XII
DOMINGO DO TEMPO COMUM (Lc 9, 18-24)
A
CONFISSÃO DE PEDRO.-PREDIÇÃO DA PAIXÃO
(Pe. Ignácio
dos padres escolápios)
LUGARES PARALELOS: Mt 16, 13-20 e Mc 8, 27-29. Este último é, sem dúvida, a base do relato de Lucas um pouco mais elaborado que Marcos. Também podemos tomar como base da liderança petrina o trecho de Jo 21, 13-18, mas vamos explicar o que Lucas quer nos transmitir com suas palavras.
E SUCEDEU QUE: é uma maneira típica de Lucas que a emprega em várias ocasiões para iniciar um novo período. Ele encontrava-se orando a sós . A frase determina os acontecimentos como a revelação de Pedro de que era o Messias e a de Jesus de que esse Messias não era um vencedor mas um derrotado, como na continuação declara a seus discípulos. Lucas com isso evita o local e circunstâncias como Cesaréia de Filipe distante 40 km de Betsaida (dois dias de caminho desta última), que não era conhecida pelos seus leitores, e a proximidade do templo de Augusto, de mármore branco edificado sobre uma rocha que dominava acidade, e a fértil planície da qual era capital a antiga Pâneas porque perto da cidade existia uma gruta dedicada desde antiguamente ao deus Pan ou Panion. Herodes, o Grande, havia construído o templo e Filipe a cidade do seu nome como capital de sua tetrarquia.
A PERGUNTA: Era uma pergunta diretamente conectada com a oração de Jesus. Era o momento em que ele tinha decidido subir a Jerusalém ( Mt 16, 21) e em que os discípulos esperavam a restauração do Reino de modo político-militar. Jesus pergunta sobre a opinião do povo. As respostas dos discípulos sobre as opiniões do povo coincidem com o pensar de Jesus como um profeta. Na realidade a reposta da multidão era a mesma que Lucas traz em 9, 7-8: João Batista, Elias ou um antigo profeta, todos redivivos. Também João (6, 14-21) nos oferece a mesma opinião, pois o povo exclama: Este é verdadeiramente o profeta que deve vir ao mundo. Por que unicamente profeta e este redivivo? Tentaremos responder, seguindo os diversos comentaristas. A) O Batista: A pregação de Jesus e seus discípulos era a mesma: Arrependei-vos, o reino de Deus está próximo(Mt 3,2), e oferecia o batismo que também Jesus e seus discípulos praticavam (Jo 3, 22-23; 26). Além disto fisicamente Jesus parecia-se com João por serem ambos parentes próximos (Lc 1, 36). Da morte de João por Herodes poucos sabiam por ser uma espécie de secredo de Estado, e ter sido realizada segundo Flávio Josefo, em Maqueronte, território da Peréia na Transjordânia do lado leste do mar Morto. É por isso que foi o próprio Herodes quem afirma ser Jesus o Batista redivivo. O povo, que conhecia pessoalmente Jesus e o Batista, afirmava ser aquele o novo profeta que viria antes do Messias; e como a tradição afirmava que esse profeta seria Elias, pois este não tinha morrido, mas fora arrebatado ao céu no meio da tempestade de um carro de fogo, se acreditava que ele viesse; pois a Escritura dizia: Confortará muitos dos filhos de Israel ao Senhor, seu Deus. E de João, o Batista, afirmará Lucas que caminhará na sua frente com o espírito e o poder de Elias a reconduzir o coração dos pais aos filhos e os rebeldes à prudência dos justos[corretos] para preparar ao Senhor um povo bem disposto (Lc 1, 16). Pela mesma razão os enviados oficiais de Jerusalém perguntam a João se ele era Elias, o que ele nega; ou o profeta, ao qual ele responde: Não.(Jo1, 21). Segundo a tradição Elias escreveu uma carta depois de ser arrebatado (2 Cr 21.12) dirigida ao rei Jorão de Judá por sua conduta idolátrica já que tinha como esposa uma filha do ímpio rei Acab de Israel. Supunha-se pois, que Elias voltaria antes do dia do Senhor, o dia da vingança e do castigo dos ímpios, dia da ira que está por vir (Jo 3, 7). Em Malaquias 3, 1 lemos: Eu vos envio meu mensageiro. Ele aplainará o caminho diante de mim.( ver Mc 1, 2 e Mt 11, 14) Por isso, numa data posterior ao livro [após o ano 450 aC] identifica a este mensageiro ou anjo, com Elias (seria no acrescentado capítulo 4, verso 5 que não está no canônico de Malaquias). Na sua complicada alegoria animalística da História o livro apócrifo de Henoc (século II aC), descreve a aparição de Elias, antes do juízo e da aparição do grande cordeiro apocalíptico. Isto é importante visto que João, O Batista, fala do Cordeiro de Deus (Jo 1, 29). Em Eclo 48,10 temos outra referência do século II aC : Tu que fostes designado nas censuras para os tempos a vir , para aplacar a cólera antes que ela se desencadeie, reconduzir o coração do pai para o filho (Lc 1,17). Vistos os milagres que Jesus operava, os contemporâneos de Jesus pensavam que se não fosse Elias, que em vida realizou muitos e notáveis, devia ser um profeta redivivo [aneste=despertado], pois a profecia tinha acabado e não era necessária nos tempos messiânicos. Mateus e Marcos falam também de um dos profetas, sem o qualificativo de despertado ou revivido, sem chamá-lo de antigo. Os judeus distinguiam entre antigos profetas Josué, Juizes, Samuel, Reis e os últimos profetas, a começar por Isaias e terminar por Malaquias. A que profeta se referem os discípulos como porta-voz da vox populi? Talvez Samuel que já nos tempos de Saul se mostrou redivivo em 1 Sm 28, 12 diante da médium de Endor?. Ou talvez Moisés, pois a ele comparam a atuação de Jesus, como vemos em João 5, 45-46 e 6,31-32. Na realidade os enviados oficiais perguntam se João não era o Profeta (como conhecida personagem, esperada nos tempos messiânicos) de DT 18, 15-18. Javé disse a Moisés: um profeta como tu suscitarei do meio de teus irmãos. Por isso em 1 Mc 4, 46 aguardavam a vinda de um profeta que se pronunciasse a respeito. Dos essênios de Qumrã sabemos que esperavam um profeta em passagens referentes ao triunfo escatológico sobre seus inimigos. Em At 3, 22 este profeta semelhante a Moisés que deveria ser escutado em tudo era o próprio Jesus, coisa que o povo admitiu após a multiplicação dos pães (6, 14) e na festa dos Tabernáculos em Jerusalém (7, 40). Como uma nota antes de prosseguir, devemos fazer um pequeno comentário a estes dois versículos de João: indicam uma posição de idéias muito anteriores à data da redação final do evangelho. Dá para refletir um pouco sobre posturas preconcebidas de uma datação tardia do mesmo. Outro dos profetas que se esperavam na época era Jeremias, somente citado por Marcos porque como vemos em 2 Mc 2, 4-7 temos Jeremias escondendo a arca e o altar dos perfumes na montanha de Moisés para afirmar: este lugar ficará desconhecido até que Deus tenha consumado a reunião de seu povo e lhe haja manifestado a sua misericórdia. Como vemos a resposta dos apóstolos era um reflexo da voz comum do povo.
E VÓS: Agora a pergunta é dirigida aos apóstolos. Que idéia eles têm dele, o mestre que durante longo tempo foi seu guia, com o qual eles conviviam? Em qual dessas categorias estava delineado seu Jesus?
PEDRO: Ele toma a palavra como porta-voz do colégio apostólico para responder: O Cristo o de Deus. A frase em Lucas tem origem em Lc 2, 26 quando o velho Simeão é levado pelo Espírito a ver o Cristo (do) Senhor [=Javé]. A frase pode ser melhor traduzida em inglês: The Lord´Christ, pois em grego não tem artigo a palavra Senhor. É uma tradução literal dos Targuns que falavam do Messias como o Messiah [ungido]de Javé., pois em Isaías 4, 2 traduz: Naquele tempo o Messiah de Javé será para gozo e glória. E em Is 28, 5 o Targum diz: Nesse tempo o Messiah do Senhor, de todos os hóspedes será uma coroa de júbilo e uma diadema de louvor para o resto do povo. Podemos comparar estes dois comentários com Lc 2, 32 em que Simeão fala do menino Jesus como sendo a glória de teu povo Israel.
O CRISTO DO DEUS: A palavra Christós significa ungido, derivada do verbo Chrio ungir ou untar. Na realidade é uma tradução literal do Messiah aramaico ou Massiah hebraico. Originariamente parece que era uma referência ao Há Kohen Há Massiah [o sacerdote, o ungido] ou sumo sacerdote em cuja cabeça tinha sido derramado óleo, quando consagrado como mestre espiritual da comunidade. Daí que o Messias era alguém investido por Deus de uma responsabilidade especial. Nos tempos de Jesus existia a idéia de que um descendente da casa de Davi seria o Messias que redimiria a humanidade, tradição que provinha desde os tempos de Isaías ( cap 7). Essa tradição encarava o Messias não como um ser divino, mas apenas como um homem, um grande chefe, reformador social, que iniciaria uma era de paz perfeita. Atualmente a teologia liberal judaica encara o Messias em sentido comunitário, como a própria humanidade que, numa fase de sua futura evolução, chegará à idade messiânica em que uma ordem de paz social, justiça e liberdade será estabelecida. Para esta nova era, a missão do povo judaico, atuando em seu conjunto como Messias, é de vital importância, assumindo o papel da maior influência na educação moral da humanidade, promovendo desta forma a consecução dessa nova ordem social que pode assim ser chamada de Idade Messiânica. Mas pelo que contemplamos na História atual, nada mais oposto a essa visão; porque o atual Israel é a fonte da violência que desestabiliza todo o Oriente Meio. Em tempos de Jesus esperava-se, porém, um personagem, um rei, descendente da casa de Davi, para instaurar essa era messiânica.
A RESPOSTA EM MARCOS E MATEUS: A resposta de Lucas tem um precedente em Marcos: Tu és o Cristo (8, 29). Lucas acrescenta do Deus. O artigo determinado distingue o único, o verdadeiro Deus, ou o vivente, como veremos em Mateus, para distinguí-lo dos outros deuses, que não eram nem verdadeiros, nem tinham vida. A resposta em Mateus é: Tu és o Cristo, o Filho do Deus, o vivente, sendo que o vivente refere-se a Deus. A reposta original parece ser a de Marcos. Mas Mateus introduz matizes importantes que explicam o significado de Cristo em termos cristãos. Filho de Deus era o grito dos endemoninhados (Mc 3, 12).Era um título messiânico correspondente ao de rei. Assim o reconheciam os inimigos ao vê-lo na cruz (Mt 27, 40).Foi o reconhecimento dado pelo centurião após a morte de Jesus (Mc 15, 39). A mesma idéia encerra o título dado por Pedro em Jo 6, 69 Santo de Deus. A palavra Santo (ágios) significa consagrado. O santo atual seria o dikaios em grego que é traduzido por justo, aquele que cumpre perfeitamente os preceitos e observâncias da lei (Lc 1, 6). Importante é que Pedro introduz uma nova realidade na opinião do povo. De um profeta, ele passa a ver em Jesus o Messias esperado. Claro que Pedro pensa num Messias político-militar , vencedor dos inimigos de Israel e libertador de um povo que se achava no momento submetido, como Zacarias canta no seu Magnificat, porque a seu povo visitou e libertou e fez surgir um poderoso salvador na casa de Davi...de conceder-nos que libertos do inimigo a Ele sirvamos sem temor em santidade e justiça. Temos pois, uma resposta clara de Pedro que Jesus aceita no sentido literal: Ele é o Messias, seja o título dado em forma de Ungido (Cristo), de Filho de Deus, ou de Consagrado de Deus.
O SILÊNCIO: A atitude de Jesus perante a resposta de Pedro é uma ordem cominatória e severa de guardar silêncio. São os três sinóticos que confirmam esta proibição. O silêncio era necessário para não tomar como missão política o que era uma missão transcendental de ordem religiosa. De libertação do pecado e restituição da paz com Deus, em que o triunfo estava vinculado com a maior derrota, e a vitória da vida na morte do triunfador. Por isso Jesus explica claramente a sua missão como Messias em seguida.
O ANÚNCIO: Pela primeira vez das três vezes, Jesus fala do futuro que lhe espera em Jerusalém. É um anúncio que prepara os discípulos – embora de modo inútil- para acontecimentos futuros desagradáveis, se bem terminam numa morte aparente e numa ressurreição triunfal. Desde então Ele será o Ressuscitado e não o Crucificado. Os detalhes deste anúncio são importantes e merecem nossa consideração.
É NECESSÁRIO: O verdo Dei denota uma necessidade moral que depende em grande parte de um mandato divino. Os três sinóticos usam a mesma palavra em grego e são traduzidos ao latim pela mesma palavra, oportet. Jesus fala de uma obrigação moral que para ele era uma necessidade para cumprir os planos divinos e assim também ser exaltado como Senhor e Cristo (At 2, 36).
FILHO DO HOMEM: A frase Filho do Homem significa eu, ou melhor, a gente, e por apropriação de Dn 7, 13-14 o futuro rei, cujo reino será eterno. A esta visão apela Jesus perante o Sinédrio em Mc 14, 53. Na realidade com essa frase Jesus indica a sua natureza humana dentro da pessoa do Verbo, ou seja o homem Jesus de Nazaré, tal e como o viam seus contemporâneos. No lugar paralelo Mateus fala ele e Marcos, a quem segue Lucas mantém a mesma palavra Filho do Homem.
O SINÉDRIO: A reunião de Presbíteros, Chefes sacerdotais[sumos sacerdotes no latim de Mc] e Gramáticos [escribas no latim de Mc e Lc], não deixa lugar a dúvidas. É o grande Siinédrio de Jerusalém. È nas mãos deles que Jesus padecerá muito, será rejeitado e será morto. Mas ao terceiro dia ressuscitará. Só temos uma cita no AT em Sl 118, 22:A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular, palavras que Jesus cita em Mateus 21, 42.
A CRUZ: A palavra está precedida da negação a si mesmo. A cruz está ligada não unicamente ao Cristo como fundamento de sua vitória, mas a todo discípulo que deve carregá-la diariamente e não no fim da vida. Qual é o significado destas palavras? A Negação era dizer não; e esse verbo arneisthai é usado para uma negação cristã que se assemelha ao desprezo e oposição experimentados por Jesus no seu ministério. A palavra implica a negação de toda classe de valores ou opções pessoais, não tanto de condutas pecaminosas ou viciosas. É semelhante à conduta de Jesus que se esvaziou a si mesmo e assumiu a condição de escravo...humilhou-se e foi obediente (Fl 2, 7-8) indicando uma escravidão voluntária aos planos divinos, que pressupõe uma renúncia total aos valores considerados na época fundamentais para uma vida qualitativamente digna e feliz, como a formavam a comida, a bebida, o sexo, ou a riqueza, o apreço, o poder, a estima. Como afirma Paulo não podemos ter como máxima o comamos e bebamos, pois amanhã morreremos(1Cr,15, 32). É bom ler a passagem do apóstolo em que descreve a vida de um verdadeiro mensageiro de Cristo em 2 Cr 6, 4-10. Concorda com a visão de Jesus de quem é verdadeiro discípulo. Tomar a cruz cada dia. Estas palavras só aparecem em Lucas e neste lugar, sendo que alguns manuscritos omitem o cada dia. A palavra grega staurós significa poste e crucificar teria o sentido inicial de empalar. Porém na época de Jesus a cruz significava pendurar no madeiro [stipes] vertical, ao qual cruzava-se o patibulum [o patíbulo ou madeiro horizontal] que era carregado pelo réu no decurso de uma procissão em que o principal processado precedia o resto dos condenados. A este cortejo se refere Jesus quando diz siga-me. A cruz é pois, o modelo fundamental em que a vida do discípulo deve pautar-se como guia e modelo de conduta.
PERDER A VIDA: O psiché Grego que a Vulgata traduz por anima [alma] na realidade significa o alento de vida e a vida mesma. Salvar ou perder a psiché seria morrer ou viver. Daí que as traduções modernas traduzem por vida. O que Jesus apresentava como ideal era praticamente uma morte virtual e por isso o Mestre termina dizendo que, à semelhança dEle mesmo, a vida, aparentemente perdida, será definitivamente recuperada pelos discípulos do Senhor.
PISTAS: 1) São duas as questões que a meditação deste evangelho suscitam:1a)Jesus também pergunta a cada um de nós sobre o que Ele representa em nossa vida. Temos dado uma resposta afirmativa que concorda com a de Pedro: Ele é o Cristo Senhor, como dirá Pedro em sua primeira mensagem aos judeus. 2a) Jesus indica clara e terminantemente qual é a verdadeira disposição de quem quer ser seu discípulo. As duas perguntas requerem uma resposta valente e decidida. O cardeal Dario Castrillón, prefeito da Congregação do Clero escreve que o que se necessita para alcançar a felicidade não é uma vida cômoda , mas um coração enamorado como o de Cristo. E o amor é entrega, quanto mais absoluta, maior amor temos pela pessoa amada.
EXEMPLO: Nos anos cinquenta do século passado voltava um missionário da China onde tinha trabalhado durante 40 anos em lugares remotos fazendo de tudo para salvar almas e corpos. No mesmo paquebote voltava um famoso cantor que em 4 dias tinha cantado duas vezes e ganho uma considerável soma de dinheiro. O nosso missionário só tinha no bolso a passagem e alguns trocados para primeiras necessidades. Nas docas uma multidão esperava o cantor e com gritos e aplausos a multidão o recebeu com honras. O nosso missionário encontrou-se só sem que amigos ou parentes o recebessem, porque todos, ou tinham morrido, ou já não o conheciam. Triste e solitário, ele entrou com sua pobre mala na primeira igreja e queixou-se amargamente da recepção recebida. Uma voz doce lhe respondeu no profundo de sua mente: Espera, filho, até que chegues a tua pátria verdadeira.