XXX DOMINGO DO TEMPO COMUM B (Mc 10, 46-52)

CURA DO CEGO BARTIMEU

SIMBOLISMO DA CEGUEIRA: Do cego biológico podemos passar em todas as línguas ao cego espiritual que não vê ou não quer ver fatos, causas e razões, por outro lado tão óbvias, que resultam claras opções e argumentos da verdade. Por isso o cego material é um símbolo do cego espiritual. Com referências aos cegos materiais temos nos evangelhos 12 delas. Dois casos de cura em Marcos: o cego de Betsaida(8,22-23) e o cego de Jericó que é nosso caso(10, 46-52). As outras referências estão repartidas nos outros evangelhos. Sobre os cegos de alma temos nos evangelhos 6 lugares de referência. Nenhuma delas em Marcos, 3 em Mateus, 2 em Lucas e um em João; este último como reflexão sobre a cura do cego da piscina de Betesda. Os cegos do evangelho são os fariseus (Mt 15,14 e 23,16-26 e Lucas 6,39 e Jo 9,39-41). O texto mais discutido é o de Lucas 4,18. Os exegetas comentam que Lucas cita Is 61,1. Mas neste texto de Isaias que começa com "O espírito do Senhor está sobre mim não aparece a cláusula "dar vista aos cegos" (tyflois anablepsein) a não ser na tradução dos setenta. Jerônimo, na sua tradução direta do texto hebraico do seu tempo, não traz essa cláusula, terminando com praedicarem captivis indulgentiam et clausis aperitionem (pregar aos cativos o perdão e aos encarcerados a liberdade). Pelo texto paralelo de Is 42, 1-7 vemos que o Senhor chamou o "servo (referindo-se ao povo de Israel)para o serviço da justiça, como luz das nações, a fim de abrir os olhos dos cegos, a fim de soltar do cárcere os presos e da prisão os que habitam nas trevas". Evidentemente este texto fala em termos metafóricos. Em Is 29, 18 lemos: "Naquele dia os surdos ouvirão as palavras do livro, e os olhos dos cegos, livres da escuridão e das trevas, tornarão a ver"(as palavras). São cegueira e surdez metafóricas. O texto latino de Jerônimo e o texto grego dos setenta avaliam esta interpretação contrária a da bíblia de Jerusalém que traduz: "Os surdos ouvirão o que se lê e os olhos dos cegos, livres da escuridão e das trevas, tornarão a ver". Esta tradução poderia ser entendida em termos materiais de cura de doenças biológicas, o que não corresponderia à realidade. Um outro texto do cântico do servo é Isaias 42,16. Nele temos uma alusão metafórica: "Guiarei os cegos por um caminho que não conhecem". Metafórica e altamente idealizada é a passagem de Is 35, 5-6 em que se abrirão os olhos dos cegos e se desimpedirão os ouvidos dos surdos. Um último texto também metafórico é o de Jeremias 31, 8, indicando a facilidade da volta por caminhos sempre perigosos: "Eis que os trarei da terra do Norte e os congregarei....e entre eles também os cegos e aleijados, as mulheres grávidas e as de parto, em grande congregação, voltarão para aqui". De todos estes textos deduzimos que os cegos são dois tipos alegoricamente diferentes dos biológicos: o primeiro são aqueles que não podem ver a luz porque estão dentro de masmorras que não tem luz; e o segundo grupo é formado por cegos que estão no caminho errado. Em Jeremias realmente são os cegos materiais, porém qualificados como deficientes que não serão impedidos de voltar para Jerusalém após o exílio. CONCLUSÃO: em todos os textos estudados há uma base comum: a volta do exílio, o júbilo e alegria pela nova fase de Israel, que era como uma vitoriosa e nova realidade que apontava aos tempos messiânicos. Se os cegos dos textos eram metafóricos e o fato da volta totalmente real, já nos tempos messiânicos os cegos eram reais e a nova realidade metafórica e virtual: o reinado de Deus por meio de Jesus, o Cristo. Por isso os velhos textos têm uma válida interpretação como profecia messiânica, plenamente realizada em Jesus de Nazaré, como o Cristo, Messias ungido de Jahvé.

BARTIMEU: Era um cego, bem conhecido pela primeira comunidade cristã, transformado em seguidor de Jesus após a sua cura. Daí que seu nome fosse conhecido e apresentado como testemunha de um fato extraordinário para confusão dos que duvidavam de Jesus como eram as multidões que o acompanhavam. O nome significa filho de Timeu, um composto de aramaico e grego, pois bar significa filho, e Timeu, do verbo grego timao, significa distinguido, honrado, respeitado. A condição dos cegos na época era de mendigos, junto com os coxos ou aleijados. Além da extrema miséria em que viviam eram considerados malditos de Deus por serem vistos como objeto da vingança divina pelo pecado de seus pais(cegos de nascimento) ou próprio (cegos quando adultos) (Jo 9,2 e 34). Os cegos eram numerosos em Israel devido a duas doenças incuráveis na época: o tracoma, causado pela Clamydia trachomatis um bacilo transmitido em muitos casos por uma mosca abundante no norte da África, e o glaucoma ou pressão alta no glóbulo ocular. Para o cego não existia outra forma de vida senão pedir esmolas à beira dos caminhos ou à entrada do templo como no caso do cego de Jo 8,59 e 9, 1.

A PETIÇÃO: Antes da petição Bartimeu grita o motivo de sua fé: Filho de Davi! Era o aposto de Jesus(47). Sabia Bartimeu que o nome de Jesus a quem logo chamará rabbouni (meu mestre), significava Deus cura? Esperava que o Messias cujo título estava incluído em Filho de Davi tivesse poderes de cura? Seus gritos e sua insistência nos indicam que sim. Provavelmente Bartimeu sabia da cura dos dois cegos em Betsaida, no norte de Galiléia(Mt 9,27). Por isso ele pede a maior esmola em termos materiais e espirituais: ver. Esse ver que nos momentos de sua agonia final Goethe também almejava. Quando sua visão terminava e sua vida se extinguia ele exclamou, segundo dizem: Luz, mais luz. Mas voltemos ao nosso cego. A fé que Jesus pedia era a fé em sua pessoa como enviado de Deus(Jo 6, 57), em sua missão como Messias, e um destes títulos, era Filho de Davi. Nos evangelhos temos este título como parte do messiado de Jesus. Já Mateus inicia o seu evangelho chamando a Jesus filho de Davi, filho de Abraão.(1,1). Hoje nos deixam indiferentes as duas genealogias. Mas devido às calúnias dos fariseus que o delatavam como filho de um legionário romano, indiretamente são uma apologia, além de ser uma verdade teológica indiscutível.

FILHO DE DAVI: Sem dúvida que era um título messiânico, como vemos claramente em Mt 12, 23 e 20, 31. A pergunta de Jesus aos fariseus: como é que os escribas afirmam que o Messias é filho de Davi (Mc12, 35; Mt 22, 42 e Lc 20, 41), dá lugar à semelhante título. Através da profecia de Natã (2 Sm 7, 12-16), Israel espera um grande rei, descendente de Davi, poderoso e triunfador, que fará realidade as promessas de Deus de liberdade e salvação do seu povo. Jesus não quis utilizar este título, se conformando com o do Filho do Homem, que respondia à visão de Daniel(7, 13). A primeira vez que filho de Davi é usado é por dois cegos de Cafarnaúm (Mt 9,27 ) Devido aos milagres, o povo comentava: Não será este o filho de Davi(= messias)? (Mt 12,23). Será depois a vez da mulher sirio-fenícia que também clamará: "Tem compaixão de mim, Senhor, filho de Davi!" (Mt 15, 22). Como rei não teria o Messias poderes curativos especiais; mas também se atribuíam ao Messias características proféticas(Is 42, 1-7) especialmente o de dar vista aos cegos, que já temos explicado anteriormente. O próprio Jesus ao dar a reposta a João sobre se era ele o que tinha que vir, responde: "Os cegos vêm, os coxos andam"(Mt 11,5).Estas última considerações nos levam a concordar com os cegos, de modo especial quando para a sua cura eles se dirigem a Jesus com um título messiânico, o mais comum: o de filho de Davi.

RABBOUNI: É uma palavra de origem hebraica , a mesma usada por Maria de Magdala que literalmente significa meu mestre. Rabbouni é usada em termos mais formais e solenes que rabbi, e muitas vezes é usada dirigindo-se a Deus. Significa o mesmo que a expressão Kyrios em Mt 20, 23 e Lucas em 18, 41. É um reflexo da expressão de Tomás: Meu Senhor e meu Deus.

A FÉ: Desta vez Jesus não exige a fé como em outros milagres, porque a fé exigida não era sobre a possibilidade da cura, mas a fé na pessoa de Jesus, acreditando no poder deste último por ser o representante do Deus vivo, por ser o Messias. Aqui a fé precede o milagre não o acompanha. Por isso Jesus pede unicamente que queres de mim(51), o que é confirmado pelos outros dois evangelistas. É essa fé que Pedro não perderá porque Jesus orou para ele(Lc 22, 32) a mesma fé no nome de Jesus, que revigorou os pés do tolhido(At 3, 16).

O SEGUIA: Precisamente o milagre confirma a fé do cego como sucede muitas vezes com os crentes e por isso ele segue Jesus. a quem chamou mestre e Senhor. Para seguir realmente a Jesus é preciso abrir os olhos e curar a cegueira espiritual que possuímos e dissipar as trevas que nos rodeiam. Chesterton dirá: "Um crente é um homem que admite um milagre quando se vê obrigado pela evidência. Porém um não crente é alguém que nem aceita discutir porque lhe obriga a isso a doutrina que professa e à qual não pode contradizer".

PISTAS: 1) Um prelado da Igreja afirma que temos esquecido em favor da Segunda tábua os mandatos da Primeira: o amor a Deus e a santificação das festas. Somente 20% dos católicos assistem à missa aos domingos. O agnosticismo moderno tem substituído a Providência divina pelo acaso de forças imprevisíveis, os valores e princípios éticos pelas oportunidades e proveitos individuais. A humanidade não tem um caminho de direção a seguir, mas está perdida em abrir passos às cotoveladas para ter maior espaço para os mais fortes. 2) Temos substituído a fé em Deus pela crença na ciência. O homem se considera dono da vida especialmente nos dois momentos mais frágeis da mesma: na hora de nascer e no decurso do seu declínio. Um terço da humanidade (infantes e idosos) está sendo descartada ou por indefesa ou por ser inútil. O valor de quem aparentemente não vale nada só pode ser cotizado como dignidade humana quando visto pela verdadeira família ou pela fé em Deus e Cristo. 3)A família é outro dos grandes valores que o mundo moderno além de não reconhecê-lo, o dificulta ainda mais. Desde que o prazer do sexo pode ser separado do princípio da fecundação, a família perdeu sua consideração como base da vida. O cardeal de Viena afirma que a postura de João Paulo II em favor da família tradicional é profética. Como toda profecia é palavra que denuncia um mal e prediz uma ruína e uma catástrofe que só a providência divina pode remediar e salvar. 4) O sentido do amor verdadeiro está se perdendo com tantos programas para reforçar o prazer e evitar a responsabilidade. A responsabilidade se transforma assim em liberdade e esta em libertinagem.

EXEMPLO: O seguimento de Jesus deve se mostrar como luz que ilumina também os outros caminhantes. Um pároco pediu na missa que os fiéis dessem testemunho no lugar da homilia. Suas palavras seriam melhor escutadas que a simples exposição das palavras evangélicas. Qual o testemunho que podem oferecer como seguidores de Jesus? Eis os resultados: Uma jovem disse que pertencia à renovação carismática e tinha encontrado a alegria de viver sob o Senhorio de Jesus. Uma senhora afirmou que ela se sentia feliz visitando doentes como membro da Legião de Maria. Um senhor testemunhou que suas visitas semanais, levando conforto e alimento aos pobres como confrade dos vicentinos, formava parte de sua vida, satisfazendo plenamente a mesma. Um casal de média idade encontrou uma vida de amizade sincera nos novos relacionamentos com os outros Casais de Encontro com Cristo. Finalmente um casal de velhos afirmou que por mais de 50 anos estiveram unidos conservando fidelidade mútua. O pároco perguntou se sabiam dar uma definição do que era amor e o marido respondeu: Bom, eu não posso dizer que coisa seja o amor, mas só sei que, se estamos ainda unidos, é porque temos vivido com muito respeito e sacrifício.