XXXIV DOMINGO DO TEMPO COMUM

FESTIVIDADE DE CRISTO REI

 ( Jo 18,33-37)

(Pe. Ignácio, dos padres Escolápios)

OS EQUESTRES: Os membros da ordem eqüestre (equites), pertencentes a uma categoria de cidadãos romanos que por suas riquezas estava em inferioridade à dos senadores (optimates) e superior à dos plebeus (populares). Entre os habitantes de Roma de categoria inferior aos últimos, plebeus sem patrimônio, podemos contar os estrangeiros livres mas sem cidadania (peregrini), os libertos e os escravos. Na antiga Roma os equites eram da classe senatorial e eram chamados equites equo publico(cavaleiros de cavalo público) porque as montarias eram pagas com erário público. Mas desde o século IV AC os que não eram senadores foram enrolados na cavalaria de tal modo que tinham de pagar suas montarias e eram chamados de equites equo privato(cavaleios de cavalo particular). Como no século I a cavalaria era formada por estrangeiros, os eqüestres foram empregados em postos de responsabilidade: no exército como oficiais e na vida civil como publicanos ou administradores dos impostos, das minas, pedreiras e propriedades do estado. Assim formaram uma classe especial, diferente dos optimates e dos populares. Augusto(+14)organizou a ordem eqüestre como uma classe militar, removendo-a assim da arena política. As qualificações para ser membro da mesma eram: nascimento livre, riquezas, boa saúde e boa conduta. Na carreira eqüestre era obrigatório ocupar um número de postos subordinados antes de alcançar os mais desejados, sempre sob a dependência da designação do imperador. Na vida civil os equites tinham opção a cargos elevados como funcionários civis, especialmente na administração das províncias. Os equites tinham também cargos militares no Egito e nas províncias de classe inferior, como era o caso de Pilatos.

PILATOS: Segundo a tradição, Pilatos pertencia ao clã dos Pontii. Seu segundo nome, derivado de pilum(javalina ou dardo), significa armado de dardo. O pilum era uma haste de madeira de 2,0m de comprimento que terminava no seu último terço numa ponta metálica branda, de modo que com o impacto se curvava e não podia ser usada de novo pelo inimigo que o recebia. O pilum foi abandonado no século XVI. Pilatos foi nomeado prefeito de Judéia através da influência de Sejano(Lucio Aelio), administrador chefe de Tibério e prefeito de sua guarda pessoal. Conseguiu o consulado e logrou que Tibério se refugiasse em Capri, ilha perto de Nápoles, para assim ser dono do poder. Acusado de ter matado Druso, o único filho de Tibério e de intentar um golpe de estado, Sejano foi decapitado no ano 31 e seu corpo arrastado pelas ruas de Roma, onde tornara-se odiado. Após a destituição de Arquelao, filho de Herodes, o Grande, a região compreendida pela Judéia, Samaria e Idumeia foi diretamente governada por Roma através de representantes diretos do imperador, por praetores legati, ou procuratores(epítropoi em grego)ou prefeitos (eparkhos), funcionários com atribuições variáveis. Em geral eram administradores dos bens públicos ou finanças como temos visto. Mas em tempos de Augusto, além da administração, tinham verdadeira exousia ou autoridade, tanto militar como judicial, até o jus gladii, ou direito de morte; mas estavam sujeitos à autoridade do seu chefe superior que era o legatus da província principal, neste caso da Síria, administrada por um procônsul da ordem senatorial. O legado da Síria dispunha de três legiões(36 mil homens) e o procurador da Judéia só de forças auxiliares(praticamente policiais),geralmente de origem samaritana ou síria. Parece que essas forças de Pilatos eram duas coortes. Cada coorte equivalia a um batalhão de 420 homens comandada por um tribuno militar, mas seu número foi reduzido a 360 homens no tempo do império. Pilatos comandava as duas: uma em Cesareia, porto de mar e a outra em Jerusalém. Nos evangelhos, Pilatos é chamado de heguemonos(Lc 3,1), traduzido ao latim por praeses, ou procurator e nas línguas romances por governador ou presidente. Sem dúvida que o latim é mais preciso do que o grego, pois os evangelhos são neste ponto bastante imprecisos. Nos Atos temos uma maior precisão ao falar de Paulo Sérgio como anthypatos(latim procônsul) de Creta, e da Judéia como eperkheia(província) da qual era heguemonos Festo. A palavra heguemonos é usada indistintamente para todo poder superior numa região em que o governador tivesse poder judicial representado pela BEMA ou tribuna judicial, de modo que sentar-se no tribunal era a frase comum para indicar estava presidindo um julgamento, como no caso de Pilatos com Jesus(Mt 27, 19 e Jo 19, 13). A autoridade de Pilatos era o chamado Imperium, ou suprema dentro da região que governava porque os judeus tinham certa autoridade no tribunal do grande conselho ou sinédrio. O nome técnico latino para o ofício de Pilatos era o de procurator. Dele sabemos que governava sem se importar muito com os privilégios dos judeus ao quais profundamente desprezava: primeiro introduzindo as insígnias imperiais em Jerusalém, logo tomando dinheiro do Korban, do templo para construir um aqueduto e finalmente com a matança dos galileus no templo, fato narrado pelo evangelista(Lc 13,1). A lenda diz que estava casado com Pórcia, filha de Tibério e que, chamado a Roma, foi desterrado às Gálias onde terminou sua vida suicidando-se. A história diz que devido à matança dos samaritanos no monte Garizim foi deposto pelo legado da Síria, Vitélio, e chamado a Roma. Seu mandato durou 10 anos, do 26 ao 36.

O PRETÓRIO: Em grego praitorium de praetor, o antigo magistrado com autoridade judicial e que era responsável pelos jogos de Roma e, na ausência do cônsul(suprema autoridade), exercia poder amplo no governo da mesma. Como em 242 AC os peregrini (estrangeiros) eram muitos, ao praetor urbanus(pretor da urbe) foi acrescentado um praetor pergrinus(pretor dos estrangeiros). Este número foi aumentado com as conquistas de Sicília, Cerdanha, Espanha, etc., de modo que o número dos praetores peregrini no século I AC era de oito. Dentre eles dois exerciam autoridade sobre matéria civil e os outros seis para casos particulares como extorsão, suborno, desfalques, traição, assalto, assassinato e falsificação. Após um ano de serviço, eles se tornavam governadores provinciais. Foi o caso de Pilatos? Ao ser nomeado pretor, o magistrado publicava um edito que seria sua norma de serviço ou conduta. Estes editos serviam para a adaptação da lei romana às novas condições e princípios de convivência entre os diversos povos do Império. Nos últimos anos do mesmo só o praetor urbanus permaneceu, com o único poder de organizar os jogos públicos. Como vemos Roma foi declarada com toda razão como o império da lei, baseado na justiça, mesmo que esta justiça seja só a instrumentalizada pelos agentes puramente legais. Voltando porém ao pretório, este era em tempos antigos a tenda do comandante como chefe de um acampamento romano. Depois passou a designar o palácio do governador de uma província. Esses palácios foram em muitos casos edificados pelos antigos reis ou príncipes das mesmas. No casso de Pilatos, o pretório ocupava o palácio de Herodes, o Grande, em Cesareia. Mas quando se trasladava durante as festas a Jerusalém, ocupava o palácio de Herodes(ano 23 AC) perto da cima ocidental, atualmente perto da porta de Jaffa. Também poderia ser a torre Antônia(ano 35 AC), bastião asmoneu que o mesmo rei utilizou como castelo e como palácio durante 12 anos. Estava situada na colina oriental, encostado ao norte do recinto do templo, sendo ao mesmo tempo quartel da coorte. Umas escavações mostraram um pátio de lousas que corresponde ao lithóstrotos de Jo 19,13.Desde o século XII os cruzados viram nesta torre o palácio onde Jesus foi julgado por Pilatos e a tradição chegou assim aos nossos dias.

O REINO: O tema do reino é essencial nos sinópticos. Constitui a base para uma maioria de parábolas que se iniciam com O reino de Deus é semelhante, como em Mt 13,20 na parábola do joio ou da mostarda(Mt 13,21). As palavras de Jesus são um anúncio desse reino como são as do anúncio dos apóstolos(Mt 10, 7). Sua vinda é parte de nossa oração diária(Mt 6, 10)e das ambições dos discípulos(Mt 18, 1). Para entrar nele é preciso nascer de novo(Jo 3, 3). É um reino basicamente presente na atuação da pessoa de Jesus(Mt 12, 28) com a Igreja como fundamental mediadora em relação a Deus(Mt 16, 29). O reino exige uma santidade especial(Mt 5,20) e tem uma dimensão transcendente a consumar-se na perfeição, unicamente no além(Mt 25, 34 e Lc 2, 16). Por isso dirá Jesus que meu reino não é deste mundo: nem pela sua origem, nem pela sua constituição. A origem dos reinos deste mundo era segundo Daniel, maléfica(bestas nascidas do abismo em 7,3). Porém o quinto reino, tinha uma origem celestial, divina, pois estava representado por um Filho do Homem descendo das nuvens do céu(Dn 7, 13+). A principal diferença consiste em que os súbditos são servidos e as autoridades são servidores ou diáconos(Mt 20,25-26). Pouco podia Pilatos adivinhar que aquele homem na sua frente ia morrer para que todos os que nele cressem tivessem vida, o que constituía o melhor ato de amor para os que seriam, não seus servos, mas seus amigos(Jo 15, 13 e 15)

A VERDADE: A verdade na bíblia é sinônimo de fidelidade(Dt 32,4). O EMET hebraico com que é designada provém de uma raiz que significa inspirar confiança, aplicada sobretudo a Deus, indicando fidelidade às suas promessas por parte de Jahveh’. Unida a HESED, indica ternura e determina as qualidades divinas com as quais Jahveh cuida da vida dos seus adoradores (Ex 34,6+). No Novo testamento ALETHEIA (verdade em grego) significa também reta conduta por parte do homem, o qual é sinônimo de justiça. Paulo fala de chegar ao conhecimento da verdade, ou seja da palavra de Deus com evangelho, não como filosofia humana, frente as fábulas dos doutores que são pregadores de mentiras(ITim2,4) Devemos portanto rejeitar as fábulas profanas (ITim 4,7) tanto quanto as judaicas(Tit 1,7) indicando com isso a facilidade com que o homem erra ao querer ser dono da verdade. Para ele a Igreja é coluna da verdade(I Tim 3,15) que em definitivo não é outra que sua mensagem sobre Cristo morto e ressuscitado e portanto tem a Cristo como a verdade salvífica. Em João a verdade procede do Pai como palavra que Cristo veio proclamar(8,40). Se a lei chegou por Moisés, a verdade apareceu em Jesus, pois o revelador é o revelado revestido com a gratuidade do amor que o Pai nos tem (graça e verdade de que o Filho é revestido em 1,14). Jesus promete enviar o Espírito da verdade para que seus discípulos sempre compreendam plenamente suas palavras(Jo 14, 17 e 26) como memória exata do evangelho por ele ensinado. O discípulo deve andar sempre na verdade, isto é, se deixar guiar pela verdade de Cristo.

O TESTEMUNHO: Em que sentido Jesus é o rei do seu novo e singular reino? Ele é o mártir que serve de testemunha a uma verdade absoluta e total, a ALETHEIA divina. Por isso é descrito como a luz divina que ilumina todo homem(Jo 1,9), como o olho ilumina a quem não quer ficar cego(Jo 9,39). João, o Batista, também foi uma testemunha que veio dar testemunho da luz, embora ele não fosse essa luz(Jo 1,8). Jesus era a luz para que os cegos até então(Jo 9,39) recobrassem a faculdade de caminhar sem tropeçar(Jo 8,12 e 12, 35) e recebessem o poder de se tornarem filhos de Deus(Jo 1,12). Como verdade última convém recordar especialmente a boa nova que ele revela a Nicodemos: "Tanto amou Deus ao mundo que entregou seu Filho único a fim de que todo aquele que crer tenha nele a vida eterna"(3,16). É para demonstrar esse amor de Deus que o Verbo, como canta Paulo, rebaixou-se a si mesmo (como se fosse um escravo) e (assim rebaixado) foi obediente até a morte e morte de cruz(Fp 2,8). Pilatos ia ser o instrumento legal de semelhante morte testemunhal.

PISTAS: .-1)O ano litúrgico termina com o anúncio de uma nova escatologia: Jerusalém, a cidade santa, o templo lugar de residência de Jahveh com seu povo não mais são necessários. Serão destruídos como inúteis. O profeta que o anunciou é Jesus que chora sobre esse duplo sino decretado pelo Pai, que ao mesmo tempo constitui sua dor e seu triunfo como Filho do Homem, isto é, como Senhor do novo Reino, o definitivo. As qualidades deste reino tão pessoal que não o distinguem da pessoa que o representa, estão definidas no evangelho de hoje. A forma de representá-lo é também um juízo: O poder mais importante na época, representado por Pilatos com o imperium interroga o poder futuro, representado na pessoa de Jesus. Este declara ser verdadeiro rei de um reino completamente diferente ao conhecido até então no mundo. Esse reino tem como base e fundamento a verdade, não o lucro ou a conveniência; é por essa verdade que ele, suprema autoridade do mesmo, sofrerá a a morte sofrendo- a como mártir da mesma.-2)A escatologia evangélica não é a última em termos absolutos, mas é um fim relativo: significa a ruptura da aliança mosaica, da qual estavam excluídos os povos gentílicos, ao mesmo tempo que era uma verdadeira escravidão para os judeus com suas leis rituais e de pureza.(Gl 5,1).Cristo nos liberou dessa escravidão e iniciou uma nova Aliança com Deus, o Pai em que a fidelidade divina se transforma em ternura para aqueles que ama como filhos e não como escravos.(Gl 4,7).-3)Geralmente no 1o Domingo de Advento a Igreja manifesta a vinda definitiva do Senhor Jesus como juiz de vivos e mortos. Vivemos tempos que segundo Teresa de Ávila podem ser definidos como "recios"(fortes) em que o destino do homem individual e coletivo não entra como projeto de vida. O importante é o presente ,porque a vida é breve, e como tal queremos aproveitar ao máximo. Falta a vigilância, produto de que não somos donos de nossa existência e devemos dar conta como servos do que fizemos quando o Senhor estava ausente. Sua presença é para pedir contas da administração dos bens recebidos em encomenda. Quid hoc ad aeternitatem era a pergunta que transformou a vida de Francisco Xavier e será também o motivo de nossa metamorfose.-4) Que significa o Reino para nós? Porque muitos dizem que esta festa está fora de lugar .Caso pensemos num reino tipo histórico sem dúvida; mas o reino de Cristo é diferente. Regis ad exemplum totus componitur orbis e o exemplo de Jesus o nosso rei é um exemplo de serviço, de diaconia. Ele escolheu a cruz e com ela a humilhação para salvar o que estava perdido. Não existe outra moeda com a qual possamos salvar este mundo, aparentemente tão injusto e tão inumano.

EXEMPLO: A ex-ministra norueguesa professora da Universidade de Oslo, Janne Haaland Matlary , concorda com os papas das últimas encíclicas sociais afirmando: deveríamos criar estados baseados na verdade, porque a negação da verdade é o autêntico problema que tem a política hoje. E afirma que uma sociedade que quer ser justa deve ter em conta a caridade, porque a política não é tão importante. Temos passado de um século 16, século do amor inaugurado por Teresa de Jesus a um século 17, século do temor inaugurado pelos jansenistas, a um outro século 18 o da liberdade e livre pensamento dos enciclopedistas, a um século da máquinas no 19, a um século que o Papa denomina da morte como é o 20 para finalmente neste século 21 entrar no século do terrorismo. Definitivamente temos semeado a divisão e a indiferença e nos encontramos com o ódio e a morte. . Devemos aprender a amar e compartilhar.