XIX  DOMINGO DO TEMPO COMUM ( Lc 12, 32-48)
ADVERTÊNCIAS DO SENHOR

(Pe Ignácio dos padres escolápios)


INTRODUÇÃO: O evangelho deste domingo tem três exortações  diferentes, precedidas de um estímulo inicial: Não temas, (tu) o pequeno rebanho! (sic) Vamos explicar ponto por ponto as diversas partes do mesmo.

1A PARTE: ESTÍMULO INICIAL

NÃO  TEMAS: Com as mesmas palavras [não temas] dirige-se Gabriel, o arcanjo, a Zacarias (Lc 1, 13) e a Maria (1, 30) ao anunciar uma boa nova tanto a um como a outra, ou seja o evangelho particular de ambos. Sem dúvida que aqui Jesus se dirige a seus doze discípulos (12, 22), com uma notícia que é de esperança para eles: porque foi do agrado do vosso Pai dar-vos o Reino (32). Que significam estas palavras? Teremos que compara-las com Lc 22, 28-30: porque permanecestes constantemente comigo em minhas tentações; também eu disponho para vós o Reino, como meu Pai o dispôs para mim, a fim de que comais e bebais à minha mesa em meu Reino, e vos senteis em tronos para julgar as doze tribos de Israel. O ambiente em que Jesus pronuncia as primeiras palavras é de preocupação, porque o mesmo Jesus viu-se obrigado a ir furtivamente a Jerusalém; já que, como diz Marcos, nessa subida, os discípulos estavam assustados e acompanhavam-no com medo(10,32); ou como narra João, Jesus percorria a Galiléia, não podendo circular pela Judéia, porque os judeus o queriam matar. E por isso subiu para a festa não publicamente mas às ocultas (ver Jo 7,1-14). Que tipo de reino era esse que o Pai complacentemente iria entregar? Era um convite da mais alta confiança: seriam os convivas no banquete ou seja nas delícias da nova escolha do povo, que tinha origem em Jesus, como seu rebanho do qual ele era pastor e rei. Mas dentro das estruturas do Reino eles deviam ser os juizes para julgar os que não quiseram entrar e impediram outros de entrar dentro de sua organização. Jesus promete uma distinção especial que é como entregar os mais cobiçados cargos àqueles que tinham compartilhado das tribulações de Jesus durante sua vida. Outros identificam o julgar com o reinar como foi o caso do livro dos juízes e assim se compreende melhor o porquê dos doze tronos, próprios dos que reinam e não das cadeiras judiciais. Podemos supor que ambas as opiniões podem entrar: os apóstolos reinarão e julgarão os seus conterrâneos acompanhando o soberano principal a quem o Pai deu o Reino, o poder, e que ele quer compartilhar com seus discípulos, assim como estes compartiram com ele suas adversidades e tribulações. O poder real e e o domínio sobre todos os reinos debaixo do céu serão entregues ao povo dos santos do Altíssimo (Dn 7, 27). O pior é que os apóstolos entendem estas palavras de um modo material e estrito que não é precisamente o que Jesus queria deles.  

VENDEI VOSSAS PROPRIEDADES: O grego diz literalmente as coisas sobre as quais tendes propriedade. Forma parte do primeiro conselho-mandato de Jesus nesta ocasião. Sem dúvida que uma das preocupações dos discípulos era como manter suas famílias e até a si mesmos sem ter uma base material. Jesus de novo dá uma lição de confiança na providência divina que cuidará de modo especial daqueles que dedicaram suas posses à ajuda dos mais necessitados. Quando Pedro pergunta que receberiam eles que tinham deixado seus bens para segui-lo , Jesus responde que receberão muito mais no tempo da vida presente e além disso a vida eterna(Lc 18,28-30) Marcos dirá que esse muito mais será cem vezes mais; Mateus, contrariamente ao que Lucas e Marcos narram, restringe a resposta de Jesus aos doze e portanto afirmará que assentar-se-ão em doze tronos para governar as doze tribos de Israel. Feita esta diversão, observamos como Lucas, no trecho de hoje, aproveita uma lição aparentemente particular para estender o ensino à generalidade dos discípulos de Cristo. O melhor que podem fazer é segui-lo deixando toda propriedade porque dando seus bens aos pobres terão bolsas que não envelhecem, um tesouro que não falha nos céus, onde ladrão não se aproxima nem traça corrompe (23). Evidentemente que se trata de tesouros em forma de grãos ou mercadorias perecíveis. É a mesma advertência que Mateus recolhe no sermão da montanha: Não ajuntar tesouros [no sentido explicado de depósito ou armazém] onde a traça e a ferrugem os corroem. E os ladrões arrombam e roubam.(Mt 6, 19-20). O que era uma exigência para os doze se transforma agora numa séria advertência para os que querem ser verdadeiros discípulos. 

ONDE ESTÁ TEU TESOURO: Entendemos por tesouro um amontoado tanto de metais ou coisas preciosas como de mercancias, como trigo, frutos, salgados etc. Parece que Jesus cita um provérbio que não é precisamente religioso, nem muito menos evangélico, e que seria patrimônio de todas as culturas. Um único comentário: podemos substituir o coração por mente ou desejo. O coração do homem, ou seja a imagem que representa a soma de suas energias e desejos, está sempre concentrado nas coisas que ele pensa serem  primárias em sua vida.

2A PARTE: A VIGILÂNCIA

A VINDA DO FILHO DO HOMEM: Sob este título podemos interpretar os parágrafos seguintes que constituem a segunda parte do discurso de Jesus. Com imagens aparentemente de extrema urgência, Jesus descreve a preparação para o fim escatológico que narra como eminente.  Podemos pensar que a escatologia não é uma vinda estrondosa ou espetacular, porque o Reino já está no meio de vós (Lc 17, 21). Alguns comentaristas falam da crise que viria no momento de paixão e morte de Jesus. É por isso que ele pede no horto das oliveiras: Orai para não entrardes em tentação(Lc 22, 40) que em Mateus e Marcos se completa com vigiai e orai para que não entreis em tentação, pois o espírito está pronto mas a carne é fraca(Mt 26,41 e Mc 14, 38) Toda tribulação exige preparação que Jesus descreve com as imagens de cingir os quadris  e ter as lamparinas [luzes] acessas. Jesus emprega duas imagens para descrever não tanto a incerteza do evento como a preparação em termos de vigília dos servidores. Como as túnicas dos orientais eram longas, como se fossem vestidos talares [até os calcanhares] eles as recolhiam, dobrando-as no cinto que cingia seus quadris para trabalhos mais duros ou pesados ou ao empreender um caminho longo como em Ex 12, 11 ou 1 Rs 18, 46. Devemos distinguir também entre lampas [tocha] que usavam as virgens acompanhantes do esposo e lyxnoi [candeias ou lamparinas] que iluminavam as casas. Estas últimas é que devem permanecer acesas, esperando a volta do dono de uma festa, pois gamoi em plural, não designa casamento mas festa em geral. Para que ao bater o dono à porta lhe seja aberta de imediato.

AS VIGÍLIAS: No cômputo judeu, a noite estava dividida em três vigílias de quatro horas cada uma.  A parábola, ou exemplo diz, pois, que devemos estar vigilantes como se fosse dia a noite inteira, pois a primeira vigília, é lógico que não sirva para dormir, mas com a terceira completamos a noite como se fosse um dia de trabalho, neste caso de espera. Não importa a hora, o que é preciso é estar despertos para que o dono não encontre os servos dormidos.

BEM-AVENTURADOS: Na realidade os servos não fizeram nada mais além de cumprir seu dever; mas o dono os recompensa de um modo completamente insólito. Ele se torna escravo e os serve à mesa. É o tipo de exageração que ressalta o bem conseguido pela conduta impecável dos servos ao esperar vigilantes o seu dono. O caso se torna mais compreensível caso seja Deus o dono.

O LADRÃO: Um outro exemplo para recalcar a necessidade de estar vigilantes e preparados: se o dono da casa soubesse o momento exato em que o ladrão estivesse para entrar furtivamente ele vigiaria e não deixaria que sua casa fosse furada. Alude Lucas ao modo de construir as casas, de adobe, de modo que era mais fácil penetrar nelas através de um buraco nas paredes que arrombando a porta das mesmas.

O FILHO DO HOMEM: Parece um acréscimo sem sentido esta alusão. É talvez uma redação reflexiva de Lucas, preocupado com o problema escatológico da vinda do Senhor. Ele traz a observação como um parêntese surgido ao narrar os fatos do evangelho. É curioso que o problema do Reino, que enche grande parte das parábolas e ditos de Jesus nos sinóticos, só aparece em duas ocasiões em João: como explicação a Nicodemos sobre o nascer de novo para entrar no reino e como resposta a Pilatos que pergunta se ele é rei. O problema da vinda triunfante do Senhor era crucial nos primeiros tempos do cristianismo, como vemos na carta primeira aos Tessalonicenses, escrita no verão do ano 50. Essa expectativa está presente em todo este trecho de Lucas em que o Senhor Jesus chama a si mesmo Filho do Homem que aparece em Lucas 24 vezes e sempre com artigo: o Filho do Homem. Precisamente é o artigo  que o distingue de um ser humano comum para entrar na escatologia;pois é o Jesus que representa o reino divino como chefe e soberano do mesmo, segundo Daniel 7,13-14. É o Jesus da resposta ao Sumo Sacerdote Kaifás: O Filho do Homem sentado à  direita do poder de Deus (Lc 22, 69) e vindo sobre as nuvens do céu(Mt 26, 64). Deste modo este segundo trecho está relacionado com a expectativa escatológica dos primeiros cristãos. A questão da vigilância é comum com o discurso escatológico da ruína de Jerusalém (Lc 21, 34-36). Esta passagem tem seus duplicados em Mc 13, 33-37 e Mateus 24, 37-44.

3A PARTE: O ADMINISTRADOR FIEL.

A PERGUNTA DE PEDRO: A parábola é para nós ou para todos? Pedro era o porta-voz dos doze e por isso ele pergunta se o ensinado por Jesus em forma de exemplo, é só para eles, os doze, ou para toda a multidão dos que se consideravam como discípulos. Jesus não responde diretamente à pergunta mas indiretamente dá uma lição de conduta para todos os que têm na comunidade um cargo de autoridade, de mandato, que deve se transformar em serviço. Todos são administradores com responsabilidade e é sobre como deve ser dirigida e exercitada essa responsabilidade que Jesus narra a seguinte parábola com três tipos diferentes de escravos em postos de responsabilidade.

PRIMEIRO TIPO DE ESCRAVOS: É o mordomo responsável de modo que não exista roubo nem dolo e ao mesmo tempo sábio, inteligente, de forma que saiba distinguir entre o necessário e o puramente acidental, entre o que deve ser feito para gastar e guardar o patrimônio, para o serviço da casa como diz Lucas, pois o principal era o cuidado de dar no tempo a refeição de pão necessária [ração de trigo no original].

A VOLTA DO DONO: Parece que Jesus está pensando numa ausência e que satisfatoriamente o dono encontra tudo como tinha planejado. Por isso o abençoa e o recompensa como administrador total de suas posses.

SEGUNDO TIPO: O servo irresponsável. Agora Lucas emprega a palavra certa: doulos escravo, pois, no tempo de Jesus, eram os escravos domésticos os que se encarregavam da administração das casas ricas. Agora o escravo do modelo tem uma conduta que podemos chamar de irresponsável, pois primeiro pensa que seu dono demorará na volta e logo começa a atuar como dono real, batendo nos escravos e escravas e desfrutando da vida, comendo bebendo e embriagando-se. Parece uma descrição do que era, na época, a vida dos ricos. O resultado de semelhante conduta não pode ser mais desastroso. Virá o dono desse escravo no dia não esperado e na hora que é desconhecida e o partirá em dois (sic) e o colocará entre os que não merecem confiança. Logicamente partir em dois deve ter um significado metafórico, não real, porque logo está vivo como para poder ser colocado entre os servos que não merecem confiança. Ou seja o tratará como um escravo fugitivo.

TERCEIRO TIPO:  Jesus descreve a conduta daqueles que conhecem a vontade do dono mas nem se preparam[para recebê-lo] nem a cumprem, receberão como castigo uma boa surra de paus. Era o castigo comum na época para os escravos cuja conduta desagradava o dono.

ÚLTIMO TIPO DE CONDUTA REPROVÁVEL: Para aquele que não conhece a vontade do dono mas faz coisas que merecem castigo [golpes] será golpeado poucas (vezes). O grego termina com o adjetivo poucas ao qual devemos logicamente acrescentar o nome que aqui parece mais apropriado, vezes ou golpes.

MORAL DA HISTÓRIA: Ao que muito foi dado( por Deus, como passiva impessoal) muito será exigido dele; e ao que muito lhe foi oferecido[apresentado] mais se pedirá dele.

PISTAS: 1) É de destacar a insistência de Lucas e de sua comunidade na esmola como meio de vida cristão. Existem duas maneiras de viver em radicalidade, por não dizer totalidade, o evangelho: renunciar aos bens terrenos ou repartir com os necessitados as riquezas de que somos administradores e não donos absolutos. A segunda parte pode ser tomada como uma adaptação do evangelho aos dirigentes das comunidades em que devia existir uma administração de bens comuns, como narram os Atos 4, 34-35. Porém se pensamos que Deus está presente como dono de tudo, também a segunda parte está intimamente unida à primeira, de modo que o dinheiro será o teste para saber quem é melhor administrador e como ele será considerado pelo dono absoluto que é Deus. O dinheiro como teste de nossa honradez e fiabilidade para com Deus.

2) O nosso tesouro é o amor em nossos corações, que é o maior fruto do Espírito(Gl 5, 22). No caso das riquezas materiais o amor nos impele a seguir o exemplo de Zaqueu: Dar a metade aos pobres. Isso pelo menos deve ser feito com o chamado supérfluo de nossos bens. Melhor: todo o supérfluo como diz Tobias pertence aos pobres. Por isso uma norma que pode ser exigida na atualidade é que gastemos tanto em esmola como gastamos em diversões. Isso não nos torna mais pobres e torna mais ricos os pobres.

3) A exortação à vigilância é hoje uma exortação a uma vida austera e simples. Não temos uma ameaça de destruição como era a de Jerusalém; porém temos uma ameaça que está num futuro próximo: a do meio ambiente. Se não sabemos ser austeros em nossas vidas e dilapidamos o que temos, que poderão herdar os futuros habitantes da terra?

4) A última parte do evangelho é, segundo muitos, uma referência ao purgatório. Não é a fé que determina o prêmio ou o castigo; mas a fidelidade à vontade do Senhor. Especialmente se consideramos que o dono é uma figura representativa do próprio Deus.

EXEMPLO: Um amigo protestante uma vez me confessou: Engraçado como a vida muda as opiniões: Vocês católicos começaram em Trento por afirmar a necessidade da moral na salvação. Nós ficamos só com a fé. Mas agora parece que os papeis foram trocados. A sua fé deve ser forte para afirmar que as palavras de um homem podem mudar um pedaço de pão e umas gotas de vinho no corpo e sangue de Cristo. A nossa fé nos deixa com a interpretação particular da palavra segundo o que queremos acreditar. E enquanto nós colocamos a ênfase da vida cristã na proibição do fumo, do álcool, sexo, jogos e diversões, a sua moral, cujos princípios eu não posso pelo menos de admirar, é na prática relaxada, tanto individual como familiar e socialmente. Como mudam as coisas!. Existe uma anedota de um hospício romano onde foram parar dois homens. Um dos loucos era ardente garibaldino a favor da apropriação dos estados pontifícios pela casa de Sabóia; o outro um sacerdote cujas pilhas estavam trocadas. Durante a noite, o primeiro começou a gritar: Viva Garibaldi”. E este último respondia: Viva Pio Nono! Quando amanheceu os gritos continuavam só que o garibaldino, já rouco, bradava: Viva Pio nono! E o padre se esforçava por responder: Viva Garibaldi!. Muitas vezes o que afirmamos não depende da razão ou da lógica, mas de que haja alguém que nos leve ao contrário, porque é assim que encontramos a única maneira de afirmar nossa personalidade.