XVI DOMINGO DO TEMPO COMUM
Lucas 11, 1-13
O ÚNICO NECESSÁRIO
(Pe. Ignácio, dos padres escolápios)

AO SEGUIR CAMINHANDO: Lucas quer iniciar uma nova perícope de sua narração que tem como circunstância externa a sua viagem para Jerusalém, um marco do que Lucas se serve para narrar diversos ensinamentos junto a alguns fatos de Jesus, ao modo que Mateus enquadra as palavras do Mestre no sermão da montanha. Eis pois, que entra numa pequena vila [kómê] ou aldeia. A Vulgata traduz por castellum [forte ou cidadela]. Sabemos que Marta e Maria moravam em Betânia [casa das tâmaras ou palmeiras], aldeia perto de Jerusalém (Jo 11,1). Mas segundo a lógica da narração de Lucas, Jesus ainda se encontrava na Samaria, ou no máximo perto de Jericó, ao qual chegamos no final do capítulo 18 (18,33). Porém, pelos relatos de Marcos, Mateus e João, sabemos que Betânia estava a poucos quilômetros de Jerusalém. O próprio Lucas em 19, 29 dirá que Betânia estava junto ao monte das Oliveiras. E era em Betânia onde Marta tinha sua casa(Jo 11,1). na qual se hospeda Jesus(Lc 10, 38). Vemos como cronológica e geograficamente Lucas está fora da realidade histórica. Não lhe interessa esse marco narrativo e prefere a perspectiva catequética ou lógica, sem que desvirtue fatos e ditos por isso, que são cópia da realidade, vivida como anúncio pelas suas fontes.

MARTA: O nome Marta significa Senhora ou Dona, forma feminina do substantivo aramaico Maré [=senhor]. Parece que era nome usual na época entre os judeus; nome que podemos ler nos papiros egípcios e num ossário [urna que contém os ossos dos mortos] no distrito norte oriental [lugar do cemitério] de Jerusalém. Quem era Marta? Certamente irmã de Maria (Lc 18, 39 e Jo 11, 1) e Lázaro(Jo 11,2). Supostamente era a mulher de Simão, o leproso (Mt 26,6 e Mc 14, 3), pois é no jantar oferecido por ocasião da ressurreição de Lázaro(Jo 12, 1) que Marta, como dona de casa, servia (Lc 10, 28; 40). Parece que este jantar não é diferente do oferecido na casa de Simão, o leproso, e que é narrado por Marcos em 13, 3-9 e Mateus em 26, 6-13. Sabemos que os relatos evangélicos são incompletos, breves resumos do que na realidade aconteceu. Por isso, com os indícios de Lc 10, 38-42, podemos supor que o banquete de Lucas na casa de Marta era o mesmo que o banquete de Mc, Mt e Jo da unção em Betânia, na casa de Simão, o leproso (Mt 26 e Mc 14). Já é um indício forte a afirmação de Lucas que Jesus estava de hóspede na casa de Marta. Naqueles tempos, como uma mulher podia ser considerada dona de casa quando o marido, o filho mais velho ou o irmão, eram os que tinham a propriedade? Só se Simão fosse um leproso que devia estar fora do convívio familiar e mais tarde foi curado. Não estando morto ainda era o dono; mas não podia tomar conta da casa que era deixada aos cuidados da mulher. Não se devia a cura a um favor de Jesus, que assim se torna hóspede, na viagem para Jerusalém dos proprietários da casa? Tudo isto se combina com Jo 12, 1 que afirma que ofereceram um jantar a Jesus em Betânia em que Lázaro ou Eleazar [Javé o ajudou]estava à mesa e Marta servia. A palavra parece indicar que, como dona de casa, Marta se encarregava do serviço, como diz Lucas no trecho de hoje(38). De todas as formas admitimos que o caso de hoje poderia ter uma circunstância diferente, como um banquete de sábado entre o grupo [collegium] de fariseus do qual Simão formava parte.

MARIA: O nome em grego é Miryam ou Marianne, de significado escuro. Nada tem a ver com a Madalena de Lc 8,2 de nome também Maria, que Lucas no caso de Nossa Senhora seguindo os setenta chama de Mariam. É um nome cananeio de origem ugarítico [mrym] cujo significado próprio é altura, cume. Como nome de mulher tinha uma certa conotação de excelência. No trecho de hoje, Lucas a descreve como sentada junto aos pés do Senhor (39), que era a postura característica do discípulo ao ser ensinado (Lc 8, 35). Ou como foi educado Paulo aos pés de Gamaliel para aprender a observância exata da Lei [Torah]. Maria pois, como discípula, escutava as palavras [instruções, recomendações], pois logos significa tudo isso.

KYRIOS: É o título que com maior freqüência se atribui a Jesus. Com o artigo o Kyrios, o Senhor, ou sem o artigo. Não é nome próprio, mas título, atribuído a Jesus como a Deus. O título de Kyrios a Deus tem origem nos Setenta; porém, nos antigos manuscritos gregos parece que se conservava o nome Yahweh com caracteres hebraicos, como afirmam Orígenes e Jerônimo, no seu tempo, de certos manuscritos gregos. Parece que no chamado terceiro estágio do cristianismo [primeiro de promessa, segundo de Jesus e terceiro da Igreja], esta última, segundo Paulo, poderá afirmar que para nós não existe mais do que um Deus, o Pai, de quem procede o Universo e a quem estamos destinados nós; e um só Senhor Jesus Cristo, por quem existe o Universo e por quem existimos todos nós(1Cor 8, 6). Por outra parte o Judaísmo pré-cristão referia-se a Deus com o nome de Adon (daí o Adonai=meu Senhor) e em aramaico Maré ou Marya (daí o nome de Maria) e a expressão de Marana tha [Senhor, vem](1 Cor 16, 22). Atualmente na recitação do Shemá, no lugar de Javé, para não pronunciar o nome santo, eles recitam Adonai e traduzem ao português por O Eterno: O Eterno é nosso Deus, o Eterno é único Atualmente também no lugar de Adonai recitam Hashem com esse significado de Eterno. Por isso a primeira profissão de fé é Jesus é o Senhor (1Cor 12, 3). O título de Kyrios é atribuído a Jesus após sua ressurreição, como diz Pedro: Deus constituiu Senhor e Cristo [Messias] a este Jesus a quem vós crucificastes (At 2, 36). O título de Kyrios passa pois, de Deus [o Javé de Israel] a Jesus na sua condição de ressuscitado, mas para o fim de ser o Rei Salvador, como o anjo anuncia aos pastores: Nasceu-vos um Salvador, o qual é Messias Senhor.(Lc 2, 11)

A DIAKONIA: No grego temos diversas palavras que definem o serviço :Doulos escravo, que sendo doméstico recebia o nome de oiketes. Diakonos, criado.destinado a certos serviços especiais como o serviço da mesa. Yperetes um subordinado, inicialmente um submetido ao trabalho do remo. Finalmente o Therapôn, um temporário para um determinado serviço. Como vemos Marta servia à mesa. Era a que cozinhava, e preparava a mesa com velas, divãs, talheres e toalhas correspondentes. Nestes afazeres estava muito preocupada a nossa protagonista. Era o banquete que queria fosse particularmente especial para um hóspede que desejava agradar do fundo da alma porque a ele devia a vida do irmão e talvez a cura do esposo. Esse serviço era próprio das mulheres, enquanto os homens estavam reclinados no triclinium, ou mesa baixa disposta em forma de U, de modo que os serventes podiam entrar pelo centro para servir os comensais, individualmente.

MARTA, MARTA: Marta se queixa a Jesus de que sua irmã não a ajuda nos afazeres da casa. A resposta de Jesus é uma chamada de atenção que implica carinho e suave reprimenda: não espero de ti que te empenhes em fazer tantas coisas que não são convenientes ou razoáveis. Por que te empenhas em realizar tantas coisas ao mesmo tempo e te angustias por isso? Uma só coisa era a necessária como conseqüência de minha visita.E sabes? tua irmã Maria a escolheu como quem escolhe o melhor. É por isso que eu não vou repreendê-la, nem tirar dela essa atitude que é a mais adequada neste momento.

A PORÇÃO: Qual é essa parte ou porção que fez de Maria a mais sábia na sua escolha? Sem dúvida a de receber Jesus como Mestre e não como hóspede. Como hóspede, a atitude de Marta estaria plenamente justificada e poderia ser absolutamente aplaudida: ótimo . Ele merece o melhor e mais abundante de minhas viandas. Mas recebê-lo como mestre significa, antes de tudo, ouvi-lo como palavra de vida e escutá-lo para aprender a realizar uma existência em plenitude da verdade. É se tornar discípula e não simples hospedeira. E nesse ponto Maria estava com a força da razão que proporciona a verdade. Escutar Jesus como Mestre é o primeiro e principal dever de todo aquele que quer se tornar seu discípulo.

PISTAS: 1o) No contato com Jesus, qual é a coisa principal ou como diz o evangelho o necessário? Em toda vida existem momentos de escolha. Por que escolhemos, que escolhemos, qual é a norma-guia para a escolha? O Evangelho é uma proclamação e um anúncio de modificação de conduta e de fé comprometida (Mc 1, 15). Quem o ouve e quer que se torne existencial na sua vida, se torna discípulo, deixa tudo diante do segue-me. As parábolas do tesouro escondido e da pérola (Mt 13, 44-46) confirmam a periferia dos outros projetos humanos. O tesouro e a pérola significam o Reino, exemplificado no próprio Cristo. Por isso Jesus passa da perspectiva da refeição [pouca coisa é necessária, segundo alguns códices] ao único é necessário: A pessoa do Filho do Homem [o Verbo como homem] é o principal, pois dentro do Reino a figura de Jesus é tudo: o único que transforma em realidade interior de vida e salvação o que aparentemente era um fato social externo.

2o) Jesus define-se Mestre da Verdade que com Ele se identifica. Por isso Maria, sentada aos pés de Jesus, se identifica com o verdadeiro discípulo. No filme A paixão de Cristo de Mel Gibson, Cláudia, a esposa de Pôncio Pilatos, diz estas palavras: Si non vis audire veritatem, nemo tibi dicere potest. Cujo sentido é: Se não estás disposto a ouvir a verdade, ninguém a poderá dizer a ti. Em todas as ordens a verdade é a maior vítima. Ela é unicamente escutada quando estamos dispostos a ouvi-la, mesmo que atinja negativamente nosso bem-estar e nossa comodidade. Jesus não a impõe mas deixa a cada um de nós que busquemos e encontremos a resposta certa como fez com o jurista no evangelho do domingo passado. Por isso S. Agostinho só se converteu quando a voz da verdade chegou a ser mais forte que a voz de suas paixões.

3o) Todos temos que receber Jesus como hóspede. Como? Paulo o declara em duas passagens de suas cartas, que lembram o trecho de hoje. a) Pela palavra: A palavra de Cristo habite em vós ricamente(Cl 3, 16). b) Pela fé e o amor: pois Cristo deve habitar pela fé em vossos corações para que sejais arraigados e fundados em vosso amor(Ef 3, 17): A riqueza da palavra só pode ser descoberta pela fé e unicamente será o amor que a fará frutificar.

4o) A escuta da palavra não se dá unicamente através da leitura da Bíblia, mas nos fatos da vida, no apelo dos necessitados (Mt 25, 35+), no anúncio dos que pregam a paz (Is 52, 7); pois quem vos escuta a mim ouve (Lc 10, 16).

EXEMPLO: Armando ia ser pai pela primeira vez. Seu problema era como educar seu filho, pois tinha ouvido falar que os primeiros anos eram críticos. Por isso perguntou a Fr Filomeno, dominicano, com grande fama de conselheiro espiritual: Quais são os valores principais que devo inculcar a meu filho? O frade respondeu: Três principalmente: Primeiro um desejo profundo de buscar a verdade para saber distinguí-la da mentira e da hipocrisia, as grandes senhoras deste mundo. Um homem que mentiu para mim uma só vez não pode ser meu amigo em quem eu possa absolutamente confiar. O segundo valor que merece nosso esforço é a bondade. Todos merecem o trato com o qual eu quero ser considerado. Nada se perde com um sorriso; tudo pode ser inútil após uma palavra áspera ou um gesto de recriminação. Finalmente a distinção entre bem-estar e felicidade. Aquela está nas circunstâncias externas agradáveis que nos rodeiam; a última situa-se no nosso interior, quando vivemos a paz e a amizade que temos semeado.