele segue os passos que Jesus mostra no trecho de hoje: faz o bem também ao pecador, ou como diz Mateus faz sair o sol para maus e bons e derrama a chuva sobre justos e injustos. 4) O politicamente correto não é sempre o eticamente permitido. Por isso a Igreja será sempre condenada e perseguida quando ambas asserções não coincidam. A razão dirão seus inimigos é a falta de adaptação ante o progresso moderno. A igreja não depende dos números nem dos votos mas da dignidade humana e da vontade de Deus.

EXEMPLO: Compreendemos melhor a conduta divina de respeitar e amar seus inimigos quando descobrimos a vida de Albert Michael Wensbourgh que estava condenado a 25 anos nos piores cárceres da Inglaterra. Ele teve uma vida marcada pela delinquência, a droga, o álcool, a pornografia e os abusos sexuais, especialmente os sofridos na sua infância por ser filho de uma família rota, que transformou a sua vida em ódio e sofrimento. Da sentença só cumpriria 14 anos rodeado por um fedor que ele chamava do inferno, de habitáculos sujos e podres, numa cela da ala C de Wakerfied. Os reclusos o respeitavam primeiro por medo e logo por ser um anjo de consolo e direção espiritual. No dia 1 de janeiro de 1997, Michael foi visitado por um anjo real. Assustei-me –diz ele- e fui para um canto da cela encolhendo-me e tentando proteger minha cabeça com ambas as mãos . Foi uma luz tão possante que despertou presos em celas vizinhas. Albert o viu no meio da luz, sem asas, mas com numerosos raios de luz que saiam de suas costas. Sua vida mudou repentinamente e de sua condição de preso passou a ser monge beneditino do mosteiro de Maria, Rainha da paz. Deus pode fazer isso e por isso espera e ama, sobretudo ama.