XXVI DOMINGO DO TEMPO COMUM (Lc 16, 19-31)

O RICO EPULÁRIO

(Pe. Ignácio dos padres escolapios)


A parábola é própria de Lucas. Junto com a chamada do filho pródigo constitui uma das bases da teologia de Lucas ou de Paulo como própria da misericórdia divina com a qual Deus olha o mundo e define sua atitude perante os problemas definitivos do homem. A quem Deus escolhe definitivamente como membros do novo Reino e como convivas do banquete eterno? A resposta está nesta parábola porque a declaração de Abraão é propriamente a moral da história: Recebeste boas(sic) na vida e Lázaro as más. Agora ele é consolado, e tu atormentado(25). Se a parábola do filho pródigo era a parábola da misericórdia, esta é a parábola da justiça, derivada dessa misericórdia. Todos têm sua chance de experimentar os bens: ou nesta vida ou na outra. A outra conclusão é que a eternidade depende da conduta presente dos vivos. Como nota importante está a conclusão de que a fé forma parte de uma tradição e não de uma vivência ou experiência particular. Quem não está disposto a escutar as palavras proféticas não escutará as que um ressuscitado possa testemunhar. A primeira parte da parábola- inversão dos bens devido à morte- tem paralelos na literatura universal. A segunda parte-a dificuldade de conversão de um rico- é própria de Jesus e narrada especialmente por Lucas.

O RICO EPULÁRIO: O nome epulário significa conviva ou comensal; provavelmente deduzido do castelhano que é epulón, homem que come e bebe muito, derivado por sua vez do latim épulo quem da um convite ou também convidado, comilão. O latim o usa mais frequentemente no plural e eram assim designados os três varões romanos [triumviri epulones] que cuidavam dos convites oferecidos aos deuses. Como nota curiosa vamos aportar alguns dados sobre o sacerdócio romano e seus colégios, entre os quais podemos incluir o dos epulones Da história romana sabemos que o último rei Tarquino foi deposto para dar passo à república em 509 aC após seu filho violar Lucrecia, dama romana que para defender sua honra se suicidou. Ao se proclamar a república, esta teve que dividir o poder entre rex romanorum [rei dos romanos] cujo papel foi dado aos cônsules e rex sacrorum[rei das cosas sacras]. Assim o mantenedor deste título recebeu o nome de Pontifex maximus  e era o chefe do Colégio dos pontífices. ou flâmines. Três eram os flamines maiores: Dialis de Jupitr, Martialis de Marte e Quirinalis de Quirino [antigo deus da guerra]; e 12 menores, entre eles por exemplo flamen Cerialis de Ceres, deusa da terra e das colheitas. Existia também o colégio dos augures, que se distinguiam por predizer o futuro pelo vôo dos pássaros ou como nos pullaius pela conduta dos frangos na comida. Temos os duoviri sacris facundis, que foi aumentado até 15, encarregados dos livros da Sibila, consultados quando os raios ou outros portentos aconteciam. Temos o colégio dos Fetiales, de 20 em número, que eram os que declaravam a guerra que só era justa [bellum pium] se declarada pelos fetiales. Outro grupo era o dos arúspices em número de 60 mas sem formar collegium, que adivinhavam através das entranhas dos animais sacrificados. Temos os triunviri Epulones inicialmente três, mas depois unidos num colégio cujo número foi incrementado a sete. Sua função era supervisar os ritos sacros no opulum Jovis, ou festa de Júpiter que era celebrava junto com os Ludi Romani e os plebeus, onde exerciam funções que anteriormente eram próprias dos pontífices. Os ediles organizavam os jogos mas os epulones visavam os ritos sacros dos mesmos. Todos estes eram os chamados maiores pontífices pois também existiam os menores, chamados sodales. Como vemos o nome epulón dado ao rico é um tanto impróprio e traduzi-lo por epulário[conviva] é ainda mais inadequado. Qual era o nome do rico já que epulón ou epulário não é coreto? Alguns manuscritos antigos falam de Níneve que lembra a grande cidade que percorreu Jonas anunciando a destruição. Na realidade as escavações de Nínive deram como resultado palácios em que Senaquerib e Asurbanipal tinham as maiores riquezas de todos os seus saques nas guerras como vemos em Baltasar em que os vasos sagrados do templo de Jerusalém eram os recipientes do banquete (Dn 5, 2). Portanto chamar de Nínive ou Níneve o rico é uma conveniência dos leitores que vêem o nome do pobre e não encontram o nome do rico.

PÚRPURA E BISSO: A púrpura era uma cor vermelha forte que se parece com a cor violeta ou roxa. Historicamente, pelo seu preço e raridade era a cor purpúrea utilizada pelos reis e imperadores. Na antiguidade a cor era extraída das pequenas quantidades existentes em alguns moluscos das costas orientais do mediterrâneo. O molusco de grande tamanho, segrega uma substância amarela que ao contato com o ar se transforma em cor vermelha violácea. A terra hoje do Líbano era chamada Fenícia que em grego significa vermelho [foinós] pois na época sua indústria de cor púrpura era famosa. O líquido do molusco, espécie de concha, era misturado com sal e cozido de modo a obter duas cores diferentes: uma de azul violeta ou púrpura e outra de cor vermelha. Dada a grande quantidade de moluscos necessários para tingir uma túnica compreende-se que a púrpura fosse a veste do Sumo sacerdote e o ornato luxuoso do templo e o distintivo de reis e pessoas muito ricas ( Jz 8, 26 e Jr 10, 9). Os romanos da república não a vestiam na sua tradicional sobriedade, mas era considerada, junto com o ouro e a prata, botim precioso de guerra. Daí a raridade e o preço que a acompanhavam. O Byssus ou bisso era uma tela de lihno finíssima, quase transparente, de cor branca ou beige, que junto com a púrpura violeta ou escarlate foi oferecida para fabricar a tenda do tabernáculo no deserto(Ex 25, 4). O bisso seria o que os romanos chamavam de linum candidissimum[ lino branquíssimo]. Se a púrpura era um produto de exportação especialmente produzido em Tiro, o bisso era importado do Egito. Ou seja em questão de vestidos o nosso rico era singular e extraordinário, da crema e nata dos melhores.

BANQUETEAVA-SE: O verbo eufrainizo significa regozijar-se, recrear-se, ter momentos alegres, gozar da vida. O advérbio lamprós [esplendidamente] indica que não havia prazer que ele não degustasse, tanto na comida como nas festas lascivas que acompanhavam os banquetes. Como banquete esplêndido temos o dado pelo imperador Vitélio: antes de ser destronado esteve comendo um menu de vinte pratos, entre eles miolos  de cotovias com mel. Marco Aurélio Antônio [Heliogábalo]  mandou servir 1500 línguas de flamingo a seus convidados. Maximino que numa só jornada chegou a ingerir 16 quilos de carne e 32 litros de vinho. O banquete mais numeroso foi o dado por Julio César durante várias jornadas dado a 200 mil pessoas em 22 mil mesas.

O MENDIGO: Seu nome era Lázaro[=Eleazar, Deus ajudou]. A descrição da vida do infortunado mendigo era totalmente realista. O esquecimento dos homens, a doença de suas chagas, a sua morte inglória tudo está conforme ao que inclusive atualmente conhecemos desses pobres seres humanos. Se na atualidade uma percentagem dos mesmos são parte dos eufemisticamente chamados débeis mentais, na época de Jesus eram cegos, mancos e outros aleijados. A sorte do nosso pobre era ainda mais infortunada ao ouvir os cantos os risos e o regozijo e barulho dos convivas dentro da casa. É uma descrição para opor a sorte de um e o infortúnio do outro. Um detalhe que depois ver-se-á repetido, mas de forma contrária, é que nem mesmo as migalhas do banquete lhe eram fornecidas. Os cães da rua eram os únicos que aliviavam suas chagas.

SORTE POSTERIOR DO MENDIGO: sem que houvesse intervenção humana, ele é levado por anjos ao seio de Abraão. É a primeira vez que os anjos aparecem como mensageiros divinos após a morte. O saduceu , seguindo o AT, diria que tudo acabava com a morte. Jesus pelo contrário afirma que tudo começa quando tudo acaba. Só que as sortes estão trocadas.

SORTE DO RICO: Seu corpo foi sepultado como convinha a sua riqueza sem dúvida, mas sua alma entrou no profundo dos infernos o Hades, que vamos descrever no que é possível segundo as poucas e parciais referências de que dispomos.

O SHEOL OU HADES: O significado de sheol se distribui entre a tumba, o mundo de ultratumba e o estado depois da morte. A idéia de que os mortos existiam num mundo que os babilônios chamavam de Aralu, e os ugaríticos de Oeres era comum aos povos antigos.O sheol era um lugar abaixo da terra (Ez 31, 15) um espaço de pó(Jô 17, 16)de trevas(Jô 10, 21) de silêncio(Sl 94, 17)e esquecimento(Sl 88, 13). Algumas vezes as distinções existentes na vida terrena são descritas como continuando no sheol; mas sempre este é um lugar de fraqueza e tristeza. Nalgumas passagens do AT o sheol tem um aspecto punitivo (Sl 49, 13-14) e portanto uma morte prematura é uma forma de penalidade. O AT considera a vida terrena como a arena para demonstrar o serviço devido a Deus. Portanto estar no sheol é estar fora do âmbito divino. Sheol dizem que significa destruição, poço, cova, ou corrupção. Na literatura perto do NT encontramos no Sheol divisões que distinguem os malvados dos justos nos quais eles desfrutam de seus últimos destinos como vemos na parábola de hoje. O Hades representa o mundo de ultratumba ou dos mortos nos clássicos gregos. A setenta traduz Sheol por Hades. Logo podemos dizer que Hades equivale ao Sheol como vemos em At 2, 27. Jesus fala das portas do Hades que não prevalecerão(Mt 16, 18). A defesa das portas de uma cidade era essencial para não ser conquistada; eram pois, figura do poder da mesma. A frase descer ao Sheol (Mt 11, 23) é metaforicamente entendida como cair na profundeza da degradação.

GEHENA: Uma outra palavra que descreve o destino de ultratumba é gehena (Mt 5, 22 Mc 9, 43 e Lc 12, 5). A palavra deriva de ge-bene-hinoum Ou seja Vale dos filhos de Hinnom. Era um vale perto de Jerusalém onde crianças foram sacrificadas e queimadas aos Baal ou deuses gentílicos. Era o lugar de punição para pecadores, descrito como espaço de fogo incombustível, fogo que é a medida do castigo divino.(Dt 32, 22). Os rabinos da época distinguiam entre um fogo temporal e purgativo, um fogo totalmente destrutivo e um fogo eterno. Esta eternidade está claramente indicada em Mateus(9,43; 18, 8; 25, 46). Eternidade que é confirmada no Apocalipse para a besta e o profeta, para a morte e o inferno, para o Diabo e os agentes da maldade (Apo 20,10. 14-15  e 21,8) lançados ao lago de fogo que constitui a segunda morte. Esta gehena que é lugar de suplício é traduzida por 2 Pd 2, 4 como Tártaros. Na mitologia grega o Tártaro representa a região mais profunda situada no fundo dos infernos,onde Urano primeiro e Cronos depois, para Zeus finalmente, lançavam os que os tinham ofendido. Segundo Homero era a prisão dos deuses vencidos e dos heróis que tinham agravado a Zeus. No século Vi aC se transformou no lugar onde os homens culpáveis deviam cumprir seu castigo. Na Eneida, Virgílio o descreve como uma grande prisão onde moravam as Fúrias Situavam-no principalmente perto do Averno, nome poético do Inferno. Devemos distinguir entre Inferno e infernos. Este último indica o mesmo que Sheol, ou seja os lugares inferiores dentro da terra, enquanto moradas dos mortos. O Inferno propriamente dito é a sorte[não falamos hoje de lugar] do ser humano que voluntariamente se separa de Deus, como fonte de vida, por opção definitiva. O NT o define com diversas imagens com a ajuda de diversas mitologias: Abismo,trevas exteriores, fogo inextinguível, lago de fogo, etc. Com tudo isso define-se a sorte do pecado e do ser humano que com ele quer se identificar.

SEIO DE ABRAÃO: é esta passagem a única em que se descreve o que em outras passagens é chamado o Édem. Uma outra vez em Jo 18m 23 temos a descrição de alguém se reclinar no seio de outra pessoa: é o discípulo amado reclinado no peito de Jesus. Precisamente desta circunstancia e a de que o Reino é comparado com um banquete, podemos deduzir que agora o banquete era aquele em que participava Lázaro, apoiado no regaço do pai comum de todos os israelitas. É um paraíso ao estilo alcorânico que Jesus deve descrever para ser melhor entendido por seus ouvintes. O Paraíso é uma palavra que aqui não é usada. A distinção está entre seio de Abraão e o sheol não entrando o paraíso como termo comparativo. De fato a palavra paraíso significa jardim ou parque. Desde o Gênese em que o homem foi colocado nele e tinha a árvore da vida para ser expulso uma vez cometida a desobediência, a palavra paraiso [paradeisos grego]não sai a não ser três vezes no NT. No AT temos o jardim do Édem que é traduzido ao grego por paraíso de delícias e em outras passagens por Paraíso de Deus. O seio de Abraão formava parte do Hades[infernos] no interior da terra e o paraíso era no terceiro céu segundo o que diz Paulo (2 Co 12, 2)pois o identifica a continuação com o paraíso(idem 4). Foi esse paraíso que Jesus prometeu ao malfeitor arrependido( Lc 23, 4) e que no apocalipse descreve-se como contendo ainda a árvore da vida (2, 7). Conseqüentemente a descrição de Jesus pertence ainda ao AT e não podemos deduzir dela verdades absolutas. Só que antes do ato redentor já existiam no outro mundo, no sheol, duas esferas: uma superior [levantou os olhos(23)] de relativa felicidade semelhante ao que na terra podemos chamar de bem-aventurança e outra de tormentos, com um fogo que aumentava a sede.

PETIÇAO DO RICO: Era uma migalha de água à semelhança da que ele tinha negado como comida a Lázaro. Mas era impossível porque o que separava ambos os grupos não eram umas portas de uma casa, mas um abismo [chaos em latim, com o significado de profundidade e não de confusão] ou fenda, que impedia o intercâmbio entre as duas esferas: a dos que sofrem e a dos que estão sendo consolados. Abraão apela também à justiça que no novo mundo estabelece uma mudança de papeis para que não sempre os desafortunados tenham os mesmos destinos. Não são os mais venturosos os que determinam a justiça, mas os mais desfavorecidos são os que pautam a justiça que busca a igualdade de oportunidades. Essa foi a resposta de Abraão que o rico não pode refutar.

SEGUNDA PARTE: O anúncio aos vivos. Nesta circunstância o rico se torna altruísta e pede que seus irmãos sejam oportunamente avisados para evitar o lugar de tormentos onde ele agora se encontra submergido. A resposta de Abraão é terminante: Se não ouvem Moisés e os profetas, isto é, as palavras da Escritura, a palavra de Deus, nem se um morto ressuscitar, escutarão seu testemunho.

PISTAS: 1) A distinção entre ricos e pobres parece uma injustiça que clama ao céu como última causa. Por isso a parábola é uma resposta sapiencial de Jesus: a justiça será corrigida quando as sortes sejam trocadas na outra vida, que por ser eterna merece o título de verdadeira.

2) Embora de modo imperfeito a distinção entre os dois lugares, o de tormentos e o de consolação, demonstra que existem prêmios e castigos na vida além túmulo. E que essa distinção não pode ser mudada pelo querer do homem. É definitiva, mas pode ser prevista pela conduta humana neste mundo.

3)O milagre não convence. Porém firma a fé dos que já estão convencidos. A palavra da Escritura salva unicamente quando ela é escutada e obedecida.

4) Para que a palavra seja eficaz devemos estar preparados para escuta-la, retirando obstáculos de modo que quem não deseja ouvir a voz de Deus na palavra revelada não encontrará outra palavra eficaz ou fato suficiente para convida-lo à reflexão e arrependimento.

5) A conduta do rico é escandalosa e modelo de muitas condutas atuais pelo seu esbanjamento e falta de consideração com seus semelhantes.

EXEMPLO: Um sacerdote católico, um rabino e um clérigo islâmico estavam reunidos para tratar de ver quem era o mais pobre entre os homens. O rabino falou que a maior pobreza consistia em se afastar de Deus, pois isso deixava o homem abandonado a sas próprias forças, bem frágeis e limitadas. O clérigo islâmico afirmou que a pobreza material não era a maior mas a causa da maior pobreza que consistia em ser pobre espiritual, sem ter outra vida da que é chamada vegetativa por falta de perspectivas. O padre católico por sua vez afirmou que para ele a maior pobreza era a do rico que só tinha como bens na vida a sua riqueza.