DIA DE FINADOS ( Jo 11,
32-45)
RESSURREIÇÃO DE LÁZARO
(Pe. Ignácio, dos Padres
Escolápios)
LÁZARO: É uma forma grega de Eleazar (= Deus ajudou). Alguns modernos
derivam do nome a inexistência da pessoa, tornando o fato da sua ressurreição
um mashal(parábola) exatamente como o mashal de Lázaro, o mendigo da parábola
do rico epulário(Lc16, 20-31). Porém no trecho de hoje, temos como históricos a
existência de Betânia (= casa das tâmaras, ou figos), onde Jesus pernoitava (Mt
21,17), o jantar em casa de Simão, o leproso(Mt 26, 6) em cuja casa, segundo
João, Marta servia, Lázaro era um dos convivas e sua irmã Maria ungiu os pés de
Jesus (Jo 12, 1-3). Betânia era o lugar da casa de Marta. Jesus hospedava-se
nela nas subidas a Jerusalém (Lc 10, 38). Não é ilógico supor que Marta
estivesse casada com Simão, curado da enfermidade da lepra por intercessão de
Jesus e portanto grato ao mesmo. Nada sabemos da idade de Lázaro. Não devia ser
casado na época; mais parece ser um jovem menor de 18 anos. Isso explicaria a
preeminência de suas irmãs sobre Jesus. Só sabemos que Jesus amava Lázaro (Jo
11, 36). As circunstâncias da morte, os reproches das irmãs, os sentimentos de
Jesus e os fatos que acompanham a ressurreição de Lázaro são tão realistas que
descartam toda ficção literária. A intenção do evangelista é mostrar que Jesus
é o dono da vida, e preparar a morte de Jesus como uma resposta à fé dos muitos
que viram no milagre o sinal messiânico esperado(Jo 11, 45) e por isso também
como uma condenação dos que pretendiam matar a testemunha, Lázaro (Jo 12, 10).
João aponta para a ressurreição de Lázaro como o elemento-causa da morte de
Jesus, o que não está longe da opinião de Lucas em 19, 37 que afirma o desgosto
dos fariseus pelo entusiasmo do povo que exaltava Jesus pelos milagres
poderosos que tinham presenciado, precisamente perto de Betânia.
O SEPULCRO: É chamado mnemeion, que podemos traduzir por monumento
sepulcral, e depois descrito como espelunca, cova ou toca. Como era na
realidade o sepulcro de Lázaro? Nos tempos de Jesus existiam duas classes de
sepulcros: Os ricaços tinham um verdadeiro monumento por tumba: escavado na
rocha com um jardim anterior(Jo 20, 15) e um vestíbulo. Uma segunda entrada
baixa( Jo 20, 5), separava-o do necrotério próprio, lugar amplo como uma
pequena capela onde eram colocados os corpos em nichos furados paralelamente às
paredes laterais. Assim foi a tumba de Jesus. A segunda classe, a dos mais
pobres consistiam em poços verticais, cavados no chão e fechados por uma lousa
que servia de tampa. Nas cidades fortificadas existia o costume de fazer uma
mesa de pedra na base do muro externo e sobre ela furar o muro com dois ou três
buracos de dois metros de profundidade onde eram colocados os corpos dos mortos
tampando os buracos com uma pedra. Logicamente este não era o caso, porque
Betânia não estava fortificada. Daí que unicamente ficavam as duas opções
anteriores. Qual dos dois era o sepulcro de Lázaro? Inclino-me pelo segundo,
pois Jesus manda unicamente tirar a tampa(11,39).
A CONVERSA: Se tivesses estado aqui meu irmão não teria morrido. A fé de
Maria não chegava a ver em Jesus o dono da vida. Por isso seu reproche, que
Jesus recebe como recebeu o de Pedro (Mt 16, 23): com indignação (o verbo
embrimaomai indica indignação). O verbo, usado cinco vezes nos evangelhos
significa bufar, enfurecer-se e em último termo gemer. Qual é o significado de
enfurecer-se no espírito(33) ou em si mesmo(38)? Estremecido no seu interior,
como traduz a bíblia castelhana, comovido interiormente como a bíblia de
Jerusalém e a CEI italiana? Ou indignado por ver a inutilidade de seus
ensinamentos e a falta de fé em Marta e Maria? É difícil, porque só temos estes
dois versículos de João. Talvez o sentido seja matizado pela outra palavra
grega, tarasso, turbar-se, agitar-se, aborrecer-se, preocupar-se. Assim podemos
traduzir por: 1o) Se indignou pela falta de fé de Maria e o reproche
a ele dirigido; e aborrecido disse...(33). E de novo indignado consigo mesmo
pela murmuração dos judeus(este que abriu os olhos do cego não poderia ter
evitado a morte de seu amigo?) chega ao sepulcro(38). 2o) Comovido
interiormente se perturbou, ao ver Maria e os judeus que a acompanhavam chorar
clamorosamente (33) e derramou lágrimas silenciosas (35) para depois, demostrando
seu profundo pesar (38), mandar tirai a lousa.(39).
OS QUATRO DIAS: Segundo a opinião dos rabis, durante três dias o
espírito permanecia junto ao corpo do morto indo uma e outra vez ao túmulo,
como costumavam fazer os parentes próximos, até que no quarto dia as entranhas
se rompiam e o rosto se descompunha ao começar a putrefação. O espírito então
não reconhecia mais o seu corpo e abandonava definitivamente suas visitas para
se separar totalmente do mesmo. Tampouco após estes dias era permitida a visita
dos familiares ao sepulcro. Pensava Marta que Jesus queria ver o corpo de seu
amigo(36), e somente lhe indica que não mais era possível fazê-lo? Porque Jesus
não tinha impedido a morte do mesmo e os judeus murmuravam sobre esse fato(36).
Daí talvez a indignação de Jesus(33 e 38). Jesus havia ressuscitado o filho da
viúva de Naim(Lc 7,11-15) e a filha de Jairo(Lc 8, 50-55). Mas ambos estavam
nesse periodo de morte parcial. Agora o caso era muito mais difícil. Por isso
Jesus responde: Esta é a circunstância em que a glória de Deus vai ser notada.
A GLÓRIA DE DEUS: Não te disse que se tivesses fé verias a glória de
Deus? A fé de Marta não chegava a ser total no poder de Jesus. Este claramente
indicará com seus gestos que esse poder vem de Deus, seu Pai, e que portanto
ele é o dono da vida porque pode ressuscitar todo aquele que confia nele. Nisso
consiste a glória de Deus. Mostrar como Ele está acima de todas as forças do
mal, como era a morte principalmente, e como esse poder podia dá-lo a quem
enviava para ser o salvador como homem entre os homens, o filho do homem que
tem poder para dar a vida (Jo 5, 27-29). Vejamos os detalhes.
ELEVOU OS OLHOS: Era a postura própria de um judeu de orar a seu
Deus.(ver Mc 6,41; Mt 14, 19; Lc 9, 16 e Jo 17, 1) em ação de graças.
Precisamente porque não podia dar graças, o publicano tem os olhos baixos
enquanto se declara pecador, um gesto de humildade e de petição de perdão( Lc
18, 13). Elevando os olhos ao céu Jesus declarava de quem recebia o poder.
PAI: Alguns autores dizem que esta palavra não poderia ser pronunciada
por Jesus nestas circunstâncias. É um argumento muito fraco: A palavra Pai
referida a Deus é usada pelo livro da Sabedoria indiretamente, "porque o
justo se chama filho de Deus" (1,13). Jesus já em Marcos- o primeiro e
mais antigo dos evangelhos- chama a Deus seu Pai (8,18 e 13,32). Na hora da
angústia no Getsêmani ele repetirá uma e outra vez Abbá, meu Pai querido.
Mateus, deixando outras passagens, tem duas em que Jesus invoca a eficácia de
Deus em sua missão dizendo: Graças te dou ó Pai, Senhor do céu e da terra
porque escondestes ...(11,25-26). A outra é em Getsêmani: Meu pai, se
possível...(26, 39). Lucas traz a mesma oração de Jesus em ação de graças sobre
a providência divina: Graças te dou Pai, Senhor do céu e da terra...(10, 21).
No Getsêmani a invocação ao Pai segue os dois evangelistas anteriores(22, 42).
Pelo que respeita João; vejamos os versículos correspondentes. Meu Pai trabalha
até agora (5, 17). E os judeus entenderam que chamava Deus de seu Pai(5,18). No
capítulo VI as alusões ao Pai são evidentes e contínuas, até o ponto que os
ouvintes se perguntam como pode este dizer que provém do céu se José é seu pai
e conhecemos sua mãe? (6, 42). Os capítulos VIII, X e os que correspondem à
última ceia, expressam claramente a filiação direta de Jesus com quem é o Deus
de seus ouvintes(8, 54). Mas no mesmo evangelho temos dois momentos de oração
de Jesus com um início idêntico ao que estamos explicando: "Pai, glorifica
teu nome"(12,28) e tendo levantado os olhos ao céu disse: "Pai é
chegada a hora glorifica teu filho" ( 17, 1). Portanto o mínimo que
podemos dizer é que esta oração não foi uma invenção literária pontual do
evangelista.
PORQUE ME ESCUTASTE: A oração de Jesus era um ato dramático para expressar
claramente de quem provinha o poder e como era a missão de Jesus, que consistia
em dar a vida a quem nele acreditasse(25-26). A súplica de Jesus confirma a
crença de Marta que assegurava que tudo quanto pedisse a Deus seria concedido
(26). É pois uma forma de corroborar o que foi dito em particular.
A ORDEM: Lázaro sai fora! Era a palavra que Jesus havia predito:
"Agora os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus e os que a ouvirem
ressuscitarão"( Jo 5, 25). Essa ordem é a que será dada no dia da ressurreição
final, porque a ressurreição de Lázaro é paradigma da ressurreição final. No
caso de Lázaro podemos afirmar que houve um duplo milagre: o da ressurreição de
um morto mais o de poder sair de um sepulcro, atado de pés e mãos e enfaixado
como uma meia-múmia.
AS FAIXAS: Atadas as mãos e os pés com faixas(keiriais). O grego pode
significar catre, venda., atadura, mortalha, cilha ou faixa. A vulgata traduz
por institis, ou seja orla que usavam as matronas romanas como adorno nos
vestidos; daí faixa, especialmente a que segurava a cama. A tradução moderna é
faixa tipo cilha. Não parece que descrevem estas faixas os lençois que
envolviam o corpo de Jesus e que tanto em grego como em latim são declarados
othoniai e linteamina. O Sudário ou lenço que atava sua face será em Jesus o
que estava sobre sua cabeça. Lázaro não estava enfaixado como uma múmia egípcia
mas somente envolto num lençol e com os membros atados e também uma atadura
para fechar a boca, que ao mesmo tempo cobria seu rosto. Por isso disse Jesus: desatai-o
e deixai-o ir embora.
PISTAS: 1)Dos sete semeia (=sinais) narrados em profusão
por João, este é o mais espetacular. Se os outros poderiam ser atribuídos a
forças extra-humanas, este, a ressurreição de um morto, só é devido àquele que
é o dono da vida. jamais um demônio, no sentido original de deus secundário,
poderia fazer semelhante portento. A vida, sua origem, pertence unicamente ao
Deus único. Por isso Jesus se apresenta também com a unicidade de ser Filho
desse Deus. 2) Quantas vezes como Maria nos queixamos de que nos falta a
presença de Deus, porque o mal, físico ou moral atingiu nossa vida. Porém a
ausência experimental de Deus, além de aumentar ou ser base de nossa fé,
acarreta como disse Jesus a seus discípulos, uma razão para aumentar a mesma.(Jo
11, 15). Quando o mal parece ter chegado ao termo de acabar com a esperança
sempre está presente a oportunidade de Deus achar a melhor das soluções que
como diz Paulo não está na ausência do mal, mas na maior presença da
misericórdia: donde abundou o pecado (Rom 5, 20). 3) Jesus se mostra humano em
sua dor, em seus sentimentos, mas também em seu poder que ele sabe provém de
que o Pai sempre o ouve porque ele, Jesus, sempre está disposto a fazer a
vontade do Pai. Essa confiança que tem origem no poder divino mas que se apoia
também na obediência absoluta do homem, é a base da exousia ( autoridade) com a
qual Jesus comanda a doença e a morte(Mt 28, 18). Também o nosso valimento
diante de Deus, o verdadeiro poder e a autêntica sabedoria depende, de nossa
obediência. Paulo o declara em Fp 2, 8-11. Para glória de Deus ,o Pai, toda
língua confesse que Jesus é o Senhor.4) Também nós devemos elevar os olhos
porque é daí que depende nossa salvação e a dos que nós queremos ajudar. Nos
falta confiança porque nos falta devoção, segundo o significado autêntico da
palavra: entrega total à causa divina.5) Como Lázaro estamos atados de pés e
mãos e um sudário cobre nossa face de modo que nada podemos fazer e nada
entendemos ou vemos sobre o que é a verdadeira vida, aquela que Jesus disse
veio trazer ao mundo(Jo 10,10). Como Lázaro estamos no sepulcro à espera da voz
divina: Sai fora.
EXEMPLO: Sendo o dia de finados é lógico que o pensamento da morte
influa em nossas considerações. Os judeus acreditavam que sua salvação dependia
de sua confiança em Jahvé, e por isso afirmavam que a recitação do Shemá (=
ouve Israel, eu sou teu Deus eu sou único) era uma garantia segura de salvação.
Para os cristãos, embora pecadores, o exemplo do bom ladrão que alcançou o
perdão por admitir que era justamente punido, serve como o chamado de batismo
de sangue. Por isso dirá S. Camilo que a aceitação da morte com seus
sofrimentos como vontade divina, é uma espécie de sacramento que perdoa e
justifica o homem, pela ação direta do sacramento dos sacramentos que é Cristo
Salvador, como foi o caso de Dimas, o bom ladrão. Contam que numa batalha um
soldado ferido mortalmente foi atendido pelo capelão do batalhão. No terreno
molhado pelo sangue o padre pronunciou as palavras da absolvição e ungiu a
fronte com o óleo da unção. Nesse momento o jovem soldado disse: Padre tenho
medo. Não fui um homem bom. Tenho muito que pagar. Como me receberá Deus? O
capelão lhe disse: Deus é nosso Pai. O soldado respondeu: Padre eu não tive
pai. Ele nos abandonou. Será que Deus me abandonará como fez meu pai? Então o
capelão teve uma idéia feliz: Como se comportou tua mãe? Ela é uma santa-
respondeu o soldado. O calor e o carinho que ela deu à família sempre me
acompanhou. Eu sempre tenho seu retrato no meu peito. E mostrou o mesmo ao
sacerdote. Este então deu-lhe uma medalha de Nossa Senhora e lhe disse: Toma
agora o retrato da mãe que deve cuidar de ti desde agora. Ela te receberá e
cuidará de ti como tua mãe cuidou até agora. E deu a beijar a medalha ao jovem
recruta. Um sorriso abriu-se na boca do moribundo quando beijou o retrato de
sua nova mãe, porque sabia que ia ser bem recebido na eternidade, e contava com
uma protetora totalmente segura.