XXXII DOMINGO DO TEMPO COMUM (Mt 5, 1-12)

AS BEM-AVENTURANÇAS

(Pe ignácio dos padres escolápios)

INTRODUÇÃO: Dois evangelistas narram o que se tem chamado as bem-aventuranças. Mateus como parte do sermão da montanha, pois foi desta cátedra que Jesus falou (5,1) e Lucas que coloca o pequeno discurso paralelo numa planície(6, 17). Isso indica que a circunstância é redacional, independente das palavras e idéias a expressar. Também há uma grande diferença entre as oito ou nove bem-aventuranças de Mateus e as quatro de Lucas. Ambos porém usam a mesma palavra makarioi para designar os contemplados como prediletos do reino. Que significado tinha nos lábios de Jesus essa palavra e de que idéias hebraicas era tradução, de modo que os ouvintes a pudessem entender ? O grego makários significa tanto ditoso ou feliz como bendito do verbo makarizo que significa declarar afortunado.  No primeiro caso indicaria uma situação determinista da vida mesma, sem ligação com ulteriores fins ou propósitos. No segundo caso a palavra tem um conteúdo teológico de modo que implica uma providência divina que pelo contraste com o sentir comum dos dirigentes religiosos apontava uma nova era completamente revolucionária em perspectivas religiosas. Esse é nosso caso.

O MAKÁRIOS: Existem dois verbos com o sentido de abençoar. Um deles é barak e o outro é ashar. O primeiro tem como agente ou receptor o próprio Deus: Deus abençoa e Deus é abençoado por meio do barak  O asher é para a bênção humana. Os setenta traduzem baruk [bendito]por eulogetos ou eulogemenos (Dt 28, 3 +)e asheré por makários.(Sl 2, 12).  De barak temos o baruk [bendito] e a palavra beraká, cujo plural é berakoth. Todas as berakoth começam com Baruk Ata Adonai que pode ser traduzido por louvado seja meu Senhor[=Deus]. Os evangelistas têm muito cuidado nas palavras com que escolhem a ipsissima verba Christi e portanto acreditamos que se ambos evangelistas escolheram o makarios como tradução das palavras de Jesus este não quis dizer que eram abençoados por Deus , mas declarados felizes pelos homens. Jesus quer mudar o modo de pensar dos discípulos para que estes pudessem ver nos pobres, nos aflitos, nos humildes, nos famintos, uma classe de predileção divina que os tornava desejáveis e invejáveis. Jesus praticamente, na sua primeira lição pública define a conduta humana diante da pobreza tanto material como espiritual do mundo que o rodeia. Mas vejamos as traduções: Dichosos ou Felices em espanhol, Beati em latim e italiano, Fortunate em inglês, embora a KJ traduzirá Blessed, Felizes em português e Hereux em francês. É uma palavra que indica completa satisfação ou felicidade. Todas elas cumprem as palavras de Dt 33, 29 em que o hebraico asherê é traduzido por makários  e por ditoso : Ditoso[makários] tu Israel. Quem como tu povo vencedor? Deus é o escudo que te protege, a espada em marcha que te conduz ao triunfo. Ou o salmo 144, 15: Ditoso o povo que tem tudo isso; ditoso[makários] o povo cujo Deus é o Senhor. Em Baruk 4,4 temos: Felizes [makarioi] somos Israel, pois podemos descobrir o que agrada o Senhor. Como conclusão podemos afirmar que a palavra grega makários tem o significado de homem cuja vida é invejada por ser um privilegiado por Deus nos seus planos beneficentes. Em definitiva podemos facilmente traduzi-la por BENDITO ou ABENÇOADO. Deus está no meio por ser a causa de todos e verdadeiros bens. O Makarioi de Jesus entra pois, nos planos divinos como causa principal ao ser Deus o observador que escolhe seus eleitos, como declara Maria em seu canto: Exultou meu espírito em Deus meu Salvador porque ele fixou seus olhos na insignificância de sua escrava (Lc 1, 47-48)..                                                                                                                                                             

O MONTE: Oros em grego, é usado por Mateus como um ambiente paralelo ao lugar em que Moisés recebeu a lei no Sinai, sendo que o cumprimento do primeiro mandamento receberia uma gratificação especial para os que fielmente o guardavam (Ex 20, 6). Jesus também, do monte ensina a nova lei a seus discípulos. Porém antes deve escolher o novo Israel e daí as chamadas bem-aventuranças. Os que por elas são alcançados serão o novo Israel e portanto podem ser designados como verdadeiramente felizes. Jesus começa pois, por essa distinção em que derruba o velho conceito de etnia e descendência como parte para formar a elite de Javé, e contrariamente suscita um novo modelo de povo de Deus,cuja base é precisamente o infortúnio material. A eles Jesus abre um novo mundo de esperanças e felicidade. A lei para os judeus não era unicamente o nomos [preceito] mas também abrangia declarações, propostas e fatos de Deus em relação com seu povo escolhido. Neste sentido total e amplo, Jesus determina primeiro o âmbito de seus verdadeiros escolhidos. Logo proporá seus nomoi [preceitos], precedidos de uma retificação perfeicionista da antiga lei: ouvistes que foi proclamado, eu porém vos digo(Mt 5, 21).

O ESQUEMA: temos em cada bem-aventurança uma prótasis[primeira parte de uma poema teatral] e uma qpódosis [explicação]. A prótasis ou primeira parte de cada oração é uma circunstância da vida, independente da vontade da pessoa respectiva. A apódosis é a explicação do porquê e como a sorte lhes favorece. Como caso curioso podemos ver que as quatro primeiras começam com a letra pi em grego: Ptochoi [mendigos], penthountes [chorantes], praeis [mansos] e peinountes[famintos]. Quando se sabe que a kabala era característica da interpretação das Escrituras, há uma pequena razão para pensar que Mateus, legista e intérprete da lei, tivesse alguma razão por nós hoje desconhecida, de seguir seus princípios ocultos.

REINO DOS CÉUS: A promessa mais explícita, como esperança de cada Bem-aventurança, é a entrada no Reino, que Mateus chama dos céus, especialmente explicitada na primeira e na última, oitava e final da lista por ele apresentada. Mateus é praticamente o único evangelista que chama reino dos céus [15 vezes] enquanto os outros dois denominam Reino do(sic) Deus. Em que consiste esse Reino que parece a base da pregação de Jesus? Nas suas parábolas Jesus o descreve como um banquete nupcial(Mt 22,1+), como um precioso tesouro (Mt 13, 44). Mas em que consiste? No AT só encontramos uma vez e em grego a frase Reino de Deus [basiléia theou] no livro da Sabedoria que não é admitido como canônico pelos evangélicos: Ela[a sabedoria] guiou por sendeiros retos o justo[Jacó], que fugia da ira de seu irmão [Esaú] lhe mostrou [anjos que subiam e desciam pela escada] e deu-lhe o conhecimento  das coisas santas[significando o governo do mundo por meio de seus anjos e em particular a bondade de Deus para com o patriarca] (Gn 28, 12-22).  Por Daniel, especialmente no capítulo 7, sabemos que os quatro reinos procedentes do mar[do abismo, símbolo do mal] foram substituídos pelo reino que procedia das nuvens do céu [de Deus]. Era o Reino dos céus segundo Mateus ou Reino de Deus do qual Jesus se diz representante, assumindo a figura de Filho do Homem (Dn 7, 13). Das palavras de Jesus dificilmente saberemos a resposta positiva, sabemos quais são as pessoas que entram facilmente [pobres, crianças] (Mt 5,3 e 19, 14) e quais as que têm dificuldade[ricos, autoridades religiosas] (Mt 19, 23 e 21, 31) . Sabemos que o Reino exige uma honestidade própria[mais estrita que a dos escribas e fariseus]( Mt 5, 20). Que para um escriba era necessária uma espécie de renovação como novo nascimento, que é da água e do espírito( Jo 3,5). Um reino que implica uma nova relação com Deus, não em forma aparente e externa, mas interior(Lc 17, 21). Um reino que consiste essencialmente em que a vontade divina seja a norma indispensável da vida (Mt 6, 10). Um reino que se mostrará patente após a morte de Cristo porque muitos dos ouvintes de Jesus estarão presentes a seu início visível (Lc 9, 27) para o qual haverá sinais prévios(Lc 21, 31). Reino que terá Pedro como supremo supervisor(Mt 16, 19). Os apóstolos, seguindo esta linha de Jesus, nos dizem que o Reino consiste em honestidade, paz e alegria no E. Santo (Rm 14, 17), não em palavras mas em poder(1 Co 4, 20). Não em comilanças e bebedeiras mas em honestidade, paz e gozo no Espírito Santo que nem luxuriosos, nem idólatras, nem adúlteros, nem depravados, nem efeminados, nem sodomitas nem ladrões, nem avarentos, nem bêbados,nem injuriosos herdarão o mesmo(1 Cor 6, 9-10) coisa que repetirá Paulo em Gl 5, 21. Trabalham pelo reino os apóstolos e com eles os que os ajudam (Cl 4, 11). Deste reino que podemos chamar na sus face terrena chegamos ao definitivo ao eschaton do qual temos a palavra de Jesus que beberá do fruto da vide quando chegar o Reino de Deus(Lc 22, 18). Este é o reino que Jesus admite como próprio e do qual como gozo definitivo promete participar aos que nele confiam (Lc 23, 42-43)Podemos pois responder à pergunta qual é esse reino que a eles é prometido? Sem dúvida, que eles serão a maior e melhor parte desse novo povo de Deus que constitui o reino por Cristo fundado e do qual ele era Senhor.

 OS MENDIGOS: Em hebraico temos duas palavras por pobre: EBYON< 034> [grego endeês = menesteroso latim inops ou indigens] é o indigente que pede esmola, o mendigo que pode ser traduzido em parte por ptochós e DAL<1800> [ em grego penes e latim pauper] pobre que deve trabalhar para comer em oposição ao rico. Temos também ANA ou ANAW. Por outra parte havia uma diferença entre o pobre grego e o pobre hebreu. Aquele era o mendigo. Este era o sujeito que não possuía terras, a única fonte prática de riqueza na época entre os judeus. Por outra parte temos que Mateus, de tradição hebraica fundamental, acrescenta uma peculiaridade que determina a pobreza: to pneumati que pode ser traduzido em espírito ou de espírito. Evidentemente o espírito é o espírito humano. Portanto temos: Ou pobres de espírito, que significaria acanhados; ou pobres por espírito, por eleição, pessoas estas que aceitavam a pobreza como natural ou como voluntária. Os exegetas chegam a atribuir o termo grego [ptochós] a uma tradução dos termos hebraicos Anaw ou ani. O anaw é sinônimo de humilde especialmente quando em forma adjetivada acompanhado de Jahvé. A única vez que ani sai é em Daniel 4, 27: redime tua iniqüidade para com os pobres<06033>número de Sprong [ em grego peneton =dos pobres]. Já o anaw<06035> de número de Sprong aparece 24 vezes especialmente nos salmos e em Isaías, a começar por Moisés que é declarado o mais humilde, ou mais manso dos homens como traduz a vulgata . O anaw desse número  é geralmente traduzido por prays (12), penes(11) e tapeinós(1) Na vulgata temos mites(6) mansuetus (6) e pauper (12). Existem duas frases em que anaw  acompanha terra anave heretz. E que em ambos são traduzidos por prays ou mansos. Que deduzimos então? Se o mendigo é precisamente o ebyon e equivale ao endeês [menesteroso em grego] o ptochós de nossa bem-aventurança pode ser pobre no sentido de desvalido, sem recursos,cujo único goel[defensor]era Javé,  em oposição aos ricos que dependiam de suas riquezas como base fundamental de suas vidas. Os textos mais modernos descartam o pobre material e traduzem o Ptochós como humilde ou humilde de espírito(AV), ou os que têm o coração de pobre(francesa). A melhor exegese será sem dúvida a feita por Maria:Depôs poderoso de seus tronos e aos humildes exaltou.Cumulou de bens os famintos e despediu ricos de mãos vazias. Parece que Jesus aprendeu bem de sua mãe esta política divina que tão bem se realizou na sua família. Os rabinos louvavam a simplicidade e a humildade, mas nunca a pobreza porque, segundo eles,  nenhum dos males podia se equiparar ao mal da pobreza; daí que Mateus, legista e conhececdor das tradições judaicas, teve que acrescentar uma explicação ao simples fato de pobreza. Pois para esses mestres da Lei a riqueza era o prêmio justo da virtude e a pobreza era considerada como legítimo castigo. Porém a pobreza entra nos planos de Deus e a sua aceitação coloca os pobres como escolhidos às portas do Reino do qual Jesus era o arauto ao proclamar as condições que o limitavam, segundo Is 61,1: Ele me enviou a anunciar a boa nova aos pobres [ptochoi em grego e humildes nas versões mais modernas como a italiana]

OS QUE CHORAM: A Vulgata, e com ela a maioria das traduções, a coloca em terceiro lugar após os mansos. Poderíamos traduzir por os que sofrem.

PRAYS: é palavra própria dos mansos, benignos, não violentos, o mites ou mansuetus latino, que aceitam sua fragilidade e sua situação social sem revolta, mas com a confiança em Deus que será o último fautor da História. No tempo de Jesus os Zelotas pensavam fosse a terra[nome dado à palestina pelos israelitas] matéria de conquista e guerra. Jesus,porém, toma a palavra do profeta no salmo 37, 8-9 para indicar que não é a violência que conquista a terra. Deixa a violência, abandona o furor, não te inflames: só farias o mal; porque os maus vão ser extirpados e os que aguardam o Senhor possuirão a terra.

FOME E SEDE DE JUSTIÇA: A justiça bíblica é sinônimo de santidade ou correção de vida em conformidade com a vontade divina. Não é a justiça comutativa mas a essencial da qual nos fala Paulo e que em certo modo se identifica com salvação e santidade. O lugar paralelo é Mt 6, 33 no qual a justiça está unida ao Reino. Justos eram aqueles cujo sangue foi derramado desde Abel até o último profeta (Mt 23, 33).

PUROS:Concluiremos, por falta de tempo, com os puros de coração. Esta bem-aventurança não está unida à castidade, mas deverá ser traduzida como os de intenções limpas, os não malvados nem torcidos em seu íntimo por ter o pensamento diverso de sua palavra mentirosa. As demais bem-aventuranças não têm dificuldade na interpretação.

PISTAS: 1) Jesus [ou a Igreja primitiva] as coloca no início da sua atuação pública, imediatamente após a escolha dos doze. Pelos detalhes de Mateus elas ocupam o lugar dos mandamentos recebidos por Moisés no Sinai, ou seja Jesus prega uma Boa Nova em oposição a Moisés que proclama uma lei de servidão.

2) É um evangelho positivo no qual Deus quer mostrar a sua face de bondade e salvação. E são precisamente esses homens passivos da ação divina que o mundo pensaria serem os de pior sorte, os que são beneficiados [bem-aventurados]pela riqueza e misericórdia de Deus.

3) Não se trata de uma moral nova a ser cumprida –à parte o capítulo V- mas de uma circunstância nas quais Deus quer se mostrar magnânimo e divinamente generoso. Por isso as Bem-aventuranças estão sendo proclamadas a todos os que de alguma maneira encontram em Jesus o seu Mestre e Salvador.

EXEMPLO: Sobre os mansos que herdarão a terra vamos contar uma piadinha. Dizem que nestes tempos dolorosos da História da Palestina, chegaram a Deus clamores tão terríficos e freqüentes que o Senhor enviou um anjo com plenos poderes para solucionar os terríveis problemas enfrentados. O anjo chamou os três representantes das três religiões: O rabi principal dos judeus , o clérigo mais importante dos árabes e o bispo católico da região. O anjo disse: Só podem formular um desejo e ele será cumprido. O rabi disse: desejo que todos os árabes morram. Teremos uma terra em paz. O clérigo maometano por sua vez disse: desejo que todos ao judeus sejam mortos; teremos de volta a nossa terra. O anjo então voltou-se ao bispo :e sua excelência? Bem, respondeu este, eu não peço nada para mim. Só estimo que querer o bem que os outros desejam é um ato de caridade. Cumpram-se pois seus desejos como eles pedem. Será que Deus muitas vezes não terá mais alternativa que seguir o julgamento do Bispo?