(Pe. Ignácio de padres escolápios)
O ADULTÉRIO NO AT: A mulher era considerada uma propriedade do marido, a mais íntima e peculiar. Por isso o adultério (naapup em hebráico e moicheia em grego) mais do que um pecado de luxúria era um pecado contra a propriedade. Considerava-se adultério a comunicação sexual com a esposa ou prometida de outro homem. Não é o mesmo que zaná referida a relações heterossexuais ilícitas, também como o substantivo nakriyá que em Provérbios 5, 20 significa a relação com uma prostituta. O sétimo Mandamento: Não adulterarás; exige pureza sexual (Ex 20, 14) e apresenta o adultério como um crime repugnante contra Deus em Jó 31, 11: ¨Que minha mulher moa a farinha para outros e que se encurvem outros sobre ela é um crime hediondo, delito submetido à punição dos juizes¨.É a ruptura de um contrato feito diante de Deus que constitui uma desonra a Deus, pois coloca a vontade do homem acima da de Deus pois os dois se tornam uma só carne(Gn 2, 24). Em Pr 2, 17 o casamento é uma aliança perante Deus e o adultério é o pior tipo de roubo, pois é o roubo da própria carne, semelhante ao homem que se levanta contra o seu próximo e lhe tira a vida (Dt 22, 26) O adultério torna o adúltero um jumento selvagem(Jr 5, 8). Por isso era passível de morte: Se um homem adulterar com a mulher do seu próximo, serão mortos o adúltero e a adúltera (Lv20, 10). O método de aplicar a pena capital era queimar a pessoa(Gn 38, 24)como Judá queria fazer com sua nora Tomar. Mas depois, a exemplo de Lv 19, 20, o apedrejamento foi o método escolhido, imitando Dt 22, 23 em que no caso de uma virgem desposada e dentro da cidade, o adultério seria punido com o apedrejamento às portas da mesma cidade, eliminando assim o mal de Israel. O adultério é simbolicamente figura da idolatria (Ez 16, 32).
APEDREJAMENTO: 1o Na TORÁ: O apedrejamento era sinal de desprezo e gesto de hostilidade, como 2 Sm 16, 6 em que Simei fica atirando pedras em Davi. Apedrejamento em hebraico é Sakal ou Ragam. Em grego Lithoboleo(= jogar pedras).O rei Acab fez com que Nabot fosse apedrejado até a morte para ficar com sua vinha, dando como motivo a blasfêmia conta Deus e o rei (1 Rs 21, 10). Segundo a lei, o boi que matasse alguém devia ser apedrejado até a morte(Ex 21, 28). Moisés determina o apedrejamento de quem adorasse outros deuses(Dt 13, 10). O sacrifício dos filhos a Molok era também penado com o apedrejamento(Lv 20,2). A imoralidade física de uma jovem, tendo relações na casa do pai antes do matrimônio, também era condenada da mesma maneira à morte (Dt 22, 21.)Em Josué 7, 25 Acã e sua família foram apedrejados por se apropriarem daquilo que estava sob o interdito divino. O apedrejamento era responsabilidade da comunidade no seu todo e se dava sempre fora da cidade, como no caso do blasfemo(1 Rs 21, 10). Um filho desobediente e incorrigível devia ser castigado da mesma forma pela comunidade(Dt 21, 18-21). Era para evitar o mal dentro da comunidade e impedir que a mesma fosse castigada por um mal que se considerava gravíssimo por causa da contaminação possível a todo o povo. Era como uma peste que nos tempos modernos se evita com a morte dos afetados. As testemunhas deviam impor as mãos sobre a vítima (Lv 24, 14) e atirar a primeira pedra(Dt 17, 5-7). No código de Hamurabi temos também os mesmos tipos de delitos condenados com a pena máxima. Só que na Mesopotâmia, como no Egito, a falta de pedras, abundante na Palestina, obrigava a outras maneiras de morte, como a fogueira em que o povo podia participar.Parece que nos tempos de Jesus a lapidação era o castigo imposto segundo Ez 16, 37-40. 2o A MISHNÃ: Admitida a pena de morte pelo adultério, e o homossexualismo (yebamot 8,6), a tradição distingue 4 diferentes penas de morte, apedrejamento, fogueira, estrangulamento e decapitação, e escolhe o apedrejamento para os adúlteros; pena que,segundo alguns doutores, era pior que a morte por fogo.A tradição afirmará que após o apedrejamento, o réu será pendurado; porém o cadáver não poderá ficar no madeiro durante a noite.
JESUS MESTRE: O título era o de Rabi (mestre meu) ou em aramaico Rabôni, tal e como Maria de Magdala o chamou (Jo 20, 16). Será o didáskalos grego ou epistates segundo Lucas, tendo nesta última acepção o significado de Máster inglês. Ou seja homem com autoridade intelectual e ao mesmo tempo moral de direção. Nós o vemos no evangelho de hoje como um verdadeiro mestre, sentado entre as colunas do pórtico de Salomão no lado oriental do templo.Na última semana de sua vida, já desde o início do dia, Jesus ensinava no templo (Lc 21, 37). tendo como ouvintes principais seus discípulos.E nessas circunstâncias foi abordado pelos escribas e fariseus que lhe apresentaram uma mulher apanhada no ato do adultério.
A ARMADILHA: A pergunta tinha uma resposta clara segundo a Torá e a tradição ou Mishnã. Porém existiam umas conclusões que podiam colocar em situação crítica aquele que respondesse legalmente à pergunta solicitada.Caso Jesus desse uma resposta afirmativa, ele seria condenado pela autoridade romana como executor de uma sentença de morte, à qual não tinha direito; e portanto seria punido como um assassino. Caso sua resposta fosse negativa Jesus seria condenado como quem despreza a lei pátria e seu desprestígio seria máximo entre os judeus ortodoxos, com uma reputação totalmente negativa que o aniquilava como mestre em Israel.
1A RESPOSTA: Jesus nada responde e se inclina para escrever no chão como quem desenha letras sem sentido na terra. Ele se desentende de um problema que não é seu e que não tem porquê responder, pois ele não tinha testemunhado o adultério e não era juiz no caso, que como caso de morte seria o sinédrio quem o julgaria. Eram as testemunhas que deviam atuar através da denúncia ao juiz e atirando as primeiras pedras, para que o povo respondesse e assim evitar o mal que do contrário, contaminaria todo o povo(Dt 22, 22). È costume entre os árabes fazer traços com o dedo quando o que estão escutando não é de seu interesse. É possível que Jesus atuasse em consonância com esta última suposição. Por isso os acusadores insistem. Uma outra suposição é que ele escreveu os pecados dos acusadores, ou a maldição de Nm 5, 21 correspondente às águas amargas do juízo de ordálio da mulher suspeita; mas parece improvável porque o resultado do caso é a absolvição por ausência de testemunhas.
2A RESPOSTA: Para entendê-la, devemos buscar precedentes na tradição e na Lei. Segundo o que temos visto em parágrafos anteriores, as testemunhas eram as primeiras pessoas a atirar as pedras que deviam ser dirigidas ao coração da vítima para acabar de imediato com sua vida. Quem estiver sem pecado entre vós atire a primeira pedra. Segundo a Mishnã os homens adúlteros eram na época tantos que se deixou de aplicar a lei das águas amargas. Esta prescrição consistia em misturar cinza com água e dar de beber a mistura à mulher que o marido considerava ciumentamente adúltera, mas que não tinha testemunhas apropriadas, ou uma só testemunha, ou sua palavra única. Antes de dar a bebida o sacerdote escrevia uma maldição que devia ser apagada na água amarga, segundo lemos em Nm 5, 20ss. Caso a mulher fosse culpada a mistura devia produzir inchaço do ventre e esterilidade, definhando seu peito. A resposta de Jesus, deixa em primeiro lugar como responsáveis as testemunhas. Ele se ausenta do julgamento e o deixa nas mãos dos acusadores que agora se tornam acusados. Por isso continua escrevendo e desentendendo-se do caso.
A RETIRADA: Tinham toda a conformidade do Mestre, mas existia uma condição que aparentemente não se cumpriu: O sem pecado entre vós seja o primeiro a lhe atirar a pedra. Ninguém esperava esta resposta que respeita a lei e não é um mandato mas um aviso e uma lição. De fato não podemos condenar se somos culpados do mesmo delito. A Jesus lhe atacam com a lei e ele contra-ataca com a consciência, que é a lei suprema para todo homem em particular. Que aconteceu dentro da consciência dos acusadores? Por que começaram a desfilar, a começar pelos mais velhos? Alguns manuscritos, querendo explicar a fuga acrescentam ¨convictos por sua consciência¨. Sêneca dizia da mesma que é o juiz mais rigoroso que podemos encontrar. Os mais velhos foram os primeiros. Efetivamente os jovens são como discos novos em que o pecado inicia seu caminho de vício e raia com a ação repetitiva a consciência do indivíduo. Os mais velhos não são mais pecadores, mas os que acumulam maior número de pecados. Por outra parte, uma testemunha, para ser verdadeira, devia (segundo a lei) ter uma conduta ilibada, uma palavra acreditada, fora de toda falácia. Não eram as razões e as palavras, mas o peso da pessoa o que dava à testemunha valor e crédito. E uma vez retirados os mais velhos, os jovens nada tinham que fazer. Os mais velhos entenderam por experiência que agora eram eles, as testemunhas, as que passavam de declarantes a juizes e o processo e a condenação estava transferido de Jesus a eles mesmos. Jesus não poderia ser incriminado nem pela relaxação da lei de Moisés, nem pela execução de uma pessoa que a lei romana não permitia na época. Toda a montagem urdida contra Jesus acabava de ruir com a mudança de responsabilidade que de Jesus passará agora às testemunhas acusadoras. Nada havia pois, a fazer. E numa sociedade em que os presbíteros tinham a voz cantante, os mais novos se encontram sem suporte suficiente para atuar. A morte da adúltera não era o motivo principal da denúncia pois o que pretendiam era a implicação de Jesus na morte da mesma. Faltando este último, o teatro urdido desmoronava como um castelo de cartas.
O PERDÃO: Como diz S Agostinho, ficaram a sós a miséria e a misericórdia. Se ninguém a condenava Jesus tampouco a condena. A lei divina foi transformada por esta sentença, sempre que o arrependimento seja sincero e o acompanhe o propósito de não pecar mais, o perdão será absoluto O passado é apagado e o futuro só depende do presente e das disposições do momento.A memória servirá ´para enaltecer a bondade de Deus que perdoa sem exigir compensações e reditos pelo passado.
PISTAS: 1) A sabedoria de Jesus dá um xeque-mate a quem pensava tê-lo enredado em suas redes mortais. E é precisamente por meio de uma consciência que aparentemente estava inoperante que os mais velhos reconhecem seu erro e retiram sua denúncia. Como está nossa consciência quando censuramos o próximo pelos mesmos delitos que nós usualmente cometemos? 2) Muitos problemas teriam solução caso fossem nossos e não pretendermos resolver os do próximo. Porque neste os contemplamos para criticá-los e não para ajudá-los. 3) O perdão divino é mais amplo do que nós geralmente acreditamos. Só exige que tenhamos a vontade de não optar mais pelo mal. 4) O pecado dos outros é sempre patente aos nossos olhos e rapidamente formamos um juízo de condenação. O nosso é invisível e dificilmente vemos o mal que causamos.5)Nem sempre a idade é critério de bondade. Geralmente o bem é uma conquista de uma luta diária e constante. Quando um homem honrado envelhece, ele se torna um ancião;quando um canalha envelhece, ele é apenas um velhaco que já viveu muito (Walther Waeny)
EXEMPLO: Um cientista estava muito preocupado em resolver um experimento e seu filho de dez anos perto dele tirava sua atenção com inúmeras perguntas. Então o pai pegou um mapa do mundo e dise ao filho: Vês este mapa? Pois vou retalhá-lo e depois você como se fosse um quebra cabeças terá que recompô-lo. O filho aceitou o desafio e o pai lhe entregou o mapa em pedaços pensando que o filho lhe deixaria tranquilo durante muito tempo. Mas pouco depois o filho gritou: Pai, eu consegui! O pai admirado ao ver que era certo perguntou: Mas filho como você conseguiu, se não conhece o mundo e não sabe como ele é pintado num mapa? Fácil- disse o filho- Quando o senhor começou a rasgar o mapa eu vi que no anverso havia a figura de um homem. Só tive que restaurar o homem e tudo foi feito. Para restaurar o mundo devemos consertar o homem, e o mundo será reparado.