XXV DOMINGO DO TEMPO COMUM (Lc 16, 1-13)

O ADMINISTRADOR INCOMPETENTE [Negligente]

 

A tradução do verbo diaskorpizo é espalhar ou dispersar; portanto o administrador não é um ladrão, que se aproveita para se enriquecer, ou seja infiel, mas um irresponsável ou negligente em suas funções de modo que o lucro que esperava o dono não foi obtido. Lembra a parábola dos talentos em Mateus (25, 15) ou das minas em Lucas (19, 13). Traduzir por infiel predispõe a uma interpretação errônea da parábola. Mais: temos que estudar os costumes da época para saber quem eram os administradores e qual o seu ofício e então entendermos melhor o sentido da parábola e portanto a conclusão da mesma que é o importante em todo exemplo bíblico.

ADMINISTRADOR: A terra era nos tempos de Jesus a base da riqueza de modo que os soldados romanos recebiam como prêmio após sua aposentadoria (25 anos) terras para cultivar. Ou recebiam 12 anos de paga como compensação. A mão de obra era barata, constituída pelos escravos de guerra; e a maioria dos novos amos, que nada ou pouco sabiam de agricultura, deixavam suas propriedades nas mãos de administradores. Como exemplo temos nos tempos do Imperador Trajano após as guerras da Dácia[Romênia ocidental] que teve em suas mãos 500 mil escravos que podiam servir nos novos assentamentos dos soldados e somas consideráveis de ouro e prata. Para comemorar a conquista mandou esculpir a coluna trajana com 200m de esculturas nas quais ele mesmo saia 70 vezes. Por essa vitória o Imperador recebeu o nome de Dácio  e os romanos tiveram 123 dias de espetáculos no anfiteatro. A palavra oikonomos significa um administrador-superintendente de modo que todos os problemas da casa e dos bens estivessem dirigidos a uma economia tanto de mercado como de supervisão de comidas e criados dentro da casa. Geralmente os administradores eram escravos de confiança ou libertos, já que um romano considerava o ofício indigno de um cidadão do império. Esperava-se dos administradores um bom rendimento dos bens a eles confiados. O pago dado ao administrador era um tanto por cento dos bens envolvidos nos negócios. Como não era permitida a usura existia um método para burlar a lei e os fiscais. O produto vendido era quantificado com um valor superior ao real. Exatamente como hoje se acostuma fazer com os orçamentos públicos para engordar os funcionários desonestos. A competência em nosso caso era deficiente. O dono não estava contente e decidiu substituí-lo. Temos o exemplo de S. Calisto, Papa, que foi um escravo a quem seu dono Carpóforo , alto funcionário do palácio imperial, colocou à frente de uma banca. Calisto perdeu o dinheiro do amo e o que os cristãos lhe confiaram. Foge; mas, encontrado, é encerrado no xadrez de onde seu amo o tira reconhecendo a probidade do escravo. Calisto recobra os bens que os judeus, enganando-o, tinham maldosamente se apropriado. Os judeus se vingam denunciando-o como cristão e o Imperador Cómodo o manda para as minas da Cerdanha. Daí saiu por um edito de liberdade que Márcia, a favorita do imperador, conseguiu. De volta a Roma foi para Anzio para evitar a vingança dos judeus. O Papa Zeferino em 198 o torna seu secretário, conselheiro e administrador dos bens da Igreja, que defendeu através do artifício das catacumbas[daí a de S. Calisto] pois o novo imperador Septímo Severo reconhecia as funerárias como corporações legítimas, independentemente de sua religião. Calisto foi considerado como um gênio administrador e organizador. Precisamente por ser um ex-escravo os fiéis o escolheram como Papa em lugar de Hipólito, escritor e grande de Roma,  pelo qual este último se rebelou, formando um partido cismático. Hipólito é por iso considerado o primeiro anti-papa. Ambos se distanciaram na doutrina em que o rigorismo de Hipólito não perdoava os apóstatas, os adúlteros e os homicidas, e Calisto se inclinava por perdoar o pecado mas impor uma severa penitência. Calisto assim como Hipólito terminaram suas vidas como mártires. Calisto foi defenestrado e lançado ao poço da casa.

UMA IDÉIA RADIANTE: O administrador demitido pensou nas duas coisas que na época existiam como meio de sobreviver: um emprego no campo como simples camponês ou recorrer à esmola como faziam muitos cidadãos em Roma. Desde a República existia a anona ou distribuição de trigo aos necessitados. Era uma prática considerada como dever do Estado que não só protegia os setores mais desfavorecidos economicamente, mas também prevenia as revoltas sociais. Os ediles realizavam o aprovisionamento e até se encarregavam de importar o trigo suficiente para a distribuição que era vigiada pelos curatores frumenti de modo a corrigir os abusos. A instituição se conservou até o final do império Romano. Não sabemos se existia alguma coisa parecida na Palestina mas parece que houve situações em que o governo distribuiu alimentos em tempo de fome, pois Herodes o Grande até vendeu seus talheres de prata para comprar trigo. O Nosso administrador ao ser revogado de seu ofício se transformava em pedinte comum. Mas ele bolou um plano inteligente: tornar-se-ia cliente de seus ricos devedores. Os clientes eram as pessoas que após a salutatio de manhã recebiam o pão e a cebola para o dia ou uma cesta de comida no lugar do mesmo. Ou talvez pretendesse o cargo de administrador dos novos amigos assim ganhos à sua causa. Para isso mandou vir os que eram devedores do seu dono e da dívida retirou suas ganâncias que ele já não podia receber por ter perdido o emprego. O salário era próprio dos trabalhadores manuais. Este não era o caso dos administradores; mas existia  uma retribuição que compensasse as horas dedicadas. Um exemplo era o que sucedia com os professores ou pedagogos. Sem salário fixo, eles recebiam uma compensação porque poderiam ter trabalhado em outros menestréis e receber um salário apropriado. Eram as perdas que eram pagas e não o trabalho. O modo de proceder do administrador não era pois, um roubo, mas um estratagema bem bolado. Por isso podia ser admirado pelo seu senhor sem que pudesse ser acusado de ladrão.

AS QUANTIDADES PERDOADAS: Parece que perdoa mais ao que deve 100 bats de azeite, aproximadamente 4 mil litros; pois o bat era uma medida  de capacidade de líquidos que equivalia a 40 litros, igual a metreta latina. A medida de sólidos era o coro equivalente a 400 l de modo que os cem coros de dívida equivaliam a 40 mil litros. O perdão do azeite era de 200 l e o de trigo de 800 l, quatro vezes mais em quantidade; mas considerando que os preços eram diferentes, temos que os 800 l de trigo equivaliam aos 200 l de azeite. Era provavelmente o dinheiro correspondente ao que o administrador devia ganhar. Por isso o comentário do dono é só de louvor ante a perspicácia do seu antigo empregado, sem taxa-lo de ladrão. Aliás a palavra latro latina era como se designava os soldados de suas legiões que pelos saques e tropelias por eles cometidos teve depois um significado restrito aos que se apropriavam dos bens alheios. O antigo empregador comentou elogiosamente a conduta que apontou como prudente[fronimos], ou sábia, por previdente.

CONCLUSÕES: 1a) Os filhos deste século[aion] são mais sábios que os filhos da luz em sua geração. A palavra aion designa tempo, duração vida, século, idade, geração. As diversas traduções como a latina dizem: os filhos deste século são mais prudentes que os filhos da luz nesta geração. A tradução da bíblia de Jerusalém: os filhos deste século são mais prudentes com sua geração do que os filhos da luz. A espanhola: Os filhos do mundo são mais sagaces em sus relaciones que los hijos da luz. Que se entende por filhos deste século, ou mundo?  A frase filhos deste século [aion] sai duas vezes em Lucas. Uma aqui e outra em Lc 20, 34. Segundo Lc 18, 30 o século [aion] é oposto ao tempo presente [kairós]. Podemos afirmar que aion significa uma etapa,  uma era. Os filhos desta etapa são os que mais tarde são descritos como os que escolheram a maimona (13). Os outros são os filhos da luz, que tem uma conotação parecida com os que descrevem os essênios como opostos aos filhos das trevas. A frase sobre a luz como unida a Cristo sai em Jo 8, 12  quando Jesus afirma que ele é a luz e quem o segue não andará nas trevas pelo contrário terá a luz da vida. Paulo fará uma distinção entre o homem psychikós [natural] e o homem pneumatikós [espiritual] que é a mesma distinção que Lucas faz neste evangelho. Vemos nesse trecho como o administrador prepara seu futuro, fazendo amigos de modo a ter uma aposentadoria por assim dizer garantida. Como prepara seu futuro o seguidor de Cristo? A isso dá resposta a segunda conclusão.

2a) Fazer amigos: Do modo que o administrador fez amigos para um futuro tranqüilo, devem também os filhos da luz, seguidores de Cristo, fazer amigos para que seu futuro seja o mais seguro e ditoso possível. Devem procurar fazer amigos da riqueza [Mamona] da iniqüidade [tes adikias]. A palavra mamona não é grega mas sua origem é semita. É usada no grego em singular e aparentemente indeclinável. A vulgata não traduz a palavra, a usa também em singular e a declina como da 1a declinação. As traduções das diversas línguas traduzem por riquezas  em plural ou dinheiro em singular.. A mais fiel é a inglesa que conserva o mammon. É uma palavra de origem aramaico mamon ou mamona. Seu significado primitivo seria objeto ou pessoa em que se pode confiar. Daí que Lucas diga confiar[pistoi] em objeto [injusto de confiança(11). Em Eclo 42, 9 significa riqueza. E no Targum se traduz por fazenda, ganância. S. Agostinho dirá que também era usado em fenício como o dinheiro de resgate de um escravo. O apelativo de iníquo é devido ao influxo contrário com que disputa o coração do homem para afastá-lo de Deus. Em Coelet 5, 8 lemos: A riqueza[traduzido por abundância]  da terra pertence a todos . Marcos vê nas riquezas uma sedução um engano quase impossível de evitar (4, 18). O Coelet diz em 27, 2 Muitos pecam por amor ao lucro. Aquele que procura enriquecer-se mostra-se implacável. A expressão riquezas injustas é de Sirac 5, 8: Não confies nas riquezas injustas, porque não te servirão para nada no dia da desgraça.O grego dos setenta diz  epi chremasin adikois. A palavra chremata pois em plural indicava riquezas. Daí provém a palavra castelhana crematística que pode ser traduzida ao português por pecuniário. A palavra adikiais[maldosas] é traduzida por mal adquiridas ou  injustas como se a causa da obtenção fosse uma injustiça social, quando na realidade se trata mais de riquezas enganosas , pois não podem salvar o homem na hora mais angustiosa como é a da morte. Em que sentido elas são descritas como mammona tes adikias [bens da iniqüidade] por Jesus, pois aparentemente a frase é uma autêntica palavra do Mestre? São riquezas mentirosas que iludem os homens e portanto iníquas, maldosas. Basta esta mentira que em si encerram para titular as mesmas como riquezas iníquas .Em Marcos 4, 19 são chamadas enganosas[apate]. É delas que se servem os prudentes do reino para adquirir amigos que à semelhança dos agradecidos pela ação do administrador incompetente, receberão os seus benfeitores nas suas tendas que são as eternas.

3a) Do pouco para o muito: parece que esta sentença de quem é fiel no mínimo será fiel no muito etc. é uma frase que foi acrescentada e tomada da parábola das minas (19, 17). É uma tese para deduzir a conclusão imediata: Se não fostes fiéis quanto ao mammona iníquo quem vos dará o verdadeiro [como administradores](11)? Como vemos existe uma oposição entre o falso e verdadeiro dinheiro; por isso a nossa tradução de enganoso da palavra adikias tem uma base real. O relativo Quem indica muito provavelmente Deus. Deus olha o comportamento atual para dar uma recompensa futura e total.  Se não fostes fiéis no alheio, quem vos dará o próprio(12)? É uma frase difícil de interpretar. À vista do administrador da parábola que gerencia bens alheios, podemos dizer que a frase é uma reflexão sobre como a gerência de bens temporais da frase anterior determina a gerência última de bens que são inatos e acompanham sempre a pessoa, como a pele o corpo. Estes bens são evidentemente a fé e a pertença ao Reino. Somente os verdadeiros ricos que não se deixam envolver pela sedução das riquezas serão dignos de entrar no Reino.

MORAL DA HISTÓRIA: Nenhum criado pode servir a dois senhores.(13). Jesus explica quem são esses senhores: Deus e Mammona. Tudo o anterior serve para esta conclusão que é definitiva. Também Mateus nos apresenta a mesma declaração em 6, 24. O grego em ambas passagens só se diferencia porque Lucas fala de nenhum empregado devido a que é uma conclusão de uma parábola, enquanto Mateus generaliza a afirmação com o absoluto ninguém. De uma situação puramente humana e racionalmente lógica, Lucas tira uma conclusão que é absoluta em termos de contradição. Deus e as riquezas, estas sem distinção de procedência, são termos opostos. Ou servimos a Deus ou servimos às riquezas mas as duas coisas ao mesmo tempo não são possíveis.

PISTAS: 1) Dizia um padre num de seus sermões: Ou abraçamos a pobreza ou abraçamos os pobres. Para a grande maioria a pobreza é o caldo de cultivo de suas vidas. Entendemos por pobres aqueles que devem trabalhar para poder viver. Os que não querem trabalhar não comam, dirá Paulo em 2 Tes 3,10. Então teremos que dizer: Bem-aventurados vós os pobres porque vosso é o reino. A eles devemos pregar para que não se deixem iludir pela sedução das riquezas(Mc 4, 19).

2) Os ricos têm no evangelho de hoje um exemplo para quando a aposentadoria da vida chegue a termo encontrar amigos que os recebam nas moradas eternas: fazer bom uso das riquezas. Elas não formam parte íntima do homem. Devem ser abandonadas e os ricos são meros administradores das mesmas. Um dia teremos que dar conta da administração. Assim como o administrador deu parte ou todo do que era seu para adquirir amigos da mesma forma devemos também fazer amigos com essas riquezas que não nos pertencem mas que administramos.

3) O que não é necessário para uma vida digna segundo nossa classe social da qual fazemos parte, pertence aos pobres. O luxo é uma afronta e um pecado. Porque esse luxo precisamente como supérfluo pertence aos necessitados e estamos roubando o que estamos esbanjando. E estamos dando um péssimo exemplo que causa inveja , um vício, e não admiração, uma virtude.

EXEMPLO: Um velho avaro judeu orava deste modo: Se o Todo-poderoso, cujo santo nome seja sempre bendito, me concedesse cem mil dólares, eu daria dez mil aos pobres. Prometo que o daria. E se o Todo-poderoso –louvado seja eternamente- não confiar em mim, que deduza os dez mil e me envie os 90 mil restantes. Qual é nossa oração?