XIII DOMINGO DO TEMPO COMUM ( Lc 9, 51-62)
A RECEPÇÃO DO EVANGELHO
(Pe ignácio dos padres escolápios)

1A PARTE

INTRODUÇÃO: As duas partes do evangelho de hoje pertencem à chamada interpolação maior(9,51-18,14). Considerando que Lucas segue em grande parte Marcos. este longo período é como um parêntese de Lucas antes de retomar a linha de Marcos. Neste trecho em que Lucas supõe Jesus como caminhando a Jerusalém, Lucas aproveita a circunstância para, na ausência de multidões, mostrar a verdadeira face do discípulo de Jesus. São ensinamentos internos dirigidos aos doze em particular e portanto a todo membro que queira formar parte do discipulado estrito. Hoje vejamos dois exemplos diferentes.

AO SE COMPLETAREM OS DIAS: A frase indica que todas as circunstâncias da paixão e morte de Jesus estavam programadas pela Providência e que Ele sabia pessoalmente o que ia acontecer. Os três anúncios de sua paixão (9,22; 9,44; 18,31-33), que têm paralelos nos outros dois sinóticos, claramente indicam como Jesus aceitava seu fim para cumprir toda justiça(Mt 3, 13), ou seja, a lei divina que ordenava a conduta humana para salvação dos homens ou santificação dos mesmos. Eram os dias de sua assunção, literalmente de ser assumido ou acolhido em cima. Com toda certeza, indica Lucas a morte de Jesus e sua exaltação por ser recebido como o Filho que cumpriu obedientemente sua missão e por isso elogiado como tal (Lc 9, 35).

ENDURECEU SEU ROSTO: Parece um hebraísmo porque nas línguas semitas não existem muitas palavras para indicar idéias abstratas. Hoje diríamos determinou-se a subir a Jerusalém. Talvez venha de Pr 21, 29: o mal tem um ar de afronta; o homem reto solidez no proceder.

MENSAGEIROS: A palavra grega é angellos que significa enviado. Era uma aldeia [komes] que devia acomodar Jesus e os doze. Para isso Jesus se serviu provavelmente de dois de seus discípulos como no caso da preparação da ceia pascal. Deste último caso sabemos os nomes Pedro e João. No nosso caso é possível que fossem os dois irmãos Jacobo e João. Foram rejeitados como veremos no parágrafo seguinte.

O CASO DOS SAMARITANOS: Na subida a Jerusalém os galileus tomavam a rota de Pereia, da Transjordânia, para evitar a rota mais rápida através da Samaria, que sempre era dificultada pela oposição dos samaritanos como contrários ao templo de Jerusalém. Foi isto precisamente o que aconteceu com os dois enviados para buscar alojamento. Samaria tinha sido a capital do reino Norte, fundada como capital por Omri em 870 aC. Após a destruição de Samaria em 720 aC por Salmanasar, os habitantes da região foram substituídos por colonos vindo da Babilônia.(2 Rs 17, 24). Depois do desterro, ao iniciar os judeus a construção da cidade e templo de Jerusalém, encontram oposição em certos grupos de vizinhos que se opunham. Essa hostilidade provinha, segundo a tradição, dos samaritanos. O fato de que uma população meio judia, que dava culto a Javé e restringia seus livros sagrados ao Pentateuco, e cujo templo estava em Garizim desde a época de Alexandro Magno até que foi destruído nos tempo de João Hircano ( filho de Simão o macabeu rei de 134-104) no ano 128 aC, odiasse os judeus, especialmente os que subiam a Jerusalém, é coisa natural. A samaritana pergunta a Jesus onde deve ser Javé adorado: Se em Garizim como faziam nossos pais ou em Jerusalém(4, 19). Tudo isto explica a razão do porquê os habitantes da aldeia em questão se opuseram a dar estalagem a Jesus e seu colégio.

FILHOS DO TROVÃO: Foram os dois irmãos, Jacob e João os que pediram fogo do céu para castigar os que se negaram a aceita-los. Jacob [suplantador]era um nome bem conhecido desde os tempos dos patriarcas. Jacó ou Jacob foi o gêmeo de Esaú e pai dos doze filhos que foram os ancestrais das doze tribos de Israel, nome que ele recebeu do anjo após a luta com este último em Peniel (Gn 32, 24-32). O nosso discípulo é conhecido como Tiago [o Maior] e assim é traduzido o grego Jacob. João [graça de Deus] é o nome de seu irmão e o autor do quarto evangelho segundo a tradição. A mãe de ambos era Salomé, acredita-se que parente de Maria(Mc 15, 40 e Mt 27, 56); e o pai Zebedeu(Mt 4, 21). O fogo que eles pediam era uma clara alusão ao caso de 2 Rs 1, 10-12 em que por duas vezes desceu fogo do céu para destruir duas forças enviadas contra o profeta Elias. Jesus tinha dado a eles o nome de Boanerges, que significa filhos do trovão ou seja, raios, pela sua impetuosidade. Neste caso os repreende. Alguns códices terminam o episódio com umas palavras severas de Jesus: Não conheceis de que espírito sois(55). E no começo do versículo seguinte (56) acrescenta: Pois o Filho do homem não veio para destruir as vidas[psychai] dos homens mas para salva-las. Pode ser que estas palavras que temos escrito em itálico sejam uma glossa do redator; porém refletem exatamente o pensamento do Senhor. Por isso se determinaram a buscar uma outra aldeia.

SEGUNDA PARTE:

O MODELO DE DISCÍPULO: Não falamos daquele que já está no círculo de seguidores, mas dos primeiros passos que devem ser como uma primeira determinação de seguir ao Senhor como objetivo de vida. Antes devemos pensar nas conseqüências, prever a nova realidade que devemos viver, para tomar a decisão correta e segui-la até o fim.(Lc 14, 31-33).

1O CASO: Aproveita Lucas que Jesus está a caminho de Jerusalém para apresentar o primeiro discípulo que quer seguir Jesus para onde quer que ele for. Parece uma proposta válida e totalmente desinteressada. A resposta de Jesus mais parece reprimir essa vontade que animar o ânimo do mesmo. Seguindo o modo de falar através de parábolas, Jesus lhe mostra a verdadeira realidade: Não devemos esperar de Jesus riquezas e bem-estar. Mais do que uma exposição da pobreza, é a demonstração da vida e caráter itinerante e viajante que corresponde ao discípulo, isto é ao que se entrega à evangelização. São os mathetoi [no caso os doze] que Jesus envia a anunciar o evangelho, (Mt 10, 1-15;Mc 6, 5-13; Lc 9, 1-6) e também os setenta e dois em Lc 10, 1-12. Isso vemos especiaLmente em Paulo e suas viagens apostólicas. Sabemos também como Pedro e outros discípulos viajavam nas suas correrias apostólicas de modo que na Dídaque se fala de que os apóstolos não deverão se deter mais do que um só dia ou dois. Se ficar três dias será um falso profeta. Ele só poderá levar pão e não dinheiro. Se pedir dinheiro será um falso profeta(XI, 5-6) Porque até animais que eram praticamente nada, como as raposas (Lc 13, 32) que à noite percorriam os campos, tinham tocas, e as aves do céu, como poderiam ser os pardais, que na realidade são vendidos por um vintém (Lc 9, 10) e que tanto se movem, possuíam ninhos, estavam em melhores condições que o Filho do Homem e seus discípulos com respeito a ter um lar fixo, que nem podia ser comparado com uma pedra para descansar e dormir. Outro assunto é a pobreza. Nos tempos de Jesus apareciam mensageiros de deuses que percorriam as regiões pagãs próximas da Galiléia, como um tal Luciano, enviado pela deusa Artagatis, que reunia donativos para os sacrifícios de seu santuário. Comprou um asno para carregar os donativos e no fim fez uma reata dos mesmos com os quais entrou no santuário. Em cada viagem trazia setentas sacos cheios. Por isso Jesus compara o seu suposto lar com uma pedra onde reclinar a cabeça para dormir, como era costume fazê-lo na época entre os peregrinos que subiam a Jerusalém. Assim termina esta lição de disponibilidade e austeridade que segundo Mateus (8, 19) foi dada a um escriba, ou como diríamos hoje a um advogado ou doutor em leis.

2O CASO: Jesus convida a uma pessoa a segui-lo. A resposta deste é que deve primeiro enterrar seu pai(59). Esta resposta pode indicar duas coisas: 1o) Que não todos os que Jesus chamou responderam tão pronto e generosamente como Pedro e André ou os filhos do Zebedeu (Mc 1, 16-20) nem como Mateus-Levi (Mc 2, 14), porque houve alguns que rejeitaram o convite do Mestre. 2o) Que as desculpas poderiam ser consideradas como razões realmente poderosas como acontece no caso atual. Enterrar o pai era um mandato tido como sagrado pela lei e a Mishnã. Até o sumo sacerdote podia tocar o cadáver do pai para enterra-lo. Todo aquele que deixa pernoitar um morto quebranta um preceito negativo - diz a Mishnã. No nosso caso o pai tinha falecido recentemente ou o convidado falava de cuidar do velho pai de modo que somente após a morte do mesmo poderia se ver desobrigado de um dever exigido pelo mandamento de honrar pai e mãe? É provável que seja esta a circunstância no caso: o velho pai precisava do filho, talvez único, para passar seus últimos anos como um ancião feliz a quem o filho servia de apoio na velhice até a hora da morte. A resposta de Jesus é surpreendente e até de difícil interpretação: deixa os mortos enterrar seus próprios mortos. Tu vem e anuncia o reino de Deus(60). Que significa? Que um morto, deve enterrar um ser passivo como ele, pesado demais até para um vivo forte poder manejá-lo sozinho? Temos que pensar numa metáfora. Jesus considera como mortas aquelas pessoas que não se deixam guiar pelo anúncio do evangelho. Não são unicamente surdos e cegos (Mt 13, 14-15) e se comportam como coisas inertes com coração de pedra (Ez 11, 19) ou seja não são vivos. Eles que façam e vivam segundo os antigos preceitos e tradições. Os discípulos de Cristo, porém, deve se orientar por critérios diferentes. Um pai, uma mãe, nunca deve interferir numa vocação como pedra de escândalo, como morto que pertence ao mundo dos mortos. De fato um pai que se opõe ao evangelho já está morto e nada se pode fazer por ele.

3O Caso: Deixa-me despedir-me primeiro dos de minha casa.(61). A resposta de Jesus é que não é digno do Reino de Deus quem após iniciar o trabalho se cansa do mesmo e desiste voltando a vista atrás. O trabalho de arar exige sempre olhar para a frente. Quem nessa tarefa volta a vista atrás é o mesmo que ter sua vontade ocupada em princípios opostos. Ou seja, está mais pendente de outra coisa que a do trabalho iniciado. O provável provérbio é que tenha alguma relação com o discipulado de Eliseu no tempo em que Elias o chamou quando estava arando no campo (1 Rs 19, 19-21), embora não parece que seja esta a razão, pois Eliseu voltou e depois de matar os bois, seguiu Elias.

PISTAS: 1) Existem duas maneiras de receber Jesus: como hóspede ou como discípulo e colaborador. Elas estão descritas no evangelho: A aldeia samaritana se negou por razões religiosas. É possível que muitas vezes tenhamos feito o mesmo quando o homem necessitado a nossa frente era um ateu ou um herege. Cristo nos mostra que não é essa a maneira de recebê-lo, já que em todo necessitado está sua pessoa. Como discípulo e colaborador na missão divina devemos estar prontos a partilhar da vida e do destino de Jesus, reconhecendo-o e aceitando sua pessoa como um modo existencial de vida.

2) Não se trata de aderir a uma doutrina, mas de seguir um Mestre ligando-se a sua pessoa para sempre. Essa vida em comum com o mestre transforma o discípulo[= aprendiz] em auxiliar, em enviado e colaborador, definitivamente em apóstolo, para difundir a essência de sua doutrina que é a disponibilidade às ordens do alto. Se as antigas profecias se cumprem perfeitamente em Jesus é porque este se torna obediente à voz das mesmas que é a voz do Pai. Se a vida e a doutrina de Jesus se cumprem em seus discípulos será porque estes se tornam dóceis à sua voz e seguem fiéis seus mandatos.

3) Nenhum valor ou lei humana deve ser anteposta ao convite, ao segue-me que uma vez escutado, se transforma em lei absoluta em decisão incondicional e definitiva à pessoa de Jesus que exige além da fé em suas palavras o amor com que o contemplamos e servimos. Podem ser ouvidas e admiradas as palavras dos grandes filósofos e pensadores, mas não por isso suas pessoas são dignas de nosso reconhecimento e amor.

4) Vemos como Jesus não recusa o martírio e se dirige a Jerusalém para aí dar testemunho[=martírio] de seu amor ao Pai e de seu sacrifício em favor dos homens. A cruz será para ele motivo de desejo e aspiração como quem ambiciona uma vitória final e importante. Nossa história é bem diferente: até a pequena cruz do dia-a-dia nos cansa e aflige quando deveríamos estar contentes porque é aí onde mais nos aproximamos de Jesus: padecer e não morrer dizia um alma santa, o que para nós é loucura, mas é a loucura da cruz de que fala Paulo.

EXEMPLO: Jesus deve se tornar nosso grande amigo, nosso íntimo confidente. Numa pequena igreja de subúrbios e sempre ao meio dia entrava um senhor com a roupa e o rosto sujos. Após uma breve genuflexão e um signar-se rápido, movendo um pouco os lábios, ele saia tão depressa como tinha entrado. Como o caso se repetisse uma e outra vez, o pároco tentou averiguar quem era a pessoa. Ao sair da igreja, o abordou e perguntou se era um mendigo e se necessitava alguma ajuda. O homem respondeu: Não, seu Vigário. Sou um trabalhador de uma empresa que está construindo um grande prédio a umas quadras daqui. Como só tenho um tempinho de descanso ao meio dia para o lanche, venho visitar Jesus que é meu amigo, sabe?, Eu só tenho tempo para lhe dizer: Jesus tu sabes que eu sou teu amigo. Assim continuou a coisa até que um dia o trabalhador não veio mais. O pároco que sabia que a obra continuava ainda, foi pedir informação entre os operários da mesma. A reposta foi que o tal visitante tinha sofrido um grave acidente trabalhista. Sabendo-o, o pároco foi visitá-lo no hospital. Pensou encontrar um homem triste e qual não foi sua surpresa, quando o encontrou, mais alegre do que o tinha conhecido quando, são e vigoroso, visitava a sua igreja. O enfermo explicou: Estou contente porque tenho uma visita diária que muito me conforta. Um homem entra e me diz todos os dias na mesma hora: Sou aquele que tu não deixavas de visitar. Eu não quero ser ausente nesta hora em que estás tão só como eu estava no sacrário da igreja que todos os dias visitavas.