(Pe
Ignácio dos padres escolápios)
INTRODUÇÃO: A parábola é conhecida como a do filho pródigo. Porém ela é uma resposta a uma crítica desapiedada por parte dos fariseus e doutores da lei (grammateus, na linguagem comum um escriturário, na linguagem bíblica um douto na lei). Por que Jesus recebe os gentios (amartolos) e come com eles? Temos traduzido amartolos (=pecador) por gentios. Autores evangélicos traduzem por descridos. Nisso vemos duas coisas importantes: 1ª, Que amartolos, sendo um nome não pode ser traduzido por pecador, um adjetivo como é no caso de Pedro ao se declarar ¨Homem Pecador¨,(=aner amartolos eimi em Lc 5, 8). 2ª, Que os evangelistas identificam o nome amartolos, ou em plural amartoloi, com os gentios como vemos em Lc 27, 4 quando Jesus declara que será entregue nas mãos dos pecadores o que é confirmado por Mt 26, 45 e Mc 14, 41. Vamos acrescentar mais um dado final: Paulo falando de si mesmo dirá aos gálatas: Nós somos por natureza judeus e não pecadores dos gentios(Gl 2,15). De fato, os doutores não criticam Jesus por estar com publicanos, que eram os máximos pecadores entre os judeus; mas por tratar e especialmente comer com os gentios ou pagãos, fato que a Mishnã proibia. O amartolos não era pois o Hattá do AT que sai 18 vezes e significava um pecador contumaz que é sujeito a castigo por causa de suas práticas (Nm 32, 14); mas era o Harel, o incircunciso. No NT a palavra incircunciso sai pela primeira vez em At 11, em sentido próprio. Pedro tinha entrado na casa de Cornélio, o centurião, e foi censurado, ¨pois entraste na casa de homens que tem prepúcio e comeste com eles¨. Em sentido figurado, o encontramos em At 7, 51, quando Estêvão recrimina os membros do Grande Sinédrio de Jerusalém e os chama de incircuncisos de coração e ouvidos. Paulo fala da circuncisão (peritomé) como condição que alguns punham para entrar no cristianismo, e da incircuncisão (akrobystia). Como amostra temos Ef 2,11: ¨Acordai-vos que vós éreis antes as nações na carne, os chamados prepúcio por aqueles que se intitulavam circuncisão na carne, por mãos humanas¨. Estas palavras (peritomé e akrobystia) não saem nos evangelhos. Só a palavra éthnos (=raça, povo) e em plural ta éthne significando as nações fora do judaísmo. Daí que nos vejamos inclinados a traduzir amartolos por pagão ou idólatra. Assim entenderemos melhor a acerba crítica dos fariseus e doutores contra Jesus por comer com pagãos.
OS GENTIOS: A razão de se separar dos gentios ou idólatras, era dupla: evitar qualquer culto idolátrico e desviar-se de impurezas no trato com os mesmos. 1º) Do primeiro caso temos a proibição de vinho, vinagre de vinho, vasos de barro, especialmente os chamados de Adriano, e peles com buraco no coração. Os alimentos salgados em sal, e os queijos, especialmente da Bitínia também eram proibidos segundo a Mishnã, no tratado de Aborá Sadá (idolatria). As razões eram as libações sagradas, às quais os vinhos eram submetidos. Para se ter uma idéia, também os judeus tinham suas libações em que o vinho era oferecido, agitando-o em cruz sobre o altar, primeiro na horizontal e logo na vertical. O vinagre, que antes era vinho, tinha logicamente sido oferecido aos deuses ou penates dentro das próprias casas. Os vasos de barro porque estes podiam ser contaminados pelos líquidos, e estava determinado que fossem quebrados, o que logicamente não faziam os gentios. Já se fossem de pedra isso não acontecia, e por isso as vasilhas para a purificação eram de pedra(Jo 2,6). Os vasos de Adriano, derivados deste imperador por talvez terem seu nome e sua imagem. Peles com buraco no coração porque eram produtos de um sacrifício em que o coração era retirado antes de morrer o animal. E os queijos, porque acostumavam usar leite coalhado de animais mortos. Também nas casas dos gentios se encontravam deuses penates como mínimo, o que proibia a entrada para um judeu como no caso das asherás, árvores em cuja base estava o ídolo correspondente, impedindo de se assentar na sua sombra. 2º) No segundo caso temos as impurezas. As casas dos gentios eram impuras. Quanto tempo deve ter habitado o gentio para ser necessária a prescrição? Quarenta dias (indica uma relação com o fluxo menstral). As mais importantes entre as impurezas eram as procedentes de mortos e de sangue ou ejaculações como blenorragia ou simples masturbação. Logo são os alimentos. Dentre as primeiras temos a regra das mulheres, que se eram gentias não observavam os períodos de menstruação. O pus dos doentes e os esputos também entravam entre os materiais que acarretavam impurezas, de modo que, como exemplo, citamos a proibição de transitar por uma rua em que houvesse mulheres imbecis (que não entendiam a impureza de sua saliva no tempo de menstrução), samaritanas ou pagãs. Todos os esputos na cidade serão impuros (toharoth). Se considerava uma casa impura quando entrava nela um publicano, um gentil ou uma mulher(esta por causa da menstruação). Os alimentos: Sabemos como determinados alimentos eram também impuros como era a carne de porco. RESULTADO: Os fariseus tinham razão ao criticar Jesus, pois segundo a Mishnã era praticamente uma imoralidade semelhante trato com os gentios.
DEFESA: Jesus conta uma série de parábolas para indicar que sua conduta não está determinada por leis saídas de uma tradição humana (Mt 15, 6), mas pelo mais elementar procedimento que segue à lei natural das coisas. Será a ovelha ou a moeda perdidas, e agora a conduta do pai que tem dois filhos. Nos três casos Jesus entra como figura simbólica que encontra o que estava aparentemente e irremediavelmente perdido e em cuja busca se empenha até conseguir de novo o extraviado. A alegria do encontro supera as dificuldades da busca e é razão suficiente para a exultação do momento(15, 32).
OS DOIS FILHOS: Consideramos as circunstâncias que acompanham a saída do filho menor como forma literária e não fundo alegórico, embora tenha uma base verdadeira na vida real. O motivo é porque a liberdade, o desejo de viver sem preocupações e com o máximo de desfrute é próprio dos mais novos e as despesas com os vícios de ostentação e luxúria facilmente dilapidam fortuna. Essas coisas não são objeto direto da parábola. A fome e o pastoreio dos porcos servem para destacar o infortúnio do filho rebelde. Jesus salientará a perda do filho como morto, diante do irmão e a nova vida quando encontrado de volta. A restituição do pai, que o trata como filho que nasce de novo, é o importante na parábola. Mas quem são os dois filhos e a que status correspondem eles? Pensamos não existir modelo preciso para afirmar representações específicas nas personagens da parábola. O importante era o retrato que se faz do amor do pai. Mas caso cheguemos a outras conclusões sobre a conduta dos filhos, acreditamos que o início do capítulo pode dar uma pista para a interpretação alegórica de sua identidade e suas respectivas condutas.Por isso é razoável pensar que o maior, obediente desde o nascimento e leal ao pai, é figura dos fariseus e doutores da lei. Em verdade eles eram fiéis à mesma, até nos pequenos detalhes (Mt 23, 23), introduzidos pela tradição. Homens santos que tinham dois grandes defeitos: a sua hipocrisia(Lc 12, 1) e a sua ostentação ou vaidade ( Mt 6, 1). O filho menor representa o idólatra, o gentio. Era rejeitado e até odiado pelo judeu ortodoxo, porque, como temos visto antes, existia entre as duas raças ou classes um muro de separação, que Jesus destruiu na cruz, acabando com esse ódio secular (Ef 2, 14-16). Receber o filho que chamamos pródigo, como verdadeiro, era incompreensível para quem se tinha mantido a vida inteira fiel e observante.
O PAI: Será Deus, ou será Jesus? Cremos que a parábola não pode se transformar numa alegoria em que cada personagem é uma figura simbólica de uma realidade. Por isso mantenhamos a parábola no seu justo termo e pensemos que o pai é um pai comum que realmente ama seus filhos e sente a perda de um deles de modo a não poder resistir à alegria de encontra-lo de novo. O pai está na mesma linha que o pastor que encontrou a ovelha desgarrada, que a mulher que achou a moeda perdida. Logicamente podemos pensar numa figura alegórica, o próprio Deus segundo aquilo que se diz: ¨Se vós que sois maus sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o vosso Pai que está nos céus dará coisas boas aos que lhas pedem¨(Mt 7,11).
CONCLUSÃO: Era preciso (dei em grego, necessário). Dos três verbos em que o grego indica uma certa obrigação ( dei, chre e ofei)o dei é o mais incisivo, pois indica uma obrigação moral inevitável como quando Jesus afirma que o Filho do homem devia padecer para assim entrar na sua glória (Lc 24, 26). Era, pois uma obrigação moral iniludível não só admitir o filho extraviado mas alegrar-se e recebê-lo com festa grande porque era como quem recebesse um filho que estava praticamente morto e se salva do último trance.
PISTAS: 1)Jesus defende sua implicação com os ¨pecadores¨(gentios em particular) como parte do perdão que é acolhimento aos mesmos, oferecendo o exemplo do pai que recebe o filho perdoando-o totalmente, como se nada acontecesse ou melhor o encontro fosse com um filho bom. É um perdão sem limites, nem recriminações a uma conduta anterior por mais péssima que tivesse sido, pois é um filho que volta e merece ser amado e acolhido. 2) Jesus mostra o verdadeiro rosto de Deus, o Deus em quem devemos acreditar porque é o Pai e que Jesus amava e que nos revelou como nosso Pai. Na parábola se revela como o amor que deseja salvar o que estava perdido. Ele deixa que o filho se perca. Mas sempre espera a sua volta, para recebê-lo sem recriminar sua conduta anterior. 3) Aparentemente o pai se despreocupa do filho que o abandonou. Porém não é assim. Ele sabe esperar pois conhece que não pode forçar uma vontade alheia, mas reforçar um arrependimento, uma conversão que brotará do íntimo de uma consciência que finalmente reconhece seu erro e detesta sua conduta anterior.É então que o acolhimento é puro amor: esse dia é festa e júbilo. 4) Perante a opinião comum que pensa que uma vida só é digna se na balança os atos positivos de bem superarem os atos de delinquência e pecados devemos supor que uma vida é positivamente julgada por Deus quando um ato bom pode nela ser contemplado. O mal não prescreve quando o bem, um ato mesmo solitário de bondade pode desequilibrar a balança do julgamento. 5) Podemos agir de duas maneiras diferentes: Criticando o perdão resmungando sobre a aparente superioridade do mal que nos rodeia, como faziam os fariseus, ou esperando como o pai para que alguém retorne arrependido, dispostos a acolher como Jesus fez, amando os pecadores embora entregasse sua vida em sacrifício pelo pecado.
EXEMPLO: Nos difíceis anos 30-40 do império da máfia nos EEUU, a justiça por fim apresou um líder mafioso de origem judaica, que tinha diversos delitos em seu haver incluídos crimes de morte. Doente e prestes a morrer o judeu(não me lembro do nome) pediu um padre católico e recebu o batismo. Os funerais foram tumultuados porque muitos católicos ¨ortodoxos¨dos chamados fiéis, não admitiam semelhante conduta de perdão por parte da Igreja oficial. O sucesso parece uma réplica moderna e real da conduta de Jesus na época que deu origem as parábolas do encontro e perdão.