DOMINGO
XXVII DO TEMPO COMUM (Lc 17, 5-10)
FÉ E
SERVIÇO
(Pe Ignácio
dos padres escolápios)
INTRODUÇÃO:
Aparentemente
os dois ensinamentos de hoje nada têm a ver com o eixo central desta
parte que é a subida à Jerusalém. Uma resposta de Jesus ante a petição
dos discípulos sobre a fé e um ensinamento não pedido sobre o serviço
como nota distintiva do discipulado.
A PETIÇÃO: E
disseram os apóstolos ao Senhor:Aumenta nossa fé (5). Após a parábola
do rico e Lázaro, Lucas inicia um parêntesis em que entram alguns
aspectos de doutrina como norma para os
discípulos: O escândalo, a correção fraterna, a fé, o serviço.
Hoje vamos tratar das duas últimas. Apóstolos são os doze e portanto
é uma lição particular dada aos íntimos que seguem Jesus. Deles parte
a pergunta. Não sabemos que tipo de fé pedem, pois os intérpretes
distinguem entre fé teológica e fé carismática. A primeira era necessária
para a entrada no Reino e dirigia-se principalmente à pessoa de Jesus.
É a fé que Jesus pede que Pedro mantenha sem desfalecer(Lc 22, 32).é
a fé que salva o pecador ante a figura de Jesus como libertador do
pecado por meio de sua morte vicária. Por isso ele pode assegurar
que a encontra na pecadora: tua fé te salvou; vai em paz(7,
50). Podemos também afirmar que é a fé confidencial como filhos na
providência do Pai (Lc 12, 28). E é precisamente aqui que Jesus depara
que a fé dos discípulos é fraca. Diante das preocupações da vida pela
comida e pelos vestidos, dirá Jesus que seus seguidores são homens
de pouca fé(Lc 12, 28). A segunda está unida a atos de cura.
a fé que Jesus exigia para curar como em Lucas 8, 48:Jesus
disse à mulher hemorroísa: Minha filha, tua fé te salvou(Mc 5,
34). Por que os discípulos pedem que aumente a fé dos mesmos?
Vejamos os momentos em que esta fé é deficiente. No meio da tempestade
que Jesus acalma teve que recriminar a sua pouca fé: Onde está
a vossa fé? (Lc 8, 25). Pedro será a figura emblemática que duvida
num momento de perigo e a quem Jesus terá que segurar ,ao mesmo tempo
que o recrimina: Homem de pouca fé por que duvidaste? (Mt 14,
31). Parece lógico que a fé que os discípulos pedem que aumente é
esta última, segundo o que Marcos relata sobre o epiléptico que os discípulos
não consegiuram curar. Jesus recrimina os discípulos como geração
incrédula. O pai deve exclamar: Eu creio ! Ajuda a minha incredulidade!(Mc
9, 24). Eles pedem pois, uma fé que fosse capaz de fazer os milagres
que Jesus fazia sem limitação de poderes.
A MOSTARDA: Era
uma pequena semente de um arbusto próprio da Palestina. Da semente
da árvore se extrai um óleo de gosto picante usado como condimento;
é o nome comum de várias plantas do gênero sinapis; podem ser anuais
ou perenes formando um arbusto de alturas entre 80 e 50 cm. Parece
que na Palestina no vale do Jordão e perto do lago da Galiléia, o
arbusto tem até 3 m de altura com base lenhosa, comparável com uma
árvore.Os árabes a consideram árvore, e seus frutos são alimento preferido
dos pequenos pássaros granívoros. No fim do século 19 havia até 90
tipos de condimentos cuja base era a mostarda. Suas sementes são de
fato muito pequenas como afirma Jesus em Marcos 4, 31 e eram simbolicamente
figura das coisas pequenas. Jesus afirma que não é necessária muita
fé para realizar grandes milagres.
O SICÔMORO: O grego
sykaminos é a tradução do hebraico sikmah que é uma árvore semelhante
a uma amoreira mas cujos frutos se assemelham a figos. Era árvore
de fortes raízes e grande envergadura; tudo contribui para uma maior
dificuldade em sua remoção. Em passagem paralela Mateus fala de montanha (Mt 17, 20).
A PARÁBOLA: Temos
que observar os antigos costumes e saber distinguir entre o ofício
de um escravo e a autoridade de seu senhor. Este último era precisamente
o dono de campos que precisavam ser arados, e gado ou ovelhas que
deviam ser pastoreados. O trabalho dos escravos era de sol a sol.
Embora a lei judaica mandasse que fossem tratados o mais humanamente
possível, existia uma diferença de classe, que diferenciava o mandante
do servidor. A parábola o indica de modo concreto: Depois de um dia
de trabalho árduo, ao voltar, era o escravo que devia servir e obedecer, não o amo. Somente após o amo ter
satisfeito suas necessidades é que eles poderão comer e beber a mesma
comida e bebida que o dono.
CONCLUSÃO:
Um serviço
como o de um escravo não merece nem louvor nem recompensa. O escravo
é um simples servidor. Nisso está sua vida e disso depende sua existência:
obedecer aos mandatos e caprichos do seu senhor. O grego usa a palavra
achreios [desnecessário] sem utilidade, para indicar a posição
do escravo, que os modernos traduzem por ao qual nada se deve,
sem prêmio ou salário. Isso porque havia servos aos quais o amo dava
uma paga ou recompensa para que trabalhassem melhor abrigando a esperança
de que sua poupança poderia, no futuro, comprar sua liberdade.
Por isso os discípulos devem estar dispostos a obedecer aos
mandatos sem esperar recompensas ou aplausos e aclamações pelo serviço
feito.
PISTAS: 1) A
fé: Seu sentido primeiro e principal é uma adesão vital a Deus, um
abandonar-se nas mãos de Deus enquanto o homem renuncia a si mesmo
e confia totalmente na palavra divina. Dessa fé confidencial Abraão
é o modelo, de modo que esteve disposto a sacrificar o filho único,
confiado na palavra de Deus. Por isso é a fonte e fundamento religioso
da vida toda. Embora seja um dom do Pai(Ef 2, 8) a fé requer a não
resistência por parte do homem e essa falta de oposição tem um ponto
positivo: colaboração.(Mt 7, 21)
2) Por
isso somente os servos que obedecem exatamente os mandatos do Senhor
são os que realmente tem fé e poderão realizar obras portentosas.
Ao querer humano se deve somar o poder divino que é quem em definitivo
realiza a obra.
3) O
traslado miraculoso do sicômoro pela fé já é efetuado desde o momento
em que o homem traslada seu mundo ao plano espiritual desde o plano
puramente consumista e temporal. O maior milagre não é o do sicômoro
mas a conversão que a fé efetua no homem. A fé transforma um cego
num homem de luz (Mt 15, 14)um morto num homem de vida (Cl 2, 13),
4) A
paga que pensamos Deus nos deve, por nossas boas obras, transformaria
nossa religião em um mercado de compra-venda. Deus não nos deve nada;
nem pela lei do nascimento, como pensavam os judeus, nem pela lei
da compensação pelas boas obras realizadas. Serão precisamente os
homens a quem temos feito o bem que se considerarão impelidos a pedir
e solicitar uma recompensa por nós como os hebreus pediram em favor
do centurião (Lc 7, 4), ou como os pobres o farão como amigos na vida
futura.
5) Por
ser a lei do amor a que deve guiar nossa relação com Deus não podemos
negar nada a sua vontade e esperamos que ele recompense, muito mais
do que pensamos, pedimos ou esperamos, o pouco de bem que temos feito
em seu nome.