DOMINGO
XXXIV ( Lc 23,
35-12)
(pe
Ignácio dos padrs esolápios)
INTRODUÇÃO: A agonia na cruz é o momento mais sublime da vida de Jesus como homem. É o seu sacrifício que não só é acompanhado duma intensa dor, mas também duma profunda humilhação que consiste em se desprender de todo contato com sua divindade e se mostrar na hora da morte como um simples mortal, um homem sofrido e humilhado, como um escravo castigado e não como um senhor dominador. Por isso Deus se aproxima muito mais a todos nós na cruz infamante e assumindo toda nossa fragilidade e adotando o mais débil e frágil da natureza humana num momento em que as forças e o sofrimento igualam a todos os homens. E não obstante é nesse momento de fragilidade e abatimento que o título diz a verdade: Ele era por causa de sua cruz o rei dos judeus. Aceitá-lo como tal nesse momento paradoxal de sua vida exige maior fé que vendo-o ressuscitado confessar como Tomé: Meu Senhor e meu Deus. Esta foi a fé do bom ladrão como vulgarmente falamos dele. A fé deste converso é um chamado para que nós vejamos no Jesus da cruz o verdadeiro Cristo modelo de nossas vidas sem ter que recorrer ao Jesus ressuscitado na Páscoa.
OBSERVADO PELO POVO: A frase parece indicar uma neutralidade por parte do que se chama como multidão. É uma conduta passiva de impotência ou permissividade quando não de curiosidade.
DIFAMADO PELOS DIRIGENTES: Porém serão os dirigentes religiosos do povo aqueles que Jesus definia como chefes sacerdotais, anciãos e escribas(Lc 9, 22) os que neste momento como chefes [archontes](23, 35) zombavam dele e riam dizendo: Ele que salvou outros que se salve a si mesmo se é o Messias [Cristo ou Ungido] de Deus, o seu Eleito. Aparentemente era a destruição de um inimigo, de um homem, mas na realidade era a ressurreição de um novo Deus, e de um Senhor que era precisamente por isso tanto Kyrios como Chrestós [Deus e Ungido](At 2, 36). A mofa dos magistrados dá pé para saber que Jesus morria na cruz por se ter declarado Messias e Eleito de Deus segundo os salmos: Fui eu que consagrei o meu Rei sobre Sião [Jerusalém], minha montanha sagrada (Sl 2, 6). Esse Ungido seria Redentor segundo Isaías 59, 20:virá um redentor em Sião aos que se converterem da sua rebelião em Jacob. Jesus em sua resposta à petição do bom ladrão não nega seu reinado e por isso lhe declara que estará com ele no paraíso onde seu reino será total e definitivo.
OS SOLDADOS: Lucas emprega duas palavras diferentes. Uma para soldados romanos Stratiotes <4757>e outra, strateuoma para guardas e policiais<4754> o estratiotes é usado neste caso e o strateuoma no caso de Herodes (23, 11) e dos que perguntam a João sobre seus deveres (3, 14). Neste caso eram soldados romanos os que custodiavam os crucificados. Como tropas auxiliares muitos deles eram samaritanos, inimigos natos dos judeus. Daí que a burla fosse natural, especialmente por ter o réu o título de rei dos judeus. Um detalhe para ver até que ponto os evangelistas contam a verdade: Na burla dos chefes judeus vemos que eles pedem que Jesus demonstre sua missão: Se és o Cristo, intenção que não aparece entre os soldados.
O VINAGRE: Oxos em grego significa vinagre ou vinho fermentado com gosto azedo, pois já não existe no vinagre o álcool e só encontramos ácido acético e água. Seria a posca que os soldados romanos bebiam no lugar do vinho e que era uma mistura de água e vinagre ou vinho azedo. Lucas aparentemente considera este ato como parte da burla, mas será João quem indica que foi uma resposta ao pedido de Jesus: tenho sede.(Jo 19, 28-29).
O TÍTULO: Os réus na cruz tinham um capuz na cabeça [obnubilato capite que diz Cícero] e sobre a cruz, pendurado estava o nome e o motivo da condenação. Era o elogium romano.i O título de Jesus estava escrito em três línguas: hebraico, grego e latim. O título mais comprido, talvez o autêntico, é o de João: Jesus, o Nazareno [Nazoraios], o rei dos judeus. Em latim Iesus Nazarenus Rex Iudeorum. Daí as iniciais INRI tão em uso nas imagens do crucificado. João é o único que usa o sobrenome Nazoraios, pois Mateus e Marcos usam unicamente o nome Jesus e Lucas se contenta com Rei dos judeus. A palavra Nazoraios nada tem a ver com Nezer, Nazir ou Nazireu aquele que se consagra a Deus e por isso deixa o cabelo crescer e não bebe bebidas alcoólicas, segundo os estatutos do Nazir ou consagrado em Nm 6,1 +. Na tabuleta encontrada como a original da cruz, o Nazareno em hebraico é Nzri [naziri(?)]segundo a reconstrução de Marini. Mas qual era o verdadeiro sobrenome de Jesus? Nazaraios ou Nazarenos? É o demônio que o Chama de Nazareno ( Mc 1, 24); também assim o chama a criada que acusa Pedro(14, 67) e o anjo no sepulcro (16, 6). Mas será Nazoraios em Mc 10, 34. e parece que este evangelista usa uma retradução do latim em que o adjetivo toponímico usa o nus como terminação: palestinus , jerosolimitanus, etc.. Lc 4, 34 é uma cópia fiel de Marcos 1, 24. Porém em todos os outros casos dos demais evangelistas o uso de Nazoraios é total e portanto esta devia ser a palavra correta. Jesus recebe um sobrenome que não é o patronímico comum entre os judeus mas um toponímico como é o caso de Maria Madalena ou Simão de Cirene. Jesus de Nazaré seria o nome oficial do réu na cruz.
OS KAKOURGOS: Que tipo de malfeitores [tradução da palavra kakourgos] eram os dois crucificados? Lucas nada diz mas emprega uma palavra que somente ele emprega e que unicamente fora dos evangelhos a encontramos em 2 Tm 2, 7, quando Paulo declara seus sofrimentos entre os que enumera os perigos dos kakourgoi que podemos assimilar a Lestoi [salteadores] ou seja os que assaltavam nos caminhos (Lc 10, 30)e que tinham como moradas covas por viverem fora da lei (19, 46.): Era a vida que os subversivos da época deviam viver para se subtrair da justiça que os perseguia com espadas e porretes (Mt 26, 55). Era o antigo terrorismo que hoje infelizmente conhecemos tão bem. Dessa ralé era Barrabás (Jo 18, 40), supostamente chefe de uma rebelião (Mc 15, 7) e salteador(Jo 13, 40). Por isso Pilatos o compara com Jesus a quem os chefes locais acusam de subversivo[kakopoiós] (Jo 18, 30 e Lc 23, 14). È uma boa sugestão pensar que há indícios de que os dois malfeitores eram cúmplices de Barrabás, porque os romanos crucificavam os subversivos que recorriam a práticas terroristas. O simples assaltante era levado como outros pequenos malfeitores às galeras ou às minas. Caso os dois malfeitores fossem subversivos ou zelotas, compreende-se melhor a acusação dos magistrados perante Pilatos ao afirmar: se este não fosse malfeitor [kakopoios=fazedor de mal igual a kakourgos= operador do mal] não to entregaríamos (Jo 18, 30). O crime de Jesus era a subversão: Se tornar rei dos judeus opondo-se ao César (Jo 19, 12). Entre Jesus e a conduta prévia dos dois malfeitores existia uma correspondência que um zelota de boa vontade entendia perfeitamente desde o ponto de vista religioso. Daí o pedido deste último.
O MALFEITOR ARREPENDIDO: Não temes a Deus estando tu na mesma condena? Pode ter dois significados diferentes: estando já sofrendo a condenação, ou estando como ele [Jesus] condenado à mesma pena. No primeiro caso era o arrependimento pelos crimes cometidos necessário para ser recebido pela justiça divina. No segundo caso, que também podemos deduzir da Vulgata [in eadem damnatione] era pedir respeito para quem sofria como companheiro e que não merecia o desrespeito que era um pecado segundo as leis mosaicas. A AV traduz estando sob igual sentença, que confirma a escolha feita por nós.
ESTE NENHUM MAL TEM FEITO: O bom malfeitor reconhece o castigo sobre ele como justo. Mas também confessa que o homem a seu lado nada fez contrário às leis e que era inocente. Em que momento das aproximadamente três horas de agonia na cruz ele confessou seu pecado e pediu para ser socorrido? Nada podemos dizer a respeito. Mas sabemos por experiência que os homens só pensam em Deus quando toda ajuda humana está perdida.
LEMBRA-TE DE MIM: uma vez confessados e aceitos seus crimes que é o primeiro passo do arrependimento, ele se dirige a Jesus dizendo: Senhor [Kyrie], lembra-te de mim quando venhas em teu reino. A palavra Kyrie tem um significado não transcendente como quem se dirige a Deus mas a alguém de autoridade. O verbo vir está em aoristo subjuntivo sendo que significa um condicional: se algum dia vieres como rei. É uma frase difícil de entender: Como podia o malfeitor esperar coisa boa, um prêmio, de um condenado às mais humilhante das penas, no meio de insultos que transformavam seu reinado no mais espantoso dos ridículos? Só a graça de Deus que fortalece a debilidade (2 Co 12, 10)é a resposta a essa petição.
A
PROMESSA: Jesus afirma rotundamente [amém] que nesse mesmo
dia o malfeitor que estava junto de Jesus como condenado estará
com ele como perdoado. Vamos ver o significado,
sempre escuro, de Paradeisos. É uma palavra
de origem oriental de onde se origina o hebraico PARDES.
É parte do Hades que os judeus pensavam ser a mansão
das almas dos homens piedosos esperando a ressurreição. Mas
outros entendem que designa um paraíso celestial, à semelhança
do inicial do Gênesis. Vamos estudar isto com maior detalhe.
Vamos
distinguir entre Seio de Abraão, Éden e Paraíso
SEIO
DE ABRAÃO: A
palavra que se traduz por seio é KOLPOS [seio, regaço]
próprio dos homens assim como KOILIA [cavidade, ventre]
é próprio das mulheres. O Reino é semelhante a um banquete.
Nestes, os convivas reclinavam-se ao modo romano e por isso
o discípulo amado se reclinava no seio de Jesus(Jo 13, 23).
O mesmo evangelista usa imediatamente a palavra stethos
[peito] em 13, 25 e em 21, 20. Daí que no relato de Lucas
sobre Lázaro, o pobre, este fosse levado pelos anjos ao seio
de Abraão (16, 22)onde foi visto pelo rico epulário nos seios (sic) de
Abraão que a Vulgata e as línguas modernas reduzem ao singular:
no seio dele. Claramente temos aqui uma reminiscência do banquete
que Jesus afirmava era a alegria e gozo do Reino previsto
no Antigo Testamento. Em João sabemos que o
Unigênito que estava no seio do Pai era quem
o revelaria a nós. Como
comentávamos em nossa exegese sobre Lucas XXII deste ano sobre
Sheol, Gehena e Seio de Abraão, o banquete do rico foi assumido
por Lázaro como banquete do além eterno. Porém com Jesus não
era a companhia de Abraão que representava o conjunto dos
justos, dos amados de Deus, mas se tornava em Paraíso, o lugar
feliz da companhia de Deus, perdido pelo pecado, mas agora
recuperado pela morte sacrifical de Jesus. Que significava,
pois, paraíso nos lábios de Jesus? Primeiro explicaremos Éden.
ÉDEN
:
Derivada do acadiano edinu que tem origem no
sumério éden significando planície ou
estepe. O topônimo bit adini designa a região dos dois
lados do Eufrates. Foi indiretamente ligada à palavra hebraica
ádan [ com ayim]que significa desfrutar
ter prazer em [diferente de Adam homem ou nome próprio,
com Aleph] . A LXX parece que tomou como raiz a hebraica e
portanto traduziu o gan be-eden [jardim em Éden]
por paraíso em Éden [Paradeisos em Éden],
que a vulgata traduz por paradisus voluptatis [paraíso do prazer]. A tradução da vulgata
não é tão ilógica, pois em hebraico as três consoantes de
YDN são idênticas para Éden [nome próprio de
uma região] e para adan [prazenteiro]. Daí que gan
é paraíso e Éden é um nome próprio no hebraico e na
LXX, ou um adjetivo na Vulgata, como vemos em Gn 2, 15 e 3,
23 que a Vulgata traduz o gan Éden por paradisus
voluptatis. Unicamente a LXX traduz por paradeisos tes
tryfés (da delicadeza ou do prazer) o versículo 3, 23 [hebraico
gan-eden e não gan be-den] em que Adam foi expulso do jardim
do Éden para a terra de onde tinha sido tomado. No Gênesis
hebraico parece que Éden é uma região geográfica onde se situava
o jardim, propriedade de Deus, que parece estava na confluência
ou foz dos rios Tigris e Eufrates no Golfo Pérsico, em que
agora encontramos Basora, a não ser que entendamos essa região
como situada no terceiro céu, lugar do palácio divino. Éden
é um símbolo de grande fertilidade em Isaías 51, 3, Ezequiel
36, 35 e Joel 2-3. Daí que em Isaías Jardim do Éden
é paralelo a Jardim do Senhor e em Ezequiel Jardim
de Deus, para significar mais tarde, não um lugar geográfico,
mas um estado de comunhão perfeita com Deus. Em Joel lemos
como, após a passagem dos gafanhotos, a terra que era como
um jardim de Éden [gan edn, paradeiso tryfés, hortus voluptatis
em hebraico, grego e latim] ficou como um deserto desolado.
Amós fala da casa do prazer [beate éden, domus voluptatis]
No período intertestamentário só temos um caso em Sirac: a
generosidade [charis] é como um oaraíso [paradeisos] de bendições
[en eulogiais], que repetirá no versículo 27, só que neste
caso será o temor de Deus a fonte das bençãos. O paraíso de
Deus se identificará
com o lugar onde os justos ficavam esperando a ressurreição
a raiz do seio de Abraão como vemos em Lc 13, 28.[meso tou
paradeisou tou Theou]. Mas vejamos a palavra Paraíso tanto
no grego como no hebraico.
O
PARAÍSO: Existe
uma palavra derivada do avéstico [antiga língua do norte da
Pérsia] pairidaeza [= cercado circular, aplicado aos
jardins reais] que deu origem ao grego paradeisos e
ao latim paradisus. A) No AT era o lugar onde Deus
colocou o primeiro homem para que o trabalhasse e do qual
o jogou fora após o pecado. Já temos visto que a vulgata traduziu
os textos de modo a ser identificado com jardim de delicias
Segundo os comentários dos modernos judeus a palavra Paraíso
é tradução do pardes hebraico, que significa parque
real, jardim. É a tradução do gan [jardim fechado,
ou cercado por uma sebe ou muro]. Nos livros posteriores da
Bíblia encontramos três vezes a palavra pardes com
sentido de jardim(Ct 4, 13) e de parque(Ecl 2, 5 e Ne 2, 8)
A literatura apocalíptica e o Talmud usam como jardim de
Deus o sinônimo de Éden. O paraíso não recebe grande
ênfase na visão judaica. É o lugar de delícias, jardim, ou
parque, ou bosque. B) No NT se identifica com o céu, lugar
em que os bem-aventurados gozam da presença de Deus. Paraíso
aparece três vezes nos textos do NT: Lc 23, 43; 2 Co 12,
1-4 e Ap 2, 7. O melhor texto é o de Paulo aos de Corinto.
Ele afirma que foi arrebatado ao paraíso[paradeison] que antes
descreveu como sendo o terceiro céu (12, 2). Daí deduzimos
que paraíso e céu, morada de Deus, eram a mesma coisa no pensamento
cristão da época. Por isso o Apocalipse afirmará: ao vencedor daré a comer da
árvore da vida que está no paraíso (2, 7). É a vida de Deus
que segundo o mito-parábola das árvores da ciência e da vida
fazia os mortais semelhantes a Deus(Gn 3, 22-23). Hoje usaríamos
a palavra céu, a mais usada para definir a vida íntima com
Deus. Jesus com sua morte transforma o seio de Abraão em Paraíso
ou lugar beatífico, melhor estado, de comunhão com Deus em
Cristo.
PISTAS:
1) A festividade de Cristo Rei foi instituída por Pio XI pela
preeminência da festa sobre o simples ensino daí que as festividades
foram instituídas em períodos de heresia para venerar com
maior freqüência e firmeza algum mistério da fé. No nosso
caso diz o papa a heresia moderna é o laicismo, peste que
infecciona a humana sociedade. Começou-se por negar o império
de Cristo sobre todas as gentes, negou-se à igreja o direito
de ensinar, de dar leis e de dirigir os povos conduzindo-os
à eterna felicidade, para submete-la à arbitrária permissão
dos governantes e magistrados. Parece uma profecia do que
está sucedendo na Europa atual que negou a sua origem cristã
na nova Constituição. Um segundo motivo é a apatia e timidez
dos bons que se abstêm de defender os direitos da Igreja;
com isso a força dos adversários cobra maior temeridade e
audácia.
2) Na sua homilia no ano 2000, ano santo, o Papa J.Paulo II reafirma
a doutrina católica declarando que Cristo é o alfa e ômega
da criação e como verdadeiro Rei do Universo governa e renova
tudo para o poder entregar ao Pai de modo que Deus seja tudo
em todos(1 Cr 15, 28). É o Paraíso final. Vivei diz o papa
de modo que o mundo seja transformado pelo amor e para o louvor
a Deus.
3) Como viver esse reino na terra? A realidade diária está longe
do ideal diz o Papa. Todos estamos tentados a abandonarmos
à rotina. Mas devemos realizar com esmero o trabalho, até
o mais burocrático. Devemos olhar as pessoas, seus problemas
e seus sofrimentos embora tenhamos unicamente documentos nas
mãos. Um discípulo de Cristo jamais deve se acomodar na mediocridade,
pois todo trabalho pode ser caminho de santidade.