LUCAS DOMINGO XXIX DO TEMPO COMUM (Lc 18, 1-8)

A ORAÇÃO PERSEVERANTE.

(Pe Ignácio dos padres escolápios)

INTRODUÇÃO: O trecho de hoje é ocupado por uma parábola que o próprio Jesus explica tendo um final um tanto fora do contexto ao que parece. No tempo em que foi escrito o 3o evangelho, sem dúvida antes do ano 70, os cristãos estavam padecendo perseguição. Primeiramente pelos judeus, a começar pela perseguição do ano 34 com a morte de Estevão. Logo em 44, no reinado de Herodes Antipas, este manda decapitar Tiago e mete Pedro no cárcere. Paulo foi preso em Jerusalém no ano 58 para ser enviado a Roma no ano 60 onde foi declarado inculpado após uma prisão domiciliar. Mas a perseguição romana começou com a expulsão dos judeus [entre os quais se encontravam cristãos sem dúvida] feita sob as ordens de Cláudio (45 dC). Será no tempo de Nero que os cristãos, acusados injustamente de incendiar a urbe, encontrarão como inimiga a  justiça romana. Calculam-se mil mártires nesta primeira perseguição. Estas primeiras perseguições eram circunstanciais e não atingiram todo o Império. Após a morte de Nero houve um período de paz de 25 anos até o império de Domiciano (81-96). Esta segunda perseguição parece ter sido generalizada. Domiciano mandou matar a todos os descendentes da casa de Davi, parentes do Senhor, como afirma Hegesipo. Durante as perseguições, o clamor dos fiéis pode ser visto pelas palavras do Apocalipse (6, 9): Até quando, -clamarão os imolados por causa da palavra de Deus- ó Senhor, santo e verdadeiro, tardarás a fazer justiça, vingando nosso sangue contra os habitantes da terra? O último versículo, quando vier o filho do homem achará por ventura,  fé na terra? Indica que o texto foi escrito antes do ano setenta, tempo da segunda vinda de Jesus.

A VIÚVA: Em hebraico almanah e em grego chera, era logicamente a mulher que tinha perdido por morte o marido. Sai o nome pela primeira vez em Gn 38, 11 quando Tamar recebe o encargo de voltar à casa de seu pai, o dono após a morte do primeiro dono, que era seu marido. Como Javé não faz acepção de pessoas  e não aceita suborno, ele é o que faz justiça ao órfão e à viúva e ama o estrangeiro, dando-lhe pão e roupa (Dt 10, 18). Por isso ouve seu clamor mandando que não sejam afligidos, pois caso sejam afligidos,  ele escutará seu clamor(Ex 22, 21). Ele sustenta o órfão e a viúva  e protege o estrangeiro (Sl 146[5], 9). Pai dos órfãos e justiceiro das viúvas (Sl 68, 6). Deixa os teus órfãos eu os farei viver e que as viúvas confiem em mim.(Jr 49, 11). Por isso no final do AT Javé expressa a sua preocupação para com as viúvas. Eu serei uma testemunha rápida contra os que oprimem o assalariado , a viúva, o órfão e que violam o direito do estrangeiro(Ml 3, 5). Uma viúva tinha certos direitos restringidos, como não poder casar com um sacerdote (Lv 21,14) para não profanar a descendência deste último. A razão da proteção especial divina era por que as viúvas, geralmente idosas, tinham poucos recursos, sendo fáceis presas de pessoas inescrupulosas. A maneira de tratar as viúvas era um indicador da moralidade da época. Por isso Jó foi acusado por Elifaz de maltratar as viúvas pois seus problemas só podiam provir de uma conduta pecaminosa (Jó 22,9). A opressão das viúvas tornou-se um exemplo comum de maldade entre os homens (Sl 94, 6). Por isso viúva era o símbolo de uma cidade abandonada e destruída pela guerra, como resultado de um juízo divino contrário (Is 47, 8). Por isso Jesus optou como exemplo de desamparo e injustiça uma viúva, a quem os juízes da época, como eram os legistas fariseus, tiravam os poucos bens (Mt 23, 14). Jesus de modo especial, já que sua mãe era viúva, tinha um carinho especial para com elas. Uma viúva foi seu modelo de desprendimento(Mc 12, 42) e outra de compaixão, e sem ser rogado para que tivesse um filho que a sustentasse, o ressuscitou (Lc 7, 12). Ficamos, pois com a idéia de que uma viúva era facilmente maltratada pela justiça humana. Se a isso acrescentamos que o juiz era sem escrúpulos ou imoral, o pano está perfeito para a comparação. Uma mulher, no AT, não tinha direitos legais. Seus direitos estavam na mão do pai, ou do esposo, se casada. As viúvas careciam de proteção e de direitos. Daí que os profetas invocassem o Senhor, como protetor das mesmas. Visitar os órfãos e viúvas em suas necessidades é parte da verdadeira religião (Tg 1, 27).

O JUIZ: Shefet em hebraico e em grego Krites. Temos também a palavra grega dikaste [daí dicastério] um termo que indica um magistrado, um oficial de justiça termo mais elaborado do que krites. Os rabinos louvavam junto a coroa da realeza e a coroa do sacerdócio, a coroa da Lei que pode alcançar todo israelita e confere sua força às outras duas coroas. Eram os rabinos que determinavam a Lêi e seus doutores- os escribas- tinham a capacidade de atar e desatar, dando uma coisa por proibida e outra por permitida. (Ver Mt 16, 19) Os antigos israelitas no Egito tinham suas cabeças de tribo,  os chamados Anciãos, aos que Moisés reuniu em nome de Javé(Ex 3, 16). No deserto existiam os príncipes das tribos (Nm 7,2) e na Palestina os famosos juízes, que em nome de Javé protegeram os israelitas  até o profeta Samuel como enviados pelo Senhor(At 13, 20). No livro de Daniel temos dois anciãos que eram juizes a quem a assembléia creu por serem anciãos do povo e juízes (13, 42). Nos tempos de Jesus existiam tribunais superiores ou sinédrios em cinco circunscrições da Palestina. Entre eles o principal era o grande Sinédrio ou Sanedrim[=assembléia] de Jerusalém constituído por 70 ou 72 membros dos quais alguns eram permanentes por cargo executivo, os chamados grandes sacerdotes ou chefes dos sacerdotes. O archiereus grego significa príncipe ou chefe de sacerdotes. Além do Sumo sacerdote em ofício, neste grupo se incluíam os que já foram tais e os chefes do templo, como eram o chefe da guarda, tesoureiros etc. Parece-me que o archiereus está mal traduzido por Sumo Sacerdote, como vemos nas leituras bíblicas da missa. Nos textos se fala que Jesus será julgado pelos chefes sacerdotais [sic na bíblia de Jerusalém], os anciãos e os escribas(Lc 9, 22).  Porém parece que em cada cidade existiam os Dayan termo que indica um assessor de um tribunal rabínico ou pessoa encarregada de pronunciar a sentença num julgamento. Enquanto o rabino geralmente decide sobre questões de natureza religiosa, o dayan julga assuntos econômicos e resolve problemas de Direito Civil. Só que em muitos povoados e aldeias ambos os ofícios recaiam sobre a mesma pessoa, especialmente porque a lei civil não se distinguia, na época,da lei religiosa ou Torah, minuciosamente explicada pelas normas da tradição ou Mishnã. Seria, pois um destes dayan que impedia que a justiça fosse aplicada no caso da viúva. Mas era um homem que não temia a Deus e não respeitava homem algum. Flávio Josefo ao falar, do rei Joaquim dirá que não respeitava a Deus nem era atento com seus semelhantes. O nosso dayan era, pois, um mal juiz de quem não se podia esperar maior justiça da que proporciona a  corrupção.

VINGA-ME: É assim como devemos traduzir o grego ekdikeo. A justiça particular é chamada vingança e a pública defesa. No tempo de Jesus a vingança, o olho por olho, era a razão da condena. A viúva pedia sem dúvida uma condena que poderíamos chamar de vingança ou desforra. Geralmente pensamos em termos monetários ou de bens, como sendo a justiça que a viúva pedia. Pessoalmente creio que era mais questão de justiça penal. Por isso o juiz não estava interessado, pois o dinheiro move os corações infelizmente e a compaixão não entra nos tribunais. O adversário, antidikos grego, nada diz à respeito do caso. Unicamente sabemos que era oponente dela.

A CONDUTA DO JUIZ: Durante muito tempo não quis fazer justiça, mas depois pensou e disse para si mesmo: Não temo a Deus nem respeito a opinião dos homens, mas esta viúva está me trazendo problemas insuportáveis; que não me aconteça seja abofeteado no final. A vulgata traduz bastante literalmente por suggillo que significa encher de golpes, como um boxeador que recebe uma verdadeira saraivada de golpes. 

CONCLUSÃO: A observação do Senhor é para esta última reflexão do juiz irresponsável, a quem chama de juiz da iniqüidade. Esta é uma das poucas vezes em que Jesus de Nazaré recebe o nome de Senhor, título que ele adquiriu após a ressurreição. A tradução de Javé em grego pelos setenta é Kyrios nome dado a Jesus, o Cristo, reconhecendo sem a menor dúvida uma indiscutível condição divina. No mesmo sentido que o Deus do AT, Jesus é Senhor dos senhores, Senhor dos vivos e mortos, Senhor da glória, Senhor do universo. E dirige sua atenção com um argumento a fortiori ou a minori ad maius: Compara o juiz que deve fazer justiça a uma viúva, com Deus que deve fazer justiça a seus escolhidos, Se ela recorria freqüentemente ao juiz, estes últimos clamavam dia e noite, ou seja, sem interrupção. Terá pois Deus que esperar muito para que essa justiça seja feita? A conclusão era que essa justiça será feita em breve.

ÚLTIMA PERGUNTA: Mas quando vier o Filho do Homem ainda encontrará fé na terra? A expressão Filho do Homem designa em princípio um membro da comunidade humana, especialmente enquanto ser mortal e fraco. Mas no livro de Daniel se transforma numa figura simbólica que representa o povo dos santos de Deus (cap 7) em sua glória final. Concentrada em seu chefe a expressão Filho do Homem adquire um valor estritamente individual, glorioso e transcendente. Nos evangelhos aparece setenta vezes, sempre na boca de Jesus, pois sintetiza em sua pessoa, tanto a humanidade pela sua paixão, como a divindade, esta última pela ressurreição e seu poder de triunfo total julgando seus inimigos. Algumas vezes está no lugar do eu, como substituto em português da expressão a gente. Sem dúvida que aqui o significado é o do Messias triunfante para o último julgamento, talvez em termos locais, restringido a uma determinada etnia. num lugar e de um povo especial: o povo hebreu. A palavra terra que aqui aparece está no lugar de terra prometida a terra [eretz em hebraico e ges em grego] que Javé entregou a seu povo escolhido como promessa dada aos patriarcas (Gn 12, 7). A Palestina era “a Terra” para um judeu, que se considerava expatriado fora dela, como é atualmente. A terra era a Eretz que constituía o templo em que Javé morava com seu povo, templo não construído por mãos humanas mas escolhido por Deus para que seu povo o habitasse em paz na prosperidade. É pois nesta terra especial que Jesus afirma ser duvidosa a fé dos moradores. Como reconhecem os autores modernos toda esta perícope está relacionada com a parousia; uma parousia que não pode tardar porque os eleitos, os filhos do Reino, estão pedindo justiça diante da repressão de seus inimigos. Esta parousia deu-se no ano 70 com a destruição do templo e a dispersão do povo de Israel.

PISTAS: 1) A interpretação da parábola pode ser localista: uma viúva, uma causa particular de indivíduos que buscam uma solução para seus problemas íntimos. Como se cada cristão escutasse a parábola como dita para sua própria edificação. A intenção da parábola é toda tomada do primeiro versículo: A necessidade de orar sempre. Tudo o demais parece simples ornamentação. Porém não é esta a interpretação mais admitida hoje.

2) A pergunta que podemos fazer é por que Jesus toma como exemplo uma viúva, a mais indigente dentro do poder do mundo antigo. É pura casualidade ou a escolha tanto da viúva como do juiz iníquo são escolhas voluntariamente arranjadas para transformar uma parábola em alegoria? Acreditamos que sim. A viúva representa a primitiva comunidade indefesa e frágil diante dos dois poderes que a perseguiam: o judeu e o romano. Como temos narrado antes o primeiro foi o iniciador da perseguição. Imediatamente após a morte de Jesus os discípulos foram perseguidos. Dois anos após a paixão foi morto Estevão. Saulo,o futuro Paulo, perseguia os cristãos já nos anos seguintes. Estamos, pois num clima em que os gritos dos perseguidos clamavam justiça exatamente como descreverá o Apocalipse durante a perseguição de Domiciano. (vide supra e Ap 6,9). A resposta a este clamor intenso e perturbador é a da parábola: Deus demorará em fazer justiça, fazendo ouvidos surdos ao clamor de seus eleitos?

3)Existe porém uma pergunta: por que Deus permite essa injustiça e essas perseguições? Quando o bem derrotará definitivamente o mal? É uma luta demorada e contínua? As respostas podem ser as que Jó encontrou dentro de sua inocência e ignorância. Só Deus pode dar a resposta. Porém existem sempre algumas pistas que podemos contemplar. Quando não existe contradição, o espírito humano se relaxa na vida cômoda e a pureza das intenções. A perseguição é uma purificação uma volta ao primitivo espírito evangélico. Por isso é necessária para manter viva a fé, purificar o amor e suscitar sobretudo a esperança.  O mal já foi derrotado na cruz. Ele está vivendo a sua última agonia. Ele não subsistirá como força atuante na outra vida para os que escolheram o bem, mas será o caldo vital para os que o abraçarem como intenção de seu agir. Porém o abismo que separará bons de maus impedirá que o mal atue sobre os que gozam da visão divina. Já a luta na terra será contínua até o dia do Senhor, dia do triunfo, da vitória final do bem com a condenação eterna do mal.

EXEMPLO: neste mês dedicado ao Rosário  e nesta semana em que celebramos a solenidade da Aparecida vamos narrar a história acontecida muitos anos antes. Na guerra civil do 36 na Espanha um soldado caiu mortalmente ferido. O capelão acorreu solícito a assisti-lo nos momentos finais. Pater, tenho medo; temo o juizo de Deus. Meu filho -disse o sacerdote- que pessoa desejais para estar perto de ti nestes finais momentos? Minha mãe- disse o soldado.  O capelão respondeu: Pois bem,estará sim a tua mãe, a que como tal te receberá, porque ela foi dada ao discípulo amado na cruz. Ela será tua advogada e tua intercessora. Sabes recitar a Salve Rainha? Sim -disse o soldado  E continuou o capelão: Não dizemos nela, Eia, pois advogada nossa, esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei. e depois deste desterro, mostrai-nos Jesus, bendito fruto do vosso ventre? Não temas: pois ela fará o que tantas vezes tens pedido. Assim eu cantava nas tardes do domingo dentro de sua ermida- disse o soldado. Rezavas a Ave Maria? Perguntou o sacerdote.- Sim todas as noites.- E não rezavas rogai por nós agora e na hora de nossa morte? Logo tens tua mãe perto de ti como advogada e intercessora. E estas palavras acalmaram a ansiedade do moribundo.