XVII DOMINGO DO TEMPO COMUM (LC 11, 1-13)
O PAI NOSSO .- CONSTÂNCIA NA ORAÇÃO
(pe Ignácio dos padres escolápios)

INTRODUÇÃO: Duas partes temos no evangelho: Um modelo de oração que hoje é nossa máxima petição; e em segundo lugar, um ensinamento sobre como deve ser a constância e a confiança na mesma. Na primeira parte encontramos o que temos chamado com o nome geral de Pai Nosso. A fórmula que recebe o nome de Pai Nosso sai três vezes nos escritos primitivos antes do final do século I: Mateus 6, 9-12; Lc 11, 2-3 e Didaché 8,2. A formulação mais antiga é a de Lucas. Mateus e a Didaché são praticamente iguais, acrescentando esta última a doxologia final e o preceito de recitar a oração três vezes ao dia.

ORAÇÃO DE JESUS: Lucas circunscreve o momento da apresentação do Pai Nosso a uma circunstância que podemos chamar de fórmula literária: Porque sucedeu que estando ele[Jesus] em oração num certo lugar, quando acabou, um de seus discípulos perguntou-lhe: Ensina-nos a orar como João ensinou a seus discípulos(1). Evidentemente que o exemplo de Jesus era fundamental para que a petição fosse formulada. Mas o dito discípulo também apela ao exemplo de João, que nas orações se afastava da Keriat Shemá [leitura da Shemá], a reza diária dos israelitas adultos duas vezes por dia. Vejamos, pois, quais eram os modos e fórmulas de oração em uso entre os judeus da época para compara-los com os que Jesus escolheu como fórmula própria de seus discípulos.

TEFILÁ: É a palavra que significa oração entre os judeus. Como encontrei um artigo claramente esclarecedor do que é a oração entre os hebreus, vou resumir o mesmo, pois é como se tivéssemos encontrado as formas de orar de Jesus, verdadeiro judeu em hábitos e costumes religiosos. A palavra inicial do parágrafo [TEFILÁ] provém do verbo Palal [julgar ou meditar] na forma reflexiva: é um ato de introspecção e auto-análise pelo qual o Mitpael [orante] medita sobre si mesmo e julga a si mesmo. O homem ora para compreender a vontade de Deus, a fim de que possa distinguir entre o que deve e o que não deve; que possa saber o que esperar e o que Deus espera dele (não o que ele espera de Deus), a fim de que ele possa perceber o propósito divino e servi-lo. A oração, do ponto de vista judaico, é a conversa do homem com Deus acerca das suas esperanças. É também a forma pela qual o homem descobre, cada dia, que a vida tem sentido. A oração é o processo pelo qual o homem atinge o que há de melhor em si mesmo. A maioria das orações é um comprometimento dos nossos recursos para cumprir nossos deveres para com Deus, meditação sobre a sabedoria das nossas escrituras sagradas, expressões de louvor e de gratidão pelas maravilhas da vida e declarações de segurança e confiança no poder de Deus. A oração é parte integral da fé judaica e um fator indispensável do ponto de vista teológico. Todas estas posturas entram dentro das orações de Jesus que encontramos narradas nos evangelhos. Para falar só de Lucas. Jesus acostumava se retirar a lugares desabitados (5,16) ou ao alto das montanhas (9,18) para orar passando a noite inteira (6,12). O tipo de oração era uma reflexão sobre a sua missão (9, 30) e a conformidade com a vontade do Pai (22, 42). Mas vejamos como os judeus descrevem as diversas orações de sua tradição.

CLASSES DE ORAÇÃO: A)ADORAÇÃO: Considera-se o poder, a majestade, a grandeza e o mistério de Deus. Deus não necessita da nossa adoração, mas nós necessitamos adorá-lo. As orações de adoração protegem o homem , evitando que se apegue ao que é falso e degradante; o propósito da oração é encontrar nossa relação com o Deus vivo. Essa oração é expressa em palavras que entoam louvores a Deus. O louvor a Deus é uma resposta à sua majestade e glória. À medida que enunciamos esses louvores somos levados a um plano mais alto de sentimento e pensamento. B)AGRADECIMENTO [beraká]: Tem como objetivo tornar-nos conscientes das bênções que nos cercam e das quais recebemos benefícios diariamente. Só após louvar e agradecer, o judeu, nas suas orações, chega às preces nas quais exprime o seu pedido. C)SUPLICATÓRIAS: Suplicamos a Deus em favor daqueles que estão enfermos e encorajamos mesmo o agonizante a orar pela restauração da saúde para o serviço útil a Deus. As orações suplicatórias exigem que o adorador se concentre na vontade de Deus em vez da própria vontade. Nossa súplica (pedindo a bênção para a vida) deve ser motivada pelo desejo de usar essa bênção para a glória de Deus. As orações judaicas de súplica são feitas no plural em vez do singular a fim de aguçar a consciência a respeito dos outros. D)PENITENCIAIS: O homem confessa seu erro e pede perdão. Essas preces recebem o nome de SELKOT. O judeu pede ajuda a Deus a fim de que possa superar seus maus desejos. Apela por outra oportunidade tendo intenção de agir diferentemente e confia no misericordioso perdão de Deus. Se estudamos o Pai Nosso veremos como ele se conforma com o dito:Pai[adoração]. Santificado teu nome[beraká]. Venha teu reino e dá-nos o pão [súplicatórios] . Perdoa [penitencial].

SHEMÁ: Porém existe uma oração própria de todo judeu que deve ser recitada duas vezes por dia: o Shemá. A recitação do mesmo recebe o nome de Keriat Shemá[leitura do Shemá] pois era semi-cantada, em voz alta. Dados do segundo Beit Mikdash[ casa sagrada ou templo], dizem que se recitava diariamente, entoada pelos sacerdotes após o Korban Tamid Saharit [sacrifício ao alvorear da aurora]. O povo reunido no Mikdash [santuário] repondia: Abençoado seu nome, cujo Reino [é] glorioso para sempre, como forma de adesão ao culto e cumprimento das Mitzvoth Tora [preceitos da lei]. A Mishnã [repetição ou lei falada] estabelece que uma pessoa deve esmerar-se em ler o Shemá e recitar a Amidá [pricipal oração suplicatória da liturgia judaica]. Os judeus têm três momentos de oração marcados por lei: Tefilat sakarit [oração da manhã] Tefilat Minká [oração da tarde] e Tefilá Arvit [oração da noite. Segundo a Mishná o Shemá deve ser recitado na oração da manhã e na oração da noite, seguindo o preceito [mitzvá] da Tora: Estas palavras as inculcarás aos teus filhos e delas falarás ...ao deitar-te e ao levantar-te ( Dt 6, 7).

AS TRÊS PARTES DO SHEMÁ
PRIMEIRA PARASHA(Dt 6, 4-9): Parasha, em plural pareshot, é cada um dos parágrafos em que os massoretas [os fixadores do texto através de vogais sublinhares] dividiam o texto da Torá. Do texto, deduziram os Hahamim (rabinos) que fazia referência a certos momentos do dia nos quais obrigatoriamente deviam ser pronunciadas estas palavras, que pertencem à primeira pareshá ou trecho dos três que eram recitados no Shemá: (Dt 6,4-9) Shemá[Ouve] Israel! Jahvé (hoje substituído por Adonai [meu Senhor]ou Hashem [o Nome]) Elohenu [nosso Deus]. Jahvé Ehad[único](4). We[e] ahabeta[amarás] eth[a] Jahvé Eliheika [teu Deus] bekol [com todo] lebabeka [teu coração] ue [e] becol [com toda] nefeshka [tua alma] ue [e] becol [com todo] meodka [teu poder] (5). Atualmente os judeus substituem Jahvé por H’. Sem dúvida que devemos ler da esquerda para direita . O ‘ é o Yod, inicial das consoantes do nome de ‘HWH e H [o he], a segunda consoante, ou talvez a última de O Nome que eles traduzem como Hashem. Podemos ler com letras românicas o hebraico original em negrito, ao que acompanha em colchetes a sua tradução. O versículo 4 inicia-se com Shemá cuja última letra é E [y] e a última letra de Ehad é D. Com estas duas letras se forma a palavra ED que significa testemunho. Por isso estão escritas de forma destacada, como letras grandes, no livro da Torá. Porque este versículo era o escolhido pelos mártires judeus para morrer com estas palavras pronunciadas no último suspiro de sua existência, tal como vemos no filme dos assassinados na olimpíada de Munique (1972). O grande Rabi Akiba, na época das perseguições do Império Romano, ensinava que bekol nefeshka [com todo teu ser] deviam significar até o sacrifício da vida. No meio dos suplícios de seu martírio entoava o Shemá. Os discípulos estranharam ao ver o gozo com que ele entoava a oração e ele respondeu: Durante toda a minha vida, quando recitava o Shemá, me preocupava de quando poderia entender o que significava amar a Deus sem esperar recompensa. Agora chegou o momento de cumprir esse preceito. O momento da Shemá da manhã [Tefilá sakarit] é quando se colocam os Tefilim [filactérios] caixinhas de couro com rolos de pergaminho contendo quatro trechos ou parashot da Torá (ver figura), que eram obrigatórios para recitar o Keriat [leitura] da manhã. A tradição afirma que o versículo 4 foi dito pela primeira vez pelos filhos de Jacó/ Israel ao pai moribundo, quando este perguntou: Meus filhos, estais bem firmes na vossa crença num único Deus? Em resposta, os filhos levantaram as mãos ao céu e disseram: Shemá Israel [ouve Israel ou Jacó], o Eterno é nosso Deus; o Eterno é um. Então Israel pronunciou de forma apenas audível o beraká[bênção] que também os judeus recitam em voz baixa:Bendito seu nome cujo Reino glorioso para sempre. Como anedota contam que os Judeus hindus foram reconhecidos muitos séculos após sua diáspora porque recitavam esta primeira parte do shemá em hebraico, tendo esquecido por outra parte a língua de seus antepassados. O Tefilá da noite [Tefilá Arvit] era recitado ao se acostar. Finalmente o Tefilá da tarde [Tefilá Minká] era só recitado nos sábados, no dia de Yom Kippur [dia da expiação] e nos dias de jejum geral de todo o povo. Esta última recitação não era obrigatória por lei.

A SEGUNDA PARASHA: Corresponde a Dt 11, 13-21. Se a primeira se dirige ao indivíduo, a segunda é para o coletivo. A primeira é o amor sublime em estado puro. A segunda é o amor prático. A primeira é o compromisso com o Eterno, a segunda é a compenetração com suas palavras e ações, pela qual se deve cumprir com certas prescrições: os tefilim [filactérios] e os tzitzit [franjas], além de escrever com as palavras do Shemá as jambas e os umbrais das casas [o mezuzá] Atualmente o Mezuzá é um estojo que contém as duas parashás do Shemá e numa abertura se distingue a palavra Shadai [todo-poderoso] que dizem foi um composto das palavras Shomer[guardião] Delaot [portas] Israel. Além desses símbolos a serem usados na roupa ou nas portas das casas, o judeu deve ensinar seus filhos quer seja na casa ou no caminho fora da mesma, o significado do Shemá . (ver os desenhos)

TERCEIRA PARASHÁ: Nm 15, 37-41. O preceito do Tzitzit é determinado com os números correspondentes às letras pelo nome [tzitzit] representados. Na recitação do Shemá, além do kipá ou solidéu, cobrem seus ombros com o talit, em forma de toalha, o manto ritual com as famosas listas azuis ou pretas paralelas aos lados mais curtos e que os fariseus ampliavam como distinção de sua piedade segundo Mt 23, 5. Na parte superior que rodeia o pescoço tem um galão de prata ou ouro. E nos quatro cantos do retângulo pendem as borlas do Tzitzit como vemos na figura. O valor numérico da palavra TZITZIT é 600 junto com os 8 fios e 5 nós em cada canto chega a 613, o número total das mitvás da Torá, justo para se lembrar dos mesmos no momento da reza. Olhar para o tzitzit significa lembrar-se de toda a lei de Moisés.


Vemos nas figuras acima de esquerda para direita o Talit com os tzitzit correspondentes, os filactérios em forma de caixas com os cordões de couro para atá-los na fronte e no braço esquerdo e a mazuzá das casas.

O PAI NOSSO

PAI: Voltemos à oração que Jesus ensinou. Lucas une num conjunto, que forma uma série aparte, três passagens dedicados à oração: a fórmula do Pai Nosso, a parábola do amigo impertinente e algumas máximas sobre a eficácia da oração. Na antiguidade cristã temos três diferentes fórmulas sobre o Pai Nosso: Esta de Lucas, considerada a mais antiga pela brevIdade; a de Mateus 6, 9-13 com três explicações de tipo catequético, e a da Didaché que é igual a de Mateus mas com uma doxologia no final. Como início da oração temos um vocativo:Pai. A Ele nos dirigimos como filhos. É uma invocação que não só atrai a atenção divina como próxima de nossas vidas mas também nos coloca em disposição de aceitar suas ordens e cumprir sua vontade. Esperamos seu carinho e sua bondade e oferecemos nossa debilidade e nossa confiança. Mateus acrescenta: Nosso, o dos céus (9, 6). Na concepção tripartita do mundo os céus eram do domínio absoluto de Deus, onde nada nem ninguém impediam a realização de seus planos. No AT também Javé era considerado como Pai, pois se fala de que o povo de Israel era filho de Deus e até seu primogênito (Ex 4, 22), como também o rei (2 Sm 7, 14). É pai como criador(Dt 32, 6), como ofendido pelo pecado de Israel (Jr 3, 4), como fonte de misericórdia e perdão (Sl 103, 13). Mas o emprego deste apelativo na oração individual é raro, por não dizer fora do comum. O início das orações judaicas era o de reconhecimento da Majestade e transcendência de Deus. Os títulos de Rei, Senhor, são os mais usados. Um exemplo o de Ester: Ó meu senhor, nosso Rei, tu és Único (4,17 Na oração do Kadish [oração falsamente atribuída aos velórios], lemos: Seja louvado e santificado o nome do Senhor no mundo criado por Ele segundo sua vontade. Faça reinar seu reino na vossa vida e na vida de toda a estirpe de Israel agora e sempre Amém. Na oração Shemoné esré [das dezoito bênções],recitamos: Bendito sejas, Eterno [Jahweh], Deus nosso e de nossos pais , Deus grande, esforçado e terrível, Deus altíssimo. Bendito sejas, Eterno, Rei que ajuda, liberta e defende, defensor de Abraão. Como vemos pelos exemplos, os atributos que se invocam de Deus são o seu poder e senhorio e as suas ligações com o povo de sua escolha como defensor do mesmo contra seus inimigos. Nestas orações encontramos muito de retórica, exclusivismos e desejos de vingança contra inimigos. Longe da simplicidade do Pai a quem nos dirigimos todos como filhos sem distinção. Como nota curiosa podemos trazer à colação que o Pai Nosso era considerado por Tertuliano breviarium Totius Evangelii [resumo de todo o evangelho] e por S. Cipriano coelestis doctrinae compendium [compêndio da doutrina celeste]. Por isso na igreja antiga era transmitido solenemente ao batizando antes do batismo, submetido à disciplina do arcano [das verdades que não podiam ser reveladas aos não critãos]. Revelar que Deus era Pai dos novos batizados, os gerados de novo no Batismo. O Abbá, do qual é Pater a tradução literal grega, era, segundo Paulo ,o termo ABBÁ [no original], recebido pelo espírito de adoção pelo qual clamamos O Pai. Da mesma forma, com as mesmas palavras temos Gl 4,15 em que o ABBÁ é traduzido por O PAI. O que significa ABBÁ? Contrariando J. Jeremias , que diz significava papai, os modernos dizem que o Abbá era utilizado como tratamento dado por pequenos e adolescentes ao seu pai e também como tratamento a pessoas maiores (Mt 23, 9). No nosso caso é uma nova relação íntima com o ser que os judeus não ousavam de chamar pelo seu nome e até nem o escreviam, e que na língua vernácula representam pela grafia H’ de O NOME, ou HÁ SHEM).

SANTIFICADO SEA TEU NOME: Tanto Mateus como Lucas têm a mesma súplica. É uma exclamação ou uma prece? Judeus e árabes, imediatamente após o nome de Deus, exclamam Seja ele bendito. Será também um louvor do orante e não, como temos aprendido, uma súplica para que Deus mostre sua transcedente presença? De fato o Kadish [traduzido por santificação] inicia-se com Seja seu nome exaltado e santificado. Evidentemente é um desejo este do Kadish ou uma exclamação como quando os árabes após o nome de Alá exclamam Bendito seja para sempre!, de modo que esta que comentamos é uma exclamação e não uma petição de que Deus mostre a transcendência de seu nome, que por outra parte não é mais Jahweh [ou Hashem traduzido por Eterno] mas Pai? A tradição vê nesta que temos chamado de invocação exclamatória, uma petição que, por estar na passiva, parece ser súplica de que Deus atue de forma a demonstrar sua grandeza e realeza, como Daniel pede que sejam vistos seu poder e sabedoria de eternidade em eternidade (2, 20). No Kadish, recitado ao fim da homilia na sinagoga, junto com O Nome justapunha-se a petição de que fosse exaltado, engrandecido e santificado, e que fizesse dominar sua realeza em nossas vidas e em nossos dias. Sem dúvida que temos duas ações simultâneas: a divina como absoluto domínio e a humana como submetimento à vontade dos planos de Deus. Por isso na Shemoné lemos: Tu és santo [o agathos grego] e santo é teu nome e os santos te louvarão sempre e cada dia. Bendito sejas , Eterno, Deus santo! E na oração do Kadish temos esta bênção: Seja bendito e santificado o nome do Senhor no mundo por Ele criado segundo sua vontade.(...) Seja bendito, louvado honrado, engrandecido e glorificado o nome do Santo. Seja ele bendito sobre toda bênção e todo canto, sobre todo louvor e toda consolação que se pronunciam neste mundo. Amém.

O REINO: Tanto no Kadish como na Sheminé Esré temos alusões claras ao reino. Vamos citá-las. Kadish: No mundo que Ele criou segundo a sua vontade, seja estabelecido seu reino na vossa vida e nos vossos dias e na vida de toda a estirpe de Israel agora e sempre. Amém. E na Shemené : Bendito sejas Eterno, Rei que ajuda, liberta e defende, defensor de Abraão (...) Faze que voltemos à Torá e aproxima-nos a teu serviço, Rei nosso, e faze que voltemos o rosto para a frente com íntegro arrependimento. Como podemos ver o reino era uma aspiração constante nas orações do tempo entre os judeus. O simples adveniat regnum tuum [venha o teu reino] de Lucas é explicado por Mateus de forma breve mas magistral:que tua vontade se cumpra na terra do modo que ela é acatada no céu. A universalidade do Reino é oposta à estrita e reduzida ideologia das orações judaicas em que o reino está fundado no triunfo político de Israel.

O PÃO: As petições em Lucas e Mateus sobre o pão coincidem com as mesmas palavras; só que Lucas usa o verbo em presente [dá contínuo] e Mateus em aoristo [dá aqui e agora]. A palavra que tem dado a diversas interpretações é epiousios . A opinião mais provável é que seu significado é seguinte como corresponde adjetivalmente ao emera [dia] epiousia [seguinte]. Assim em At 7,26. Também a noite é seguida por epiousia At 23, 11. A tradução pois do texto seria: o pão nosso o de amanhã, dá-nos a cada dia. Esta tradução é confirmada pela versão antiga do evangelho dos nazarenos ou dos hebreus que usa a palavra MAHAR para traduzir: dá-nos [continua a dar-nos] hoje o pão do amanhã, ou seja o pão que nos darás no teu reino. Com o presente imperativo de Lucas poderíamos traduzir: Continua a dar-nos (como sempre) o pão, o de amanhã, que vamos necessitar a cada dia. Uma outra tradução seria dar a epiousios o significado de necessário em que ousia não significa substância, mas existência e portanto epiousios significaria vital. A tradução seria: dá-nos o pão necessário a cada dia. Esta é a tradução preferida hoje em dia. A tradução incorreta de Mateus 6,11 do epiousios, como supersubstantialis [supersubstancial], pela Vulgata, dando origem a de que se pedia o pão eucarístico, está hoje descartada, já que a mesma Vulgata traduz a mesma palavra epiousios em Lucas por cotidianus [de cada dia].

O PERDÃO: Lucas fala de amartia [pecado]/ofeilontes [os que estão devendo];a tradução de amartia e pecado com uma única vez das 148 vezes traduzida como ofensa, enquanto Mateus usa ofeilema [dívida]/ofeiletas [ devedores, como substantivo]. O tema do perdão também é típico do judaísmo da época. Rei nosso faz que voltemos o rosto para a frente com íntegro arrependimento (Sheminé ). Perdoa ao teu próximo a injustiça, e então ao rezares ser-te-ão perdoados os teus pecados(Eclo 28,2. )Mas não atinge os inimigos, nem os não pertencentes a povos diferentes de Israel. Pelo contrário o perdão é básico na literatura cristã.(Lc 6, 37). Perdão de Deus para nós e perdão dos inimigos por parte dos homens que desejam se comportar como o Pai, segundo afirma Mateus no versículo seguinte (6, 14-15). Em Mt 5, 23 s Jesus fala sobre a importância de se reconciliar antes de oferecer o sacrifício ou de levar o contencioso ao juiz. E como norma de vida não devemos condenar para não sermos condenados.(Mt 7,1)

A TENTAÇÃO(4 b) : Lucas e Mateus usam a dupla eisfero/peirasmós [levar/prova]. Tudo depende de que classe de prova ou tentação é a referida no versículo. Peirasmós significa também tribulação e sofrimento. A causa da diversa interpretação deste parágrafo é o verbo com o qual se determina a ação divina: eisfero significa introduzir, transportar, arrastar. Como Deus pode ser causa de uma tentação em que o homem não tem força para superá-la? Os termos em que está formulada a petição são os mesmos em que Jesus pede aos discípulos que orem para não entrar em tentação. (Lc 22, 40.46). Qual era a tentação a que estavam os discípulos propensos a cair nesse momento? Sem Dúvida a de desertar de seu seguimento, ou por covardia, oupor as dúvidas que a paixão de Jesus suscitaria neles ( Lc 24, 21). Deus no AT é visto como tentando a seu povo. Ex 16, 4 e 20, 20 ente outros. Ou seja pondo o povo à prova. Ainda não existia a diferença entre vontade absoluta e vontade permissiva divina. Em Rm 9, 18 Deus endurece o coração de quem quer. Por isso suscitou e endureceu o coração do faraó para mostrar nele o seu poder, e assim seu Nome pudesse ser celebrado em toda a terra (Rm 9, 17). Foram as disputas teológicas sobre a predestinação que fizeram a distinção entre absoluto e permissivas. Deus não quer o mal em absoluto mas o permite porque de sua permissão resulta maior benefício para as criaturas e maior glória para sua divina Providência. Já o apóstolo Tiago afirma claramente: Quando alguém está tentado não diga que é Deus quem o tenta, porque Ele não tenta ninguém. Temos o caso de Jesus no deserto. Ele foi levado pelo Espírito para ser tentado pelo diabo (Mt 4,1). E as tentações de Jesus eram sobre a sua missão salvífica para desvia-lo da mesma, e assim se render às sugestões do maligno. Por isso muitos afirmam que a tentação da qual os discípulos pedem ser liberados seria da apostasia em relação a Jesus.

O AMIGO: Lucas prossegue este discurso sobre a oração, da qual ele tanto gosta, com outras duas narrações típicas dele: A parábola do amigo inoportuno e uma série de conselhos sobre como é respondida a oração pelo melhor dos pais. A parábola é melhor compreendida quando estudamos os costumes da época na Palestina. O pão era a comida praticamente única dos menos ricos. Três pães respondiam à comida de um dia. O pão era cozido de manhã cedo, após a dona de casa moer o trigo com um moinho de mão. Logo a farinha assim obtida, era misturada com água e em forma de grandes hóstias, como é o pão sírio atual, era colocado sobre uma prancha quente até ser assado. O amigo chega de noite. Na realidade as viagens, devido ao calor do dia, muitas vezes eram realizadas à noite, daí que fossem essas horas as da chegada do vizinho. As casas humildes tinham unicamente uma habitação separando nela por um cortinado o himeneu [lugar dos esposos] que ficava no fundo da habitação; e durante a noite todos dormiam sobre esteiras de modo que para passar do fundo até a porta deviam se levantar todos os membros da família: a porta esta trancada e meus filhos estão deitados(7).Diante da insistência do inoportuno amigo Jesus se atreve a concluir que certamente conseguirá os pães mesmo que seja pela insistência se não for suficiente a amizade.

A CONCLUSÃO: Pedi/vos será dado. Buscai/ encontrareis .Batei/abrir-se-á (9) Mateus traz em lugar paralelo as mesmas palavras que parecem formam parte de um poema: Pedi/vos será dado. Buscai/encontrareis. Batei/ vos será aberto. (7, 7). E ambos terminam com as mesmas palavras: Todo o que pede recebe. E o que busca encontra e ao que bate abre-se. Não existe melhor trilogia para indicar que grande parte de nossas conquistas em todos os âmbitos tem como fundamento a oração e a constância.

A CONFIANÇA: Jesus, à parte essa conclusão que mais parece uma coleção de ditos populares anima seus discípulos a fundar sua vida na oração como base de confiança num Deus que é desde a primeira invocação apelidado de Pai. E compara esta paternidade divina com a humana: se um pai humano trata da melhor maneira possível seus filhos em necessidade, como o Pai verdadeiro deverá falhar com os que o invocam com tal título e nele depositam sua confiança e deixam em suas mãos suas esperanças? As antíteses são também clássicas ou populares como o demonstra o lugar paralelo de Mateus, com a diferença de que Mateus substitui pão pelo ovo. Vejamos Lucas primeiro: peixe/serpente. Ovo/escorpião (11-12) Mateus fala de pão/pedra e peixe/serpente (7, 9-10). O peixe e a serpente de água tem certa afinidade, especialmente se se trata de moréias, na época comida esquisita entre os romanos. O escorpião, quando se enrola parece uma espécie de ovo. E a pedra pode ter forma de pão. Mais importante do que a semelhança entre os termos é a qualidade dos produtos enumerados. O primeiro termo é bom; o segundo é um veneno ou um mal.

CONCLUSÃO: Se vós que sois maus sabeis como dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o Pai, o dos céus, dará (o) Espírito Santo aos que o pedem!. Mateus fala de dar coisas boas (7, 11). A Vulgata traduz spiritum bonum [espírito de bem]. O artigo O falta de modo que a versão da Vulgata é correta. Para Lucas esse espírito era a paz com todas as qualidades e atributos que semelhante expressão abrangia. Que devemos dizer? Tertuliano tinha toda a razão quando afirmava ser o Pai Nosso o resumo de todo o evangelho: A oração de Jesus nos coloca frente a frente a um Pai, que é a revelação que Jesus veio anunciar e propagar a todos os homens. Viver a filiação era viver a oração do Pai Nosso e era viver a essência do Evangelho na intimidade com a divindade e na fraternidade com a humanidade.

EXEMPLO: o barco estava em chamas, os passageiros confundidos e atemorizados sem saber o que fazer. Um menino tanquilamente brincava no convés. Alguém lhe perguntou: E tu não estás com medo? A criança respondeu: Não, porque meu pai é o capitão. Nós não podemos ter medo em nossas vidas porque nosso Pai é o capitão do mundo.