XX
DOMINGO COMUM ( Lc 1, 39-56)
A
VISITAÇÃO
(pe
Ignácio dos padres escolápios)
OS
NOMES: Mariam significa
senhora e segundo Lucas devemos distinguir seu nome de Maria
que é o nome dado à Madalena, ou o nome de Maria irmã de Lázaro, assim
como Maria Salomé. Lucas expressamente usa Mariam para a mãe de Jesus.
Elizabet, de origem hebraica, significa juramento de Javé.
Zacaria(s) significa Javé se lembrou. Segundo o modo de pensar dos judeus
o nome tinha muito a ver com a vida e existência do sujeito nomeado. A Senhora
visita a casa de quem foi lembrado por Deus porque cumpriu seu juramento, dando
origem a um bebé [Johanan] que é um dom precioso de Javé. Talvez Lucas não
soubesse a metáfora que os nomes significavam mas numa época em que Fílon
interpretava as Escrituras de modo simbólico e que teve como sucessores Orígenes
e Cirilo de Alexandria fundadores da escola simbólica escriturária para dar
lugar à Cabala, possamos deduzir que a possibilidade desta interpretação não é
absolutamente irresponsável.
A
MONTANHA: Termo
técnico, semelhante ao Deserto de Judéia,
para designar a região entre Jericó e Bethoron, como indicamos na exegese
do IV Domingo do Advento de 2003. (Ver comentários exegéticos Número 14 de presbíteros.com.br) Como a resposta
de Isabel até o versículo 45 já foi devidamente estudada, neste evangelho de
hoje vamos especialmente interpretar o canto mariano por excelência, o
Magnificat.
O
MAGNIFICAT: É
um dos três cânticos que Lucas nos oferece em seu evangelho. Sem dúvida tomando
como modelo outros cânticos como o de Moisés, em Éxodo 15, 1-18 e a pequena
estrofe de Miriam no versículo 21. Assim se inaugura uma ação de graças com
cântico que formam um conjunto de louvores pelos feitos maravilhosos, provindos
das mãos do Senhor. Mas o cântico que está mais perto do Magnificat é o de Ana
em 1 Sm 2, 1-10. Tenho o coração alegre, graças ao Senhor, e a fronte
erguida, graças ao Senhor, minha boca abre-se contra os meus inimigos: eu me
alegro por tua vitória.(...)O Senhor torna pobre e enriquece, rebaixa e também
exalta. Ergue o fraço da poeira e retira o pobre do monturo para fazê-los
sentar-se com os príncipes e atribuir-lhe o lugar de honra. A questão é se o
canto foi um espontâneo de Maria ou foi produto de um poeta cristão posterior. O
mais ´provável é que Maria meditou muito durante a viagem de três dias e o
tivesse composto meditando o cântico de Ana e o de Judite: Deus, o nosso
Deus, está conosco para manifestar seu vigor em Israel e sua força contra os
inimigos (13, 11). E Louvai a Deus que não retirou sua misericórdia da
casa de Israel, mas esmagou nossos inimigos por minha mão esta noite (13, 14).
Se em Ana o impulso que a levou ao cântico é o nascimento do filho, em
Judite está a vitória de Israel sobre os inimigos. Ambas as razões estão vivas
no cântico de Maria.
ESTRUTURA:
Dividiremos o Magnificat em três partes diferentes: 1a)
Introdução(47). 2a) razão do louvor(48-53). 3a) A especial
providência para com Israel, figura da misericórdia para com ela (54-55). Vamos
tentar explicar cada uma das partes, dando no final uma tradução livre do
cântico.
INTRODUÇÃO: É um louvor de agradecimento a Deus que é Senhor [Kyrios] e ao Deus, o seu Salvador o theós, o soter]. É um beraká ou louvor em alta voz. O grego usa o verbo megaleno, o que significa engrandecer tal e como as traduções portuguesa e italiana. Também a vulgata usa a palavra magnificat que é uma tradução literal do grego. Porém podemos traduzir livre, mas mais ajustado ao sentido próprio, por exaltar ou glorificar. De fato esta última é a preferida pela tradução espanhola:Exalta minha alma ao Senhor. È pois um grito de louvor ou melhor de ação de graças por um benefício recebido. Não podemos esquecer que nas línguas semitas não existe a palavra agradecer que é substituída por louvar ou exaltar. A segunda parte da introdução é o gozo existente por ter visto de perto a ação salvífica divina: E meu espírito encheu-se de gozo no Deus, o meu salvador. Tanto Deus, como Salvador, estão com artigo, indicando uma realidade definida e próxima de Maria.
RAZÃO: Porque fixou seu olhar na
insignificância de sua escrav.a O verbo epiblepo, que mais do que um
simples olhar significa observar,prestar atençãp. [respexit latino]por
isso temos taduzido fixou seu olhar. Uma outra palavra mal traduzida é
tapeinosis porque o latim
traduz por humilitas [humildade] que pode ser uma virtude ativa contrária
à soberba e assim foi traduzido às línguas vernáculas. Por isso a tradução
espanhola moderna diz se há fijado em la humilde condición de su esclava.
Já a italiana diz há considerato l’umiltà della sua serva. As duas
portuguesas dirão olhou para a humilhação de sua serva (B de Jerusalém) e
contemplou na(sic) humildade da sua serva(RA evangélica) que é uma
construção um tanto irregular. Tapeinosis pode ser também uma condição
nativa de impotência e insignificância , ou seja ser pequeno demais. Daí que o
olhar deve ser meticuloso, um observar, como indica o latim [respicio=
considerar, olhar com atenção, com piedade]. Doule=serva que o espanhol traduz
como escrava e o latim como ancilla[escrava doméstica], muito melhor que
as traduções de serva, pois o doule grego significa escrava propriamente
dita. A primeira razão da ação de graças é pois a natureza transcendental ou
divina de quem provém a eleição traduzida em benevolência: Deus. A segunda é a
pequenez da qual ele se deixou conquistar: escolheu um ser insignificante como é
uma escrava. É por isso que todas as gerações a chamarão bendita (de
Deus). O grego diz propriamente me abençoarão [chamar bendita] que muitos
traduzem por bem-aventurada, ou feliz. O que não é realmente uma tradução feliz.
Melhor seria, considerarão que sou privilegiada de Deus.
O PRIVILÉGIO(49): Já que fez para mim magníficas (coisas) o Poderoso[megaleios]. Na realidade megaleios é um adjetivo que significa excelente, magnífico. O poderoso era um dos títulos com os que os judeus substituíam o nome santo Hashem ou HASHEM YITBARAH[o nome recôndito]. É com este nome que Jesus responde à conjura de Caifás( Mt 26, 64) só que aqui é adjetivo e no momento do julgamento usa-se o substantivo Poder[dynamis]. Por isso, como era costume entre os judeus, termina Maria com um louvor ao nome santo: pois sagrado é seu nome. Ou se queremos calibrar melhor diríamos: pois seu nome e único, divino. Traduzimos o Kai grego, como correspondência ao wau hebraico que tem o significado de conjunção causal ou explicativa, tanto como conjuntiva.
A PROVIDÊNCIA DIVINA (50): Maria agora eleva seu olhar, e da intimidade de seu ser parte para a lei geral da providência divina para com todos os povos: Visto que sua misericórdia de geração em geração para com os que o temem. Maria nos dá uma definição da atuação divina que merece a pena considerar: Deus é misericórdia para os que o respeitam, pois é a maneira que devemos traduzir o fobeo [temer] grego quando referido a Deus. Respeito e reverência, que se traduz em obedecer suas leis de modo escrupuloso. A misericórdia é um ato de amor correspondente a quem se inclina ao mais fraco para ajuda e consolação. Esta é a linha geral que Maria descobre em Deus através da escolha particular´de sua insignificante pessoa.
O BRAÇO (51): Seu braço se mostrou poderoso ao dispersar os arrogantes de pensamento dentro de seu coração. Podemos contemplar dois sentidos na frase: a) O particular de uma batalha em que são derrotados os inimigos de Israel como aconteceu no caso de Judite 9, 4 e 13, 14 e o verbo pode ser empregado com toda a literalidade do mesmo, como dispersar ou desbaratar, do qual fala o salmo 89, 11 esmagaste Raab, como um cadáver, dispersaste teus inimigos com teu braço poderoso, como modelo da canção Mariana. É esse braço cuja destra esplendorosa de poder esmaga o inimigo(Ex 15, 6). B) Ou o sentido geral de todos os que têm orgulho em ser melhores e mais poderosos que os humildes e então o modelo é o canto de Ana: O arco dos poderosos é quebrado, os debilitados são cingidos de força(1 Sm 2,4). Neste último caso optaremos por uma tradução menos literal e no lugar do dispersou usaremos, peneirou como palha, descartando-os, como a palha é descartada do trigo.
OS PODEROSOS (52): São chamados de dynastes que podemos traduzir por príncipes ou poderosos. A tradução será pois, destronou os homens de poder de seus tronos e ergueu os de humilde condição.(52). Aos necessitados cumulou de bens e aos ricos despediu vazios (53). Neste ponto Maria segue o modelo de Sl 107, 9 e o canto de Ana: Os que viviam na fartura se empregam por comida.Os que tinham fome não precisam trabalhar. (1 Sm 2,4-5). Maria segue assim a política de Jesus das bem-aventuranças, de modo especial a redação que nós temos hoje de Lucas: Benditos os famintos ...Ai de vós os saciados agora.( Lc 6)
ISRAEL O SERVO (54): Protegeu seu servo
Israel. Em Is 41, 8-9 Javé chama a Israel meu servo. A palavra usada é
pais que tanto pode significar filho como escravo. Por isso a atuação de
Javé com o nascimento de Jesus significa um efeito peculiar de Deus em favor de
seu povo. E fez isso lembrado da misericórdia. Um momento peculiar dessa
benevolência divina foi o cumprimento de sua promessa dada como palavra
divina a Abraão e sua
semente [sua descendência] para sempre (55). É uma recordação de Gn
17,7. Esta aliança perene fará de mim teu Deus e o de tua descendência depois
de ti
TRÊS MESES (56): Era o tempo que faltava para que Isabel desse à luz seu filho e Maria sem dúvida ficou com a anciã parente até o momento do nascimento de João. Assim se explica os detalhes do mesmo de que Lucas é narrador e Maria sem dúvida testemunha.
A TRADUÇÃO: Exulta minha alma ao Senhor e
meu espírito encheu-se de gozo no Deus, o meu salvador, porque fixou seu olhar
na insignificância de sua escrava. Por isso, pois, desde agora aclamar-me-ão
como bendita todas as gerações; já que realizou em mim fatos extraordinários,
porque seu nome é divinamente sagrado, visto que sua misericórdia se manifesta
de geração em geração em favor dos que o respeitam. Seu braço mostrou-se
poderoso ao desbaratar os arrogantes de pensamento no íntimo de seus corações.
De modo que obrigou os homens de poder a descer de seus tronos e ergueu os de
condição humilde. Aos necessitados cumulou de bens e aos ricos despediu vazios.
Protegeu Israel, seu servo, guiado da sua misericórdia, como prometeu a nossos
pais, a Abraão e sua descendência para sempre.
PISTAS: 1) O Magnificat de Maria é o canto da maioria dos fiéis humildes, isto é pequenos e sem ambições, que constituem a maioria dos seguidores de Jesus. Diante das ambições das doutoras do sexo feminino que pretendem o sacerdócio é bom que recitem o cântico com a mesma sinceridade e humildade com que o fez Maria, todas as tardes nas vésperas para aprender que não é com direitos que vamos nos apresentar ao Deus dos pequenos, mas com a sinceridade que a humildade nos dá, ao saber que dele dependemos e que unicamente os que se humilham serão exaltados(Mt 23, 12).
2) Não é pela pessoa em si mesma, que a Igreja exalta e venera Maria, simples criatura, mas pelos grandes favores que recebeu de Deus e que por isso anima os mais desprestigiados a esperar favores desse mesmo Deus que exalta os humildes. Em Maria vemos as maravilhas que Deus pode realizar com as almas que reconhecem sua bondade; o que outros chamariam de méritos.
3) Maria é a única que louva o Senhor pelo que nela viu realizado. Não é unicamente por ser mãe do Messias, mas também como criatura escolhida de modo a ser exemplo para todas as mulheres. Ela não o disse no Magnificat, mas será Isabel que em termos de santa inveja a declara modelo de todas as mulheres.
4) Maria indica o verdadeiro caminho de salvação do seu Filho: Deus escolhe desde agora os mais imprestáveis segundo o mundo como diz Paulo (1 Cr 1, 17 –31)e que com clareza óbvia Maria expressa em seu cântico para que ninguém se glorie em si mesmo.
EXEMPLO: Era um família evangélica exemplar. Como sempre o culto mariano era tabu dentro de suas firmes convicções. O filho menor fez uma pergunta que deixou os pais sem resposta: Mãe, a senhora diz que a mãe de Jesus não merece nenhuma consideração e que é errado se dirigir a ela. Um meu amigo católico me disse que tudo o que eles dizem na reza a Maria está na bíblia. Como cheia de graça, o Senhor é contigo e bendita tu ente as mulheres. Hoje eu tenho lido o que ela cantou na visita a Isabel. Chamou-me a atenção que ela falou que todas as gerações a chamarão bem-aventurada. Mãe, quando leio esta passagem creio que os católicos têm razão ao invocá-la como mãe de Deus, pedindo a ela que interceda pelos que a invocam. Como poderiam chamá-la bendita se ela não serve para nos ajudar?