XIV DOMINGO DO TEMPO COMUM (Mt 16, 13-30)
O MINISTÉRIO DE SIMÃO PEDRO

INTRODUÇÃO: O relato de hoje é transmitido por Marcos e Lucas com diversas variantes. E são precisamente essas diferenças as que valorizam o trecho transmitido de Mateus. Vejamos algumas

JEREMIAS: No XII Domingo deste ano temos explicado a razão de Jeremias ser incluído por Mateus como um dos profetas que eram vistos redivivos em Jesus. Moisés e Jeremias estavam unidos pelos 40 anos de profecia, ambos rejeitados pelo seus próprios povos; um deles jogado no rio, o outro dentro do cárcere; um resgatado por uma criada o outro por um servidor; um veio com palavras de reprovação o outro de crítica e repreensão. Em 2 Mc 2, 4-7 temos Jeremias escondendo a arca e o altar dos perfumes na montanha de Moisés para afirmar: este lugar ficará desconhecido até que Deus tenha consumado a reunião de seu povo e lhe haja manifestado a sua misericórdia. Por isso se pensava que Jeremias tinha emigrado para outro corpo ou tinha ressuscitado dos mortos.

A RESPOSTA DE SIMÃO: Provavelmente a resposta original está em Marcos: Tu és o Cristo[=ungido]. Esta resposta equivalia a dizer: Tu és o Messias. Foi por isso que Jesus proíbe que digam que ele era o tal de Messias(20). Não obstante as respostas de Simão estarem um pouco matizadas nos diversos evangelhos, Lucas dirá: O Cristo do Deus (sic). Cristo é a tradução direta do Messiah ao grego. O genitivo do Deus indica que a unção provém diretamente de Javé, o Deus de Israel. Essencialmente a resposta em Lucas não difere da original de Marcos. Já em Mateus existe uma diferença essencial. A tradução de Mateus é: Tu és o Cristo, o Filho do Deus, do vivente(16). As versões vernáculas traduzem por Tu és o Crsito, o Filho do Deus vivo. Como sempre, Mateus explica por meio de parêntesis ou circunlóquios o que não parece claro no texto original. Logicamente de um Ungido passamos a um Filho de Javé ou do Deus verdadeiro. Qual é o significado de Filho do Deus vivo? Foram estas palavras originais ou uma paráfrase da tradição para expor a primacia de Simão? O uso de Uiós indica uma relação natural à diferença de pais e assim temos filho do homem como alguém que possui a humanidade. Mais estrita neste ponto, seria a palavra teknon, que poderíamos traduzir por rebento, broto ou cria. A expresão no AT indicava o povo de Israel como especialmente protegido por Javé: Dirás ao faraó: Meu filho primogênito é Israel(Ex 4, 22-23). O rei davídico, por representar a todo o povo, recebe o mesmo título: Eu serei para ele um Pai e ele será para mim um filho(2 Sm 7, 14). Mas no NT quando se diz que é Filho Unigênito ou Único, ou também muito amado do Pai com quem partilha a natureza e dignidade divinas, aplica-se unicamente a Jesus como pessoa, já seja explicitamente, já seja de forma equivalente: Este é o meu filho,o amado(Mt 3, 19) ou 17, 5 com as mesmas palavras. Fala-se da confissão de Pedro; mas temos em MT 14, 3 uma confissão de Jesus como Filho de Deus anteriormente feita por Pedro após uma pesca milagrosa: Verdadeiramente tu és (sem artigo) Filho de Deus. O próprio diabo pergunta: Se és Filho de Deus (Mt 4, 3).Também os demônios saiam dos corpos dos enfermos gritando: Que queres de nós, Filho de Deus? (Mt 8, 29). O sumo Pontífice, Caifás, o conjura perguntando pelo Deus vivo [expressão para distinguir o Deus verdadeiro dos deuses falsos] que se declare se é o Cristo, o Fulho de Deus (Mt 26, 63). Marcos (14,61)formula a pergunta, dizendo: És tu o Cristo, o filho do Bendito? E Lucas((22, 67-70) és o Cristo? Porém na resposta de Jesus nota-se a transcendência de sua missão ao declarar que estará à direita do poder do (sic) Deus. E de novo perguntam Logo és o filho do Deus? Os seus inimigos burlavam dele dizendo que Deus venha livra-lo pois dise: Sou filho de Deus (Mt 27, 43) E até o centurião e os guardas de Jesus exclamam, ao ver os sucessos após a morte: De fato, este era Filho de Deus! (27,54). Que dizer de tudo isto? 1o) Que o título de Filho de Deus não constituía em Pedro uma novidade, nem era base de uma revelação especial, pois o título se estendia a muitas e diversas interpretações.2o) Que a verdadeira revelação era a de que Jesus era o Messias, mas que este Messias era na verdade O Filho de Deus, como perguntaria Caifás no julgamento perante o Sinédrio. Unicamente temos citado as passagens de Mateus. Nelas distinguimos duas frases com os mesmos vocábulos, mas de significado totalmente diferente pela adição de um artigo definido O. Não é o mesmo Filho de Deus que O filho de Deus. O primeiro indica um homem santo, um escolhido de Deus. A segunda expressão identifica a pessoa com O Messias, mas um Messias especial, que transcende as categorias humanas e como afirmou Jesus ante Caifás tem sua origem e triunfo como Senhor sentado à direita do Todo Poderoso e vindo sobre as nuvens do céu.(26, 64).É assim que o verão seus inimigos. A resposta de Jesus foi considerada como blasfêma, nos diz o evangelista.

O MAKARISMO: A palavra significa bem-aventurança, louvor de gratidão ou de admiração. No nosso caso é uma promessa de Jesus, devida à resposta extraordinária de Pedro. A solenidade toma conta das palavras de Jesus que usa vocábulos e metáforas novas que devemos interpretar com cuidado e carinho. Jesus afirma que Pedro é um homem privilegiado por Deus, um bendito do mesmo. Por que? Jesus usa o nome completo e formal: Simão Bar Jona. Simão filho de Jona ou João, como afirma o 4o evangelista( Jo 1, 42) pois ambas as traduções ao grego são possíveis. Carne e sangue é uma expressão semítica que significa homem, contrapondo a caducidade humana à onipotência divina. Não foi a lógica da razão humana mas a revelação veio de um outro mundo: o divino por parte de meu Pai que está nos céus. Esta é uma das vezes que Jesus afirma ser filho de Deus pois o estar nos céus indica uma procedência divina. O plural céus é próprio do judaísmo da época; pois como mínimo eram três os céus e até outros contavam muitos mais. Os céus eram o domínio puro da divindade assim com a terra estava sob o domínio dos homens e os infernos sob o domínio do príncipe do abismo, o Diabo ou Satanás. Isso indica que era uma revelação de origem divina, que relacionava a revelação do Filho com a revelação do Pai (Mt 11, 27).

O PRIMADO: Pedro é singularmente favorecido e atingido pelo nome oficial [bar Jona] e declarado abençoado, ele singularmente; o seu nome é trocado por outro que, por inspiração profética e divina, Jesus lhe mostra como seu futuro ofício e destino: será a rocha fundamento da fé [Lc 22,32] sobre a qual a Igreja estará edificada. Vamos explicar cada um dos pontos específicos. CÂMBIO DE NOME: Simão diminutivo de Simeão [=famoso] era o nome próprio do apóstolo. Agora será Kefas, (Jo 1, 42). É interessante que o nome do sumo sacerdote judeu era na época Kaifá ou Kaifás( Lc 3,2), que parece provir do aramaico e significa pedra. No AT temos duas passagens com a mesma palavra Kefa. Esta palavra Kefa [kep] sai duas vezes no AT em Jô 30, 6 habitavam nos declives das torrentes nas covas e nas gretas das rochas[rochedos ou penhascos] e em Jr 4, 29 todas as cidades fogem e se escondem nos bosques , escalam as rochas. A palavra não é pois, pedra, mas rocha. A tradução grega é petra. Petros masculino significa uma parte de uma rocha maior em tamanho que um Lithos[= pedra]. Nosa tradução seria: Tu és penhasco e sobre essa rocha edificarei a minha Igreja. IGREJA A ekklesia era inicialmente uma assembléia de cidadãos na praça pública para deliberar publicamente sobre assuntos públicos. Eram unicamente cidadãos especiais os que podiam se reunir em semelhantes assembléias. Entre os judeus era a sinagoga e para os cristãos era a reunião dos fiéis nos ritos religiosos ou finalmente o que chamamos povo de Deus agora com novo significado como Reino de Deus. No fundo está pois o povo eleito de Deus e a expressão bíblica de casa de Israel. A sinagoga como assembléia tinha um significado mais restrito segundo a lei judaica. Por isso não está fora do contexto traduzir por Reino de Deus, ou povo de Deus. A palavra Ekklesia só sai duas vezes nos evangelhos e ambas em Mateus: 16, 18 e 18, 17. Na segunda vez parece que se identifica com a reunião particular semelhante à sinagoga. AS PORTAS DO HADES: Na mitologia grega, Urano [o céu] uniu-se com Gea[ a terra] e teve vários filhos entre eles os Titães, dos quais fomava parte Cronos[o tempo], que os latinos chamavam de Saturno. Cronos devorava os filhos que teve de Rea [filha de Urano e Gea] a exceção de Zeus. Hades era o deus dos Infernos[ultratumba] filho de Cronos e de Rea. Ao vencer os Titães, Hades foi condenado a reinar sobre os mortos. Podemos traduzir biblicamente Sheol no lugar de Hades. Por sua vez os judeus falavam das portas do inferno como o Sheol. Existiam três portas: uma no deserto, outra no mar e outra em Jerusalém e um anjo estava de vigia nessas portas, cujo nome era Samriel que tinha três chaves em sua mão para abri-las. As portas da morte estão entre as expressões de Jó em 38, 17 e de Isaías em 38, 10. Portas do Hades é pois uma expressão que indica morte, o fim. A expressão será que a Igreja será protegida até o fim do mundo sem morte como acontece com os homens. Pedro morreu; logo deve existir uma transmiss]ao de poder a outros com o mesmo ofício.

AS CHAVES: Nesta linguagem metafórica continuamos com uma outra alegoria como são as chaves.[Kleis] O que segue é o Reino dos céus, que em Mateus é o mesmo que de Deus. A explicação de para que servem as chaves está na continuação: O que ligares..o que desligares. São palavras que indicam uma potestade judicial. Alguns comentaristas falam de Pedro como do mordomo da casa do Pai, pois era esse o ofício que deixava entrar ou impedia o acesso à mansão do dono. Mas é mais provável que seja um poder de decisão de dizer quem deve entrar e quem deve ser impedido nessa Igreja que temos identificado com o Reino. Os rabis afirmavam que Javé reconhecia suas decisões halákicas [judiciais] e os juízos dos tribunais rabínicos. O poder de Pedro é semelhante ao poder que os discípulos recebem em Jo 20, 23. Só que no caso de Pedro o ofício era de entrar a formar parte da assembléia como devia ser o ofício do porteiro da sinagoga nos tempos de Jesus, ou melhor de decidir que ensinamento era de Jesus e que ensinamento não pertencia à nova lei. O ean [se, quando] do início da frase nos dá direito a interpretar o texto da maneira mais ampla possível, sem excluir a disciplina e até o perdão dos pecados.

A PROIBIÇÃO: Comum aos três sinóticos é declarar que Ele, Jesus, era o Messias, e que não deviam anuncia-lo a ninguém. Isso indica que o episódio está textualmente mais correto na narração de Marcos e Lucas. Porém esta é uma prova de como na interpretação da doutrina existe como diz Ulrich Luz, autor protestante, uma produção de um sentido novo que a preponderância da sola scriptura não pode negar à totalidade da fé cristã. Ante fatos novos temos sempre que recorrer a interpretações novas. Praticamente está nos dizendo que a tradição é fonte da fé. E a tradição viu neste episódio o que nós católicos proclamamos como PRIMADO DE PEDRO.

Pistas: 1) Deixemos a primeira pergunta – quem dizem os homens que sou eu?- Porque tal e como está o mundo talvez a reposta muçulmana ( um profeta anterior a Maomé) seja a mais próxima àquela dada pelos discípulos em Cesaréia de Filipe. Vamos, pois, responder à segunda pergunta: E vós? Hoje não é suficiente a resposta de Pedro: O Messias, o esperado de Israel. A nossa deveria ser: O filho de Deus encarnado , que se entregou e morreu por mim (Gl 2, 20). Por isso vivemos a vida presente pela fé no Filho de Deus.

2) Os grandes místicos cristãos da idade média inventaram uma palavra que ainda tem ressonância nestes tempos de incredulidade e indiferença: redamatio ou seja o amor resposta ao amor recebido. Madre Maravillas, a carmelita, dedicou sua vida no século passado a viver sua vida em conformidade com essa palavra que constituiu a essência de suas atividades. Diante do coração de Jesus oculto na Eucaristia e tendo à vista a estátua do mesmo no centro geográfico da Espanha, ela se comprometeu a dar sua vida para que a sagrada imagem não fosse derribada pelo radicalismo anticlerical das turbas revolucionárias. A esse efeito obteve de Pio XI licença para sair do convento (de estrita clausura)e se enfrentar como parede humana aos incendiários. Antes que destruir a imagem de Cristo terão que destruir nosas vidas-disse.

3)Na verdade essa imagem de Cristo que todos nós levamos dentro desde o batismo está ou destroçada, ou escurecida. Como poderemos ser apóstolos se não sentimos sua presença dentro de nós? Como vender um produto do qual não estamos nós, os vendedores, convencidos?

EXEMPLO: D. Amália, viúva perto dos sessenta anos, recebeu a visita de um casal evangélico, bem trajados e com uma bíblia embaixo do braço. Não acha que só Cristo salva e que os homens nada podem fazer? Foi a primeira investida. D. Amália respondeu: Não sei ler nem escrever, mas na minha igreja todos os domingos lêem outras duas leituras que não são as palavras e os fatos de Jesus nos evangelhos. Se só Cristo é o único importante como é que temos como Escritura as palavras de S Paulo, S João e outros escritos? Eles eram homens e nós os escutamos com a mesma fé com a que escutamos Jesus. A segunda pergunta foi sobre as imagens. A escritura diz:Não farás para ti ídolos de coisa alguma (Ex 20, 4). D. Amália respondeu: Olha, eu levo pendurado no meu pescoço um crucifixo. Se eu tirar o corpo de Jesus do mesmo, ficaria uma simples cruz que seria um símbolo de nada, porque até poderia ser a cruz do mau ladrão. Mas com o Cristo pregado nela, eu sei que é a verdadeira cruz e sempre que eu a sinto dentro de mim, eu rezo com as palavras do bom ladrão: lembra-te de mim tu que agora estás no teu reino. A terceira pergunta : Só a fé nos salva. D. Amália responde: Eu tenho um filho de 11 anos que nasceu mudo. Ele não fala e eu não posso falar com ele, mas nos amamos muito e ele sabe disso e por isso vive feliz. Assim é minha vida com Jesus. Ele não é para mim a pessoa que possa entender ou com quem possa falar, mas eu sei que ele antes de mais nada é amor para mim. Eu não sei se a fé é mais importante; mas eu vivo com Jesus como meu filho vive comigo o amor; e sei que ele me ama. Isso é importante na minha vida. Finalmente falaram de só a graça e de que o homem não pode fazer nada como mérito para sua salvação. Ela então respondeu: quer dizer que a minha pobreza e todo o que eu sofri quando fiquei viúva e tive que lutar é a mesma coisa e vai ser considerada igual a de quem tem muito dinheiro e não têm que se preocupar do dia de hoje, nem do dia de amanhã? Que eles serão iguais a nós os pobres famintos? Então de que servem as bem-aventuranças, que tanta esperança me dão? E assim D. Amália ficou com sua Igreja que era a dos pobres, sofridos, a de Jesus pobre e morto na cruz, a de um Jesus que para ela representava o AMOR.