FESTA DA DEDICAÇÃO DA BASÍLICA DE LATRÃO
(Jo 2, 13-22)


A BASILICA: A basílica do Salvador(Basilica Salvatoris), mais tarde chamada de S.João de Latrão é a mais antiga das quatro basílicas romanas das conhecidas como patriarcais. O lugar foi noutro tempo, recinto ocupado pelo palácio da família ou gens Laterana. Esta família era originariamente plebéia. Um de seus membros, P. Sextus Lateranus foi o primeiro plebeu em Roma a ser nomeado cônsul, suprema autoridade na república, cujo mandato durava um ano. Nos tempos de Nero um outro membro da mesma família, Plautius Lateranus, à sazão consul designatus( nomeado cônsul), foi acusado de conspiração contra o imperador e seus bens confiscados. Juvenal (+122), numa de suas famosas sátiras, descreve o palácio como regia aedes Lateranorum ( mansão régia dos lateranos). De fato era uma esplêndida moradia, a melhor do monte Célio. Dela só ficaram algumas relíquias da casa original e umas pinturas no afresco na capela Lancellotti, descobertas na limpeza efetuada no século XVIII. O palácio veio parar nas mãos de Fausta, a esposa de Constantino, o Grande, e por isso foi chamada Domus Faustae (casa de Fausta). Parece que Constantino arranjou o Hall do palácio para se transformar em basílica com cinco naves sustentadas por colunas, terminando num abside de forma circular. A basílica(casa real) foi primeiramente dedicada a Cristo Salvador, cuja figura está no alto do frontispício da mesma, e mais tarde recebeu o título de S. João, pela dedicação a S. João Batista e S. João Evangelista. A antiga igreja dos tempos de Constantino ( a basílica foi doada segundo a tradição ao Papa Melquiades; outros falam da consagração da mesma em 324 pelo Papa Silvestre)tinha 5 naves e delas restam muito poucas coisas, pois foi saqueada pelos vândalos, e sofreu um terremoto e dois incêndios. Parece que o mosaico do abside (espaço circular que rodeia o altar) representando Cristo no meio de nove anjos é dos tempos quando a basílica constantina .foi consagrada em um nove de novembro entre 314 e 335, porque declarava um autor quase contemporâneo: “Imago salvatoris infixa parietibus primum visibilis omni populo romano apparuit” (=Apareceu a imagem do Salvador afixada nas paredes por primeira vez para todo o povo romano). Sem dúvida que o atual mosaico foi retocado. A basílica teve adossado um palácio, residência dos papas até o exílio de Avignon 1305 ou seja aproximadamente mil anos. Na volta em 1377 os papas encontraram o palácio e a basílica em ruínas. Então escolheram primeiro S Maria do Trastévere e S. Maria a Maior, para finalmente fixar no Vaticano a sua residência com Martin V (+1431), o papa que terminou o cisma de Ocidente. Somente na última década do século XVII a basílica, restaurada por Inocencio X sob a direção do arquiteto Borromini (1646-50), é que recobrou sua atual silhueta, com uma fachada de 1700 desenhada por Alexandro Galilei, com cinco portas, uma para cada nave. A porta da direita é a porta santa que se abria nos anos jubilares. Nos muros da basílica podemos ler as palavras latinas: “Omnium urbis et orbis ecclesiarum mater et caput”(mãe e cabeça de todas as igrejas da urbe-Roma- e do universo). A atual basílica tem nas pilastras da nave central os doze apóstolos escavados em nichos dentro das mesmas. Tem um baldaquino na nave central ao final das colunas., que cobre o altar papal, pois nesse altar só o Papa celebra missa. É interessante que o altar não seja de pedra e contendo relíquias de mártires como são os outros altares de Roma, mas um altar de madeira envolto num forro de bronze porque era o mesmo altar em que Pedro celebrava a missa. Foi trazido por Constantino e o Papa Silvestre de S. Pudenciana, onde se conservava. O atual altar é uma caixa de mármore e pedra que envolve a madeira que ainda pode ser vista. Sobre o baldaquino estão as cabeças de Pedro e Paulo, os dois apóstolos que evangelizaram a urbe. No lado esquerdo está o claustro, a única parte do mosteiro beneditino conservada com colunas cosmatescas, do século 13, quando os franciscanos tomaram conta da basílica segundo o sonho do Papa Inocêncio que viu a Igreja lateranenese ser segurada por S. Francisco. Por isso encontramos na praça o monumento aos franciscanos no lugar ocupado outrora pela coluna de Marco Aurélio que os romanos acreditavam ser de Constantino. Sendo o palácio a cúria romana nos tempos de Inocêncio III (1198-1216)a dita estátua ocupava o centro da praça atual, onde está o obelisco, uma coluna de pedra, consistente num paralelepípedo terminado em pirâmide com hieróglifos nas quatro caras. Este é o mais alto dos existentes em Roma. Na basílica celebraram-se cinco concílios ecumênicos de 1123 a 1527, sendo o mais famoso o de 1215 por Inocêncio III sobre a transubstanciação, a confissão e comunhão na páscoa. Destruído o palácio pelo fogo, Sixto V(+1590) construiu um outro do lado direito da Basílica. Hoje o palácio está relegado a servir de museu. Do lado esquerdo, e separada da basílica, está a escala santa. Os 28 degraus de mármore diz a lenda que foram trazidos de Jerusalém por S. Helena e foram originariamente os degraus do pretório de Pilatos. Eles levam à santa capela, o oratório privado dos papas até 1308, quando o fogo destruiu o palácio, salvando-se unicamente esta parte em que ainda se pode ver a famosa imagem de Cristo de nome “axeiropoieton” (não feita por mãos) que é do século 6o e que a tradição diz foi pintada por anjos. .
O BATISTÉRIO: Segundo o costume primitivo era um edifício separado da igreja principal, próximo à mesma ou unido a ela por uma colunata. É o único edifício com certa antiguidade do conjunto da praça. Tem uma estrutura octogonal, erigido pelo Papa Sixto III (432-440) para substituir uma anterior do tempo de Constantino, saqueada pelos gôdos. Entre outras antiguidades encontramos a capela de S. João Evangelista, com mosaicos da V centúria e a de S João Batista cujas portas de bronze dizem ser as dos banhos de Caracalla. Como a basílica era a catedral de Roma, daí que nesse batistério eram batizados os novos cristãos da urbe. Dele se serviu Deus para santificar a velha Roma pagã e idólatra.
OBSERVAÇÃO: A basílica em si representa a presença divina com seu povo. É a casa de meu Pai dirá Jesus de um templo em que nada existia pois no sancta sanctorum, não havia nada. As tábuas, a arca e a vara de Moisés tinham desaparecido. Pompeio no ano –63 entrou e nada viu. Pelo menos em todas as Igrejas católicas temos as relíquias dos mártires tão mais veneráveis que uma vara ou uma arca, e temos também o Smo. Sacramento. Mas principalmente nessa igreja está centrada a unicidade da Igreja católica sendo como diz o rótulo mural mãe e cabeça de todas as igrejas. Os cinco concílios e o milênio como catedral e sede da cúria romana são suficientes para tê-la como veneranda e celebrar na terra um dos lugares mais santos escolhidos pela providência divina para morar com seu povo.
O EVANGELHO
AS PÁSCOAS DE JESUS: Segundo os sinópticos Jesus subiu a Jerusalém uma só vez e uma só vez comeu com os discípulos o cordeiro pascal. Segundo o quarto evangelista foram quatro as páscoas em que Jesus esteve presente em Jerusalém. A festa da Páscoa era o 14 de Nissã, ou seja o dia 14 após a lua nova de nosso mês de março. O mês de Nissã tinha 30 dias . No dia 14 à noite comia-se o cordeiro pascal e no dia 15 era a grande festa que era também a dos pães a-zimos. Geralmente nesse mês as chuvas de primavera podiam produzir trasbordamento do Jordão (Jos 3,15). Era o começo da sega das cevadas (Rt 1,22). As quatro páscoas de João são: 2.23: a primeira em que muitos dos judeus vendo os sinais que fazia creram nele, como foi o caso de Nicodemos. A segunda foi quando curou o paralítico de Betesda (5,1). A terceira seria após a multiplicação dos pães (6,4) e a quarta e final na hora de sua paixão como diz em 18,28.Com isso se cumprem os três anos e meio necessários para formar um discípulo segundo a tradição rabínica. Do relato de hoje temos também os sinópticos com narrações menos detalhadas. Assim Mat 21,12-17; Mc 11,15-17 e Lc 19, 45-46.
O TEMPLO: Existem no grego profano e bíblico diversas palavras para designar um lugar sagrado, dedicado ao culto divino; as duas palavras que aqui encontramos são: hierón e naós A primeira palavra significa lugar sagrado. Do templo de Jerusalém o hierón era toda a esplanada do mesmo, compreendendo pórticos, átrios, pátios e o templo propriamente dito que se designava pela palavra naós e que podemos traduzir por nave ou santuário, lugar ao qual só os sacerdotes podiam entrar, como era o Santo e o Santo dos Santos em que só uma vez entrava o Sumo Sacerdote. No grego profano naós significava o santuário onde estava a estátua do deus ali venerado. A ação de Jesus de expulsar os mercadores e cambistas deu-se precisamente no Hieron ou seja no átrio dos gentios, fora do templo propriamente dito. Porém Jesus usa a palavra naós para designar o lugar sagrado, quando afirma ‘destruí este “santuário” e eu o edificarei em três dias’.
OS MERCADORES: São quatro as palavras usadas: Poluntas, = vendedor ou permutador de bens; Kermatistes= cambista de moedas, da palavra grega kerma=moeda ou pequeno pedaço; Agorazontes=os que freqüentam a ágora ou o mercado, daí compradores; Kollybistes= de kollubos pequena moeda, eram os trocadores de didracmas ou meios-siclos para pagar o tributo anual e pessoal ao templo. Eles recebiam os dracmas e na troca sempre exigiam algum lepton, hoje diríamos centavo, ou trocadinho pela mesma, já que o templo não admitia dinheiro estrangeiro por ter figuras e inscrições de divindades pagãs. Especialmente os evangelhos enumeram vendedores de bois, ovelhas e pombas. Estas últimas são as nomeadas por Mateus e Marcos em especial. Além dos vendedores estão os cambistas, em latim Nummularius(=cambista de moedas, sendo o nummus a moeda de cobre ou prata), sentados diz o grego e assim traduz a vulgata.
A AÇÃO DE JSUS: Segundo João ele fez um chicote de cordas, pois estava proibido usar varas de madeira ou varapaus no templo. O latim traduz flagellum, verdasca ou vara verde e delgada, de onde deriva o fragellum grego que é traduzida por azorrague ou chicote em português. Já o diminutivo ellum latino indica um instrumento menos cruel que o flagrum, terminado em ossos ou halteres, verdadeiro instrumento de morte para o castigado. É bom ressaltar que unicamente João, que escreveu após a destruição do templo, destaca este detalhe, omitido pelos outros evangelistas, os quais falam unicamente da expulsão dos vendedores e compradores e da derrubada das bancas dos cambistas e dos postos (cadeiras) dos vendedores de pombas. João dirá que dos cambistas jogou fora o dinheiro (aes) e virou as bancas, e disse aos vendedores de pombas: Tirai daqui estas coisas. Mateus e Marcos admitem que virou também as cadeiras ou silhões dos vendedores de pombas. Lucas nada diz sobre o método de expulsão dos vendedores em geral.
EXPLICAÇÃO: Jesus dá uma explicação que justifica sua ação: Não façais da casa do meu Pai casa de comércio ou de feira (Jo 16). Mateus, Marcos e Lucas apelam à Escritura, pois está escrito: minha casa será chamada casa de oração (Marcos acrescenta para todos os povos); mas vós a tornastes espelunca de ladrões. O spelaion grego refere-se a uma caverna habitada, uma toca, como tantas que serviam de casa nos tempos antigos. O lestes dos sinópticos indica um assaltante, um saqueador, um bandido, a diferença do kleptés que é um ladrão furtivo. O sentido prevalece sobre as diferencias redacionais. Mas é possível que os sinópticos tenham preservado com mais fidelidade ipsa verba Christi.(as palavras mesmas de Cristo).
COMENTÁRIO: Parece que só João tira, como é seu costume, um ensinamento da atuação de Jesus. Primeiro uma justificação do fato: o zelo previsto na Escritura no Salmo 69,10: “Pois o zelo de tua casa me devora e os insultos dos que te insultam recaem sobre mim”. E em segundo lugar uma referência à sua morte e ressurreição. Isto é devido à pergunta dos dirigentes(judeus no grego): que sinal nos mostras para fazeres estas coisas? Jesus responde: Destruí este santuário e em três dias o reedificarei. O sinal aqui pedido segundo João foi exigido no início da vida pública pelos fariseus e escribas segundo Mateus (12, 38), só os fariseus em Marcos (8,11) e sem determinar os pedintes em Lucas(11,28). Enquanto Marcos declara que nenhum sinal será dado, Mateus e Lucas coincidem com João como sendo a Ressurreição o sinal pretendido, deixando-o na incerteza da dúvida porque Jesus declara-o como sendo o sinal de Jonas. Como edificação em sentido metafórico temos as palavras de Jesus que edificará a sua Igreja sobre a rocha que é Pedro. Essa mesma Igreja que nasce renovada com a ressurreição de Jesus e se assenta sobre a rocha de Pedro. A festa de hoje responde admiravelmente a estas palavras de Jesus, pois foi definitivamente a igreja e o altar de Pedro a que está representada na basílica do Salvador de Latrão.
PISTAS: 1) todos temos necessidade de uma certeza, um sinal para nossa desconfiança neste mundo moderno de opiniões. Se a ressurreição de Cristo é a certeza do sinal definitivo, a história da basílica lateranense é suficientemente sugestiva para manter essa segurança entre os católicos. Foi a mansão de uma família humilde que chegou aos mais altos degraus da aristocracia romana. Saqueada pelos homens e três vezes destruída pelas vicissitudes do terremoto e do fogo se levanta majestosa como a maior das basílicas romanas conservando o altar de Pedro e o sancta sanctorum da capela particular dos seus sucessores. 2) A igreja nunca esteve mais perto de sua destruição total, não material, que quando se transformou em mercado por querer ser um estado de riquezas. Foi precisamente o mercado feito com as indulgências que levantou a oposição que chamamos protestante. E é precisamente a igreja pobre e dos pobres que hoje mais apela aos modernos de modo que não faltam vocações para essas novas congregações que optam por uma vida em que as riquezas são como dizia Lourenço os necessitados. Talvez o dia em que possamos exclamar que os pobres são toda a nossa riqueza será o dia esplendoroso de uma nova e revitalizada Igreja.
EXEMPLO: o PAPA Inocêncio III num tempo em que a Igreja estava desacreditada, viu como os franciscanos mantinham erguida a basílica de Latrão, sede e cabeça da Igreja. Essa mesma igreja que Francisco escolheu para pedir esmola quando despojado de suas vestes de seda trocou-as pelos farrapos de um mendigo. É desta maneira que a Igreja se torna sinal de ressurreição, pois foi desta maneira que Deus se mostrou ao mundo como boa nova no portal de Belém. Pois esvaziou-se a si mesmo e assumiu a condição de escravo, tomando a semelhança humana, mesmo tendo a riqueza de ser Deus (Fp 2, 6-7).