XXIX DOMINGO DO TEMPO COMUM (Mc 10, 39-45)

 

O PEDIDO DOS FILHOS DE ZEBEDEU

 

(Pe. Ignácio, dos Padres Escolápios)

 

 

O PROTAGONISTA: Em Mateus 20, 20-28 temos uma relação paralela com uma diferença: quem pede os postos de honra no novo Reino é a mãe dos dois apóstolos, Tiago e João, junto com seus dois filhos. O nome dela era Salomé( =perfeita), mulher do Zebedeu, forma grega de Zebadias ou Zabdiel(= Jahvé deu). Zebedeu era um pescador da Galiléia com bens suficientes como para ter serventes ou jornaleiros a seu serviço (Mc 1,20) e suficientemente rico como para um dos filhos, João, ser conhecido pelo pontífice (Jo 18,15) quem ao mesmo tempo podia, sem dificuldades, tomar em sua casa a mãe de Jesus(Jo 19,27). Salomé era uma das mulheres que serviam o colégio apostólico e que estavam subindo com Jesus a Jerusalém( Mt 27,55-56). O silêncio que os evangelistas guardam sobre o pai, Zebedeu, seria talvez devido à sua morte pouco depois do encontro com Jesus na Galiléia quando este teria feito o chamado a seus dois filhos(Lc 5,10).Os antigos pensavam que Salomé estava aparentada com Jesus através de Zacarias, o esposo de Isabel, esta por sua vez parenta de Maria (Lc 1,36). Se isso fosse verdade explicaria algumas das coisas que veremos na continuação.

 

O PEDIDO: Bem seja diretamente, bem através e junto com a mãe, o que é mais natural, os dois pediram os postos de maior relevância no Reino que pensavam Jesus ia instaurar em Jerusalém para onde se dirigiam. O seu modo de julgar, tanto da mãe como dos filhos, era totalmente humano, como se o novo reino fosse um Reino temporal e geográfico ao modo dos reinos que eles conheciam. Por isso dirá Jesus: "sabeis que os que são considerados príncipes dos gentios os dominam"(42). Sua maneira de pensar era a dos judeus da época que pretendiam um reino davídico ao estilo romano de dominação. Se realmente Salomé fosse parenta indireta de Jesus, seu pedido e sua atuação não seria tão inusitada e desmedida. O parentesco nos tempos de Jesus era motivo e razão de prerrogativas especiais por parte dos que Jesus chama grandes da política e da sociedade(42). Objetar-se-á que Pedro tinha sido louvado e preferido como chefe da comunidade (Mt 16, 16). Porém em Marcos (8, 27-30)existe a confissão de Pedro mas não o prêmio pela mesma como em Mateus (16, 17-18) ou Lucas (9, 18-21). Somente Mateus parece incorrer em certa falta de lógica ao permitir que a mãe e filhos peçam um lugar que já foi destinado por Jesus como sendo de Pedro. Porém a recusa de Jesus diante da tentação de Pedro, a quem chama de satanás, no capítulo 16 parecia indicar que o primado de Pedro tinha sido rebaixado. A transfiguração, chamando os três discípulos mostrava uma certa predileção sobre os dois irmãos até o ponto deles, os filhos do trovão(Boanerges em Mc 3,17) pedirem ao Senhor licença para lançar sobre uma aldeia samaritana fogo do céu (Lc 9, 54) nessa última viagem a Jerusalém como Elias em 2 Re 1,10-12. Tinham pois motivos aparentes e suficientes para o pedido que estavam fazendo a Jesus: Assentar-se um à direita e outro à esquerda do trono de Jesus quando este estivesse na sua glória, isto é, como Messias triunfante. A ele se dirigem como o novo rei de Israel que em Jerusalém vai iniciar o Reino. ). De Ciro, rei da Pérsia, se conta que preferia colocar seus hóspedes mais honrados à esquerda pois era o lugar do coração. Não eram privilégios(ver 1Re 2,19). Eram também verdadeiros ofícios em que o poder real era exercido através dos ministros. O salmo 110,1 fala do Messias como convidado por Jahvé para se assentar à direita do trono divino. Isso significava participar do poder e da dignidade de quem o honrava. O Messias era assim solicitado para compartir do poder e da dignidade de Jahvé. Jesus utiliza o salmo davídico com interpretações messiânicas para confundir a ciência dos fariseus que não souberam responder por que Davi chama Senhor ao messias sendo que este era filho ou descendente dele e portanto inferior a ele próprio(Mc 12,35-37). Já o título de Boanerges que Jesus deu aos dois irmãos indica que eram caracteres fortes, inclinados a comandar. Pediam pois, o que naturalmente sentiam como vocação.

 

A RESPOSTA:Jesus responde de maneira fina, sem indignar-se por um pedido aparentemente desmedido e imprudente. "Não sabeis o que estais pedindo". E explica a continuação como ele deve adquirir isso que eles chamam de glória do Reino: um sacrifício de amargura e sangue. Um cálice que deve beber e um batismo em que deve ser submergido. Era o cálice da vingança divina freqüentemente apresentado pelos profetas. "O Senhor tem uma copa na mão. Nela derrama um vinho fermentado e bem misturado e obriga a bebê-lo a todos os malvados da terra até a última gota(Sal 75,9-10).Ou Ez 23, 31-33: "Seguiste(Jerusalém) o caminho de tua irmã(Samaria). Por isso entregarei o seu copo na tua mão...beberás o copo de tua irmã, copo fundo e largo.. copo de espanto e desolação". Era pois o cálice de vingança, cólera e indignação. Esse era o cálice que por três vezes Jesus rogou ao Pai para não bebê-lo(Mc 14, 36).

 

O BATISMO: Só Marcos traz esta comparação. Era uma submersão na água, ou no fogo do Espírito Santo(Mt 3,11). Mas Jesus toma essa figura para designar o seu batismo de sangue, imerso no seu próprio sangue, como o "guerreiro que vem de Edom (figura do país inimigo por excelência) com a veste manchada do sangue dos inimigos, como quem sai do lagar após pisar as uvas. Porque era o dia da vingança e chegava o ano dos meus redimidos" (Is 63, 1-4). Só que esse sangue era o próprio de Jesus em que a justiça divina tinha determinado castigar o pecador e por isso ele, Jesus, dirá: "tenho que ser batizado num batismo (de dores) e como me angustio até ser consumado"(Lc 12, 50). Jesus convida pois, os seus dois pedintes a se unirem a ele na hora de sua paixão e morte. A morte de Jesus não era um ato de rancor e vingança dos dirigentes de Israel, nem provinha de uma decisão iníqua da justiça romana, nem demostrava um triunfo do mal demoníaco, mas um ato de amor do Pai que mostrava sua misericórdia salvando o pecador e revelava sua justiça punindo o justo, para indicar a gravidade do pecado e a necessidade da conversão.

 

PODEMOS: Diante da resposta positiva e animosa dos discípulos, Jesus promete que realmente assim sucederá, mas que assentar-se à direita e à esquerda é uma questão de previdência divina, preparada pelo Pai como diz Mateus( 20, 23). E diante da indignação dos outros discípulos, Jesus aproveita a ocasião para dar uma lição magistral.

 

A LIÇÃO: Nela Jesus opõe seu Reino aos reinos em prática dos povos pagãos vizinhos: Nestes últimos, os chefes dos mesmos tiranizam os povos e os grandes dos mesmos exercem um poder opressor sobre os súditos. Bastava ser um adulto na época para ter sofrido os abusos e vexações, ao menos tributárias, de Herodes, de Arquelao e de Antipas para não falar dos venais procuradores romanos. No reino de Cristo, do Messias, cuja semente eram eles, não podia acontecer isso: o que aspira a ser grande tinha que ser servidor , e o que almeja ser o primeiro deve ser o escravo de todos.

 

O FILHO DO HOMEM: O Filho do homem tem vários sentidos. Um deles é o substituto do eu, assim como a gente o faz em português. A frase seria traduzida : "Assim como eu ...". Jesus, Rei e Chefe principal do novo Reino, teve não um momento, mas uma vida dedicada ao bem dos súditos, dando inclusivamente sua vida como resgate por muitos. A palavra grega Lytron, traduzida ao latim por Redemptio merece ser estudada. Só sai no NT em ambos casos paralelos, os de Marcos e Mateus, que aqui tratamos de estudar. Significa resgate, ou preço pago pela liberdade ou alforria de um escravo. Geralmente usa-se a palavra Apolytrosis, que aparece em Lucas e nas cartas de Paulo.(10 vezes )com um significado mais teológico e restritivo de resgate, ou pagamento, ao preço do sangue de Cristo(Ef 1,7), e que geralmente é traduzida por redenção. Era o preço pago pela mudança de escravos a filhos, liberdade segundo o que vemos em Jo 8, 33. De escravos do pecado, que segundo Paulo tem personalidade própria (Rom 6,6), à liberdade de filhos ( Jo 8,36). O preço foi o sangue que Jesus derramou até a última gota(Jo 19, 34). E como no sangue está a vida, por isso ele afirma que deu sua vida pelos que eram até então pecadores e portanto escravos do pecado, que agora nele crêem Jo 31-32). Dará sua vida em resgate por muitos, que diz Jesus no parágrafo final de hoje(45).

 

 

PISTAS: 1) Na história da Igreja temos repetido esta atuação dos filhos do Zebedeu. O poder real era outrora ambicionado pelos representantes do clero. Numerosos antipapas especialmente no século X, litígios entre bispos desde o século III, são uma amostra cabal. Hoje esse desejo de mando, se trasladou ao laicato, larvado pelo aspecto de democratização e igualdade, ou sob a falácia de discriminação do sexo. Será que a razão última destas demandas é querer servir ou melhor pretender dominar? 2)Existe uma necessidade de vocações ao sacerdócio, à vida religiosa, à dedicação missionária, porque falta o verdadeiro espírito do reino, o que o distingue de seus homônimos terrestres: é o espírito de serviço que implica o último lugar. Que posso fazer eu por minha pátria- foi o slogan de Kennedy. Que posso fazer eu pelo Reino de Cristo, deve ser a pergunta de um cristão à qual devemos responder com sinceridade e generosidade.3)Não sabemos o que pedimos quando esperamos e rogamos por um triunfo pessoal. Este será o do cálice que optamos por beber e o batismo de dor e sofrimento que escolhemos para ser submergidos nele como o Senhor Jesus foi submergido. Sem dor não existe nova criatura assim como não pode existir triunfo verdadeiro. 4) É de se ressaltar que após 2mil anos estamos submergidos na mesma ignorância que oprimia os filhos do Zebedeu. Ainda sonhamos em coroas temporais e com recompensas terrenas. Vemos simples clérigos desejar títulos de monsenhor ou cônego, como se isso fosse um degrau para melhor espalhar e engrandecer o Reino. Existem poucos crentes que como Isabel da Hungria deixam a coroa terrena no banco da igreja para colocar em sua cabeça a cabeça de espinhos de Jesus crucificado que estava no crucifixo da igreja.É pois através de muitas tribulações que devemos entrar no reino dos céus(At 14,22). 5).O pior não é que encontremos Tiago e João dentro da Igreja.O pior é que, como os outros restantes apóstolos, dificilmente haverá quem não os condene; porém não por outro motivo que não seja a inveja. Nada façais por partidarismos ou vanglória, mas por humildade, considerando cada um os outros superiores a si mesmo (Fp 2,3). Bem-aventurado o homem que, com sinceridade pode regozijar-se quando o outro é exaltado, embora ele mesmo seja esquecido e posto de lado! Escolhamos para fazer o bem, áreas nas quais outros não querem trabalhar, áreas- podemos assim chamá-las- de latrinas do Reino.

 

EXEMPLO: Francisco visita Roma, o lugar da presença do sucessor de Pedro, e ao olhar os mendigos nas portas da basílica teve uma idéia genial. Tira suas roupas de seda e as troca com o mendigo mais andrajoso e assim, revestido de extrema pobreza, junta-se a eles para pedir esmola e reparti-la com eles na hora do almoço. Francisco de Assis disse que essa foi o dia mais feliz de sua vida.