XXXIII DOMINGO DO TEMPO COMUM
(Mc 13, 24-33)
PROFECIA ESCATOLÓGICA SEGUNDO MARCOS
(Pe Ignácio, dos padres Escolápios)
Devemos dar umas definições claras entre:
PARUSIA: significa vinda gloriosa de
Jesus no fim da História Humana. A primeira comunidade não distinguiu bem entre
proximidade teológica e proximidade cronológica, pelo qual, durante algum
tempo, pensou fosse iminente esta última. "Já é hora de despertar do sono,
porque agora está mais perto de nós a salvação que quando abraçamos a fé. A noite
está avançada e o dia está perto, portanto deixemos de lado as obras das trevas
e revistamo-nos das armas da luz"(Rom 13,11-12). Os primeiros cristãos não
entendiam o atraso da Parusia. Em 2Pe 2, 8-10 temos uma explicação desta
demora: "Ló no meio de gente dissoluta, se afligia diariamente à espera do
dia do julgamento”. O Senhor sabe livrar os piedosos da tentação e reservar os
criminosos para serem castigados no dia do julgamento.
ESCATOLOGIA: O termo é de origem grego e
significa discurso ou tratado sobre as coisas últimas e definitivas que devem
suceder ao homem e ao mundo. Somente o adjetivo, Eskhatós (=último) se encontra
na Bíblia e evoca a irrupção definitiva do reino e os acontecimentos que a
acompanham. Estes acontecimentos e a irrupção final foram anunciados pelos
profetas, sem distinguir entre o tempo de Cristo, como tempo último, posterior
à aliança mosaica, e o tempo da consumação final(Ez 38-39 e especialmente
39,23)). O NT distingue os dois tempos, com o Cristo inaugurando o tempo último
ou escatológico (He 1,2), mas ainda esperando o fim, a consumação definitiva e
última, quando submetidos todos os inimigos ao Cristo, este vença o último de
todos, a morte, e entregue o Reino ao Pai(I Co 15,25-28). Os modernos
distinguem entre o reino de Cristo, que se inicia com a sua ressurreição e tem
um impacto forte quando da destruição de Jerusalém, e o Reino do Pai que se
inicia definitivamente com o julgamento do dia final(Mt 25, 34-46).
APOCALIPSE: Significa revelação, de tal modo
que é com este título que os evangélicos denominam o último dos livros da
Bíblia. A palavra é utilizada para designar a revelação dos desígnios mais
profundos de Deus(Dn 2,23 no AT e Ap 1,1 no NT), e principalmente para
manifestar a gloriosa presença e vitória de Deus e de seu enviado, Jesus
Cristo, ao termo de um período da História Humana(Rom 2,5 e I Co 1, 7). Como os
livros dessa revelação foram escritos em tempos de perseguição, daí o estilo
simbólico e metafórico para evitar serem compreendidos pela polícia profana que
os perseguia(Mc 13,14) e daí também as exagerações e hipérboles próprias do
mesmo(estilo apocalíptico). O castigo, as catástrofes tanto naturais como
típicas da guerra, os sinais celestes que precedem e acompanham as mesmas, são
próprias de tal estilo. Acreditavam os antigos que a História humana estava
descrita nos fenômenos celestes. Daí a Astrologia, que é admitida pela
Bíblia(Mt 2,2). Ente estes fenômenos devemos destacar os eclipses de Sol (se
escurecerá), de lua(aparecerá vermelha, como no último eclipse total, vista na
TV porque a luz do sol se difunde ao atravessas a atmosfera terrestre, ou se
apagará) e as estrelas cadentes(os anjos cairão)(Mt 24, 29e Mc 13,24-25). Por
isso Lucas fala só de que haverá "sinais" no sol, na lua e nas
estrelas(21,25. Fenômenos naturais como terremotos (as colunas da terra serão
abaladas), as enchentes(água transformada em sangue), erupções vulcânicas( o
fogo) junto às tempestades violentas(o mar alvorotado)(Lc 21, 25-27). Tudo sem
distinção de lugar e tempo definidos, como se o mundo estivesse todo centrado
em Jerusalém e sua vizinhança, de modo que a terra global que vemos hoje pela
TV estivesse presente na mente do profeta de forma que a terra, todo o mar e
todos os céus fossem comovidos num único instante que está próximo e numa única
região da qual o centro fosse Jerusalém. Um exemplo deste estilo no AT está na
profecia sobre a destruição de Babilônia(Is 13,10 e 13).
FILHO DO HOMEM: É uma expressão semita que
significa uma pessoa humana, sobretudo como ser frágil e mortal em oposição ao
ser divino (Is 51,12). Mas no livro de Daniel descreve-se o quinto reino,
posterior ao de Epifanes, como tendo a figura de um homem, ou Filho do Homem,
provindo das nuvens do céu (Dn 7, 13-14).Inicialmente esse Filho do Homem
significa o povo escolhido dos santos(Dn 7,18; 22 e 27). Porém como o reino era
identificado com seu rei, daí que a expressão Filho do Homem tenha também um
valor individual, glorioso e transcendente. é o que vemos na literatura
intertestamentária, especialmente no apócrifo de Henoc. Com este sentido, Jesus
o admite como único título messiânico dentre as setenta vezes que aparece nos
evangelhos. Umas vezes para sublinhar seu poder e condição transcendente(Mt 9,
6 e 12, 8); outras para destacar o momento de sua paixão e ressurreição (Mc
8,3); outras para aludir ao fato de seu triunfo e sua parusia(Mc 8, 38) e
finalmente ao se referir a si mesmo como substituto de "a gente" em
português(Mt 8, 20 e 16, 13).
IMEDIATAMENTE: Talvez esta seja a palavra
chave para a interpretação de todo o trecho, máxime quando concorda com outros
lugares paralelos como Mt 24, 34 no qual Jesus afirma que tudo será realizado
durante a sua geração, afirmação que Lucas também repete em 21, 32. Em Marcos e
Lucas não existem referências ao fim do mundo, como parece em Mateus e só
aparentemente se fala da ruína de Jerusalém, pois de sua queda resultou a
salvação(Rm 11,11) "Quando acontecerem estas coisas levantai a cabeça pois
está próxima a vossa libertação"(Lc 21,28). Paulo o explica dizendo que deviam
ser cortados os ramos para que a oliveira silvestre (dos gentios ) fosse
enxertada(Rm 11, 19). Alguns evangélicos deduzem uma interpretação
completamente simbólica: O Sol é a Shequinah(=habitação), glória visível de
Deus, habitando no meio do seu povo, referida principalmente à presença divina
no santuário em forma de nuvem que era luz durante a noite e sombra durante o
dia(Ex 13,21). A lua é a lei ritual tão importante para os judeus, pois o
calendário determinava as festas através dos novilúnios, lei que deixou de se
aplicar e que se esvaziou quando o templo deixou de existir, como seria o caso
da lua, quando o sol não a ilumina com seu resplendor. As estrelas caídas são
os rabis e doutores que deixando a verdadeira lei se dedicaram à interpretação
do Talmud, ou de suas tradições, tornando-se juristas no lugar de teólogos. Os
poderes dos céus foram abalados, refere-se às leis legais sobre as quais estava
fundamentada a religião judaica, conforme o que diz Ageu2, 6 e o explicado na
epístola aos Hebreus em 12,26, quando foram promulgadas no Sinai e a voz de
Jahvé abalou a terra. Eis as palavras da Mishná: "Depois da destruição do
templo se debilitaram os homens ativos(no bem), mas se fortaleceram os homens
de violência e os mal falantes. Os sábios começaram a viver como mestres de
escola, os escribas como chazans(servidores de sinagoga, desde cantores até
administradores) e os chazans como gente de hamhaaretz (gente do povo)e os
hamhaaretz como pobres e não existe quem os acolha"(Sot 9,15). Até tal
ponto a destruição de Jerusalém e do templo abalaram os fundamentos da religião
judaica. Deixando à parte esta interpretação figurativa, existe uma outra mais
realista.
OS MODERNOS: A vinda do filho do Homem não
exige uma presença física e sensível(visão) de Jesus Cristo. Explica-se por uma
presença moral do mesmo, havida por conta do castigo de Jerusalém, no qual
ver-se ia o cumprimento de sua profecia e por outra parte o tempo de um novo
aparecer estava acabado. A destruição do templo era o abandono por parte de
Jahvé da sua presença no meio do povo. Para ressaltar esta afirmação basta o
estilo apocalíptico e o recurso ao estilo profético antigo, em que as nuvens
indicavam um poder superior e são elementos simbólicos mais do que realidade,
assim como os anjos que não são necessariamente seres sobrenaturais, mas podem
perfeitamente serem humanos, que iniciarão seu trabalho ao som da trombeta,
isto é, o sinal de que existe uma nova convocação oficial para um novo
anúncio(do evangelho e da nova aliança) agora dirigido aos quatro ventos (todos
os povos)como afirma Zc 2,10 da dispersão, que aqui podemos proclamar como
sendo referido aos novos membros do novo reino. Mateus que é o que mais força
tem como aludindo à parusia final, admite perfeitamente como interpretação
literal uma vinda de Cristo como triunfador "visto" no julgamento por
ele predito e exercido sobre Jerusalém e sua geração que o condenou e que devia
presenciar essa sentença, pois não passaria a mesma sem que todas essas coisas
tivessem sucedido(Mt 24,34). Para indicar que esse tempo apocalíptico que
tantas seitas novas suscitou, já é coisa do passado, bastam as palavras de
Lucas(21,28): "alegrai-vos porque a vossa libertação(apolytrosis) está
próxima". Usa o temo de libertação de um escravo. É a libertação do jugo
da religião judaica, que representava para os primeiros cristãos, escravidão e
perseguição segundo Paulo(Gal5,1 e II Co 12,19).
O DESCONHECIMENTO: A figueira com seus
brotos, antes dos frutos que se são próprios do verão, serve para indicar que
deviam estar atentos pois podiam observar os sinais dados(eclipses e
terremotos- poderíamos perguntar se tais fenômenos se deram na Palestina antes
da guerra judaica). Assim a vigilância que implica que estas coisas estão às
portas ou sobre as portas do texto grego. A única coisa certa é a afirmação de
Jesus de que tudo sucederá dentro dos 40 anos da sua morte, uma geração. Mais
detalhes sobre o dia e a hora nem ele mesmo(Filho do Homem) nem os mais íntimos
de Deus(seus anjos do céu) sabem. Jesus confessa que como homem não tem uma
ciência total. E como os fatos anteriores são da grande tribulação com respeito
a Jerusalém, o que significa sofrimentos e morte, de forma que se os dias não
fossem abreviados ninguém se salvaria(13,200, Jesus pede além da vigilância, a
oração.
PISTAS: 1) Talvez seja esta a página
mais sombria de um evangelho que se traduz como boa nova. Mas devemos pensar
que as tintas negras são para um povo que, vendo em primeira mão a luz não quis
enxergar, e ouvindo diretamente as palavras da salvação, se obstinou em não
escutá-las (Lc 8, 10). Por isso a nossa oração deve ser como a do cego de
Jericó: Senhor, que eu veja!(Mc 10,51).-2)Não devemos temer o encontro com
Jesus no dia final de nossa vida(a nossa parusia em particular)se temos o
costume de encontrá-lo cada dia como mestre e senhor, porque as palavras que
ouviremos nesse dia serão sem dúvida: Muito bem, servo bom e fiel. Vem
alegrar-te com teu senhor! (Mt 25,21).-3) A centralização de nossa vivência
religiosa em Cristo como homem, pois a sua presença já está viva entre nós. O
Reino lhe pertence, já tem chegado, e seu anúncio é uma convocação universal da
qual somos partes e arautos, especialmente os consagrados a ele ou ordenados
como seus ministros(anjos). –4) Toda religião que promete um tempo imediato de
parusia é falsa. Porque a parusia já está atuando desde a ruína do templo.
Haverá momentos em que essa parusia (presença) se manifeste mais claramente
como na queda do muro de Berlim, para citar um exemplo moderno. Mas Jesus está
sempre presente e atuando na história. Assim como os judeus acreditavam na
presença de Jahvé no templo, porque ele se manifestou no deserto, também temos
o direito de ver Jesus na história, máxime quando sua presença é real na
Eucaristia e ele a promete profeticamente: Eis que estou convosco todos os dias
até a consumação dos séculos(Mt 28,20)
EXEMPLO: Contam que um escultor italiano
estava esculpindo as estátuas do frontispício da catedral de Milão. Era um
lugar alto de quase cem metros de altura do chão e ele não unicamente trabalhava
com cuidado e dedicação a parte frontal das estátuas, mas também as pregas dos
vestidos e os cabelos das costas das mesmas. Alguém lhe disse: para que tanto
trabalho se ninguém vai ver o mesmo do chão? O artista respondeu: eu não faço
as coisas para serem vistas mas para serem perfeitas.
D. Úrsula vivia feliz A causa- dizia ela às amigas
–era que no fim do mês nada devia e sempre tinha uma pequena poupança no banco
para garantir seu futuro. Mas como poupança, se você não tem caderneta em banco
nenhum? – lhe respondeu sua amiga Atanásia. E Úrsula replicou: É o banco dos
pobres. Sempre procuro dar uma contribuição para eles e assim estou certa que
na hora da morte terei muitos amigos que me receberão de braços abertos, como
disse Jesus no seu evangelho(Lc 16,9).