XXIII DOMINGO
DO TEMPO COMUM (Lc 14, 25-33)
O VALOR
SUPREMO DO SEGUIMENTO DE JESUS.
(Pe Ignácio dos padres
escolápios)
INTRODUÇÃO: O tema de hoje está precedido por uma
introdução em que vemos muitas ou grandes multidões acompanhando Jesus. À vista
disso ele terá que determinar quais são as verdadeiras características dos que
querem realmente se tornar seus discípulos. Temos pois, duas exigências
essenciais para formar parte do seu discipulado junto com duas parábolas ou
exemplos, finalizando com uma conclusão que determina toda a matéria,
unificando coerentemente a lógica dos argumentos precedentes.
1A EXIGÊNCIA: JESUS PREFERIDO A TODOS OS PARENTES. Jesus
afirma: Se alguém vem a[pros do
grego] mim. É um chegar com a finalidade lógica de se tornar discípulo, que na
época era mais do que um ouvinte. Discípulo [mathetés em grego] significava todo aquele que seguia a vida e as
instruções do mestre de forma contínua. Moravam juntos e participavam das
mesmas idéias e comidas. O discípulo era uma réplica do mestre. Vendo Jesus as
turbas que o seguiam declara terminantemente que não todos os que ouviam suas
palavras podia ser considerados verdadeiros discípulos. A primeira qualidade
dos mesmos é preferir Jesus a todos os parentes. Como era clássico na moral
semita, Jesus nomeia um por um os casos em que ele deve ser preferido e pela
ordem em que eles deviam ser considerados ou amados segundo a lei e a tradição:
Pai, mãe, esposa, filhos, irmãos e irmãs. O texto grego usa uma palavra que
hoje nos parece difícil se não escandalosa: misei
[do verbo miseo=odiar]. Se alguém não odeia diz o mesmo. Na realidade é um
semitismo que o evangelista traduz literalmente e que indica a antiguidade de
sua fonte e a fidelidade de sua tradução, revelando um estágio primitivo que
pode ser a própria palavra de Jesus [ipsisima verba] sem retoques redacionais.
De fato os orientais não tinham tantas acepções e distinções como nós, e eram
mais diretos nas suas expressões. No lugar de dizer amar menos ou desprezar,
usavam o verbo antípoda: odiar. Tal é o caso de Paulo em Romanos 9, 13: Esta
escrito: Amei Jacó e odiei [mesmo verbo
miseo] Essau. Por isso as diversas traduções modernas do trecho de hoje
usam notas explicativas como a Bíblia de Jerusalém que traduz o odeia por
desapego completo e imediato, referindo-se ao texto 9, 57-62. Ou, a exceção da
italiana que, como o latim, conserva o original odeio, usam expressões
equivalentes: a francesa sans se détacher; a inglesa without being ready to give up your love for; a portuguesa não dá mais preferência a Mim; a
espanhola no deja, e a latino
americana no se desprende. Devemos pois entender que Jesus exige prioridade respeito a parentes, seja qualquer
o degrau dos mesmos, prioridade que unicamente no AT era atribuída a Deus. A
melhor interpretação desta passagem a temos em Mt 10, 37: Aquele que ama pai ou mãe mais do que a mim não é digno de mim. E
aquele que ama filho ou filha mais do que a mim não é digno de mim. O texto
grego fala de fileo yper eme, corretamente
traduzido ao português. Lucas como vemos acrescenta esposa, pois não podemos
esquecer que ele escreve para gentios em que a esposa contava como parte
importante da vida. Temos também uma outra diferença: a alma, introduzida com
uma expressão de reforço: mais ainda,
até sua alma [psyché em grego, anima em
latim]. Que significa psyché? Do
texto original hebraico nefesh hayah
do Gênesis 2, 7 a Bíblia de Jerusalém traduz insuflou em suas narinas um hálito de vida e o homem se tornou um ser vivente. A tradução da escrita
em negrito dos setenta em grego é: eis
psychen zosan. Deste modo temos que psyché se confunde com nefesh e zosan.
Onde psyché pode muito bem significar propriamente a vida como vemos nos textos
modernos. Jesus exige abandonar não unicamente os planos pecaminosos do pecado,
mas também os projetos bons e lucrativos da vida em particular. Tudo estará
subordinado a Ele, como estavam no A T as coisas e os seres dependentes de
Javé-Deus. Lucas em lugar paralelo exige a negação a si mesmo: não tanto
negação ao pecado como aos projetos e planos próprios, legítimos desde a
liberdade do ser humano. Todo o amor -escreve um autor- é portador de
eternidade; mas nenhum amor é autêntico se prefere aquilo que se goza no tempo
ao que é único e eterno.
2A EXIGÊNCIA: A CRUZ. Não pede ser morto na cruz mas bastazein, traduzido ao latim por bajulare, ou seja carregar a mesma.
Quando falam os evangelistas da cruz expressam com duas palavras o fato de
suportar o peso da mesma no caminho do suplício: airo e bastazo. Airo significa tomar ou levantar e bastazo carregar. A cruz era o suplício
mais atroz dos tempos de Jesus entre os romanos, segundo testemunho de Cícero;
e além disso o crucificado, era segundo Dt 21, 23, maldito por lei: o que for
pendurado no madeiro é maldito de Deus, que Paulo cita em Gl 3, 13: Cristo nos resgatou da maldição da Lei
fazendo-se ele próprio maldição em nosso lugar porque está escrito: Maldito
todo aquele que for pendurado em madeiro. A cruz [staurós] em grego era inicialmente o Stipes ou madeiro vertical no qual se empalava o réu, daí a palavra
grega stauroo(=empalar ou pendurar no
madeiro). Mas nos tempos de Jesus a cruz estava constituída de dois madeiros:
um deles fixo no lugar do suplício era o vertical que recebia o nome de stipes [estaca] e o outro de nome patibulum, que era carregado pelo réu
abrindo os braços e amarrado a ele horizontalmente, como vemos em Jo 21, 18: estenderás os braços e outro te cingirá ou
atará. Sempre eram vários os réus
crucificados que formavam uma procissão em fileira de modo que o patibulum do
anterior era amarrado ao pé do seguinte. Daí o lugar paralelo de Lucas : (9,
23). Se alguém quer vir após mim (...)
tome a sua cruz cada dia e siga-me. Jesus está pedindo o impossível: a
destruição do próprio ego. Tudo soa como aquilo de amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, etc.
PRIMEIRA PARÁBOLA: A TORRE. Era esta uma casinha de pedra
construída num ângulo da vinha par vigiar e impedir que bestas selvagens e ladrões
pudessem roubar ou estragar a mesma. Tinha certa altura e portanto era
necessário que tivesse fundamentos sólidos. Caso não puder acabar o começado
seria para o dono uma vergonha.
SEGUNDA PARÁBOLA: O REI. Antes de iniciar uma guerra que pode
ser um desastre total é preciso pensar seriamente se com o exército disponível
podemos vencer o inimigo por vezes superior. Caso contrário é melhor optar por
uma paz embora seja menos honrosa. São comparações que podem ser entendidas do
ponto de vista puramente natural pelo homem psychikós
que diria Paulo, levado unicamente de sua razão e sentimentos.
CONCLUSÃO FINAL: Ambas parábolas explicam as dificuldades e
inconvenientes que levarão muitos a a abandonar o caminho empreendido. Por isso
devemos enfrentar o nosso discipulado com a intenção de total e absoluta
renúncia a todo o que possuímos. O verbo grego apotasssomai significa dizer adeus. É um esquecer definitivo uma
renúncia absoluta a todos [pasin] os
bens[yparchousin]. Isso é que
determina e fixa o verdadeiro discípulo.
Pistas: 1) Os conselhos evangélicos ou seja o
discipulado de Cristo é um chamado a todos. Mas unicamente serão verdadeiros
discípulos os que estejam dispostos a uma renúncia total a começar por si
mesmos, que é notada externamente pela pobreza de uma opção aparentemente
irracional. Discípulo de um Mestre que teve uma cruz como fim e uma vida em que
o sofrimento era parte essencial, especialmente o sofrimento da incompreensão e
perseguição.
2) A cruz não é unicamente um símbolo de quem sofreu por nós, mas uma
opção necessária que deve dirigir nossas vidas de discípulos de Cristo. Não
existe um cristianismo light em que a humilhação, o escárnio e o sofrimento
possam ser referidas unicamente ao Senhor. Os discípulos devem, como ele pediu
aos filhos do Zebedeu, optar por beber o cálice amargo de sua paixão.
3) Seguir Jesus é continuar o projeto do Pai, experimentando um clima
novo em relação com as pessoas, as coisas materiais e consigo mesmo. Trata-se
de assumir com liberdade e responsabilidade a condição humana sem
superficialismos, conveniências ou egoísmos. Decidir-se por uma humanidade que
Jesus adotou como modelo, em que a renúncia a si mesmo é a base da entrega a
Deus e ao próximo.
EXEMPLO: Contam as antigas crônicas da Índia como um
piedoso rei foi visitar um famoso monge budista que tinha uma multidão de
seguidores. O mosteiro estava repleto dos mesmos, O mesmos cânticos, a mesma
meditação, os mesmos estilos de vida de trabalho e de sono. O rei disse ao
monge: Estarás contente com tantos monges como te seguem. A resposta do monge
foi muito realista: Quase todos vivem sua vida. Só posso contar com os dedos da
mão aqueles que realmente me seguem e imitam