XVIII DOMINGO DO TEMPO COMUM (Lc 12, 13-21)
A COBIÇA
(Pe Ignácio dos padres escolápios)

INTRODUÇÃO: No grande parêntese da viagem para Jerusalém, Lucas aproveita a ocasião para agrupar diversos ensinamentos de Jesus, à maneira como Mateus fez no sermão da montanha. No trecho de hoje temos uma lição do ponto de vista evangélico, isto é, de Jesus mesmo, sobre a cobiça com respeito às riquezas. Temos dois exemplos: o caso de uma herança e a pequena parábola do rico agricultor. Os dois trechos não têm paralelos nos outros dois sinóticos.

MESTRE: Um (ouvinte) dentre o povo, lhe disse: Mestre! Esta era a palavra que estava em uso na época para designar os juristas, hoje diríamos advogados, porque a Torá era a única lei que admitia o direito civil judaico. O caso apresentado pelo demandante era clássico: Uma herança em que o irmão maior tinha direito a dois terços ou uma porção dupla da que era repartida entre os outros irmãos. O caso estava declarado em Dt 21, 17. Reconhecerá como primogênito o filho da mulher da qual ele não gosta, dando-lhe porção dupla de tudo quanto possuir pois ele é a primacia de sua virilidade e o direito de primogenitura lhe pertence. Aparentemente este era o caso; e o primogênito não queria dividir com o outro irmão a herança paterna. A questão da herança não era uma coisa trivial. Temos em Nm 27, 1-11 o caso de herdeiros que não sendo do sexo masculino, é resolvido com todo detalhe. A questão pois, parecia de importância.

HOMBRE: Lucas usa a mesma palavra em 5,20 e 22,58. É uma palavra que indica distanciamento, como de alguém com quem não queremos amizade, ou não temos as mesmas idéias e que fere em certo sentido nossos sentimentos. É também uma expressão de surpresa que nos coloca num plano defensivo.

JUIZ: Na realidade o que pedia o demandante era que Jesus se constituísse em verdadeiro juiz de um caso contencioso, como se fosse um simples jurista, ou um repartidor entre os dois irmãos. Não era esse o verdadeiro ofício de Jesus que o subordinaria às riquezas como se estas fossem o leit motive de sua obra salvífica. Eram os mestres rabínicos os que deviam resolver semelhantes casos. Daí a sua direta e intransigente rejeição. Em Ex 2, 14 os israelitas reclamam de Moisés quando este mata o egípcio para salvar o hebreu maltratado: Quem te constituiu nosso chefe e nosso juiz? Eram estas as palavras que Jesus usa em sua defesa para rejeitar o caso como um simples jurista.

AS RIQUEZAS VISTAS DESDE O EVANGELHO: Sabemos que Lucas não é muito favorável às grandes fortunas. É mais fácil um camelo [máximo animal conhecido] entrar pelo olho de uma agulha [mínima abertura ou passagem] do que um rico entrar no reino de Deus (18, 25). O parágrafo se inicia com uma advertência séria: Vede! [ou cuidado!] Deveis estar em guarda de modo a evitar toda forma de cobiça ou ambição[pleonexias] de ser ricos. Pois a verdadeira vida não depende da abundância [periseuo] dos bens materiais [yparchonta]. Na realidade Jesus usa em presente de infinitivo o verbo periseuo que significa exceder. A tradução seria: porque na realidade a vida de alguém não consiste em ter excesso de posses. É lógico que busquemos uma tradução mais literária para transmitir o verdadeiro pensamento de Jesus. Por isso podemos optar por: A vida não consiste em acumular riquezas. E na continuação Jesus explica o porquê desta afirmação que já Paulo descrevia como sendo a cobiça uma forma de idolatria (Cl 3,5)

A PARÁBOLA: Segundo os comentaristas é uma explicação prática de 9, 25 : Que aproveita ao homem ganhar o mundo se vier a perder-se ou causar dano a si mesmo? Na Escrituras não é a primeira vez que aparecem semelhantes reflexões. No Eclesiástico ou SIRÁCIDA, 11, 18-19 encontramos: Há quem se enriquece por avareza; esta será a sua recompensa: Quando ele disser:”Encontrei descanso, agora comerei dos meus bens”, não sabendo quando virá aquele dia, deixará tudo a outros e morrerá. O livro dos Provérbios tem uma reflexão semelhante: Não te glories do dia de amanhã, porque não sabes o que trará à luz (27,1).

O RICO: Era, segundo Jesus, um homem qualquer, porém rico, cuja terra ou melhor diríamos em português cujas terras produziram uma colheita copiosa. Esta colheita abundante e generosa foi a ocasião de uma reflexão: Que farei pois não tenho onde estocar semelhante riqueza? Ele só pensou em si mesmo, para viver uma vida de descanso e prazer. Como diz o apóstolo em 1Cor 15, 32 comamos e bebamos que amanhã morreremos. E com a finalidade que também propõe o livro do Sirácida, encontrei descanso; agora comerei de meus bens(11, 19), pensa em aumentar a capacidade de seus celeiros para ter uma vida fácil, sem preocupações, para descansar, comer beber e gozar. Uma solução mais fácil seria repartir o que não coubesse nos celeiros com os mais necessitados, ou vender a preço mais acessível o excedente. Seria uma maneira de ajudar a quem não tem, e cumprir com o que Tobias recomendava a seu filho: Dá esmola de tudo que te sobrar e não sejas avaro na esmola (4, 16).

A MORAL: Segundo o último versículo de hoje, existem duas maneiras de ser rico: para si mesmo ou para [diante de] Deus(21). A primeira maneira é uma verdadeira idolatria(Cl 3, 5) quando atinge os limites da avareza. E será uma insensatez, sem miolos, pensar que as riquezas vão trazer a verdadeira felicidade como diz Jesus no trecho de hoje (20). A segunda maneira de ser rico tem duas opções que não são diametralmente opostas: a) A perfeita: enriquecer o coração optando pela pobreza em cuja escolha teremos outros desejos que não a ambição e desejos insensatos e funestos, que afundam os homens na ruína e perdição (1 Tm 6, 9). Por isso Jesus aconselha para o jovem rico: Uma coisa te falta ainda. Vende tudo o que tens, distribui aos pobres e terás um tesouro nos céus; depois vem e segue-me (Lc 18, 22). Neste caso descobrimos a verdadeira felicidade que é ser discípulo de Cristo. b) A segunda é fazer amigos com as riquezas de modo que no dia em que elas faltem e sejam inúteis eles vos recebam nas tendas eternas(Lc 16, 9). Neste caso o dinheiro compra a verdadeira felicidade que é imorredoura. Desde os tempos de Tobias sabemos que a esmola era um dever de todo judeu justo ( 4, 7-11 e 16-17). O Sirácida o dirá com palavras muito próximas às de Jesus em Lc 19. e compara a esmola com o sacrifício de louvor(35,2). Além dos pobres era o próprio Jesus e o colégio apostólico que foi favorecido pelas posses de suas discípulas. Sabemos que eles tinham uma caixa comum e que dela participavam os pobres(Jo 12, 5-6). Quando Zaqueu disse que a metade de seus bens seria dada aos pobres, Jesus exclamou: Hoje a salvação entrou nesta casa(Lc 19, 8). Quando as multidões perguntam a João que devemos fazer? Ele respondeu: Quem tiver duas túnicas reparta-as com aquele que não tem , e quem tiver o que comer, faça o mesmo (Lc 3, 10). Do evangelho deduzimos que o reparte deve ser generoso, até a metade dos bens, quando o outro nada tem. Sem dúvida que existe muita ostentação desnecessária na vida. Por isso é bom recordar as palavras de Tobias: o supérfluo pertence aos pobres, e a advertência dos Papas nos últimos tempos: Toda propriedade tem uma hipoteca social.

PISTAS: 1) Aparentemente o caso do homem que interpela Jesus era um caso de justiça. Mas Jesus recusa ser juiz. A justiça, considerada do ponto de vista humano, é falha e deixa muito a desejar. No litígio, os homens enfrentam uma guerra que mata não os corpos mas a amizade e o amor. Por isso Jesus dirá: Assume uma atitude conciliadora com o teu aniversário, enquanto estás no caminho, para não te acontecer que teu aniversário te entregue ao juiz e o juiz ao oficial de justiça e assim, sejas lançado na prisão(Mt 5, 25). Porém a caridade não procura o seu próprio interesse, não se irrita, não guarda rancor. Não se alegra com a injustiça, mas se regozija com a verdade (! Cor 13, 5-6). De fato todas as revoluções em nome da justiça, da igualdade e da liberdade têm sido extremamente cruentas e abundantes em mortes humanas. Muitas buscam a desforra e a vingança, Por isso todas as encíclicas sociais terminam com a mesma advertência: a justiça deve ser temperada pela caridade que é a que tem a última palavra nas relações sociais.

2) Talvez não tenhamos em conta que num mundo tão injusto como o romano de escravos e cidadãos diversamente classistas, Jesus nada disse a respeito. Porém, a ênfase evangélica está na justiça divina para a qual Lucas deixa a definitiva sentença, como Ai de vós ricos, porque já tendes a vossa consolação(Lc 6,24).

3) O problema da desigualdade, por não dizer péssima distribuição das riquezas, tem como solução uma voluntária redistribuição das mesmas, de modo que os mais ricos enriqueçam os mais pobres com as riquezas que para eles sobram e para estes faltam. A chamada esmola deve ser considerada como uma necessidade voluntária de distribuição das riquezas. Assim se conseguem dois objetivos altamente prioritários e necessários: Paliar uma injustiça presente e conseguir amigos eternos. (vide nota).

4) Mais do que condenar os ricos devemos pregar a pobreza voluntária, desterrando a ambição como programa humano e oferecendo a simplicidade e austeridade de vida como objetivo evangélico e ideal social.

EXEMPLO: A maior conquista de Ignácio, o peregrino, foi Francisco Xavier. Tornou-se seu amigo, emprestando-lhe dinheiro do qual o Navarro estava carente numa Paris em que o status social era mais importante do que o valor da pessoa. Uma e outra vez Ignácio repetia: de que adianta ganhar o mundo se se perde a alma? Porque Xavier era ambicioso e queria um título e umas garantias e etc.. Por fim Xavier rendeu-se à evidência evangélica. Deixou seus projetos individuais de ambição e desejos de subir na escala humana e entregou sua vida ao serviço divino sob as ordens de Ignácio. Sua ambição de riquezas se transformou em ambição de almas.

NOTA: Eis uma página que deve ser lida como atual por todos. È da homilia de S. Basílio Magno De caritate: “ Imita a terra, ó homem! À semelhança dela produze fruto, não te reveles inferior a uma coisa inanimada. Ela nutre frutos não para seu consumo, mas para teu serviço. Tu, no entanto, todo fruto de beneficência que produzisses, colherias para ti mesmo, porque o prêmio das boas obras reverteria a ti. Como o trigo que cai na terra redunda em lucro para o semeador, assim o pão dado ao faminto, grande proveito te trará no futuro. Seja, portanto, o final de tua lavoura o início da sementeira celeste: Semeai, está escrito, para vós mesmos na justiça. Mesmo contra a vontade, terás de deixar aqui teu dinheiro. Pelo contrário, enviarás ao Senhor a glória conseguida pelas tuas obras. Ali, na presença do Juiz de todos, o povo em peso te proclamará o provedor, o generoso doador e te cobrirá com todos os nomes significantes de bondade e de benignidade.

Com efeito, não vês como aqueles que, nos teatros, nos estádios, nos circos, aqueles que combateram contra as feras, cujo aspecto nos horroriza, por uma breve fama e pelos aplausos vibrantes do povo, malbaratam riquezas? Tu, porém, tão parco em gastar, donde conseguirás tamanha glória? Deus te aprovará, louvar-te-ão os anjos, todo homem criado desde o princípio do mundo te proclamará feliz. Glória eterna, coroa de justiça, reino dos céus, tudo isto premia as coisas corruptíveis que bem usaste. Nada te cause cuidado daqueles bens, objeto de esperança, pelo pouco caso dado às coisas temporais. Ânimo então, e reparte de diversos modos as riquezas, sendo liberal e magnânimo nos gastos com os indigentes. De ti dirão: Distribuiu, deu aos pobres, sua justiça permanecerá para sempre. Como deverias ser grato ao benéfico doador que teve considerações por ti. Não te alegras, não te regozijas por não teres que ir bater à porta dos outros, mas que eles venham à tua? Agora, no entanto, és rabugento, com dificuldade consegue alguém te falar: evitas encontros, não te aconteça teres de abrir mão nem que seja um pouquinho. Conheces só uma frase: “Não tenho nem dou; também sou pobre”. És pobre na verdade, indigente de todo bem: pobre de amor, pobre de bondade, pobre de fé em Deus, pobre de esperança eterna”.( 2a leitura terça feira 17a semana)