XXVI DOMINGO DO TEMPO COMUM B ( Mc 9,38-43.45.47-48)

(Pe. Ignácio, dos Padres Escolápios)

 

O TEXTO: Há uma pequena diferença entre o texto grego e a tradução latina, chamada vulgata. Esta acrescenta dois versículos, o 44 e 46 imediatamente após o escândalo da mão e do pé, que o texto grego só acrescenta como final após o versículo 37, formando o 38 que resume os 44 e 46 latinos: ubi vermis... non extinguitur, traduzidos por: onde o verme deles não morre e o fogo não se extingue, que nos leva a Isaias 66,24 com o versículo final do profeta: "Ao sair[da cidade santa] poderão ver os cadáveres daqueles que se revoltaram contra mim: seu verme não morrerá, seu fogo não se apagará,(eles serão uma repugnância para toda carne) O parêntese final não está no texto de Marcos.

 

UM DISSIDENTE: O episódio é narrado também por Lc 9, 49-50. No lugar de didáskale (Mestre, no sentido de professor), Lucas usa o epístate( Mestre, no sentido de quem tem o mando). Ambos os casos sucedem à lição de humildade dada por Jesus, mostrando como melhor discípulo aquele que se assemelha a uma criancinha. Agora se trata de não limitar o discipulado unicamente aos que moram diariamente com Jesus, mas a todos os que acreditam nele e operam seguindo seu modelo. Jesus é Mestre para todos os que aceitam sua doutrina e sua liderança. Se esta lição de Jesus tivesse sido levada à prática é possível que muitas guerras e mortes por motivos de dissidências religiosas não tivessem acontecido na História dos séculos posteriores de cristianismo. Fazer o bem é sempre uma bênção divina que não podemos reprimir nem ocultar.

 

O COPO- D’ÁGUA: Não somente o que faz milagres em nome de Cristo, mas o que ajuda os discípulos, nem que seja com o mínimo, como é um copo-d’água, que Mateus explicará ser fria(10,42), deve ser admitido como pessoa a quem Deus recompensará. A frase copo de água fria é usada como o mínimo favor emprestado a alguém, assim como o camelo era o maior animal conhecido para expressar o maior volume que pode passar pelo mínimo buraco(Mt 19, 24), confirmado com a comparação com o mosquito em Mt 23,24. Para Mateus a ação caritativa se estende aos mais insignificantes dos discípulos, isto é, eles também representam Jesus, pois o copo é dado por serem seus discípulos. Não devemos fazer distinção entre os grandes e os pequenos. Jesus toma como termo de comparação para apreciar o bem e o mal os menores dentro do reino. São eles os que, ao serem favorecidos, merecem o prêmio para os benfeitores por parte de Deus, e serão eles os que ditam a maldade através do escândalo, como veremos no seguinte parágrafo. O estilo é de contraposição entre as partes, exagerando os termos com comparações concretas, para melhor retenção na memória dos ouvintes.

 

O ESCÂNDALO: A palavra original significa a colocação de uma pedra como obstáculo para impedir a passagem. Daí a extrapolação feita por Jesus de impedimento para entrar no Reino. E de novo são os pequenos(Mikrói), no sentido de mínimos, dentro do marco social da hierarquia. Esses pequenos não são as crianças, mas os ínfimos entre os discípulos, aqueles que são dirigidos pelos mais ilustrados, que não têm liberdade de escolha, por sua incapacidade de entender e compreender, e por isso necessitam de um pastor-guia que os conduza. Que tipo de escândalo? Não é o escândalo moral de uma conduta eticamente reprovável, como hoje o entendemos, mas o impedimento de encontrar ensinamentos da parte dos doutos e letrados, que eram contrários ao Reino e apresentavam Jesus como falso profeta e contrário à lei divina. Este era o caso dos escribas na época apostólica.(Lc 11,52). O castigo era afogar o escandalizador culpado no profundo do abismo(Mt 18,6) do mar, por meio de uma pedra de moinho, a chamada pedra asnal. Das duas pedras para moer o grão, a inferior era fixa e como suporte do moinho recebia o nome de pedra asnal; outros dizem que o nome era dado à pedra superior pois era a movida pelo jumento ou asno. Nos moinhos de mão, frequentes nas famílias hebréias, também a pedra que era girada por meio de uma manivela recebia o nome de pedra asnal. Qualquer uma delas, pendurada do pescoço, servia para afundar o castigado por causar escândalo. O sujeito ia para o fundo do mar, o abismo ou pélagos em grego, onde se encontrava o reino do mal. Não era um castigo legal para os judeus, já que só eram permitidas quatro classes de morte: lapidação, queima, estrangulamento e decapitação. Era um castigo romano e que supunha um castigo "post mortem", pois o cadáver sem sepultura no fundo do mar por causa da pedra, causava horror para os judeus devotos da lei. Era, pois, uma nova maneira de castigar com morte temporal, e até eterna, um fato novo como era: trabalhar contra a expansão do reino, mediante a difamação do seu fundador, porque o reino dos céus sofre violência( ver Mt 11,12). Máxime este castigo adquire conotações singulares se se tem em conta que os animais afogados eram verdadeira impureza segundo a lei ( At 21,25; ver Ex 15,4 dos egípcios perseguidores e Mc 5,13 dos porcos).

 

A MÃO,.O PÉ, O OLHO: Não são unicamente outras pessoas as que são causa de escândalo, mas também podem ser a mão, o pé ou o olho os que servem de escândalo. No caso do olho e da mão temos dois lugares paralelos em Mateus 5, 29 e 30 sendo em ambos os casos membro direitos, ou seja os mais estimados em ambos os casos. A conclusão é que é preferível perder um membro do que conservá-lo e perder toda a vida. Era típico dos judeus situar as apetências nos membros do corpo: Mão por roubo e violência, pé por aliar-se com malfeitores e correr a realizar o mal, e olho por sovinice e avareza.Com isso entramos no escândalo moral e também daí deduzimos o argumento lógico e bíblico para operações em que a mutilação se torna necessária diante da vida.

 

A GEHENNA: Não é invenção de Jesus. Era o lugar ao sul de Jerusalém, no vale de Hinon, um verdadeiro lixão, onde os detritos e os animais mortos eram jogados e queimados, um verdadeiro símbolo do inferno, cujo fogo é inextinguível. A palavra sai sete vezes em Mateus em três das quais recebe o adjetivo de fogo (gehena de fogo), sendo que uma delas é de fogo inextinguível. Em Marcos será a gehenna de fogo (1 vez), de um fogo inextinguível (2 vezes). Lucas só fala uma vez(12,5) dizendo que a quem se deve temer é àquele que pode, depois de matar, lançar na gehenna. Coincide com o nosso inferno a gehena? Podemos afirmar que sim. Em Mateus 18,8 afirmará o evangelista que se tua mão ou teu pé te escandalizam corta-os. Melhor é entrar na vida sem eles, do que com eles, seres atirado no fogo eterno. Por isso não há dúvida de que é símbolo de uma realidade eternal.

 

PISTAS: 1) Todo aquele que pratica o bem deve ser aplaudido e ajudado. A salvação está precisamente no triunfo do bem perante o mal que nos rodeia, inutiliza esforços e impede a luz nascente da esperança num mundo melhor. 2)Os discípulos de cristo que estão empenhados na propagação do evangelho são olhados por Deus de modo especial. Qualquer ajuda, por pequena que seja, será recompensada. 3)O misthós, o prêmio ou recompensa, e até poderemos afirmar que representa o salário, entra nos planos divinos para pagar o bem feito, e deve entrar nos projetos humanos como motivo, se não o último, pelo menos coadjuvante do amor desinteressado dos empenhados em escolher o bem e praticar a caridade. 4) O maior pecado, mesmo nos dias de hoje, consiste em difamar ou desvirtuar a mensagem evangélica. Sua pureza, sua radicalidade, devem ser respeitadas e anunciadas sem interpolações errôneas ou restritivas. O Senhorio de Cristo é essencial para todos os que sinceramente buscam a verdade e pretendem que ela se transforme em caminho na sua vida.(Jo 14,6).5) Do escândalo essencial, tendo como base a fé no Cristo, podemos passar aos escândalo moral em que a Igreja é vilipendiada e silenciada, porque seus membros não respondem à conduta exigida pelo evangelho e assim sua voz se torna oca como paródia da verdade e veículo da mentira.6)A gehena, o inferno é motivo de preocupação para os que optam pelo mal transmitido aos outros sem arrependimento, simbolizados pelo corte mutilatório.

 

 

EXEMPLO: O texto é de um comercial criado por Washington Olivetto e que foi veiculado nos cinemas recentemente. No filme a tela fica toda branca enquanto a narração em off diz o seguinte:

Este comercial não tem mulher de biquíni, não tem cachorro, não tem criança, não tem bebezinho.

Este comercial não tem casal, não tem beijo, não tem pôr-do-sol, não tem família tomando café da manhã.

Este comercial não tem música de sucesso, não tem efeito especial, não tem tartaruga jogando bola.

Este comercial não tem gente famosa, nem garoto propaganda, porque esse comercial é pra vender um produto que ninguém precisa ser convencido a comprar.

Este comercial é para vender um produto que você adora consumir, e que por sinal, você até já comprou, Só que não estão entregando. É um produto que não tem marca, nem tem slogan, não tem embalagem,

nem faz promoção, tipo leve 3, pague 2.

Este comercial é todo branco e desse jeito, ele pode ser entendido aqui e no mundo inteiro. Aliás, seria muito bom que este comercial pudesse passar no mundo inteiro. Porque o produto que este comercial quer vender é a PAZ.

Enquanto o pessoal que precisa comprar a PAZ não compra, faça assim:

Pegue o estoque de PAZ que você ainda tem em casa, use no trânsito. use na fila do banco, use no elevador,.use no futebol. PAZ é um produto interessante, porque quanto mais você usa,

 

mais você tem. E se todo mundo usar, quem sabe chegue o dia em que ninguém mais precise fazer um comercial para vender a PAZ. Neste momento a tela se escurece.