(Pe. Ignácio dos padres escolápios)
Os três sinópticos relatam, com pequenas variantes, o que podemos afirmar ser a apresentação do verdadeiro Jesus ao trio especialmente escolhido como testemunho. Dos relatos, tomando os detalhes mais significativos, procuraremos fazer um compêndio o mais fidedigno possível, ao mesmo tempo que intentaremos descobrir intenções catequéticas e deduzir pareneticamente as lógicas consequências para o nosso tempo atual. Não podemos esquecer que os detalhes são tão importantes quanto o esqueleto da redação.
OITO DIAS: Segundo os outros dois evangelistas, foram seis. Mas o importante, à parte esta pequena diferença, é que o sucesso deu-se imediatamente após um pequeno discurso de Jesus proibindo que declarassem seu título de Messias, profetizando seu fim inglório, os avisos sobre a necessidade da renúncia e finalmente o anúncio de que o Reino seria visto por alguns deles antes da morte dos mesmos. Esta última afirmação é a que será confirmada por esses discípulos escolhidos e precisamente poucos dias após o anúncio efetuado. Isso nos dá pé para explicar o trecho de hoje com uma certeza indiscutível.
O MONTE: Contrariamente ao que ordenavam a lei e o costume judaico, Jesus sobe ao cume de um monte alto. Não era para sacrificar, mas para estar a sós, já que essa região era como se fosse proibida e não se esperava que a multidão estivesse lá. Era o medo aos BAMÁ, os lugares cúlticos nos cumes dos montes.como em 1 Samuel 9, 13 em que os setenta retêm a palavra BAMÁ, onde se celebravam os banquetes rituais após os sacrifícios. Eram lugares, onde a deusa feminina da fertilidade, Asherá, estava representada por um poste de madeira e a divindade masculina ou Matsebá por uma ou duas colunas que a simbolizavam (2Rs 3,2), à semelhança dos totens indígenas. Em Levítico 26, 30, Deus diz: ¨Destruirei seus bamá¨. Antes da monarquia os lugares altos eram lugares de culto a Javé, como vemos em Samuel no lugar antes citado. Depois da construção do templo por Salomão, os lugares altos representavam o envolvimento pecaminoso em cultos pagãos. Salomão construiu lugares altos para agradar suas mulheres(1Rs 11,7), que só 300 anos depois, na época de Josias, foram destruídos(2Rs cap 23). Jeremias ( Jr 19, 5) afirmará que as Bamá, que nos seus dias eram lugares de sacrifícios humanos, constituíram parte da razão da catástrofe de Jerusalém ao ser conquistada por Nabucodonosor em 586 aC. Os samaritanos adoravam no monte Garizim (Jô 4, 20). Jesus, que repudiou o uso mercantil do templo, acostumava orar no alto das montanhas (Mt 5, 1).
A ORAÇÃO: como era seu costume Jesus passa grande parte da noite em oração. A oração é o ato mais puro e profundo da adoração que um crente pode oferecer a seu Deus. Jesus, quando tinha um assunto grave, subia à montanha para orar e passava a noite em oração(Lc 6, 12). O acontecimento, do qual os discípulos foram testemunhas, foi uma explicitação do que passava dentro de Jesus. A sua intimidade com a lei (Moisés) e com as palavras dos profetas(Elias). A intenção primeira de Jesus foi a de orar e mostrar seus discípulos como a oração é primária na vida de um seguidor seu. Logo, quando orava, temos a esplendorosa epifania da qual eles foram testemunhas.
A TRANSFIGURAÇÃO: Marcos fala de metamorfose, transformação ou transfiguração. Dá-se muito geralmente entre os insetos desde o ovo até larvas e finalmente o inseto adulto. Lucas evita a palavra metamorfose devido a que entre os greco-romanos era uma palavra que descrevia certos mitos pagãos e fala de como se alterou o rosto e de que suas vestes se tornaram brancas e brilhantes. O fato de que seu rosto fosse outro indica que houve algo mais que um resplendor e dá ocasião a explicar como os discípulos não distinguiam a figura de Jesus ressuscitado. Mateus fala de que sua face brilhava como o sol e que suas vestes eram brancas como a luz, que a vulgata traduz como a neve. Marcos diz que suas vestes se tornaram tão brilhantes e brancas que jamais na terra um pisoeiro poderia purificar. O pisão era uma máquina para operar, mediante a percussão, a apertura e limpeza dos copos de algodão. As traduções falam de lavadeiro ou tintureiro. As descrições feitas pelos diversos videntes na história da Igreja confirmam estas descrições. Os videntes falam da luz como o componente substancial de suas visões. De fato alguns comentaristas afirmam que estas descrições de luz são uma referência ao relâmpago, elemento da cenografia apocalíptica, como em Dn 10, 6. Mas o que viram os apóstolos era uma coisa diferente da visão em Fátima. Jesus era uma realidade física que nesse momento estava transfigurado. De Moisés e Elias não poderíamos dizer a mesma coisa. Além de ser uma garantia para o ensinamento de Jesus, eles são testemunhas de que os mortos no Senhor vivem, ou seja, da persistência da vida além tumba.
MOISÉS E ELIAS: Eram os dois homens que conversavam com Jesus. Para Marcos foi visto por eles Elias com Moisés. Para Mateus Moisés com Elias. Como conheceram os apóstolos que eram semelhantes personagens? Não existiam como hoje desenhos ou pinturas com as quais poderiam identificar os mesmos. Por isso, escutaram seus nomes durante a conversa, ou talvez existiu alguma extrapolação a posteriori para delimitar a companhia de Jesus nesse momento. Sabemos que Moisés podia ser reconhecido pelo brilho de seu rosto, que na figuração cristã aparece como dois chifres de luz e que Elias era o profeta vestido como o Batista. Mas tanto um como outro não poderiam ser identificados unicamente por esses sinais, porque também estavam em majestade (em glória) segundo Lucas, ou seja, deslumbrantes de luz. Ambos, segundo a tradição deviam voltar nos tempos do Messias. De Elias temos o testemunho de Lc 1, 17 sobre o Batista: caminhará com o espírito e o poder de Elias; ou Jo 1, 21:és tu Elias? Perguntam ao Batista. De Moisés temos as palavras do Dt 18,18: um profeta como tu suscitarei do meio de teus irmãos. Em I Mc 15, 41 os judeus nomearam Simão chefe e supremo sacerdote, até que se erguesse um profeta fiel. Por isso também João, o Batista, é interrogado se ele era o Profeta(Jo 1,21). Moisés era o representante da lei e Elias era o profeta por excelência, que instaurou a lei nos tempos de Acab (I Rs cap 18). A Escritura, ou, como hoje falamos, a Bíblia, era denominada em tempos de Jesus por Lei e Profetas ou Moisés e profetas (Lc 16,29 ou 24, 27). Isso significa que a palavra de Deus reafirmava tudo o que era conversado. Eles foram vistos em glória ou majestade como alguns preferem traduzir a DOXA grega, ou seja, deslumbrantes de luz. Luz que é imagem do relâmpago que precede a presença divina, porque era a realidade da abertura dos céus, acompanhada pelo trovão, a voz do Senhor (Sl 29,2-3) como apareceu no batismo de Jesus(Mc 1, 10). Deus é luz(I Jo 1, 5) e é na sua luz que vemos a luz(Sl 36, 10). O fato é confirmado pelas visões modernas em Lourdes e Fátima, entre outras aparições recentes.
A CONVERSA: A conversa era sobre o êxito de Jesus que estava a ser realizado em Jerusalém. Evidentemente era sobre a paixão e morte de Jesus e até sobre a sua ressurreição, talvez abrangendo também sua ascensão aos céus. Todos estes eram fenômenos que estavam a acontecer em próximas datas em Jerusalém. De todos os modos o que não podia faltar era a morte de Jesus em Jerusalém como convinha a um verdadeiro profeta que anunciava os planos do Senhor, contrários aos planos dos homens (Lc 13, 33). Essa matéria constituía uma das preocupações mais sérias de Jesus, até o ponto de repetir três vezes a predição e de se sentir angustiado pela proximidade dos sofrimentos que a acompanhavam (Jô 12, 27).
AS TENDAS: Os três apóstolos estavam com sono pesado. Dormiam. E foi ao despertar(32) como nos diz Lucas que viram a glória de Jesus ( sua majestade segundo a vulgata) e os dois homens que estavam com ele. Os outros dois evangelistas omitem estas circunstâncias. Foi ao se afastar de Jesus os dois acompanhantes, que Pedro indicou a conveniência das três tendas ou cabanas(33). As tendas eram o único lugar de acomodação que os israelitas tinham durante os sete dias da grande festa das skenopégia ou Sukoth. Eram verdadeiros carnavais religiosos em que a alegria e a felicidade triunfavam sobre qualquer outro sentimento ou sensação. Pedro usa a palavra Epistates (Praeceptor em latim e traduzida por Mestre em vernáculo; é o Master inglês)) sendo que Marcos conserva o original Rabbi e Mateus traduz por Kyrie (Senhor) que Lucas usará também em outras circunstâncias como 5, 8. Parece que Pedro queria aproveitar o momento sem se dar conta do que estava pedindo, pois acabava de acordar. E foi nesse instante que apareceu a nuvem.
A NUVEM: Segundo o grego a palavra usada é NEFELE. Também temos NEFOS, esta última como palavra geral (nuvens diríamos em português) e nefele como massa limitada, uma nuvem bem formada com contornos definidos. Em hebraico temos AB de Ex 19,19 que os setenta traduzem por coluna de nuvem e que no hebraico é nuvem caliginosa como na vulgata latina é a nuvem que serve de estrado quando o Senhor vem julgar seus inimigos( Is 19 1)cavalgando numa nuvem ligeira ou finalmente como em Mt 24, 30 o Filho do Homem sobre as nuvens do céu. Existe uma outra palavra, ANAN, usada para a coluna de nuvem de Ex 13, 21. Esta palavra sai 80 vezes no AT, indicando em 75 delas a presença de Javé no tabernáculo. É a nuvem que pousará sobre o templo em I Rs 8, 10-11, manifestando a glória de Javé. Essa nuvem era escura durante o dia para se transformar em nuvem de fogo à noite. A nossa nuvem, segundo Mateus, era brilhante (não podemos esquecer que era noite) e uma manifestação da presença divina em glória ou majestade. Por isso os discípulos tiveram medo ao serem envolvidos pela mesma. Era a manifestação de Javé; e sua presença era sentença de morte para quem o visse, tal e como os judeus temiam em Ex 20, 19. É o temor que se apodera de todo humano quando o sobrenatural é sentido como sensação sensível e presente. Isso mesmo vemos nos relatos dos videntes em aparições que são de paz como as que tiveram os pastores em Belém ou Maria com o anjo.
A VOZ: Evidentemente era a voz de Deus, como no Sinai que se fazia ouvir da nuvem, assim como a glória do Senhor se manifestava nela (Ex 16, 19 e 19, 16). Em II Pd 1, 17 a voz é a de Deus Pai e dele procede o som que proclama duas coisas: 1º)A filiação divina de Jesus como o amado (Mt e Mc) ou como o escolhido (alguns manuscritos gregos de Lc). Qual a diferença? Escolhido indica uma direção messiânica e amado aponta a uma filiação única porque o superlativo não existe em hebraico. O grego ressalta esse adjetivo que se transforma em atributo, especialmente por ser precedido do artigo definido que transforma o simples amado em aposição pessoal ¨o amado¨. O sentido seria o meu filho primogênito ou único. Ambos eram especialmente objeto de um amor de escolha especial. Como o substantivo empregado em grego é Huiós, devemos descartar a tradução de servo, que em grego seria Pais. É a mesma voz que no batismo de Jesus o representa como o meu filho, o amado. Pedro, na segunda de suas cartas, nos diz ter sido testemunha da majestade do Senhor Jesus Cristo ao ter recebido este a glória e honra da parte de Deus Pai, quando da excelsa glória(= nuvem) fez chegar esta voz: Este é meu Filho, o amado, em quem comprazido me orgulho. 2º) O mandato de escutá-lo como antigamente se escutou Moisés ou a voz de Elias como a voz de Deus em cujo nome falavam. Por isso desaparecem tanto Moisés como Elias e fica Jesus sozinho. Ele é a vontade do Pai e representa os planos da grande obra salvífica que está prestes a revelar no seu êxodo em Jerusalém.
PISTAS: 1) Oito dias antes, Pedro, a voz do discípulo, iluminado pela fé, aclama Jesus como Messias. Agora é o Pai que ilumina os discípulos: Jesus é o Filho, o primogênito entre muitos irmãos conformes à sua imagem, dirá Paulo(Rm 8, 29).Por isso a vitória da transfiguração ilumina o fracasso da cruz. 2) O Pai deixa nas mãos de Jesus o novo Reino que se mostra independente da tradição e dos profetas.O Pai oferece o Reino ao Filho porque o Filho oferece a vida ao Pai incondicionalmente. Esse reino é visto em seu esplendor pelas testemunhas escolhidas. 3) Jesus formando uma única pessoa a do Verbo, é o escolhido para que a divindade e a humanidade coincidam, unindo-se numa única e distinta individualidade ou sujeito. Porém é sua humanidade, escolhida como filho, a que nós temos visto e ouvido como presença de Deus definitiva e última na história e a ela devemos seguir e obedecer: escutai-o – diz como mandato único a voz de Deus no monte da revelação. 4) A humanidade de Deus, revestida de humildade em Jesus, se reveste da glória e majestade de Deus no Tabor (monte onde a tradição afirma deu-se a transfiguração). A humanidade revestida de humildade será a base da redenção na cruz, mas objeto da contemplação orgulhosa do Pai e por isso exaltada onde nós vemos o fracasso e abatimento, pois é fruto de uma obediência até a morte e morte de cruz( Fp 2,8). Seu êxodo foi, pois o orgulho do Pai e a exaltação do Verbo em Jesus-homem, e como tal homem seu nome de Jesus(salvador) dominará todo o mundo criado. 5) Ao estar só o homem-Jesus é revelado como a realidade definitiva (a verdade) da presença de Deus na terra. Escutar sua voz é ouvir a realidade do Criador e sentir a presença do Salvador.
EXEMPLO:
Como exemplo de oração temos o seguinte relato, que se não
é verdadeiro pelo menos é belo e ilustrativo. Durante a guerra
mundial Londres foi terrivelmente bombardeada. Numa rua dos subúrbios
havia três casas quase juntas e só separadas pelos respectivos
quintais. Numa delas morava uma mulher protestante. Todos os dias fazia
a seguinte oração: Senhor que as bombas poupem minha casa,
pois tu sabes bem que eu sou religiosa e leio tua palavra todos os dias.
Que as bombas caiam na casa da minha vizinha que canta e dança e
não parece fazer uso de tua palavra. Na segunda moradia uma mulher
católica rezava: Senhor, tu sabes que eu pertenço à
herança de teus apóstolos, que mantenho a fé verdadeira.
Peço-te pelo amor de teu Filho e a misericórdia de tua Mãe
que poupes minha casa. Que a bomba que vai cair tenha como alvo a minha
vizinha que tanto importuna com suas crenças erradas. No meio das
duas casas morava numa espécie de favela um velho solitário
que também rezava: Ninguém vai chorar por mim. Tenho pouco
que desfrutar da vida. Peço-te senhor que a bomba que está
para cair numa das duas casas caia na minha. Assim as duas famílias
terão suas casas protegidas. Chegou a hora do bombardeio. Ambas vizinhas
se refugiaram nos abrigos. O velho ficou na sua casa. O bombardeio foi atroz.
Ao acabar as duas vizinhas viram suas casas destruídas mas a do velho
intocada. Deus agiu justamente, ou foi um tremendo azar da casualidade ou
da ironia da vida?