XXX DOMINGO
DO TEMPO COMUM (Lc 18, 9-14)
O FARISEU
E O PUBLICANO
(Pe Ignacio
dos padres escolápios)
INTRODUÇÃO: Esta
é uma parábola própria de Lucas. As circunstâncias, com o templo
de fundo, e a oração como ambiente, são as mais sagradas que podemos
encontrar, dentro da religiosidade da época, para descrever os momentos
mais sublimes das relações entre Deus e o homem A parábola emite,
pois um juízo profundo de valor sobre a intimidade das pessoas e
a ação divina, que exalta, ou rejeita, o conceito que de si mesmas
abrigam. Mas também é uma parábola de contrastes entre dois homens,
que significam o máximo e o mínimo em religiosidade. E finalmente
é uma lição suprema sobre o orgulho e a sua oposta, a humildade.
A parábola é dirigida aos que, seguindo a lei, desprezavam os outros
homens que consideravam ladrões, perversos e adúlteros. Esses homens
eram os fariseus, embora Jesus não usasse este termo para descrevê-los.
A continuação, no exemplo que é sempre uma parábola, usa como modelo
dos homens honestos um fariseu,e como espelho dos outros homens
um publicano. São os extremos vistos desde a perspectiva tradicional
do momento. O mais negativo no juízo que o evangelista emite sobre
os fariseus não é que fossem corretos e de conduta imaculada [dikaios]
e disso se gabassem; mas o desprezo com que olhavam os demais homens.
Nisso podemos afirmar que sua conduta não era tão louvável como
eles pensavam.
O TEMPLO: Era
o lugar do sacrifício, mas também da oração para todos os povos
( Is 56, 7), que Jesus cita ao expulsar os vendilhões
do templo. Era a casa da comunicação com Deus. Como vemos na conduta de Moisés, a Tenda
[chamada da Reunião] ou Tabernáculo, era o lugar em que Moisés entrava
para se comunicar com Javé (Ex 33, 7-11). Lugar em que Ana orava
1 Sm 1, 10) e no qual Salomão, na frente do altar (1 Rs 8, 22) orou
ao ser declarado rei. No NT a hora nona era a hora da oração no
templo. Era precisamente a hora do sacrifício vespertino ou seja
três da tarde, como vemos em At 3,1. Paulo dirá de si mesmo que
entrou no templo para orar e caiu em êxtase (At 22, 17). Os rabinos
declaravam que a oração da assembléia embora existam pecadores entre
eles, nunca fica sem ser ouvida por Deus. De modo que quem não reza
com e em comunidade é um mal vizinho. Por isso a
sinagoga era chamada casa de oração. Por isso dirão os sábios: quem
reza na casa do Senhor é
como se oferecesse uma oferta pura. Pensavam, pois, que esse era
o melhor lugar para que suas preces fossem ouvidas. De fato as orações
das sinagogas sempre tinham o plural como agente das mesmas. Exatamente
como o Pai Nosso ensinado por Jesus. Segundo
Jesus, fariseus e escribas hipócritas adoravam rezar de pé nas sinagogas.
Parece que existiam espaços determinados nas sinagogas para rezar.
Aliás as sinagogas foram especialmente lugares de oração segundo
Maimônides, e deviam ser construídas desde que houvesse dez homens
para se reunir. O fato de ficar de pé era costume entre os judeus
e por isso também o publicano reza do mesmo modo, Costume
que eles atribuíam a Abraão que se levantou de madrugada (Gn 19,
27) e de Davi (2 Sm 7, 18). Os fariseus acostumavam rezar nas esquinas
das ruas porque assim eram mais visíveis suas orações. Também nas
sinagogas os assistentes se levantavam para orar(Mt 6, 5). É lógico
que essa sua ostentação levava-os a ocupar os primeiros lugares
nas sinagogas e nos banquetes (Mt 23, 6). Por isso estava nosso
protagonista na frente no templo, ao contrário do publicano que
ocupava um lugar distante (13). Não sabemos o lugar específico de
oração dentro do templo, Provavelmente seria o átrio dos
israelitas, onde podiam entrar os homens adultos na hora
do sacrifício tanto matutino como vespertino, uma vez ultrapassada
a porta de Nicanor, separado do átrio dos sacerdotes por um muro
de pouca altura que deixava ver os sacrifícios. A eles acompanhavam
orações como vemos por Atos 3,1.
OS
FARISEUS:
A palavra original era parishim, que significa separados
no sentido de escolhidos ou melhor os que não querem se misturar
com o povo [o hám-haaretz comum], para não se contaminar com as
impurezas destes últimos. No tempo de Jesus seu número era de 20
mil, pequeno ao que parece, mas enormemente influente por
sua vida, aparentemente santa. Jesus denunciou a hipocrisia de muitos
deles que tinham como fim de seus jejuns e orações serem vistos
pelos homens, mas que no seu interior eram sepulcros de corrupção
e perversidade que Jesus chamava com razão sepulcros caiados(Mt
32, 27). Sem dúvida que eles estavam na mira do início da parábola
alguns que confiavam em si mesmos como corretos[cumpridores da
Lei] e desprezavam o resto, os outros como traduz a vulgata.
Mas não eram só os fariseus os atingidos, de início, por esta prábola.
Sem dúvida que aqui existe uma intencionalidade mais ampla do que
a palavra fariseu determina. Porém um fariseu típico era o exemplo mais apropriado daqueles que confiavam
em suas obras, e o publicano do pecador que tinha transgredido todas
as principais leis mosaicas. Os fariseus eram uma das três modalidades
religiosas do judaísmo pos-exílio, formado em círculos não sacerdotais
, de leigos dedicados à interpretação da Torah. Mas, como grupo
organizado, surgiram no tempo dos Macabeus pouco antes de João Hircano
(134-104 aC). Sua moral estava baseada na estrita interpretação
tanto da lei escrita como da que provinha da tradição.(Mc 7, 7-9).
A meta de todo judeu era conservar uma nação santa, consagrada e
dedicada ao Deus de Israel cujos meios consistiam, segundo eles,
na educação e conhecimento da Torah. Seu credo era formado pela
observância estrita do sábado e dias festivos em honra do Senhor
e o cumprimento exato das leis da pureza ritual, no pago dos dízimos
e nas dietas alimentares, na crença da liberdade humana sob o controle
da providência divina e sua fé na ressurreição, nos anjos e no Messias.
Nisto se diferenciavam dos saduceus(At 23, 8). Um grupo religioso
que se distinguia particularmente por sua estrita observância das
prescrições religiosas e por sua interpretação formalista da Lei
em boca de Flávio Josefo. Podemos dizer que os fatos de que se gabava
o nosso fariseu eram reais.
O
PUBLICANO:
Publicanos eram na antiga Roma as pessoas encarregadas de cobrar
os impostos, normalmente de origem eqüestre, pois os senadores não
podiam participar. Nos tempos da república as arrecadações as realizavam
sociedades financeiras[societas publicanorum]que pagavam o total
do importe do imposto ao Estado antes de proceder á arrecadação
dos mesmos. César modificou no ano 47 aC o sistema na Palestina,
reduzindo os impostos e declarando os anos sabáticos isentos de
tributação. Nos tempos de Jesus havia dois tempos de taxas: impostos
diretos sobre renda e patrimônio e impostos sobre mercadorias e
alfândegas estes últimos precisamente eram os abastados e entregues
aos architelones, cujos agentes recebiam o nome de telones,
palavra que significa escritório ou banca de trabalho comercial.
Estas estavam distribuídas nas portas da cidade e nos acessos das
mesmas como pontes e portões das muralhas das mesmas. Na Galiléia
dependiam de Herodes Antipas e nos territórios do sul do governador
romano. Por terem de repor o dinheiro subastado tornava o sistema
de arrecadação um dos mais abusivos e inescrupulosos de todos os
conhecidos. O publicano tinha muito de que se arrepender pelos abusos
e excessos cometidos no exercício de seu trabalho.
ORAÇÃO
DO FARISEU:
Posto de pé orava para si [de si para si], que outros traduzem como
olhando a sua conduta. Ele dá graças [eucharisto]. A razão é que
não sou como os demais dos homens(11). Aparentemente é uma
oração que qualquer de nós poderíamos subscrever como nossa. Dar
graças a Deus é uma das melhores formas de orar. Agradecemos sempre
as coisas boas( por que também não o fazemos com os infortúnios
e os pecados?). A única dificuldade da oração do fariseu era a sua
comparação com o pecador que é realmente desprezado, [como este
publicano] e também o resto dos homens. A parte negativa dos mesmos
homens da qual o fariseu não comparte, é de serem ladrões, injustos[pecadores],
adúlteros. Realmente o juízo formado pelo fariseu dos homens em
geral não é tão incorreto. A maioria entraria numa dessas três categorias
certamente. A parte positiva da qual ele realmente se gloria como
atuação livre e meritória é que jejua duas vezes na semana [sábado
segundo o grego e a Vulgata latina] e paga dízimo de tudo quanto
possui. Pelo que respeita o sábado ou Shabat ele tinha dois sentidos:
o dia do sábado e a semana. Sem dúvida que aqui este último sentido
é o que prevalece. O JEJUM: Os taaniyot [dias de jejum]eram
sinal de arrependimento, luto ou petição de uma assistência divina
especial [caso da rainha Ester em 4, 15]. Como os árabes durante
o Ramadão, o jejum hebraico supunha total abstenção de comida e
bebida. Os jejuns dos dias da Expiação [Yom Kippur](Lv 23, 27-32)
e do dia 9 do mês de Av, dia da destruição do primeiro e segundo
templo de Jerusalém, eram totais de ocaso a ocaso [o dia se contava
assim no tempo] mas os jejuns em geral duravam apenas de sol a sol.
Os que jejuavam costumavam sentar-se no chão, se vestir de aniagem[o
famoso saco] e cobrir a cabeça com cinzas ( ver Mt 6, 16).
Os dias de jejum entre os fariseus eram segunda e quinta; quinta,
por afirmar a tradição, embora algum tanto tardia, que foi o dia
da semana em que Moisés desceu do monte após os quarenta dias, e
segunda por ser o dia de sua ascensão. Mas parece mais provável
que a escolha dos dias era pela sua separação apropriada respeito
ao sábado e entre semana. O DÍZIMO: Era o Maasser era o imposto
de dez por cento de produtos agrícolas, destinado ao sustento dos
levitas (Dt 14, 22-23), de famílias necessitadas, etc. Era uma oferenda
anual que se pagava no dia das cabanas ou tabernáculos, uma vez
terminada a colheita. A entrega era em espécie, mas como era difícil
levar ovelhas, grãos etc vendiam-se estas em origem e logo se compravam
em Jerusalém para entregar o produto da compra no templo (Dt 14,
25-26). Como estrito observante da Lei o fariseu pagava o dízimo
até das coisas mínimas como a hortelã[menta], o dendro[anis] e o
cominho(Mt 23, 23). Como vemos são ervas próprias de condimentos,
usadas minimamente como alimento. A estas minúcias chegava a meticulosidade
com que os fariseus observavam a Lei. Vejamos uma oração de R. Judá
que afirmava devia dar graças por três razões principais: Bendito
sejas Senhor, porque não me fizeste um gentio. Bendito sejas Senhor,
porque não me fizeste um ignorante e inculto. Bendito sejas Senhor,
porque não me fizeste uma mulher. Por sua parte a mulher repetirá
as duas primeiras e subsistirá a última por: bendito sejas Senhor
porque me fizeste como desejaste. Tudo isso prova que a oração
do fariseu não era uma invencião de Jesus.
ORAÇÃO
DO PUBLICANO:
De longe, como correspondia a quem se sente o mais humilde de todos
os homens, como desprezado por Deus, como quem tem cometido um grande
crime e portanto nem olhar podia para o seu antagonista, batia no
peito. Este gesto, não se encontra no AT, mas Flávio Josefo fala
dele como sendo sinal de arrependimento. Talvez porque se considerava
que o coração era a fonte de maldade como declarará Jesus em Mt
15, 19. A Igreja usou este gesto no confiteor antes da Missa como
sinal do pecado cometido e arrependimento: mea culpa, mea culpa,
mea máxima culpa. A
oração do publicano é uma simples petição de perdão indicando que
o necessita porque se confessa pecador, portanto afastado de quem
agora está se aproximando.
O
JUIZO DE JESUS:
A tradução corrente é que este voltou para casa justificado e
o outro não. Porém não parece ser esta a melhor tradução do
grego, que reflete em sua estrutura um comparativo hebraico. Vejamos
essa tradução: Vos digo que este [o publicano] voltou para sua
casa justificado em comparação com o outro [fariseu]. A vulgata
traduz fielmente: descendit hic justificatus in domum suam ab
illo (14 a). Geralmente nós temos pensado que o fariseu foi
reprovado não tanto por uma oração em que reconhecia a bondade de
Deus em sua vida, mas pela falta de humildade com respeito ao próximo;
e que o publicano era absolvido de seus pecados por reconhecer os
mesmos e tentar o único que podia apagar sua dívida num ato de profunda
humildade. A justificação aqui vista sob o aspecto de um particípio
perfeito, dedikaiómenos, é uma passiva teológica em que a
ação de Deus é definitiva: Deus o perdoou, o admitiu como amigo
em comparação [não oposição] com o outro, que não fez a oração do
agrado divino.
MORAL
DA HISTÓRIA:
O que se exalta será humilhado mas o que se humilha será exaltado.
Parece um tanto fora de lugar esta frase como moral da história.
O mais lógico seria a melhor oração, a que traz o favor divino,
seria aquela em que o orante se apresenta como indigente diante
de Deus. Mas Lucas gosta de exaltar a pobreza e com ela a humildade.
Por isso aqui repete o provérbio que tinha sido citado por Jesus
ao ver a luta entre os convidados pelos primeiros lugares na mesa
do jantar(14, 11). Já Ezequiel tinha escrito: saberão todas as
árvores do campo que eu, Javé, é que abaixo a árvore alta e abaixo
a árvore baixa (7, 24). Assim passamos de um segmento particular
como é a oração, a uma norma geral como é a escolha e o proceder
divinos na sua total amplitude.
PISTAS:
1) Na anterior domínica vimos a constância na oração; hoje contemplamos
como a sinceridade e humildade conquistam o favor divino. Não basta
qualquer oração; é necessário que saia do fundo da indigência humana
para provocar a ação divina. O fariseu busca um Deus que aprove
sua vida e nada pede. Nada necessita: é a oração do auto-suficiente.
Deus nada tem que fazer diante de semelhante atitude.
2)Devemos
modificar nossa maneira de julgar nossos semelhantes. Geralmente
fixamos nossa atenção nos seus defeitos, nos seus pecados, nos seus
vícios. Por que não olhar neles as coisas boas, as excelências,
as virtudes? Sem dúvida que seremos mais justos e teremos uma visão
mais otimista do mundo.
3)
No mal, no pecado achamos a miséria humana, a derrota, a impotência
quando não a ignorância, nunca a grandeza. É a mesma miséria que
encontramos na doença, no sofrimento, na morte. Se esta última nos
oferece uma palavra de compaixão e de desculpa, por que não desculpamos
e perdoamos a pessoa que comete esse mal que por outra parte tão
totalmente reprovamos?
4)
O perdão é o maior dom que podemos receber de Deus. A humildade,
o reconhecimento de nossa insignificância, é a mais excelente disposição
para recebe-lo. E todos necessitamos desse perdão.
EXEMPLO:
A leprosa.- De uma missionária na Índia tomo o seguinte exemplo:
Vasavi era uma leprosa que estava na cama fazia 30 anos. Um visitante
perguntou: não entendo, como tu no meio da tragédia em que vives
tens vontade para rir. Sem pés, sem mãos, cega e sempre no mesmo
leito sem poder te locomover, como tens humor para rir? Vocês
têm tudo que me falta mas eu tenho o que vos falta:olhos interiores
e uma luz que é minha vida interior pois aqui na minha doença encontrei
Jesus que me ama e eu o amo. Eu sei que minha vida é uma oração
pelos que tendo luz externa não têm a luz interior. Neste domingo
de missões a vida de Vasavi e a vida dos que a atendem é um exemplo
para não esquecer que a humanidade tem outras energias além do petróleo
que movimentam pessoas muito mais que aquele movimenta máquinas.