XXIV DOMINGO DO TEMPO COMUM (Lc 15, 1-32)

PARÁBOLAS DA MISERICÓRDIA.

(Pe ignácio dos padres escolápios)

 

Neste domingo podemos ler a leitura breve de Lucas 15, 1- 11 ou a longa em que encontramos a parábola, talvez mais bonita, dos evangelhos: a parábola chamada do filho pródigo. Como esta parábola já foi comentada no IV Domingo da quaresma deste ano, dedicaremos o comentário de hoje à explicação das duas parábolas precedentes: as da ovelha e da dracma perdida.

 

INTRODUÇÃO: Todos os publicanos e pecadores estavam se aproximando de Jesus a ouvi-lo. Sabemos quem eram os publicanos: Os arrecadadores de impostos, mal vistos pelos judeus por serem julgados como colaboradores de um poder que tinha o César como dono de um império no qual ele era o representante de deuses pagãos. Os publicanos cobravam um dinheiro que pertencia ao único Deus, Javé, dono da terra das promessas. Os pecadores são os sujeitos da ruptura voluntária com esse mesmo Deus, especialmente se o pecado é de idolatria, como no caso do antigo Israel, dado ao culto dos Baal ou deuses cananeus, culto especialmente praticado pelos reis, tanto do Norte como do Sul, após Salomão. Em Lucas a palavra pecador[amartolos] tem por vezes o sentido que tem em Mateus a palavra gentil [ethnikós]. Tal é o caso do amor que em Lucas vemos oferecido aos amigos pelos pecadores(6, 32-34) esses pecadores que em Mateus são chamados publicanos e gentios(5, 46-47). No caso atual já fizemos questão de afirmar que os gentios eram considerados pecadores de modo especial. Pelo que respeita às mulheres de vida pública, temos que dizer que as etairas ou cortesãs eram consideradas em grande estima entre os gregos. Eram, diferentes tanto das concubinas como das esposas, pois as etairas alegravam os banquetes aos quais nunca acudiam as esposas e possuíam conhecimentos dos que uma mulher honrada se envergonhava, como saber ler e escrever. Essas mesmas qualidades tinham as geishas entre os japoneses. Mas também existiam as de classe inferior, chamadas porné, que é o nome usual da Escritura e que Lucas emprega no evangelho de hoje como sendo as mulheres com as quais o filho menor dissipou sua herança (30). Existiam também as hieródulas, escravas sacerdotisas da deusa Afrodita [Vênus latina], deusa do amor. De modo especial em Corinto eram as prostitutas sagradas em número muito grande que iniciavam os jovens no amor. No Gênese temos o relato de Judá que se acostou no caminho com uma mulher que ele pensou ser prostituta cultual [Kedeshá] e em 2 Rs 23, 7 o rei Josias demoliu a casa dos Kadeshim (sic) ou prosdtitutas sagradas que o texto dos setenta não traduz mas deixa com o nome plural de kadesh no masculino. No NT aparece a palavra pornés traduzida por meretriz[a que ganha] embora os romanos tinham as pallaca [cortesãs], as pala [abertamente] e as meretrizes todas elas sob o nome de prostitutas [oferecidas]. Se entre os romanos o adultério estava proibido sob pena de morte, isso era mais devido às consequências sociais que acarretava o filho ilegítimo, do que ao ato em si considerado como pecaminoso. O filho legítimo de uma matrona romana era livre e tinha seu estatus derivado da classe social do pai. Um filho ilegítimo era um escravo, seja qual for o pai, que se considerava o único elemento a proporcionar a vida. O óvulo feminino só foi encontrado no fim do século 19. Para evitar que os jovens pudessem por em perigo a honra dos lares vizinhos, é que o adultério estava penalizado com a pena de morte que o pai devia cumprir se o marido não o fizesse segundo a lei Julia. Por isso os prostíbulos eram considerados como serviços sociais necessários. Para distingui-las as prostitutas estavam obrigadas a vestir uma toga curta e escura que as diferenciava das outras mulheres. Os soldados romanos não podiam casar durante os 25 anos que durava seu alistamento. Daí o número grande de cortesãs que acompanhavam os exércitos.

 

QUE BUSCAVAM ELES EM JESUS? A doutrina do Mestre era bem acolhida por um povo que era desprezado pela classe social governante, saduceus e fariseus, porque Jesus acolhia os publicanos e pecadores e até comia com eles, coisa inaudita e que feria a consciência da época, fundada na separação dos dois povos e inimizade entre ambos, como dirá Paulo em Ef 2, 14. Daí que murmurassem contra Jesus, acusando-o de recebê-los e de comer com eles, fato este que implicava uma certa intimidade e até amizade.

JESUS SE DEFENDE: 1ªPARÁBOLA. É a parábola da ovelha perdida. Todo pastor que tem 100 ovelhas é capaz de deixar 99 no descampado [eremos grego] ou seja sem que ninguém as cuide para buscar a perdida. Mateus em lugar paralelo fala dos montes que para o caso é o mesmo, pois os pastos estavam situados na faixa montanhosa da Juseia ao leste de Jerusalém etre ela e o mar Morto (Mt 18, 12). Mas a particularidade da parábola, a coisa que dá pé para rebater seus inimigos, é a alegria do pastor, uma vez encontrada a ovelha desgarrada: a coloca sobre seus ombros e na volta à sua casa chama amigos e parentes para narrar como um fato extraordinário o encontro da ovelha que estava perdida. Jesus termina afirmando que o que é feito na terra é pálido modelo para céu. As coisas perdidas têm mais valor que as que todos os dias usamos. Uma ovelha desgarrada pesa mais na balança do sentimento do que 99 para as quais não é necessária vigilância. Por isso haverá (mais) alegria no céu sobre a conversão de um pecador que muda de conduta, do que sobre 99 justos que não precisam mudar suas vidas(7). O grego segue neste caso o comparativo semítica e por isso é necessário introduzir o mais ente parêntesis. A expressão no céu aponta para o habitante principal do mesmo que é o próprio Deus. Na segunda parábola os exultantes serão os habitantes do mesmo os anjos. Com isso Jesus indica que o fenômeno não é unicamente humano, mas se estende até ser aprovado pela vontade última, como é a divina. Para ela também é motivo de máxima alegria a conversão de um pecador.

2ªPARÁBOLA. A DRACMA PERDIDA. É um paralelismo perfeito da parábola anterior. Uma coisa perdida que tem um valor extra quando é encontrada pois alegra o coração de quem a busca até tal ponto que deseja compartir seu gozo com os vizinhos. Na realidade as 10 moedas não eram uma quantidade notável como para constituir uma fortuna. É possível que o valor da moeda derivasse do fato de formar parte das arras ou moedas com que as mulheres adornavam o véu nupcial. Porém o texto não dá indício algum para esta interpretação. De fato uma dracma era equivalente ao denário, ou seja o salário de um dia. E considerando que o valor de uma coisa depende da estima que seu dono dá à mesma, podemos afirmar que uma mulher cujo único tesouro são as dez moedas tem um apreço muito grande a esse pequeno tesouro que constitui parte de sua vida feliz. O termo final da parábola é o mesmo que o da parábola anterior: alegrai-vos comigo porque encontrei a dracma que tinha perdido. Assim vos digo que haverá gozo entre os anjos do(sic) Deus por um pecador que se arrepende.

3ªPARÁBOLA. É a conhecida como do Filho Pródigo, que por ter sido comentada no IV DOMINGO DE QUARESMA deste ano não comentaremos aqui.

PISTAS: 1) Jesus dá uma lição de como devemos ver as pessoas que aparentemente estão fora do círculo da moralidade social em que pensamos encontrar-nos. São os marginados pela sua conduta pecaminosa. Jesus afirma que a sua conversão deve ser causa de alegria verdadeira. É por isso que ele toma a atitude do pastor que vai atrás da ovelha desgarrada ou a mulher que varre e limpa a casa para encontrar a moeda perdida de sua coleção.

2) Além dessa conclusão Jesus mostra o autêntico rosto do Pai que é o de procurar o que estava perdido pois ao encontra-lo a alegria produzida é muito maior e duradoura que a tristeza da perda, nunca definitiva. Jesus dirá de si mesmo que veio buscar e salvar o que estava perdido (Lc 19, 10). Várias congregações religiosas abundam na mesma teoria para delimitar sua vocação.

3) Pelo que diz respeito a nós a notícia implícita na parábola é de grande ânimo e consolação. O pecado não nos afasta definitivamente de Deus. Ele espera nossa conversão que é como um achado após uma intensa busca. Um pecador arrependido vale mais que 99 justos, e sua conversão enche de alegria um Deus que espera sempre. A conversão é a maior alegria de quem deu a vida para os que intentam a volta após se afastar do caminho.

4) Deus não tem inimigos, mas desgarrados ou extraviados. Por isso sua maior virtude é a espera, como espera o amor pela pessoa amada. Como deveríamos aprender dessa sua maneira de esperar para que o mal se transforme num bem, causando maior alegria que tristeza originou a primeira ausência!

EXEMPLO: As três parábolas já são um exemplo e não poderíamos encontrar outro melhor entre os modelos humanos. Aparentemente pelo que lemos no AT Deus é um Deus vingativo como eram os deuses dos pagãos; porém o verdadeiro Deus é o Pai que tem dois filhos. Como numa família, o filho, não mais amado mas mais cuidado, é o mais frágil e doente, assim é a conduta divina conosco. Espiritualmente os pecadores são os mais necessitados de amor ou de perdão e cuidado para a sua volta ao caminho verdadeiro. Contam que um sacerdote pediu a seu sacristão que reunisse o povo para pedir a Deus água necessária para o campo. Reunidas as pessoas, o sacristão confiou ao sacerdote sua falta de fé nas próximas preces: Seu padre, temo que nossas orações não sejam ouvidas, porque há alguns ladrões entre os orantes. Melhor -  disse o padre. Se as portas da Misericórdia estão fechadas ai teremos os  expertos que as abram. Os pecadores são os que abrem as portas da Misericórdia Divina, assim como os necessitados abrem as portas da misericórdia humana.