XXI DOMINGO DO TEMPO COMUM (Lc
13, 22-30)
QUANTOS
SÃO OS QUE SE SALVAM?
(Pe
Ignácio dos padres escolápios)
SEGUNDA
PARTE DA VIAGEM: No
grande resumo doutrinal que constitui a viagem de Jesus desde Galiléia a
Jerusalém, encontramos um segundo propósito de subida a Jerusalém precisamente
neste evangelho. Jesus atravessava cidades [polis] e pequenas aldeias[kome].
Lucas diz que isso era na sua viagem em direção a Jerusalém. È um marco
literário para o evangelista emoldurar nele uma série de ensinamentos que
Mateus recolhe no seu sermão da montanha. Um deles é o problema da salvação.
A
PERGUNTA:
Alguém perguntou. É um recurso e Lucas para introduzir um tema em profundidade
que Jesus como Mestre deve resolver. O interlocutor introduz sua pergunta
com Kyrie [Senhor]. Logicamente não é o Kyrios, título do Ressuscitado,
de quem tem o máximo poder na terra como representante do Deus vivo, como
diriam os judeus. Sem duvida que aqui é um título de respeito e cortesia
de quem se espera uma resposta sábia. A pergunta indica uma base semítica
clara. Não tem o verbo ser e traduzida diretamente do grego seria: Se
poucos os salvados? É uma pergunta que hoje como antigamente forma parte
de nossas ansiedades mais íntimas. Formaremos nós parte desses privilegiados?
Porque se são poucos estaremos em perigo de não ser contados entre eles.
A
RESPOSTA:
Não é uma resposta direta mas uma exortação para se preparar porque o tempo
é curto e a entrada estreita. Sem dúvida que temos necessidade de ambientar
a resposta segundo os pareceres da época: 1o)Os judeus, que acreditavam
na vida após a morte, afirmavam que a salvação era monopólio do povo escolhido,
deles, pois (ver Mt 3, 9). 2o)Tanto a pergunta como a resposta
estão limitadas pelas circunstâncias do momento. Trata-se de saber quantos
dentre os contemporâneos de Jesus e do kerigma apostólico entrariam
no reino. Isto pode ser deduzido das palavras do versículo 25. Por isso
Jesus exorta a lutar e se esforçar seriamente para entrar através da porta
estreita, restrita e difícil que dá acesso ao banquete e separa o mundo
exterior, dos rejeitados, do mundo interno, dos escolhidos. De fato essa
luta deu-se no início do cristianismo. O reino dos Céus sofre violência
(Mt 11, 12). Assim começa a pequena parábola que tem como ambiente o
banquete de bodas.
A
PARÁBOLA:
Está dirigida aos contemporâneos de Jesus. Tem como lugar paralelo a parábola
das dez virgens em Mateus 25, 1-13
e como comentários Mt 7, 13-14; 8, 11-12 e 21-23. Temos também como
complemento a essas dificuldades do Reino nos primeiros anos de sua proclamação
um comentário que Marcos recopila em 10, 24-25. Por isso dirá Jesus em Mateus
que os filhos do reino serão lançados fora, nas trevas(8, 12). Para entender
a parábola de hoje devemos partir do fato de que Jesus compara a entrada
definitiva no Reino com a resposta ao convite para um banquete de um rei
pelas bodas de seu filho, como lemos em Mateus 22, 1-14. ou em Lc 14, 15-24.
Nesta pequena parábola do evangelho
de hoje Jesus não quer dar uma reposta definitiva ao número, porque depende
de circunstâncias temporais. Mais bem se refere a seus conterrâneos e a
seu tempo, tempo que ele magistralmente descreve como os dos que comiam
e bebiam com ele de modo que os ensinamentos de Jesus eram escutados nas
suas praças (26). E é para esse tempo e esses homens que Jesus está falando.
Realmente foram poucos os que entraram no Reino e Jesus foi rejeitado tanto
pelas autoridades judaicas como por grande parte do povo em geral. Desta
forma se cumpria o que Jesus tinha previsto: Muitos desejarão entrar e não
poderão fazê-lo. Porque a entrada não está aberta de modo contínuo. A porta
será fechada pelo dono da casa e muitos ficarão de pé do lado de fora
batendo a porta. Estes últimos pedirão: Senhor, abre-nos! A resposta
do dono será: Não conheço de onde sois. E os pretendentes iniciarão
sua identificação dizendo que ele, o dono da casa,
tinha comido e bebido com eles e até ensinado nas suas praças. Tudo
era verdade para os judeus do tempo de Jesus na Palestina. E termina a narração
repetindo:Não sei de onde sois. Afastai-vos de mim todos os operários[ergates]
da maldade[adikia]. O ergates é um operário, um trabalhador exatamente
como pede Jesus em Lc 10, 2: a colheita é grande os operários são poucos.
Adikia significa coisa contrária à lei que pode ser injustiça, maldade
ou iniqüidade. A frase é uma cópia do Sl 6, 9:Afastai-vos de mim malfeitores
todos. Que Mateus 7,13 traduz mais literalmente usando as mesmas palavras
do grego dos setenta, ou seja os que praticam a maldade. Por isso
preferimos a tradução trabalhadores da maldade, ou operários do mal. Também
no salmo 101, 8 lemos:A cada manhã eu farei calar todos os ímpios da terra,
para extirpar da cidade de Javé todos os malfeitores [Ergazomenous ten anomian].
Deste modo se confunde adikia e anomia No dicionário bíblico
de língua inglesa adikia [sem juustiça] sai 23 vezes traduzida como
unrightneousness [injustiça] no sentido de não fazer o correto, e somente
duas vezes como injustiça no sentido de ilegal. Anomia [sem lei] tem como
tradução iniqüidade(12) e na sua origem sem lei [lawlessness inglesa]. Não
podemos traduzir a adikia, pois, como injustiça no sentido moderno da virtude
moral, de uma justa repartição de riquezas. Tem o sentido mais amplo de
ser uma conduta contrária às normas da Torá ou lei divina.
LÁ REINARÁ O PRANTO E O RANGER DE DENTES: É uma expressão usada muito frequentemente por Mateus (8,12; 13,42; 13,50; 22,13; 24, 51; e 25,30) Ela está unida ao lugar onde se encontram as trevas (3 vezes) ou a fornalha de fogo(2 vezes) e somente relacionada com os hipócritas (24, 51), que muitos traduzem por não dignos de confiança como em lugar paralelo de Lucas 24, 46, por ser uma deficiência do aramaico. No caso Lucas usa a expressão de pranto e ranger de dentes unicamente nesta passagem, indicando o lugar de fora, a exclusão do reino, o banquete onde estarão os três patriarcas representantes da fé e eleição de Israel. Estando fora do banquete, só encontrarão as trevas, pois não existindo luzes de rua essa era a situação das mesmas à noite. Ao choro, ou melhor às lamúrias próprias dos mendigos que clamavam por uma porção do jantar como esmola, unia-se o ranger dos dentes devido ao frio da noite ou à indignação de ser expulsos. Temos a tradição judaica que atribuía o ranger de dentes aos diabos no inferno; pois declaravam que à lisonja com a que bajulavam Coré, no caso da insurreição deste contra Moisés(Nm 16), o príncipe do inferno rangeu seus dentes a eles. O qual recebeu o nome de indignação ou tumulto do inferno. A frase aparece nos Salmos 35, 16 e 37,12 para expressar as injúrias dos ímpios contra os justos. No nosso caso seria para expressar o rancor contra o próprio dono da casa, seja o Senhor Jesus, seja o próprio Deus. A expressão em Mateus serve para indicar os castigos escatológicos como em 13,50, onde os que praticam o mal serão lançados na fornalha acesa onde haverá choro e ranger de dentes, como diz a conclusão da parábola da pesca onde se escolhem os peixes bons e se jogam os peixes proibidos. Podemos deduzir de tudo isso que o inferno será um lugar de fogo? Da expressão de Lucas é difícil argumentar definitivamente. Mateus se aproxima mais à idéia do inferno de fogo. Somente a Tradição resolverá o caso e tratará como formal um elemento que ao que parece é simbólico e narrativo.
PATRIARCAS E PROFETAS: Os três nomes são clássicos na literatura hebraica. Os profetas não acompanhavam o grupo de líderes dos escolhidos, porém Lucas em várias ocasiões os agrupa como conjunto que forma parte do Novo Reino. Porém vós mesmos sereis lançados fora do mesmo. Este último indica que Jesus se refere aos seus ouvintes conterrâneos. E que foi uma decisão divina esta de rejeitar o povo ao qual até agora pertenciam os filhos do reino, naturais herdeiros das promessas.
OS NOVOS HERDEIROS: Dos quatro pontos do mundo virão os novos
membros ou filhos do Reino. Já Isaías o profetizou: Para que se saiba
até o nascente do sol e até o poente que além de mim não há outro(45,6;)
que Malaquias completa dizendo que nesses limites é grande o meu nome
e em todo lugar lhe é queimado incenso e trazidas ofertas puras porque é
grande entre a nações.(1,11). Se realmente faltam os outros dois pontos,
Norte e Sul os encontramos em 49, 12: virão do Norte e do Ocidente e
outros da terra de Sinim, que alguns identificam com o sul da China.
É importante que Jesus o afirme. São todos os povos convidados e de todos
eles se formará o novo Reino, sem distinção, como diz Paulo dos
dois povos até então inimigos Deus fez um só, pois ele [Cristo] é nossa
paz.tendo derrubado o muro de separação e suprimido em sua carne a inimizade
(Ef 2, 14)
A MORAL DA HISTÓRIA: Porque eis que hão últimos que serão primeiros e hão primeiros que serão últimos (tradução literal). Evidentemente nessa afirmação há duas asseverações dignas de reflexão: Não são todos os últimos, os primeiros; e vice-versa. A segunda é que fundados no parágrafo anterior, as duas classes diferentes são gentios e judeus. Estes pertencem ao grupo dos primeiros e aqueles ao grupo inicial dos últimos. Logicamente o juízo é baseado na formação do novo Reino.
PISTAS: 1)Temos aqui um relato evangélico, aparentemente constituindo uma unidade tanto lógica como real. Porém comparando-o com outros evangelistas vemos que é mais uma unidade lógica e redacional. Lucas escolheu um fim que é a moral da história e reuniu diversos materiais para escrever esta página que separada do contexto poderia ser tomada em termos absolutos e embora Jesus não o afirme nós o declaramos rotundamente porque está na Bíblia: poucos são os escolhidos, os que se salvam-afirmamos.
2)Os evangelhos são relatos com bases históricas mas com finalidade catequética ou apologética e por isso podem ser composições arbitrárias de fatos reais e palavras verdadeiras, que os evangelistas nem se atrevem a alterar. Assim o comprovam os lugares paralelos, porém usados com diferentes objetivos. Daí a diversidade nos contextos e conclusões.
3) Neste trecho nos encontramos com uma realidade que não podemos esquecer; pelo fato de ser circuncidados e pertencer ao povo eleito, o antigo Israel não foi salvo como um todo para entrar a formar parte do novo Reino, do novo Eon como agora se diz. Mas poucos foram os escolhidos, precisamente aqueles que tiveram que lutar e se esforçar contra corrente para entrar, entre eles os que nada tinham a perder, os pequeninos, os que não eram sábios nem ilustrados[leídos](Lc 10 21)
4)Fazendo uma apropriação parenética, a escolha do reino deve ser imediata, não deixada para última hora, porque a porta pode estar fechada. Formamos parte do novo Israel, mas a conduta individual da qual depende em grande parte a escolha, é nossa responsabilidade. A prática da justiça, isto é do bem, [fazer a vontade do Pai] será a que nos torne verdadeiros discípulos e a que obrigará o dono a escolher e abrir a porta definitiva.
EXEMPLO: É um conto que muitos têm ouvido desde crianças.
Dizem que num dia de bom sol e aprazível calma dois cientistas amigos, alugaram
um bote para um passeio no mar. No meio do passeio, afastados a uma longa
distância da margem os dois cientistas se propuseram brincar com o pobre
barqueiro que remava ritmicamente o barco. Sabe você como falar pela Internet?
Nem sei o que é isso. Ah! Você
perdeu grande parte de sua vida. Quantos jornais lê você ? Não
sei ler. E assim foram brincando com o humilde remeiro. Porém de repente
uma enorme borrasca se agitou e um golpe de mar virou o barco. Sabem vocês
nadar? Perguntou o barqueiro. Naaaâo! Foi a resposta; e o barqueiro
respondeu: pois vocês perderam toda a sua vida.