XXV DOMINGO DO TEMPO COMUM(Mc 9,30-37)
O VERDADEIRO MESSIADO
(Pe. Ignácio, dos Padres Escolápios)
AS DUAS PARTES: No evangelho de
hoje podemos distinguir duas partes diferentes; porém, ambas com uma base
comum. A primeira é a segunda predição de Jesus sobre sua sorte definitiva em
Jerusalém, cuja viagem acabava de se iniciar. A segunda é a lição sobre quem é
o melhor dos seus discípulos. Na realidade podemos unir ambas sob o conceito de
que é preciso perder a vida para ganhá-la definitivamente(Mc 8,35). Jesus dá com sua própria vida o exemplo paradigmal do que acabava de afirmar como Mestre. Jesus
morre como um escravo,o serviço mais humilde, para
servir de sacrifício pelos pecados de toda a humanidade, sem distinção. Na sua
morte como aconteceu no seu nascimento Jesus se coloca no último lugar como
serviço à humanidade. Falando de sua morte, um autor dizia que Jesus morreu
duas vezes: materialmente como conseqüência dos sofrimentos da cruz, que era
uma morte lenta e a mais cruel de todas como castigo(Cícero),
e espiritualmente como homem honrado, pois foi rebaixado até o último lugar;
como um maldito, segundo a lei, para os judeus ( Dt
21,23 e Gl 3,13), e como um proscrito e malfeitor
para os greco-romanos( Lc 22,37). De ambas mortes ele
se livrou por meio de duas ressurreições: a física e a moral; de modo que a cruz que era símbolo de maldição e estupidez se tornou
símbolo da árvore da vida para todo crente que olha Jesus reinando desde a mesma
como Senhor.
A SEGUNDA PREDIÇÃO: Jesus está a
caminho de Jerusalém. Tanto ele como os doze esperam o triunfo, a exaltação
como Messias. Os discípulos tinham recebido duas lições sobre o tema: uma
imediata à resposta de Pedro sobre o messiado de Jesus( Mc 8,31) e a outra no monte da
transfiguração, quando entre duas testemunhas proféticas se falava de sua
morte(Lc 9,31), se bem que nesta última, só três
deles estavam presentes. Comparando as três predições (Mc8,31; 9,31 e 10,33) vemos
que esta segunda é a menos detalhada. No lugar dos membros do Sinédrio ou Grande Conselho (anciões, chefes sacerdotais e
escribas de 8,31 ou chefes sacerdotais e escribas para ser condenado à morte de
10,33), no caso de hoje temos unicamente que será entregue nas mãos dos homens.
Há uma clara distinção entre o Filho do homem, representante do verdadeiro
homem por Deus querido e criado e os outros homens que seguem critérios
contrários ao da divindade. Aquele é rejeitado pelas autoridades religiosas e
políticas de Israel e entregue aos homens que eram considerados inimigos de
Deus, os gentios de 10,33. Tanto os judeus que o condenam como os gentios que o
matam eram os homens que agem fora dos mandatos divinos mas
não fora do seus desígnios, porque a morte de Jesus era um fato necessário ( o
dei grego, que pode ser traduzido por estava escrito, decretado) O triunfo
final só se alcança com a derrota prévia; a vida eterna só se consegue com a
morte da temporal. É a grande lição não só proveniente de Jesus como exemplo,
mas de todos os que desejam alguma coisa permanente e duradoura. É o que o
Mestre afirma continuamente: quem quiser salvar a sua vida a perderá; mas quem
perder a sua vida por minha causa, vai salvá-la (Mt16,25).
A LIÇÃO: Sentando-se chamou os doze. Era a clássica postura dos mestre
de Israel. Assentavam-se sobre um coxim ou almofada
enquanto os discípulos rodeavam o mestre sentados em círculo no chão cruzando
as pernas. Jesus dá, pois, aqui uma lição magistral: Se alguém quer ser
primeiro, será último de todos e servidor (diakonos)de todos. A tradução é o mais literal possível, pois
pretende respeitar a força do original grego, dificilmente
exprimida em traduções livres. Também a palavra diakonos
indica um serviço voluntário à diferença de doulos
que era o escravo propriamente dito.
O PAIDION: A palavra grega não
tem um significado único e esclarecedor. Geralmente é traduzida
por menino nos seus primeiros anos, um brotinho em português. Como pode
ser uma criatura tão frágil e pequena paradigma do verdadeiro discípulo de
Cristo? Veremos os dois significados maiormente
admitidos pelos exegetas desta palavra: 1o) O menino que Jesus tomou em seus
braços era um brotinho de dois ou três anos. 2o)
Alguns modernos, ao parecer sem muita lógica, traduzem o Paidion
por criado, mais bem fâmulo. Porém para este
significado temos o Pais grego para o masculino(ver Mt
8,2 e Lc 7,2) e Paidiske
para o feminino(Mc 14, 66). Optamos, pois, pelo 1o
significado. Marcos emprega o Paidion para a filha de
Jairo em 5,39-41. A tradução escolhida pelas bíblias portuguesas é criança e o Talita de Marcos no mesmo contexto, com certeza a palavra
original, indica que era uma adolescente: damsel como
traduz a bíblia de K James, muchacha em espanhol, fanciulla em italiano, puella em
latim e karasion em grego. De tudo isso deduzimos que
o Paidion é um vocábulo geral que dificilmente nos
dará a chave para saber de que idade era o menino. Porém o verbo grego seguinte
enagkalisomai (tomar nos braços, o complexus latino) indica que a criança era, como dizem os
italianos, um bambino, um menino de dois a três anos.
Essa criancinha, totalmente dependente e impotente por si mesma, é o motivo da
lição maravilhosa de Jesus: Quem recebe a uma criança semelhante a esta é a mim
que recebe. Mas Mateus(18,1-5), o grande catequista,
parece que estende a lição de Jesus tomando como mini-parábola a criancinha: Se
não vos converterdes e não vos tornardes como as criancinhas, não entrareis no
reino dos céus.
DE QUE É PARADIGMA UMA
CRIANCINHA? De todo aquele que quer entrar no reino. Para isso devemos nos
tornar como criancinhas. Qual é a qualidade da mesma que nos transforma no
modelo apontado por Jesus? Evidentemente Ele nos dá a solução em Mt 18, 4: Se
tornar pequeno( ínfimo podemos dizer), (humiliaverit se, humilhar-se do latim), esse é o maior no
reino. Paulo explicará a vida humana do Logos dizendo que se esvaziou a si
mesmo da divindade... para se tornar pequeno (ínfimo)
e obediente até a morte e morte de cruz(Flp 2,7-8).
Em ambos os casos usa-se o verbo tapeinoo
que significa rebaixar, se tornar insignificante e talvez o último. Nos tempos
de Jesus a criança ocupava o último lugar na escala social, praticamente sem
valor, detrás dos escravos e das mulheres. Este é pois
o ponto de comparação e não a candidez ou falta de maldade de pensamento da
criança. Por isso dirá Jesus que se não recebemos o reino como um Dom, algo
indevido, como um presente de Deus, como recebe o menino a vida e a comida dos
pais, não podemos entrar no reino. O homem nem pode dizer que está melhor preparado, nem afirmar que ele deve ser escolhido
sendo melhor que um outro. A graça divina precede, acompanha e termina a vida
humana segundo seus planos inescrutáveis, porque olhou com bondade a
insignificância de seus servos(Lc
1,48)
PISTAS: 1o)Os
discípulos pensavam que o Reino de Cristo, à diferença do Reino de Deus, este
final e definitivo, era terrestre como o de Davi e devia se manifestar
imediatamente em Jerusalém para onde estavam se dirigindo. Porém nos planos
divinos estava a morte de Jesus como início do seu Reino. Era a exaltação como
João denomina a crucifixão contra a maldição vista pela lei ou a vergonha
contemplada pelos gentios. Daí que existisse entre eles a disputa de quem devia
ser o preferido na escala do Reino. 2o) Os planos de Deus,
um Deus justo, encontram a justificação do pecador no fato de que o Filho,
inocente, pague um preço mais do que satisfatório para que o perdão seja mais
do que generoso. O sofrimento e o sangue de quem era Filho único paga pelo
perdão de quem era inimigo e querer ser reconhecido como filho.3o)
O orgulho é um dos pecados mais comuns entre os homens: É querer ser mais, ter
mais, sobressair mais do que os outros. Merecemos –pensam-
algo melhor do que nos tocou em sorte e atualmente possuímos. Foi o
pecado do anjo rebelde. Foi a tentação da liberdade e superioridade proposta
pela serpente no paraíso. 4o) Porém o evangelho
apresenta uma outra solução: A autêntica grandeza está em servir, porque
escolhemos o último lugar e assim entregamos a vida, perdendo-a aparentemente.
A grandeza está em dar, não em receber; em obedecer e não em mandar e dominar.
Há algum serviço que possamos emprestar, alguma gentileza com a qual possamos
ajudar o próximo, alguma contribuição que devamos dar para fazer o próximo mais
feliz? 5o) A criancinha representa o impotente, o que
não pode retribuir, o verdadeiramente necessitado. Tem sido ela a figura de
Cristo que guia nossos interesses, domina nossas preferências ou ilumina nossos
passos? As palavras de hoje são dignas de serem ouvidas, merecem ser meditadas
e principalmente devem ser imitadas.
EXEMPLO: Um homem já idoso passava longo tempo diante do Santíssimo. O pároco, intrigado por essa atitude o interrogou: Meu senhor, que é que fala com Jesus no tabernáculo? A reposta maravilhou o sacerdote: Estou preparando minha próxima e definitiva entrevista.