XV DOMINGO DO TEMPO COMUM (Lc 10, 25-37)
COMO OBTER A VIDA ETERNA ? QUEM É O MEU PRÓXIMO?
(Pe. Ignácio, dos Padres
Escolápios)
O
evangelho pode ser dividido em duas partes diferentes: 1o A pergunta
do nomikós [advogado, ou intérprete da lei] sobre a obtenção da via
eterna. 2o A resposta de Jesus sobre quem deve ser considerado o
nosso próximo. Vamos estudar cada um dos dois pontos extremamente
interessantes.
A PERGUNTA DO
ESCRIBA: A
perícope é narrada também pelos outros dois sinóticos, Mt 22, 34-40 e Mc 12,
28-31. Segundo Marcos e Mateus, mais próximos da cultura semítica, parece que
Jesus estava ensinando. Daí o levantou-se (23) e o título de Didáskale
(magister ou mestre). Pelas circunstâncias narradas pelos outros dois
evangelistas, sabemos que estamos em momentos de discussão e que os primeiros a
brandir uma lança foram os saduceus, que tiveram que se retirar emudecidos (Mt
12, 28); e foi então que os fariseus entraram na lide com a pergunta, também
capciosa, do nosso jurista. A palavra Nomikós significa um jurista ou
jurisconsulto, perito em dar solução a problemas sobre a lei [nomos]. Como a
lei jurídica dos judeus era a Torá, daí que o nosso jurista era um perito na
lei mosaica. Segundo os outros dois evangelistas o jurista pergunta qual ´e o
primeiro (Mc) mandamento, ou grande(Mt) no sentido de superlativo que o
hebraico não tem. Era a disputa de sempre entre as diversas escolas que deviam
escolher dentre os mandatos maiores, qual deles era o mais importante. Para
Lucas o problema era de justificação, como diz Paulo, e por isso a pergunta é
diferente: Que devo fazer para herdar a vida eterna? Vamos fazer uma
distinção: Nomos era a tradução de Tora, a Lei de Moisés, que tinha 613
mandatos ou entolai dos quais 248 eram positivos e 365 negativos. Os
rabinos diziam que o Santo só revelou a recompensa para dois deles, o mais
importantes entre os importantes, como era
honra teus pais (Ex 20,12) e o menor ente os pequenos que era deixa
livre a mãe quando apanhes os passarinhos(Dt 22,7). A Torá não era problema
entre os gentios de Lucas, que talvez nem a conhecessem. Daí que a pergunta do
nomikós fosse referente à salvação. Precisamente o problema mais angustioso
entre os gentios era como obter a vida eterna. E a pergunta do jurista entrava
dentro de seu anseio essencial. Um jurista judeu ensinava a lei e a
interpretava. E um dos problemas que devia solucionar era precisamente esse:
Que deve ser feito para herdar a vida eterna? A pergunta surge com a leitura de
Daniel 12, 2-3. O profeta prediz tempos difíceis em que haverá uma ressurreição
dos que dormem [mortos]: Estes para a vida eterna, aqueles para o opróbrio,
para o horror eterno. A Setenta tem eis aiónion zoén [para a vida
eterna]. De um intérprete,pois, da Escritura podemos esperar essa problemática
que considera essencial, assim como a samaritana perguntava sobre o lugar mais
apropriado para adorar o Senhor (Jo 4, 20).
A RESPOSTA: Marcos cita textualmente o Shemá
a oração que duas vezes no dia deviam recitar ou entoar os israelitas
maiores de idade. Essa prece reconhece o Senhor como único e manda amá-lo de
todo o teu coração [kardia] de toda a tua alma [psyché] e de toda
a tua força [dýnamis] (Dt 6,5, cita direta da Setenta). Marcos acrescenta mais uma potência a dianóia
[mente ou pensamento]. Mateus usa só três termos mas substitui a força pela
dianóia. Vejamos as faculdades com as
quais devemos amar. A bíblia usa o leb [kardia, cor, coração] em sentido
figurado principalmente,e significa muito mais do que pretendemos nas línguas
modernas. Designa a personalidade consciente, inteligente e livre, a vontade e
os desejos, as emoções e os sentimentos: no fim, o homem na sua mais profunda
intimidade. Em especial no nosso caso, é a sede do entendimento, fonte do pensamento,
da vontade e dos desejos. Nefesh: A segunda faculdade humana é a nefesh
[psyché, anima, alma (traduzimos para o grego, latim e português)] que
embora em termos bíblicos designa todo o homem enquanto vivo, como faculdade,
podemos dizer que é seu alento vital, que anima o corpo e se mostra
principalmente na respiração. É o elemento que não desaparece com a morte. MEOD:
O terceiro elemento é meod [dýnamis, fortitudo, posses ou forças].
Marcus e Lucas acrescentam ou dividem o meod em duas faculdades: Dianoia
[mens, mente] e ischyos [virtus (vires em Lc) , força]. Que dizer de
toda esta abundância de detalhes? Tanto o Deuteronômio como os evangelistas
usam uma fartura propositada de faculdades humanas para afirmar que o amor que
devemos a Deus não tem limites e é com tudo que devemos amá-lo ou melhor
servi-lo. como sendo o único Senhor que dispõe e propõe de nossa existência;
pois o sentido do amor que a Ele devemos, está determinado, tanto pelas
faculdades a Ele submetidas como pelo atributo que acompanha a palavra chave de
Deus: Ele é Senhor e as faculdades que formam o homem completo, como composto
das mesmas [kardia, psyché,ischys e dinamis] estão todas subordinadas ao seu
serviço total [ex holes, ex toto, de todo]. O homem depende do que Deus quer e
como Deus quer. e até quando Deus quer ( S. Maravillas). Mais um detalhe: na
reposta de Lucas, Jesus usa o método socrático de responder perguntando e nessa
pergunta ele pede ao escriba que lembre do que está escrito na Lei e que ele
reconhece bem, ou recita como Keriat Shema; recitação que era
obrigatória desde que se possa distinguir entre o azul e o branco, segundo a
Mishnã.
O PRÓXIMO: RÉA ou REYA é a palavra
que usa o Pentateuco para designar o próximo. Com o número de Strong
<07453> aparece inúmeras vezes no AT. Sua tradução originária é ASSOCIADO;
mas aparece com os significados de irmão, companheiro, camarada, amigo,
esposo, amante e vizinho, segundo os diversos textos. Como mandato dentro da
lei, aparece em Dt 5, 20: Não dirás falso testemunho contra teu próximo. Com
o significado de amigo lemos teu amigo que amas como á tua alma Dt 13, 6.
A passagem que o nomikós cita é Lv 19, 18: Não te vingarás nem guardarás ira
contra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo. O
famoso Hilel, o ancião, ditou este preceito em outras palavras: Não faças a
teu companheiro o que não queres que te façam. Segundo o comentário bíblico
moderno do rabino Meir Matziliah, as palavras que designam companheiro, próximo
e irmão são réa – amith- ben- am- ah. Ah
é irmão e era usado para todo israelita. Em Lev 19, 17-18 saem esses quatro
termos ah (irmão) amith (companheiro), bem (filho) am
(povo) e rea (próximo) A citação será: Não odiarás o teu irmão [ah
0251] no teu coração; repreenderás a teu companheiro [amith 05997] e por causa
dele não levarás obre ti pecado(17) . Não te vingarás nem guardarás ira contra
os filhos [ben 01121] do teu povo [am 05971]; mas amarás o teu próximo [reya
07453] como a ti mesmo. Marcos e
Mateus, após terminar a exposição do Shemá como mandato primordial, acrescentam
umas palavras de Jesus: o segundo é semelhante: amarás o próximo como a ti
mesmo. Marcos dirá que não existe
outro mandamento maior(12, 31). E Mateus que nestes dois mandamentos dependem
toda a lei e os profetas( 22, 40) Lucas é o único dos três evangelistas que
narra a parábola como resposta à pergunta imediata do nomikós: A quem devo
considerar meu próximo? A resposta da lei [Tora] era clara: Não levantarás
uma acusação que faça derramar o sangue de teu próximo (Lv 19, 16) e
tratarás o migrante que mora entre vós como um de vós; amá-lo-ás como a ti
mesmo (Lv 19, 34) Mas Jesus com uma parábola que é uma página das mais
belas da literatura universal, e com detalhes se não reais, pelo menos
verossímeis no estilo de haggadá [narração] nos oferece um mashal [exemplo ou
parábola] em que o importante é a moral da estória embora possam existir
pormenores que sejam utilizados alegoricamente. A parábola tem muitos detalhes
que foram tomados da realidade do tempo. Vamos explicar alguns deles..
DESCIA DE
JERUSALÉM A JERICÓ:
Na realidade Jerusalém está a 800m sobre o nível do Mediterrâneo e Jericó a
300m sob o mesmo nível, havendo pois, uma diferença de 1100 m e sendo o caminho
descendente. Jerusalém era a cidade sacra por excelência e Jericó uma cidade
que Herodes o Grande tinha como lugar de prazer. Em Jericó estava também uma
colônia de sacerdotes, de modo que era uma cidade dormitório dos mesmos. A
distância entre Jerusalém e Jericó era de aproximadamente 150 estádios ou 28
Km. O caminho era praticamente desértico e pedregoso, como era o deserto de
Judá de que forma parte.
OS BANDIDOS: O grego distingue entre Kleptes
[ladrão às escondidas] e lestes [bandido ou salteador]. Estes últimos
eram freqüentes nos tempos de Jesus em forma de salteadores de caminhos ou
piratas do mar. Ambos eram condenados à morte na cruz. Assim eram os dois que
acompanharam Jesus segundo Mt 27, 38 que Lucas 22, 33, chamará de malfeitores
[kakourgos]. Seriam zelotas que, devido à sua vida fora da lei, se tornavam de
revoltosos em bandidos como atualmente acontece por exemplo na Colômbia? È
provável. O caso é que despojaram o nosso homem de tudo, deixando-o nu e
coberto de feridas, como morto. Não era infreqüente este fato e precisamente
num trecho do caminho chamado subida de Adummim [dos vermelhos] que parece
indicar sangue. Ai deixaram, como se fosse um cadáver, o infeliz assaltado.
O SACERDOTE E O
LEVITA: Como
temos visto, Jericó era uma cidade dormitório de sacerdotes e levitas. Talvez
existisse uma outra razão para que Jesus colocasse estes personagens: a
impureza que, como servos do templo, deviam evitar a contaminação com um
cadáver, que era uma das impurezas mais graves(Nm 5,2) e até o templo do Senhor
estaria impuro se o sacerdote ou levita não fizer antes a sua purificação.. Um
sacerdote ou um levita só podiam contaminar-se com um cadáver no caso deste ser
um parente dos mais próximos(Ez 44, 25). E sabemos como a lei da impureza era
de suma importância entre os judeus. Até a aproximação com um cadáver podia ser
causa de tal impureza, como era entrar na tenda onde estava o morto(Nm 19, 14).
Especialmente era impuro aquele que tocar um cadáver morto pela espada no
campo(19, 16). Daí que ambos deram um rodeio par evitar semelhante impureza,
pois consideravam que o homem estava morto. Sem dúvida que Jesus escolheu as
circunstâncias e os atores para indicar que a lei não devia estar por cima da
misericórdia (Mt 9, 13).
O SAMARITANO: Jesus escolhe o homem mais odiado
pelos judeus, um herege, que do ponto de vista de um jurista era pior do que um
pagão. E este homem tão desprezado foi o que realmente atuou como próximo
[vizinho-amigo] de um outro a quem devemos amor. O que fez o samaritano não era
comum na época. Também eles tinham as leis de impureza. Mas a compaixão(33) o
obriga a cuidar de um estranho que estava em perigo de morte. O verbo usado por
Lucas é o mesmo que usa quando Jesus se move a compaixão por doentes ou
necessitados(Lc 7, 13). A primeira coisa que o samaritano fez foi vendar as feridas,
após aplicar óleo e vinho, remédios da época.
Misturados, serviam para curar feridas e até a chaga da circuncisão como
está escrito na Mishnã. Pois até em sábado se podia executar o rito, só que não
se podia misturar óleo e vinho, cuja mistura devia ser feita antes, para não
infringir o descanso prescrito nesse dia. Por isso estava prescrito que se
aplicassem por separado. Após vendar as feridas, o samaritano montou o ferido
na besta; o asno era a montaria permitida
pois o cavalo era usado só pelos homens de guerra. E o levou a uma hospedaria
[pandocheion] de pan[todo] e dechomai[receber] e o cuidou. No dia seguinte
pagou dois denários ao hospedeiro dizendo que na sua volta pagaria tudo quanto
fosse devido.O denário era a moeda com a que se pagava o trabalho de um dia.
Visto o que temos escrito sobre próximo, é evidente que o feito pelo samaritano
é o que se espera de um amigo ou de um parente. Por isso não é uma conduta
irreal ou extremamente fora do comum.
A PERGUNTA: Qual destes três te parece que foi
o próximo do homem ferido pelos bandidos? Logicamente o escriba teve que
responder que o samaritano. Porém usa um circunlóquio: o que usou de
misericórdia. Jesus então responde: vai e procede tu de igual modo.
OBSERVAÇÕES: Jesus não muda a lei a antiga,
Torah, mas explica o significado da mesma indicando quem deve ser considerado
como próximo, ou melhor, quem atua ou ama como próximo. É uma lição de amor
mais do que uma lição semântica de quem deve ser considerado como próximo. O
amor é o que nos salva ou em palavras do jurista nos dá o direito de herdar a
vida eterna. O samaritano é a figura chave de como devemos nos comportar para
que a lei do Levítico seja norma de nossa vida: amarás o próximo como a ti
mesmo. Por isso o samaritano cuida com
perfeita lógica de um aparentemente estranho, como ele mesmo queria ser
tratado: Sem poupar qualquer cuidado ou solicitude. E neste trato não existe
diferença por causa de religião ou etnia. Todos devemos tratar o outro ,
qualquer que seja, como queremos ser tratados, especialmente os mais
necessitados. Deste modo seremos verdadeiros próximos dos que convivem conosco.
PISTAS: A lição do evangelho de hoje é
uma lição de amor. De como devemos viver evangelicamente nossas vidas para que
os nossos deveres com Deus e o próximo sejam devidamente cumpridos. A frase de
Madre Maravillas, anteriormente citada, é a que nos indica de maneira prática o
exercício do amor a Deus.
2) A lição de Jesus
é dificilmente explicada nos comentários da parábola. Sem saber o significado
de próximo nos tempos de Jesus, dificilmente poderíamos entender a moral da
estória. Próximo não é o necessitado mas aquele que trata os outros como ele
quer ser tratado, até com mordomias que parecem inecessárias, como vemos na
parábola. Quando eu encontrar um médico, um amigo que por mim faz tudo o que eu
pediria ser feito, eu encontro o verdadeiro próximo como uma dádiva de Deus.
3) Diante dessa
prescrição final de Jesus faz isso e viverás, temos que aceitar com humildade
que somos extremamente falhos na vivência do amor para com os outros homens.
Sempre, ou quase sempre, nos aproveitamos deles e praticamente nunca pensamos
como Paulo servi uns aos outros por causa do amor (Gl 5,13). Desta
última forma perderemos a nossa liberdade[vida] mas ganharemos a nossa
eternidade.
EXEMPLO: Na inauguração de um nosocômio o
político de turno reclamou de que os apartamentos , os corredores, as salas
etc. eram de primeiríssima qualidade. Para que tanto desperdício com o dinheiro
público? A reposta do diretor da entidade veio calar sua reclamação: E se fosse
para albergar seu filho, teria objetado as condições que agora encontra como
extremamente luxuosas?