(Pe. Ignácio dos padres escolápios)
AMBIENTE: Jesus está na Galiléia e a notícia chega até ele por lábios hostis de fariseus provavelmente, como sempre para tenta-lo. Pilatos tinha degolado alguns galileus no templo. Anunciam que seu sangue se misturara com o sangue dos seus sacrifícios. Tomada a frase ao pé da letra significa que os soldados da polícia de Pilatos teriam entrado até o pátio dos sacerdotes onde entravam os que sacrificavam animais para compartir com os dignatários levíticos o sacrifício pacífico. Parece improvável que os policiais estivessem vestidos como simples judeus. Por outra parte a frase misturar sangue com sangue é própria do idioma hebraico, de modo que não necessariamente significava ser morto no exato momento da degolação das vítimas do sacrifício. Podemos interpretá-la como sendo mortos dentro do recinto do templo e até dentro de Jerusalém quando estavam ali por motivo dos rituais de sacrifício a serem feitos no templo. A razão desta reflexão é que o fato não é contado por nenhum outro evangelista ou historiador da época. Não sabemos tampouco o número dos mortos e se não era grande não mereceria uma linha nos relatos contemporâneos. Sabemos que os galiléus admiravam e até seguiam Judas o Gaulonita ou Judas o Galileu do qual fazem menção os Atos 5, 37. Ocupou Séforis ( Seppori segundo os rabinos = o pássaro), a capital da alta Galiléia. Era uma das cinco capitais de província que tinha seu sinédrio particular. No ano 3 dC foi conquistada por Judas e seus seguidores, mas reconquistada por Aretas, rei de Petra e aliado de Roma, que a destruiu completamente e vendeu seus habitantes como escravos. Por que notificar o sucesso a Jesus? Seguramente que seria o comentário do dia, como hoje dizemos. Mas a razão principal era saber a opinião política do momento de Jesus: condenaria Pilatos e assim enfrentaria os romanos, aliando-se aos zelotas galiléus, como esperavam seus conterrâneos? Ou pelo contrário viria na morte dos exaltados um castigo pelos pecados devidos à sua conduta violenta e revolucionária? Algo disso parece que podemos deduzir das palavras que precedem à perícope de hoje:apresentaram-se alguns naquele preciso momento (tradução literal), anunciando-lhe o caso sobre alguns galileus
A TORRE DE SILOÉ: A arqueologia descobriu restos de uma torre na parte norte oriental perto do lugar onde estava a piscina de Siloé (Jo, 9,7) e a chamada primeira muralha. Não temos nenhuma outra fonte de informação sobre este calamitoso sucesso. Se no caso anterior foi uma decisão humana a causa da morte, neste último caso foi um sucesso natural, não imputável diretamente a mandatos e determinações humanas. O número de vítimas neste caso parece maior e eram praticamente habitantes todos eles de Jerusalém.
A RESPOSTA: Jesus faz uma reflexão que podemos chamar filosófico-religiosa e universal dessas calamidades: os galileus assim tratados pela severa justiça romana não eram os mais culpados ou pecadores entre os galileus para sofrer semelhante castigo. Esperavam seus interlocutores uma resposta política de condenação do poder romano por sua crueldade, o que Jesus não fez. Pelo contrário, ele acrescentou um novo caso de morte como era o da torre e sobre o qual não tinham pedido sua opinião. Tudo para oferecer uma reflexão sobre o bem e o mal e sobre o castigo pela conduta errada dos assim atingidos pelo funesto acontecimento. A morte, mesmo violenta, não tem como causa última a conduta humana pecaminosa. Esta é a primeira conclusão da resposta de Jesus. Ou seja, os maus nem sempre são punidos imediatamente. A espera é uma das características da bondade divina que podemos chamar de misericórdia. O texto grego usa uma forma incorreta de comparativo tomado diretamente da idiossincrasia semita: Pensais que esses mortos eram pecadores perto de (literalmente) todos os galileus? Do mesmo modo usa essa forma de comparativo com os soterrados pela torre: Pensais que esses se tornaram devedores(sic no ofeileitai grego) em relação a todos os habitantes de Jerusalém? A palavra devedores indica também um texto original semítico pois devedor nessa língua era sinônimo de pecador, tal como o vemos no Pai nosso de Mateus em seu original: perdoa nossas dívidas assim como nós perdoamos nossos devedores(Mt 6,12). Os judeus tinham como coisa certa que os justos(= corretos) eram abençoados por Deus neste mundo e os pecadores castigados com diversas doenças e enfermidades, entre elas a morte, segundo vemos em Jo 9,2 a respeito do cego de nascença. Esta é a base sobre a qual Jesus edifica sua doutrina. 1º ) Os que sofrem calamidades não são mais culpados do que aqueles que aparentemente estão livres das mesmas. Portanto a doença e a morte não são necessariamente produto do pecado individual ou coletivo. 2º) A necessidade do arrependimento: os dois casos de infortúnio são exemplo do que acontecerá necessariamente a todos os que não se arrependem.
UMA EXPLICAÇÃO: A que pessoas se refere Jesus ao dizer que todos perecerão da mesma maneira? Eram os contemporâneos de Jesus ou somos também nós, os incluídos? Logicamente Jesus fala a seus conterrâneos que são galileus e seus contemporâneos que são os judeus, especialmente de Jerusalém. Cremos que nessas palavras de Jesus está implícita uma profecia sobre o que aconteceria na Palestina e em Jerusalém na guerra contra os romanos. Somente em Jerusalém mais de 300 mil judeus pereceram no sítio da cidade. E praticamente os que não morreram foram vendidos como escravos. Por isso o arrependimento está na linha do que o Batista pedia com sua proclama: Arrependei-vos porque o reino dos céus está próximo ( Mt 3, 2). Ou como Lucas narra, proclamando um batismo de arrependimento para a remissão dos pecados (Lc 3,3). Por isso Jesus adiciona uma parábola em que explica o que iria acontecer em futuras e próximas datas.
A PARÁBOLA: Era costume plantar figueiras nos vinhedos, sem que isso fosse contrário à lei deutoronômica (22,9): Não semearás a tua vinha com duas espécies de semente, para que não degenere o fruto da semente que semeaste e a messe da vinha. Os rabinos afirmavam que as figueiras não eram sementes e que a lei não se referia a semelhantes árvores, de modo que era comum encontrar tanto figueiras como oliveiras dentro dos campos de videiras. Por outra parte uma figueira precisava de três anos par dar os primeiros frutos. Daí a espera pedida pelo viticultor para ver se no quarto ano ela oferecia o fruto esperado. Caso isso não acontecesse podia ser cortada como pedia o dono. Evidentemente a figueira era o povo de Israel. O podador (ampelourgos grego), ou vinhateiro, pede mais um ano. Ele sabia como é difícil seguir ao pé da letra os ciclos vitais e pede mais um ano para ver se a figueira era definitivamente estéril ou não. Caso a esterilidade fosse confirmada, concordava com o dono em que não podia ocupar um lugar inútil pelo improdutivo do mesmo, quando com outra semente daria o fruto esperado.
EXPLICAÇÃO: A pequena comparação é uma parábola ou uma alegoria? Cremos que alguns dos elementos são verdadeiramente alegóricos e que não devemos contentar-nos com a simples moral da estória A parábola está unida à destruição de todos: da mesma forma perecereis¨(5). É uma profecia ou uma realidade que serve para todos os homens e todas as épocas? Cremos que a primeira opção é a verdadeira. Independentemente de quem seja o podador ou cuidador da vinha, esta é a última oportunidade que Israel tem para aceitar o Messias de paz a ele enviado e que os representantes do povo rejeitarão. Conseqüentemente, aferrados a um messias guerreiro e rejeitando a paz do verdadeiro, eles cavarão a sua ruína perante o poder romano, que os arrancará da terra num desterro que durará dois mil anos. Perecerão do mesmo modo que os galileus; e as torres da muralha de Jerusalém cairão sobre seus habitantes, como aconteceu na realidade. A penitência exigida é a transformação do modo de pensar, e, portanto de agir, respeito ao problema principal que era o Messias esperado. Os cristãos que acreditaram nas palavras de Jesus, fugiram em tempo e evitaram a fome e a morte que acompanhou a maioria dos judeus.
PISTAS: 1) Podemos desses casos particulares extrapolar o nosso pensamento sobre o problema do mal no mundo. As guerras, a violência, os nacionalismos extremos, a miséria, o trânsito, as drogas são causa de morte de muitos que logicamente não são culpáveis como são mulheres e crianças de modo especial. Haverá culpados evidentemente. Mas mesmo os últimos merecem uma sorte tão definitiva como é a perda da vida sem retorno? Que dizer da pena de morte? Há alguém que possa se arrogar o direito de matar, mesmo a quem é culpado do mesmo crime? São questões que o mundo moderno responde negativamente. 2) E que dizer dos abortamentos voluntários? É ou não é uma vida humana? Porque a interrupção do embaraço, como eufemisticamente falam os que sentem vergonha em nomear claramente o aborto voluntário, é sobre algo ou alguém completamente inocente. Se é alguém é uma vida humana e os que defendem a injustiça da pena de morte deveriam defender a injustiça do abortamento. E se é algo unicamente, uma coisa, quando é que essa coisa se transforma em ser humano? Se a resposta é não sabemos, como diante de semelhante ignorância nos atrevemos a dizer que ainda não é? E, portanto, tampouco se pode aplicar a dúvida de que talvez não seja, porque pode ser. Há algum caçador que se atreva, sem saber com certeza, se o que se move atrás da mota é um animal ou um colega a atirar porque não distingue com clareza o objeto na sua frente? E caso o morto seja um colega, poderá servir-se dessa incerteza como causa suficiente para justificar o homicídio culposo perante um juiz ou um jurado? Precisamente hoje que até os agnósticos e ateus estão a favor da defesa da vida, infelizmente são 50 milhões de vidas incipientes(nisso pelo menos todos concordam) descartadas no mundo inteiro, o que, em determinados paises de envelhecimento coletivo, se tornaria um desperdício e seria uma loucura social livrar-se de quem poderia renovar a juventude e a vida. 3) Deus está ausente de atos diretos como castigo a pecadores porque também os justos entrariam dentro do programa. Ele prefere que a chuva e o sol beneficiem a todos por igual. Falar em castigo, é não entender o maior atributo divino referente às relações com os homens: a misericórdia, que quer que todos se arrependam e sejam salvos; porque o Filho do homem veio procurar e salvar o que estava perdido(Lc 19, 11). Paulo dá uma razão para o aparente castigo: Entreguemos tal homem a Satanás para a perda de sua carne a fim de que o espírito seja salvo no dia do Senhor.
EXEMPLO: Eis uma estória recebida por internet de um amigo e intitulada: A Estrelinha. No céu noturno brilhavam milhares de estrelas: brancas, prateadas, verdes, douradas, vermelhas e azuis. Um dia procuraram Deus e lhe disseram: -Senhor, gostaríamos de viver na Terra entre os homens.
-Assim será feito – respondeu o Senhor. Conservarei todas vocês pequenas, como são vistas e podem descer para a Terra.
Conta-se que naquela noite houve uma linda chuva de estrelas. Algumas se aninharam nas torres das igrejas. Outras foram brincar de correr com os vagalumes nos campos, outras se misturaram aos brinquedos das crianças e a Terra ficou maravilhosamente iluminada. Porém, passado um tempo, as estrelas resolveram abandonar os homens e voltar para o céu deixando a Terra escura e triste.
-Por que voltaram?- Perguntou Deus a medida que elas chegavam ao céu.
-Senhor, não nos foi possível permanecer na Terra. Lá existe muita miséria e violência, muita maldade e injustiça.
E o Senhor lhes disse: Claro! O lugar de vocês é aqui no céu. A Terra é o lugar transitório daquilo que passa, daquilo que erra, nada é perfeito, O céu é o lugar da perfeição, do imutável, do eterno onde nada perece.
Depois que chegaram todas as estrelas e conferido seu número Deus falou de novo: Mas está faltando uma estrela. Perdeu-se no caminho?
Um anjo que estava perto retrucou: Não, Senhor. Uma estrela resolveu ficar entre os homens. Ela descobriu que o seu lugar é exatamente onde as coisa não vão bem, onde há luta e dor.
-Mas que estrela é essa? – Voltou Deus a perguntar.
- É a esperança, Senhor. A estrela verde, a única estrela dessa cor.
E quando olharam para a Terra a estrela não estava só. A Terra estava novamente iluminada porque havia uma estrela verde no coração de cada pessoa. Porque o único sentimento que o homem tem e Deus não tem é a esperança. Deus já conhece o futuro e a esperança é própria da pessoa humana, própria daquele que erra, daquele que não é perfeito, daquele que não sabe como será o futuro.
Receba neste momento esta estrelinha em seu coração, a ESPERANÇA, a sua estrela verde. Não deixe que ela fuja nem se apague.Tenha certeza que ela iluminará seu caminho. Seja feliz.