FESTIVIDADE DE NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO APARECIDA.
MEDIAÇÃO DE MARIA NAS BODAS DE CANÁ( Jo 2, 1-12)

(Pe. Ignácio, dos Padres Escolápios)

BODAS ENTRE OS JUDEUS: a Mishná (tradição escrita que contém a norma autorizada e autoritária nas judiárias tanto de Israel como da diáspora ) no seu tratado de Ketubá(documento matrimonial), afirma que uma virgem deve se casar na quarta feira e uma viúva na quinta. Os judeus tinham em grande estima o matrimônio, sobretudo relacionado com a descendência. Rabi Eliezer dizia: Todo aquele que não pratica a procriação é semelhante àquele que derrama sangue. No comentário a Gn 1,18 Maimônides declara que a torah condena o celibato. O homem é obrigado a contrair matrimônio desde a idade de dezoito até vinte anos; com exceção de quem tem que abandonar o estudo da Torah para procurar manutenção. Pois o homem deve primeiro preparar o lar, plantar uma vinha( estabelecer trabalho digno de sua manutenção) para depois contrair matrimônio. As meninas eram desposadas aos doze ou doze anos e meio, pois até essa idade o pai tinha domínio sobre suas filhas. Os homens casavam aos dezoito até os vinte e cinco anos.
Pelo desposório a jovem passava do domínio do pai ao domínio do esposo. Uma mulher é adquirida por dinheiro, documento (ketubá) e coito. Geralmente entre o desposório e a boda transcorria um ano. Após o enfraquecimento da fé por causa dos casamentos mistos com mulheres idólatras (Ex 34, 15-16), Esdras mandou expulsar as mulheres estrangeiras (10,1-17).

A CERIMÔNIA: os judeus sempre gostaram de festas e as bodas eram geralmente celebradas no fim do outono, após a colheita, meses de outubro-novembro. O casamento demorava até uma semana ou mais. As testemunhas, tanto da parte da noiva como do noivo, eram em grande número. Amigos do esposo, chama o evangelho a estes últimos. (Mt 9, 15). Dentre eles escolhia o noivo um paraninfo ou padrinho( Juz 14, 20)que João chama de amigo do esposo(Jo 3,29).
O texto grego emprega uma palavra (arkhitriklinos, =presidente da mesa do banquete),que significa o escravo encarregado de organizar um banquete. Daí a tradução de mestre-sala ou mordomo. Antes do casamento havia o cortejo nupcial. A noiva saía de sua casa acompanhada das pessoas que formavam o seu grupo; O noivo vinha de outro lugar por ele escolhido. O destino era a casa do pai do noivo. Os dois grupos eram constituídos de amigos de cada um, que iam tocando instrumentos musicais, cantando e espalhando flores pelo caminho. Quase sempre eles cantavam as tradicionais músicas de casamento, das quais, às vezes, constavam versos de amor dos Cantares(3,6). É a esse cortejo que Jesus se refere na parábola das dez virgens(Mt 25, 1-13). A noiva era vestida com os melhores trajes e com as mais belas jóias. Seu rosto estava coberto por um véu, que retirava quando os dois esposos estivessem a sós. Os convivas também luziam roupas festivas ou vestes nupciais( Mt 22, 11). A cerimônia propriamente dita era chamada de Hupah (=toldo) era o pálio nupcial que representava o próximo lar, e sobre o qual se assentavam os dois novos esposos durante as bênçãos rituais. Não parece ter havido juiz ou rabi religioso no casamento (nessuin, era o nome para o casamento religioso)sendo que a cerimônia tinha como modelo a prática observada por Isaac e Rebeca (Gn cap 25). Por isso os casamentos não eram realizados na sinagoga mas na casa do pai do noivo. Talvez recitavam-se as sete bênçãos que comparam o casamento com a dedicação entre Jahvé e seu povo de Israel, da qual o matrimônio era figura(Jer cap 3).Os votos e os compromissos tinham sido feitos anteriormente(Gn 24,67).

A CONSUMAÇÃO: Enquanto os amigos cantavam e se divertiam os esposos entravam numa tenda ou quarto, previamente preparado para ser a câmara nupcial. No meio de instrumentos e cânticos o matrimônio era consumado e algum tempo depois o casal saia da câmara trazendo as provas de que a noiva virgem havia-se unido ao esposo. Feito isso os recém=casados uniam-se ao resto dos convidados e as comemorações continuavam durante sete dias ou mais. Era num dos dias dessa festa que Jesus chegou a Caná como convidado. O vinho era para a festa como o sal é para a comida.

AS CIRCUNSTÂNCIAS: Caná estava a 5 km de Nazaré. Provavelmente os esposos eram parentes de Maria e de Jesus. Na festa entrou Jesus com os novos discípulos em número de cinco. João, como é costumeiro nele, chama Maria de mãe de Jesus. Faltou o vinho. Geralmente este era acumulado como presente dos convivas. Jesus e seus discípulos não o trouxeram e pode ser uma das razões de sua falta. Daí que Maria fizesse a petição. A falta poderia ser remediada com o aportamento de Jesus e dos discípulos, cujo presente estava em falta. Esperava Maria um milagre? Segundo a tradição, o Messias não era particularmente uma pessoa milagreira, embora para o povo existisse semelhante carisma(Jo 7,31). Não era visto assim o profeta que esperavam os judeus no tempo do Messias. Profeta semelhante a Moisés ( Dt 18, 15). Seria semelhante a Elias ou o próprio Elias (Mt 16, 14). Maria sabia que seu filho era o Messias(Lc 1,32). A falta de vinho era total ou estava reduzido ao mínimo que com a ausência dos acompanhantes de Jesus poderia se prolongar um tempinho a mais? Porque a pergunta de Maria refletia uma circunstância semelhante à que Jesus fez em Marcos em 8,2 : não tem o que comer..

O DIÁLOGO: A palavra MULHER (guinai) responde a Senhora em português. Jesus usa essa mesma palavra em Jo 4,21(samaritana), 8,10(adúltera) e 20,13(Maria Madalena). É a palavra que Jesus usa ao se dirigir a sua mãe na cruz(Jo 19, 26). Não há nada de desprezo. É uma simples saudação amigável e tenra. QUE A TI E A MIM(sic)? A frase tem dois sentidos: a)No caso de uma ofensa, o ofendido dirá: Que coisa eu fiz para me tratar dessa forma? Um exemplo os demônios (Mc 1, 24). b) Resposta a um solicitante quando o interrogado não quer se imiscuir no caso: Por que eu devo me incumbir de coisa que não me interessa?(2Re 3,13 e 2Sam 16, 10). Evidentemente este é o caso atual. NÃO CHEGOU MINHA HORA: A Hora de Jesus é o tempo de sua manifestação como Messias ( Jo 7, 6), tanto como o de sua paixão(Jo 8, 20). ou de sua glorificação pelo Pai( Jo 12,23). Especialmente em Jo 7,6 são seus parentes os que pedem uma manifestação do poder de Jesus. E é agora que sua mãe pede também essa manifestação. Um ato de poder especial, um milagre. O que é confirmado pela escusa de Jesus. Sendo porém a sua resposta uma negativa, Maria sabe que essa negativa não pode ser absoluta; e por isso deixa nas mãos do filho a solução do problema. Ela pede para atuar e não admite recusa alguma: Fazei o que ele vos disser. Temos um outro caso da insistência de outra mulher ante a negativa de Jesus. É a sirio-fenícia de Mt 15, 27.

A TRANSFORMAÇÃO: Eram seis talhas de pedra para a purificação. As de barro cozido ou cerâmica, deviam ser quebradas caso entrasse nelas alguma impureza(Lev 11, 33). As de pedra, especialmente nomeadas por Moisés na transformação de água em sangue(o que seria impureza, Ex 7,19) não se tornavam impuras e eram as mais apropriadas para a purificação das mãos. segundo a Mishná. O MESTRE-SALA NÃO SABIA: Cada ânfora tinha uma capacidade de 100 litros. O vinho tinha cor branca ou era tinto? não sabemos. Mas quem deu a última palavra foi o mestre-sala: Era o melhor vinho que ele tinha experimentado na festa.

CONCLUSÃO: A intenção do evangelista foi mostrar o primeiro dos sinais de Jesus. Por isso foi revelada sua glória ( sua qualidade especial de enviado por Deus como em Lc 4,18) e os discípulos creram nele. Outros simbolismos e conclusões, embora secundárias e refletindo interpretações de leitores, podem ser também úteis: o papel de Maria na obra de Jesus, a antecipação da Eucaristia, a presença de Jesus benéfica para um casamento e uma festa de bodas. Porque sempre estará presente na interpretação da Palavra a imagem do escriba que pode tirar do depósito da fé coisas novas e velhas, assim como um pai de família tira do graneiro de sua casa grãos da colheita velha ou da nova(Mt 13, 52).