XXII DOMINGO DO TEMPO COMUM (Lc 14, 1. 7-14)
O BANQUETE
(padre Ignácio dos padres escolápios)
NUM
SÁBADO PARA COMER PÃO:
Segundo os hábitos romanos, seguidos na época em quase todo o império,
havia três comidas diárias: O JENTACULUM [café
da manhã, derivado diminutivo de jentare, comer, daí o português janta]
que consistia em pão simples ou com algum complemento como a cebola (0s
pães e cebolas dos hebreus no Egito e que os romanos traduziam em panis
et circenses). Os mais pobres recorriam como clientes aos patrões [de
pater, pai] e após a salutatio [saúdo] na casa dos mesmos,
recebiam deles uma cesta com comida chamada sportula
ou no lugar da comida um pequeno pagamento em dinheiro. Um convite
para a janta era também um presente típico. Para muitos pobres desempregados,
esta era sua única fonte de vida. embora alguns pudessem ter um ofício
retribuído. A segunda refeição do dia era o PRANDIUM;
era uma comida fria de pão, fruta, nozes, queijo,azeitonas
e salada, feita no fim da manhã. Finalmente a COENA ou cena,
perto do por do sol. Para os pobres consistia em puls,
mingau de farinha cozida em água, ou um guisado de verduras e frutas
mas raramente comiam carne. Os ovos eram comida comum também entre os
romanos, de modo que os postes de contar as voltas dos carros nas corridas
do circo máximo terminavam em ovos. Entre os judeus da Galiléia o peixe
de salgado e o pão sem fermento do tipo sírio tostado na prancha eram
a comida mais comum junto com algumas frutas especialmente as secas e
com azeitonas. No caso do simpósium [reunião para beber],o
vinho, se existia, era avinagrado. Esta refeição tinha um horário de verão
6 da tarde e outro de inverno, 3 horas no dia mais curto do ano. Nas casas
dos ricos existia uma sala chamada triclinium com três bancos
em forma de U no tramo da esquerda estava o banco lectus summus
[leito superior] no horizontal o lectus medius [leito médio] e
no vertical da direita o lectus imus[leito inferior]. Em cada leito,
ou banco, reclinavam-se três pessoas: indo em sentido contrário ao relógio
o summus, o medius e o imus. Os gregos só admitiam dois comensais por
leito e os romanos até quatro, como foi o caso da última ceia. Os leitos
podiam ser de pedra não horizontais mas algo inclinados para permitir
o accubatio ou seja para se reclinar neles acima de divãs. No centro
do triclinium havia a mesa com os manjares. Os comensais tomavam a comida
boca abaixo para logo se recostar sobre o lado esquerdo, apoiados no cotovelo
respectivo. Era pois natural que muitos se reclinaram no peito do comensal
situado á sua esquerda, como foi o caso de João, na última ceia(13, 25).
Por isso deduzimos que esta maneira de banquetear-se tinha se introduzido
desde os tempos gregos nas famílias mais ricas da Judéia. Os fariseus
formavam associações religiosas que tinham como costume o banquete ritual
dos sábados em que a oração e bênção subsequentes os tornava verdadeiros
irmãos. É possível que Jesus fosse convidado a um destes banquetes rituais.
Como temos visto, a ordem nos mesmos era uma questão de honra. E Jesus
observou a atuação dos comensais. Como exemplo do que era um banquete
nas casas ricas de Roma temos um provável menu que se dividia em três
partes: gustatio (aperitivo) com ovos cozidos, azeitonas, saladas
etc. Prima mensa [prato principal] com peixe ou carne, miúdos de
porco, etc. Secunda mensa [correspondente à nossa sobremesa] macãs
ou fruta, ostras, escargots [caracóis], vários doces etc. Aparentemente
os ovos eram o tradicional aperitivo dos romanos porque tinham um provérbio:
dos ovos às maçãs[ab ovo ad mala], equivalente ao dela sopa a los postres
do castelhano.
De fato o pão era tão importante na dieta dos romanos que comer o pão
equivalia a refeição. Por isso Lucas diz no trecho de hoje: E sucedeu
que ao entrar Jesus na casa de um dos líderes dos fariseus em sábado para
comer o pão..
Aparentemente Só Jesus foi convidado. A intenção do hospedeiro e principalmente
dos outros convivas era a de observar a conduta de Jesus.
A
OBSEVAÇÃO DE JESUS:
Lucas diz que Jesus falou em forma de parábola. Temos uma idéia de que
parábola é um conto do qual só podemos usar como ensino a moral da estória.
Mas a parábola tem vários significados como provérbio, alegoria, enigma,
que podem traduzir tanto a palavra mashal como hidah [enigma]
ou simples reflexão. É uma comparação que usa termos descritivos mais
do que narrativos para expor uma determinada valoração ou aplicação concreta.
É como se observássemos uma página da vida para logo tirar as conclusões
que ela nos oferece como exemplo. A primeira observação é para os convivas
que com certeza lutaram pelos primeiros lugares. Jesus usa o convite de
bodas em que havia muito mais do que nove ou uma dúzia de convidados e
em que os lugares de honra não estavam previamente designados. Quem acredita
ser melhor do que os outros, pode se ver na humilhação de ter que deixar
seu posto a um outro mais honrado do que ele e, como todos os leitos estão
ocupados, ter que ir para o último lugar. Por isso é melhor ocupar o último
lugar para que o hospedeiro possa te dizer: amigo, ascende para um lugar
mais importante. Já na palavra amigo se encontra uma grande manifestação
de estima que se transforma em visível cortesia quando diante de todos
se ocupe um lugar mais digno. Não serás envergonhado mas exaltado, vem
dizer a conclusão particular de Jesus. Os rabinos também diziam coisas
semelhantes: Desce do lugar que pensas que te corresponde duas ou três
posições; porque é melhor ouvir do hospedeiro sobe que escutar desce
(Pr 25, 6-7). E por isso ele universaliza a conclusão no plano divino
usando a passiva teocrática:Porque todo aquele que se exalta será humilhado
e aquele que se humilha será exaltado(11).
OBSERVAÇÃO
AO HOSPEDEIRO:
O grego usa duas palavras diferentes para classes de refeições ariston
que podemos traduzir por almoço ou como temos visto o prandium
romano e deipnon cuja tradução é sem dúvida jantar ou a coena
dos mesmos, comida a mais importante do dia. Talvez Lucas esteja excetuando
o jentaculum em que logicamente o proveito do patrão era ter como
servos os fregueses a quem dava de comer. Nas outras duas ocasiões o proveito
não era tão óbvio assim. Jesus evidentemente visa a recompensa: ou é dada
de imediato, em forma de retribuição, ou pelo contrário
é melhor convidar pobres, aleijados coxos e cegos para a festa [doché].
Jesus está diretamente apontando verdadeiros mendigos, pois ptochós
é a palavra do pobre que vive de esmolas; e aleijados, coxos e cegos eram
precisamente aqueles que não podendo trabalhar, só tinham solução para
poder viver, na caridade dos transeuntes das estradas ou dos orantes no
templo e sinagogas. Realmente esses tais não poderiam pagar. Jesus mesmo nos oferece a solução evangélica
a este problema humano: sereis benditos, porque não existindo quem
vos possa retribuir, a vossa recompensa será na ressurreição dos justos(14).
Os ouvintes eram fariseus que acreditavam na ressurreição (At 23, 8) sendo
a mesma um prêmio especial para
os que se consideravam a si mesmos justos(Lc 18, 19). À parte a ressurreição
eles podiam esperar um trato especial divino como recompensa pelo que
não puderam fazer os seus convivas indigentes.
PISTAS:
1)A primeira observação de Jesus diz respeito à honra humana, essa que
os rabinos tanto desejavam para serem vistos pelos homens (Mt 6, 5). Porém
Jesus não fica unicamente no plano humano e por isso expõe a razão última
da verdadeira humildade, como observada por Deus. É o próprio Deus, que
nos seus planos, dispõe exaltar o verdadeiramente último em sua consciente
interioridade, para degradar o que Maria chamará soberbo no fundo de seus
pensamentos(Lc 1, 51)
2)A
segunda observação é sobre o modo de acolher as pessoas que queremos ajudar:
se unicamente temos como amigos os que podem retornar o bem feito, seria
uma maneira comercial e egoísta de atuar. O mundo seria um comércio em
que a lei dominante se tornaria a lei da oferta e da demanda. Mas se escolhemos
os mendigos, os que nada podem oferecer como resposta, então seria o homem
enquanto necessitado de nossa ajuda como valor universal quem dirigiria
nossa atitude e modo de viver.
3)
Evangelicamente nos interessa o modo de entender os planos divinos: Ele
só premia o que os homens deixam injustamente de recompensar. Evidentemente
a recompensa divina tem duas conotações que não podemos esquecer: a eternidade
da mesma, e a magnanimidade de quem é infinitamente rico e dadivoso.
4)
Não podemos evitar a reflexão de que, uma vez mais, o Reino é comparado
a um banquete, uma festa, uma alegria por participar da vida divina plenamente
em sua amabilidade e de que nós também devemos participar com os outros
homens dessa alegria, de modo a sermos o sal e a luz dos que estão famintos
ou cegos na vida.
EXEMPLO:
Contam que em certa ocasião uma senhora recolheu um pobre rapaz que só
pedia alguma coisa para comer. A senhora compassiva deu a ele um litro
de leite. Passaram-se os anos. Aquela senhora precisava de uma operação
extremamente cara e difícil. Entrevistou-a o médico que deveria operá-la
e ela contou-lhe o problema. A reposta do médico foi: Quem me deu um litro
de leite não pode se preocupar por uma operação que nada lhe custará.
A senhora já pagou por ela.