(Pe ignácio dos pads escolápios)
A GEOGRAFIA: Marcos e Lucas falam de Betfagé e Betânia próximas de Jerusalém. Na realidade não temos certeza.de donde estavam situadas as duas vilas ou aldeias, que é como descreve Mateus Betfagé, com a palavra Kome, significando subúrbio também. Num mapa atual o Monte das Oliveiras está ao nordeste do muro leste da cidade de Jerusalém. O caminho desde Jericó bordeja pelo leste e sul. Ao enfrentar Jerusalém encontramos ao sul o monte chamado pelos cruzados de Monte do Escândalo. Mateus só menciona Betfagé, a menos de dois quilômetros de Jerusalém. Parece que tanto Betânia (casa dos dateis ou tâmaras) a três quilômetros da grande cidade como Betfagé (casa dos primeiros figos) na metade do caminho entre Betânia e Jerusalém, eram vilas residenciais de sacerdotes. Betânia era a aldeia de Lázaro onde Jesus tinha seus amigos e se hospedava. De Betfagé só conhecemos que estava a menos de uma milha (1600m) de Jerusalém para que os sacerdotes pudessem descansar nos dias de sábado sem infringir a Mishnah que mandava serem as distâncias percorridas menos de dois mil côvados(mil metros) e em circunstâncias especiais duplicava-se a distância.
O JUMENTINHO: Este detalhe está claramente explicitado por Marcos e Lucas. Com a palavra grega Pólos, que é traduzido por colt em inglês e potro ou poldro ao português. Só que devido a que estava junto com a mãe, esta atada, tratava-se logicamente de um jumentinho, o Onárion de João. Segundo Mateus encontraram os dois discípulos enviados, talvez Pedro e João (vide Lc 22,8), uma jumenta com seu potro ou jumentinho, aquela atada; ou como diz Marcos um potro atado à porta de fora no cruzamento do caminho. A vulgata traduz ante januam foris in bivio(= diante da porta de fora, na encruzilhada). No lugar de encruzilhada podemos traduzir rua. Como sempre nestas minúcias, Mateus se dirige pelo afã catequético e metódico-didático, conformando-se o melhor possível com as antigas profecias. Todos ressaltam o jumento como besta de carga e não como animal de guerra.
AS PROFECIAS: Temos Isaías 62, 11 Eis que o Senhor fez ouvir até as extremidades da terra estas palavras: ¨Dizei à filha de Sião: Eis que vem o teu salvador, vem com ele a sua recompensa, e diante dele, o seu galardão¨. E melhor do que esta, Zacarias 9, 9:¨Alegra-te muito, ó filha de Sião; exulta, ó filha de Jerusalém: eis aí vem o teu Rei, justo e salvador, humilde, montado em jumento, e num jumentinho, cria de jumenta¨. Parecem dois animais diferentes; temos por isso colocado o e em itálico como ressalte. Mas pode ser que como a palavra profética estava em verso, o e não seja disjuntivo entre duas palavras(jumento e cria de jumenta) mas a ilação entre duas orações( montado num jumento, ou seja um potro de jumenta). Esta última tradução está confirmada com o latim da vulgata:¨ascendens super asinum et super pullum filium asinae¨. Sem dúvida que Mateus fez uma interpretação sui generis, duplicando os animais e fazendo com que Jesus montasse ao mesmo tempo sobre dois animais, o que não parece provável. Interessante é que os setenta têm uma tradução diferente do texto hebraico: ¨montado sobre uma besta de carga (daí a distinção como o cavalo que não era besta de carga mas besta de guerra) e (que era) potro (jumento)novo¨. O jumento é pois um animal de usos pacíficos(daí a humildade do rei). Mais: como vemos a continuação, o animal em que montou Jesus devia ser novinho, sem conhecer cavaleiro que o montara anteriormente. Cremos, pois, que era só um animal o que escolheram os discípulos, um potro de jumenta, novo, sobre o qual nunca ainda ninguém tinha montado.Este inciso era para indicar a divindade de Jesus, pois no AT só podiam ser oferecidos em sacrifício animais que não tivessem sofrido jugo. Os rabinos diziam que se Israel era puro o Messias viria sobre as nuvens conforme Dn 7, 13; mas em caso contrário sobre um jumento conforme Zacarias 9, 9. Realmente a profecia se cumpre nesse dia de modo completo. Se o jumento foi em tempos primitivos animal de cavalaria real ou pelo menos entre os nobres e dignitários como em Gn 22, 3 ou Jz 3, 10, nos tempos de Jesus era um animal humilde próprio de pobres. O quarto evangelista tem um comentário que abunda neste modo de pensar da humildade da cavalgadura: ¨Isto não o entenderam os discípulos; só quando Jesus foi glorificado (após sua ressurreição e ascensão) entenderam o que estava escrito e compreenderam o que eles tinham feito nesse dia¨. Segundo 1 Rs 1, 33 a 45 a cerimônia em que Salomão foi entronizado era após cavalgar sobre um mulo.(pered em hebraico e hemionos em grego) A palavra grega indica seguramente a origem do animal, um meio jumento ou híbrido, seria a tradução, que no Israel pré-bíblico não era permitido por lei procriar, mas que parece ser animal de cavalgadura nos tempos de Salomão. Este, rei pacífico por excelência era o tipo de Jesus que entrava em Jerusalém como tal e que seria de um modo especial coroado na cruz poucos dias depois.
VESTUÁRIO: Os judeus usavam só duas peças para se vestir: a túnica vestido interior e o manto ou vestido externo Lucas fala de Imation, termo geral para veste, mas que em especial designava o manto ou capa larga que era usado também como cobertor para dormir.Os mantos serviram, pois, como sela para um jumentinho que nunca tinha sido montado e ao mesmo tempo como tapete sobre o qual pisava o animal no pequeno trajeto desde Betfagé até a entrada no templo, pela porta do Oriente, talvez menos de mil metros. O recebimento recorda a passagem de Jehu em 2 Rs 9, 13 em que os chefes do exército deitaram suas capas para que Jehu, atravessando sobre elas, subisse os degraus para ser coroado rei de Israel. Talvez era uma forma de se declarar vencidos ou inferiores à realeza como os vencidos na batalha tinham que se deitar passando o exército vencedor sobre eles como era costume entre os orientais. De Catão o de Útica se diz que seus soldados também espalharam suas clâmides ou mantos militares para que sobre eles passasse o general.
OS GALHOS: O caminho foi também adornado com galhos que eram tirados das árvores próximas, como dirão Marcos e Mateus, coisa que Lucas não descreve. João ainda diz que portavam ramos de palma, o que parece duvidoso pois tais árvores não existiam perto de Jerusalém. É duvidoso pensar que os galhos estavam jogados no caminho, o que dificultaria a caminhada, mas aos lados do mesmo tal e como se acostumava fazer na procissão da festa das tendas ou sukoth.
HOSANÁ: Lucas limita-se a afirmar que os discípulos,gozosos, louvavam (ainein) a Deus com grande voz por todas as maravilhas de que tinham sido testemunhas. O que eles gritavam era: ¨Bendito quem chega como rei em nome do Senhor. Paz no céu e glória nos(lugares ou regiões) mais altos!¨ Esta é a tradução literal. De quem saiu a iniciativa dessa manifestação exultante? A eleição da cavalgadura foi de Jesus. Mas as palavras de exaltação e júbilo foram sem dúvida escolhidas pelos discípulos, a começar pelos apóstolos. Eles acreditavam que Jesus entraria como rei messiânico em Jerusalém e começaria logo a reinar. Parte do argumento dessas suas expectativas estavam fundadas nas maravilhas que tinham visto fazer por Jesus, como era a cura do cego de Jericó, a multiplicação dos pães, e a ressurreição de Lázaro, que segundo João(12, 12) era o motivo principal da aglomeração da multidão em torno do Mestre nazareno. Como temos dito anteriormente esperava-se o Messias sobre um jumento (ver profecias) vindo em direção de Jerusalém, tal e como afirmava Zacarias. Os discípulos, iletrados eles e rudes de entendimento, provavelmente não sabiam nada sobre a profecia, mas estavam cheios de entusiasmo e esperavam o restabelecimento do Reino de Israel (At 1,6). Quando Jesus pediu um jumento eles imediatamente pensaram na entrada triunfal, especialmente porque o cavalo era próprio dos romanos como instrumento de guerra e é possível que não fosse usado na época pelos judeus, que tinham jumentos e dromedários como bestas de carga e não cavalgaduras militares. Segundo Marcos, Mateus e João o grito comum das turbas era Hosana, ( Hosaina em hebraico) que não se traduz por ser uma voz comum dentro das assembléias primitivas cristãs, palavra que chegou até nós na versão latina do Sanctus, o prefácio do cânon eucarístico: Hosanna in excelsis. A palavra original era composta de Hoshiáh (salva) e de náh,( rogo-te, please em inglês). A tradução vernácula é:dá Senhor, dá a vitória; dá Senhor, dá o triunfo.O salmo 118 ou 117 dos setenta diz entre os versículos 24-26: ¨24Este é o dia que o Senhor fez; que ele seja nossa felicidade e nossa alegria! 25Dá Senhor, dá a vitória! Dá Senhor, dá o triunfo! 26Bendito seja aquele que entra em nome do Senhor! Nós vos bendizemos desde a casa do Senhor¨. Já os setenta traduzem o versículo 25 por ¨Ó senhor, salva, pedimos! Ó senhor conduze-nos a bom termo!¨. Esta minha tradução direta do grego coincide com a da BAC volume IV,e com a Vulgata. Também com a AR (revista e atualizada ) evangélica . No tempo de Jesus a palavra hosana já tinha o significado de Viva! S. Agostinho afirmava que tinha o valor de uma interjeição latina., ou seja um grito de júbilo, como olé ou viva.
BENDITO: É o Eulogemenos, que é diferença do Makários (feliz ou sortudo), significa uma qualidade intrínseca que o aproxima à divindade, o eulogemenos (bendito) por excelência. A palavra está nos quatro evangelistas sem distinção. A quem se refere? Ao que vem em nome do Senhor, como rei. A realeza está clara e explicitamente indicada em Lucas, Marcos e João e implicitamente em Mateus quando indica o filho (descendente) de Davi, como termo do elogio, título que era totalmente messiânico. O clamor dos Hosanna in excelsis termina o texto latino tradução direta do grego em Marcos e Mateus. Já Lucas termina os animados gritos da multidão com sua preferida frase desde a aparição do anjo aos pastores:¨No céu paz e glória nos mais altos(céus)¨. Os judeus tinham três céus no mínimo, no mais alto encontrando-se a morada de Deus. A ele se refere o upsistois(=excelsis).grego. Sem dúvida que cada evangelista, preservando a substância dos fatos, leva, como vulgarmente se diz, a água a seu moinho, dando lugar a uma certa flexibilidade em suas afirmações. As aclamações, unidas aos atos simbólicos referidos, mostram o desejo de receber como rei libertador à semelhança de como foi recebido Simão Macabeu(1 Mc 13, 51) após ter conquistado a cidadela de Jerusalém por meios pacíficos. Ele ordenou ser esta data celebrada todos os anos. Lembra também a purificação do templo em 2 Mc 10, celebrada todos os anos no mês de Kislew(dezembro)durante sete dias à maneira das tendas. Tanto num caso como noutro eram memórias de aclamar publicamente a presença divina, como soberano na pessoa de Simão, por exemplo, entre o povo. No caso de Jesus também era o momento de entender essa presença na figura do seu enviado Jesus, o de Nazaré, Se em Jo 6,15 Jesus resiste ao anseio do povo de aclamá-lo rei ( fora do tempo e da cidade previstos) agora ele não só deixa fazer, mas participa e colabora, pedindo uma cavalgadura ad hoc. O povo pensava em armas e vitórias para obter um triunfo político e guerreiro. Jesus, segundo a profecia de Zacarias, pretendia um triunfo pacífico como vitima e um reino espiritual em que a geografia não recortasse sua influência.e o amor dilatasse seu reinado conquistando os corações. A paz, oferecida no perdão mais generoso, e a humildade, básica na sua submissão aos mais cruéis instintos humanos, e sua obediência até a morte na cruz à vontade do Pai, seriam de agora em diante, também para seus discípulos, as chaves básicas de seu reinado.
OS FARISEUS: Alguns deles que estavam misturados com o povo, pretendem acalmar o entusiasmo dos discípulos, pedindo a Jesus que reprove a conduta dos discípulos. Talvez temendo uma reação violenta dos romanos que vigiavam desde a torre Antônia o sucesso. Mas Jesus diz que até as pedras clamariam caso os discípulos calassem. Isso indica claramente que Jesus nesse momento estava colaborando com seu triunfo e que exultava também com os que o aclamavam.
PISTAS; 1) Um mesmo relato, é essencialmente narrado com absoluta fidelidade pelos quatro evangelistas. As discrepâncias, não só redacionais e literárias mas também em pequenos detalhes, servem para indicar procedências diversas na origem das narrações mais do que rasgos literários nos autores, que também existem. Tudo isso contribui à verdade essencial dos fatos, que não são copiados literalmente como quem traduz um texto único. É lamentável que os que se intitulam sábios e entendidos, comparem a veracidade dos relatos evangélicos canônicos com as narrações dos apócrifos, dando a estes o mesmo nível de autenticidade que a dos quatro evangelhos tradicionais, como vemos numa revista moderna. Sem dúvida que o motivo último dos evangelistas foi a catequese e a apologia. Mas isso não derruba sua historicidade essencial. Tudo pelo contrário é nela que se fundamentam. Outra coisa é que existam no dia de hoje, quando o milagre pode ser cientificamente comprovado, quem rejeitam todos os milagres evangélicos, deixando Jesus só com a doutrina desprovida de autêntica firma divina. 2) Para quem tem lido e estudado desapaixonadamente os quatro evangelhos, uma coisa é certa: São as palavras de Jesus as que revelam máxima coincidência, de modo que elas estão na mesma ordem que as palavras de Javé que inspiraram os antigos profetas. Nas narrações de fatos e parábolas existe logicamente uma diferença circunstancial que é devida a diferentes recordações. Parece que as palavras de Jesus eram dísticos que a memória facilmente retinha quando não existiam outros meios menemotécnicos. 3) Qual era a importância deste trecho de hoje para que os quatro o relatassem? Talvez o fato de que Jesus poderia se quisesse, ter sido o Rei davídico esperado, mas que ele após esse dia triunfal recusou semelhante messianismo, optando por outro em que a vitória viria pelo sacrifício e a cruz.
EXEMPLO:
Como temos visto nos movemos por interesses e às vezes por interesses
criados. Só aceitamos o que no momento nos parece conveniente. Dizem
que um missionário na selva tinha um índio muito amigo. Após
muitos anos dessa amizade o missionário convidou o índio a
visitar a grande cidade. O índio ficou maravilhado com as muitas
coisas que via. Mas o que mais gostou foi de visitar um parque da cidade.
No meio do barulho e gritos das crianças que corriam e se divertiam
o índio disse: ¨Olha como canta um grilo. Parece exatamente igual
que o que canta perto de minha copé¨. O missionário ficou
surpreso com a agudeza do amigo. Como podes tu ouvir um grilo com todo este
barulho? O índio nada respondeu mas pediu uma moeda. Lançou
a moeda no chão que tilintou metalicamente. Imediatamente um grupo
de pessoas se voltou ao ouvir o baque da moeda no chão. E o índio
respondeu: ¨Vocês só têm ouvidos para o metal que
vos enriquece. Nós ouvimos melhor o grito da natureza¨.