(Pe
Ignácio dos padres escolápios)
CHEIO DE ESPÍRITO DIVINO: As traduções vernáculas falam DO Espirito Santo, como se fosse a terceira pessoa da Trindade. Esse artigo definido não está no original grego. Qual a diferença? Jesus, que foi batizado no espírito, uma vez recebido o batismo de água do Batista, agora é levado por esse espírito ao deserto (Eremos) um lugar descampado, solitário, como era o chamado deserto de Judá, ao qual voltou (Ypestrefen), ou se desviou desde o Jordão. Esse espírito é chamado de sagrado, ou divino (HÁGIOS), para distingui-lo do espírito impuro que tem sua origem em forças demoníacas ou malignas. O espírito santo é um Dom de Deus, fonte de atividade criativa ou profética. Corresponde ao entusiasmos grego em que o homem é possuído pela força do deus correspondente. Fazer e atuar como Deus quer e falar o que Deus decidir, é estar cheio do espírito santo. Esse espírito está dirigindo o homem, independente de sua mente ou NOUS, e dos apetites de seu corpo. É assim que Jesus foi guiado (passiva teológica) ao ermo, ou sertão da Judéia. O artigo definido indica um lugar conhecido, como era o deserto de Judá, lugar montanhoso, ermo e árido com total ausência de moradores humanos.
O DIABO: Do verbo diaballein ( caluniar), o Diábolos grego, como adjetivo, significa caluniador, difamador(Tt 2, 3). Como substantivo, calúnia e caluniador ou adversário. Claro que com artigo definido aponta ao inimigo de Deus, Satanás. Lucas usa também o nome de Satanás em outras ocasiões (Lc 10, 18 ou 22, 3.31). Era o inimigo especial de Jesus e portanto dos planos de Deus. Os setenta traduzem Satanás, ou Satã (oponente, adversário, acusador, fiscal) sempre por diábolos. Mateus usa o grego diábolos no relato paralelo das tentações e Marcos, Satanás. Quem era ele, segundo o pensamento contemporâneo dos judeus em tempo de Jesus? Era o príncipe dos demônios. Distinguem perfeitamente os autores sagrados entre príncipe e Senhor. Miguel é o príncipe dos anjos e príncipe do povo de Deus (Ap 12, 7 e Dn 12, 1). Senhor é o Deus único e seu Filho Jesus Cristo(Fp 2, 10-11) a quem foi-lhe dado todo poder.(Ef 1, 20-21). O próprio César não quis ser chamado imperator, mas príncipe do senado. Princeps de primus capiens (ocupante do primeiro lugar) era o primeiro a votar no senado em tempo da República, e em tempo do Império era o filho do Imperador. O diabo (grego), ou satanás (hebraico) era, pois um personagem real, individual, que se intitula a si mesmo como Senhor do mundo ou dos reinos da terra (Lc 4,5-6) e que João diz ser o príncipe (archon) deste mundo(16, 11) que será lançado fora, pois se aproxima o momento do julgamento do mundo, quando Jesus for elevado na cruz (como rei). Os judeus pensavam que determinadas doenças eram produto da posse demoníaca como a loucura, a epilepsia, as paralisia e até a mudez. E falavam do príncipe ou maioral dos demônios como sendo Belzebu (Lc 11, 15). Os demônios têm em grego duas palavras: daimon masculino ou feminino, que é uma divindade inferior do mundo que Platão chama de Demiurgo, em que temos os deuses, os gênios, os demônios e as almas; e daimonion, neutro, diminutivo de daimon, com o mesmo significado de ser intermédio entre deuses e homens. Para os gregos podiam ser bons, como o daimon de Sócrates ou maus como os causadores de diversas doenças. Lucas usa ambos, daimon em 8,29 ou daimonion em 4,33. Podemos, pois afirmar que ambos são equivalentes. Também, segundo o pensar da época, os demônios moravam nos lugares áridos (Lc 11,24), desérticos ou inabitados como eram as casas em ruína. Daí que o ermo era o lugar onde se encontravam de modo especial e por isso foi levado a ele Jesus para aí ser tentado. O Diabo era o chefe e especialmente no NT é considerado o inimigo frontal de Jesus e de sua obra redentora, de modo que impede o fruto da semente no coração do homem (Lc 8,12). Seu pecado é a soberba (I Tm 3,6). É o pai da mentira e dos que não aceitam a verdade(Jô 8, 44). É o semeador do joio contra a obra de Deus (Mt 13, 39). A ele estávamos sujeitos por meio do pecado e da morte que o seguiu (Rm 5,12). Escravos do pecado, somente o Filho consegue nos libertar (Jô 8, 36). É o grande dragão, a antiga serpente, chamado Diabo e Satanás (Ap 12,9) para quem foi preparado o fogo do inferno ( Mt 25,41), mas que terá um tempo de domínio sobre a terra antes de ser totalmente derrotado (Ap 12, 12 e 20, 2 e 10). O Diabo, com artigo determinado, existe. Os demônios, que geram determinadas doenças que hoje a ciência logra explicar, não existem mais; como anjos do mal, tentadores dos homens santos de modo especial, só podem atuar por permissão divina; e em raríssimas ocasiões sua influência poderá se transformar em posse demoníaca. De fato, na história eclesiástica do Brasil não temos um só caso comprovado, segundo afirma o Pe. Quevedo. Como conclusão podemos dizer que o relato de hoje é um paradigma da luta entre duas pessoas: O Logos como Jesus e o Diabo como tentador.
A TENTAÇÃO: Para Marcos o período dos quarenta dias e quarenta noites foi um tempo de tentação sem explicar quais e quantas. Para os outros dois sinópticos, as tentações foram principalmente três, sem que com isso possamos excluir outras. Uma coisa é clara: a tentação foi externa à pessoa de Jesus, tendo origem em quem será seu inimigo implacável, que, no caso, aparentemente pretende ser seu amigo. Aí está o perigo da tentação: confundir o discurso do mal com a palavra de Deus. Geralmente nós os humanos ouvimos a palavra da paixão do momento, da escolha imediata, da felicidade sem esforço, da fortuna repentina, da vida fácil, do amor egoísta. O sacrifício, a abnegação, o desprendimento, a privação, e até o esforço, o que poderíamos chamar a cruz de cada dia, são motivo de repulsa e rejeição. Mas vejamos como foram vencidas as tentações do maligno por Jesus.
O JEJUM: Como devemos entender os quarenta dias e quarenta noites de Mateus e Marcos? Os judeus, como os árabes atualmente no período do Ramadão, jejuavam de sol a sol. O jejum terminava com o dia, aproximadamente seis da tarde. Por isso os dois evangelistas acrescentam as quarenta noites. Uma outra questão é se o número 40 corresponde a um tempo matemático ou cronológico ou é um número redondo, mais ou menos prolongado, devido à falta de adjetivos indefinidos nas línguas semitas. Neste último caso facilitaríamos a exegese para manter a saúde de Jesus, sem recorrer a causas sobrenaturais. Mas é possível do ponto de vista humano um homem jejuar 40 dias de 24 horas sem ser um super-homem? A resposta é sim. Porém existem alguns fenômenos que aparecem após um determinado número de dias, especialmente uma confusão mental, que se origina por falta de alimento energético nos neurônios cerebrais. A realidade e a imaginação se confundem. E o estado do paciente é semelhante ao de brotes de esquizofrenia. O que não é possível é passar tanto tempo sem beber. Talvez a ciência moderna desse modo explique os traslados de Jesus e as visões correspondentes. Do ponto de vista bíblico, Jesus é comparado com Moisés (Ex 34, 28) e com Elias (I Rs 19,8. Ambos estiveram 40 dias em jejum. Mas os dois foram fortalecidos pela intervenção especial de Javé.
1ª TENTAÇÃO: Como mais tarde veremos, as tentações são motivadas pela frase se és filho do (Senhor) Deus. O artigo serve para indicar entre os muitos deuses o único verdadeiro. O Diabo, que vamos indicar como agente pessoal, com a maiúscula correspondente após o artigo definido, comporta uma proclamação de fé, chamando Jesus filho do (Senhor)Deus. Que significa a frase filho do Senhor Deus em lábios de Satanás? O povo de Israel, por ser escolhido, é o amado filho de Deus. Também o rei davídico é filho de Deus, pois representa o povo. Na anunciação, o anjo declara que o menino a ser concebido será filho do Altíssimo (do Elyon = Altíssimo ou Supremo). Após o batismo de Jesus no Jordão, a voz ouvida pelo Batista foi: ¨ Tu és o meu filho, o amado. Em ti encontrei agrado¨ . Ou se preferimos, ¨de ti sinto orgulho¨. Teve notícia desta epifania o Diabo? Aparentemente Satanás unia o Messias com um atributo especial de ser amado especialmente como filho por Deus. Por isso dirá Lucas que saiam muitos demônios de doentes gritando: Tu és o Cristo, o filho do (Senhor) Deus (Lc 4, 41). Provavelmente essa filiação tinha muito haver com a que Davi profetizou em Sm 2, 7: ¨ Tu és meu filho, eu, hoje te gerei¨. Essa filiação dava ao Messias uma série de qualidades distintivas como a profecia, a realeza, o sacerdócio. Como profeta, à semelhança de Elias e Eliseu teria o poder de realizar milagres. O que o Diabo pede é um milagre em proveito próprio. Jesus sabe que a petição é um desafio à sua entrega aos planos de Deus em que sua vida é dar-se e não receber. Por isso a resposta é que, segundo a palavra divina(a escritura) não só de pão vive o homem. É também uma citação de Dt 8,3: ¨ O senhor humilhou Israel e o deixou ter fome e sustentou-o com o maná para dar a entender que não só de pão há de viver o homem¨. O texto deuteronômico continua:¨Mas de tudo que procede da boca do Senhor¨. Citou Jesus a segunda parte como está em Mateus e podemos ler na Vulgata? Qual é o verdadeiro sentido da resposta de Jesus? Segundo o que temos visto através dos textos, parece que podemos deduzir que Jesus opta pela obediência às leis divinas ou naturais, que respeita, mesmo estando em grande necessidade, porque sabe que Deus proverá a essa necessidade sem a intervenção sobrenatural. Ele inaugura um novo povo de Deus em que a comida não será tão essencial como a palavra de Deus, que deve ser aceita e obedecida.
2ª) OS REINOS: Mateus diz que o levou a um monte alto. Também a Vulgata fala do monte. O grego de Lucas só fala de que o conduziu ao alto mostrando todos os reinos civilizados( da oikumene, ou seja do império), num instante de tempo. Parece que podemos identificar esta visão com uma aparência imaginária, como temos declarado acima. Mentiroso como sempre, o Diabo afirma que o poder (exousia) e a glória( doxa) desses reinos lhe pertenciam. Neste caso Satanás trata Jesus como Messias/ Rei, assim como anteriormente o reconheceu como profeta. O diabo quer tirar da obediência ao Pai e da entrega como servo o Filho, dando-lhe o que ele mesmo, como rebelde e soberbo, tinha presunçosamente almejado: o domínio absoluto do mundo dos homens. A resposta de Jesus,¨está escrito¨, é de novo a palavra da Escritura, que revela os planos divinos:¨O Senhor teu Deus temerás, a Ele (só) servirás e pelo seu nome jurarás¨. O advérbio SÓ não pertence ao texto original, mas enfatiza o vínculo com o único Senhor de Israel. Jesus se mostra obediente até a morte como dirá Paulo (Fp 2,8).
3ª) O PINÁCULO: O termo grego pterigyon, significa ângulo, de pterix que é a barbatana dos peixes. Qual era o pterigion do templo? Não existe ente os comentaristas uma idéia clara. O lugar mais alto talvez, um ângulo do mesmo quiçá. Existia entre os contemporâneos de Jesus a opinião de que o Messias devia se apresentar descendo das alturas do templo, no átrio do mesmo, diante da multidão que o aclamava. Seria este o sinal que esperavam os fariseus e saduceus em Mt 16,1 ou Lc 11, 16? Como o Diabo pede um milagre, daí que inicia seu discurso com ¨se és Filho do (Senhor) Deus¨. E reforça sua petição com um texto dos salmos( 91,12) em que o justo é declarado sob proteção especial : ¨Pois disseste: O Senhor é o meu refúgio; fizeste do Altíssimo a tua morada, nenhum mal te sucederá; praga nenhuma chegará à tua tenda. Porque a seus anjos dará ordens a teu respeito, para que te guardem em todos os teus caminhos. Eles te sustentarão nas suas mãos para não tropeçares nalguma pedra¨. O maligno interpreta este texto para argumentar uma confiança temerária na providência divina, para interpretar de modo atrevido e arriscado a vontade de Deus. A resposta de Jesus é descobrir a verdadeira vontade de Deus que está em não querer fazer fatos extraordinários quando a vida deve ser vivida de forma comum.O resto é tentar o Senhor como fizeram em Massá os israelitas segundo Dt 6, 16. A tentação era ante a dificuldade de achar água, pensar: está o Senhor conosco ou não está? Significaria: devemos confiar nele ou permitirmos outro deus para nós? No nosso caso a tentação consistiria em obrigar o Senhor a realizar a um ato extraordinário e tremendamente temerário. Era obrigar o Senhor a realiza-lo sem causa nenhuma justificável. Vencido e derrotado, o Diabo se afastou de Jesus até nova oportunidade. Mateus, que traz as mesmas tentações, troca a ordem da 2ª e 3ª tentações, sem modificar a essência das mesmas.
CONCLUSÕES e PISTAS: 1) É um pouco estranho esta referência às tentações de Jesus, visto que aparentemente nada aportam à mensagem evangélica. Nada disso: as respostas de Jesus são respostas à pergunta de muitos judeus e contemporâneos sobre o uso do milagre pelo Filho de Deus todo-poderoso. Como tendo em suas mãos o poder divino só o usou para curar doenças e aplacar fomes alheias? Por que, sendo Filho de Deus não desceu da cruz e esmagou seus inimigos(Mt 27, 40)? Como é possível que podendo com um sinal estupendo reduzir oposições e mostrar com total evidência a sua relevância, não o fizesse (Lc 11, 16)?A resposta a estas questões está nas palavras com as quais Jesus rejeita as tentações. Devemos estudá-las com atenção. 2) Já que também nós, em determinadas circunstâncias, tentamos o Senhor: por que a mim, por que tenho eu de ser sujeito de determinada desgraça e infelicidade? Será que tenho que mudar de Senhor?.- 3) Passando do sujeito individual ao coletivo: por que tantas guerras, por que tanto mal no mundo? Deus que pode tudo, por que permite que os bons sejam os mais vulneráveis e os maus os mais seguros e felizes em suas vidas atuais? A resposta seria, sem dúvida. a que nos deu Jesus: Deus ama também seus inimigos- .4)Uma pergunta óbvia: Os traslados, a presença do Diabo foram reais ou foram fatos imaginários? Cremos ter dado a resposta: o jejum prolongado transforma em realidade o que podemos chamar sonho ou imaginação.
EXEMPLO: Muitos anos atrás, pois ainda estava vivo o famoso médium Zé Arigó, que encarnava o Dr Fritz, um dos meus alunos ficou gravemente doente. Possivelmente era câncer com metástase já instaurada e, portanto em estado terminal. Os médicos falaram em inutilidade de remédios e medicamentos. A família queria chamar o famoso médium ou visitá-lo como última instância para alcançar a cura. Quem se opôs definitivamente foi o próprio doente, dizendo: ou Deus me cura por meio de seus santos, ou não quero a cura de um representante do demônio. Diante de tantos católicos que recorrem hoje em dia aos médiuns e curandeiros que chamam espiritualistas o exemplo de meu aluno que preferiu a morte antes de evocar espíritos anticristãos é realmente exemplar e nos mostra o quanto é paradigmática a conduta de Jesus com suas tentações em nossos dias.