(Pe.
Ignácio, dos padres escolápios)
INTRODUÇÃO: Estamos acostumados a escutar os mestres falando do sepulcro vazio e da lousa retirada. São as bases- eles o afirmam- da ressurreição de Jesus. Mas nesse caso por que os judeus não se tornaram cristãos? Será que existem dois grupos separados ante o acontecimento, um que reflete a atitude do discípulo amado, que viu e creu. E um outro, a de Pedro, que ficou maravilhado com o acontecido, mas sem chegar às portas da fé? Qual foi em definitivo a causa que também mudou a atitude de Pedro até a fé? Somente a disposição dos panos, unicamente a ausência do cadáver? Quiçá a pedra de entrada, retirada talvez de forma abrupta? Acreditamos que existe uma experiência que não podemos chamar de histórica porque é íntima e não compartida de forma sensível por todos como testemunhas. É a experiência mística da visão extranatural, não por isso menos real e vívida que a experimentada pelos sentidos. Pelo contrário, deixa uma memória tanto menos extinguível quanto mais extraordinária e infrequente ela é. Logicamente quem de antemão descarta o sobrenatural, tenderá a explicar o fenômeno em termos naturais de paranóia e histeria. Mas quando a visão é coletiva e mais quando responde a situações diferentes com pessoas entre si independentes como é o nosso caso, a explicação natural não é suficiente e constitui o único recurso de quem não quer admitir o sobrenatural. Têm ouvidos e não ouvem, tem olhos e não vêem (Mc 8, 18). Cremos que as bases da ressurreição foram as experiências místicas dos discípulos que as tornaram testemunhas(Lc 1,2) de que Jesus vivia e era Senhor. É o caso de Paulo que nem viu o túmulo, nem conhecia Jesus; mas que o viu e ouviu em Damasco(At 9, 4-7) Mas vejamos o evangelho e sua exegese.
O DIA: Te de mia ton sabbatôn: A tradução literal seria ¨em um da semana¨ porque Sabbaton em plural é traduzido por semana. O latim traduz uma autem sabbati de forma completamente literal até retendo o numeral, o que podemos traduzir ¨No uno do sábado¨. Mas o grego, tanto de João como de Lucas, tomam a ordem pelo simples cardinal e teremos a tradução: ¨No primeiro(entende-se dia) da semana¨. Mateus também usa o sábado em plural. Marcos dirá que, passado o sábado ( o dia porque em singular).
A HORA: Cedo, ainda estando escuro- dirá João. Mateus dirá que ao luzir o dia. Marcos que era muito cedo e Lucas dirá que era o alvorecer profundo. Todos coincidem pois no dia e na hora.
AS MULHERES: Para João era Maria de Magdala aparentemente a única protagonista, embora admita que com ela havia alguém mais, pois dirá no versículo 2 não sabemos, o que indica a presença de mais alguma mulher com ela e que ela foi a encarregada de comunicar a notícia de que tinham tirado o Senhor do sepulcro. Mateus fala também da outra Maria que Marcos descreve como a de Jacob e ainda acrescenta mais uma testemunha que chama de Salomé. Para Lucas serão Maria Madalena, Joana e Maria, mãe de Tiago. Vamos conhecer estas mulheres com mais detalhes. A Madalena era uma mulher curada por Jesus de sete demônios.(Lc 8, 2) de cujo fato não temos mais detalhes. Como os demônios eram a causa das doenças mentais como epilepsia(Mt 17, 15), esclerose(Lc 13, 11) e loucura (Jo 8, 48)e até histeria e mudez (Mt 9, 32, não podemos responder à pergunta: que tipo de doença tinha Madalena? Duas coisas podemos afirmar: Primeira, que Maria de Magdala não é a pecadora de Lc 7, 37. nem a Maria de Betânia ( Jô 12, 3). Segunda, que era uma mulher de certa idade como de cinqüenta anos, pois do contrário não teria liberdade para seguir Jesus. Talvez fosse viúva, como era a mãe de Jesus e sua prima irmã, Maria, mãe de Tiago ou Jacob o menor, e de Joset (Mc 15, 47). Talvez possamos identifica-la com a mulher de Alfeu.(Mt 10, 3). Joana era outra mulher, mulher de Cuza(Lc 8, 2.3). Salomé mulher do Zebedeu(Mt 27, 56) e mãe de Tiago e João.
OS DISCÍPULOS: Pedro é bem conhecido, mas quem era o outro discípulo descrito como aquele que era amado por Jesus? Que significa para João a palavra discípulo, Mathetés em grego? A palavra grega é sempre traduzida por discípulo, mas nem sempre tem um significado concreto e único. O Batista tinha seus discípulos, dois dos quais se encontraram com Jesus e se tornaram seus primeiros discípulos (Jo 1, 35-37). Os discípulos de Jesus entram dentro de duas categorias: a restritiva, dos doze como em Jo 6, 22 pois no barco só podiam se embarcar eles, ou Jo 13, 5 em que lava os pés aos discípulos; e a mais ampla, dos que seguem sua doutrina como a si mesmos se declaram os judeus como discípulos de Moisés(Jo 9, 28) e de cujo grupo formavam parte os que ao ouvirem a palavra dura no discurso de Cafarnaum abandonaram Jesus (Jo 6, 60). Logicamente este discípulo era não só amado por Jesus, mas também íntimo de Pedro: Foi a ele, recostado no corpo de Jesus, e que era amado em particular, a quem Pedro perguntou quem era o traidor (Jo 13, 23-24). Seguindo o mesmo quarto evangelho, em 1, 37-42 é o discípulo do Batista que acompanha André. Em 18,15-16 acompanha a Pedro e por sua intercessão o introduz na casa do Pontífice. Em 19, 25-27 está ao pé da cruz e recebe Maria como mãe. Está pescando junto com Simão Pedro quando da aparição de Jesus no lago de Galiléia(21, 7). Pedro pergunta a Jesus sobre a sorte do mesmo e da resposta pensam que não morrerá (Jo 21, 20-23). Finalmente ele é quem afirma que todo o escrito corresponde a seu testemunho.(Jo 21, 24). Porém, apesar de todos estes dados não temos certeza de quem seja esse discípulo amado, tão ligado a Pedro. Existe um dado a mais: Foi enviado junto com Pedro para preparar a ceia da Páscoa(Lc 22, 8). Provavelmente também seriam os dois os enviados para trazer o jumentinho no dia dos ramos(Lc 19, 29). Após a ressurreição nos Atos dos Apóstolos os vemos ambos juntos, entrando no templo (At 3,1). Ambos são levados juntos para serem julgados pelo Sinédrio e interrogados pela autoridade que pergunta em que nome fizeram a cura do paralítico( At 4, 1-7).Foram enviados juntos a Samaria para evangelizar os samaritanos(At 8, 14). Isso tudo converge em que seja João o irmão de Tiago esse tal discípulo. Uma coisa é certa: o acompanhante de Pedro é o discípulo amado. Outra é provável: ele é João a quem Jesus chamou filho do trovão (Mc 3, 17).
O MONUMENTO: A palavra usada por João não é sepulcro ou tumba, mas monumento(funerário) ou mausoléu. Somente Mateus usa Tafos que podemos traduzir por sepulcro como na Vulgata. Isso indica que a tumba de Jesus era especial, como a de um rico proprietário. Existiam duas classes de sepulcros que podemos chamar de verdadeiras covas ou cavernas: as mais comuns eram poços de tipo vertical. Sobre a cavidade, como tampa do poço, havia uma pedra ou lousa que cobria o buraco impedindo as feras de se apoderar do cadáver. Já as covas de tipo horizontal eram sepulcros escavados ao nível do chão com uma abertura de aproximadamente um metro de diâmetro de modo que um adulto devia se agachar( Jo 20, 5) para entrar. Uma pedra, que em casos mais sofisticados, era uma roda deslizante sobre um carril escavado ad hoc, tampava a entrada. Esta parece ser a tumba que quase todos os evangelistas chamam de monumento novo escavado na rocha no qual José de Arimatéia colocou o corpo de Jesus, envolto num lençol limpo; e rolando uma grande pedra à entrada do monumento ,retirou-se (Mt 27, 59-60).Marcos também fala da pedra rolada sobre a porta do monumento. Em Lucas a pedra está desenrolada quando as mulheres vão ao sepulcro na manhã da madrugada do domingo. Segundo comentários da On Line Bible a pedra de uma sepultura pequena só podia ser movida com o recurso de 20 homens, e a pedra da nossa sepultura era grande. Somente João fala da pedra como Erménon , ou seja levantada à força. Esta seria a tradução mais própria. Segundo os estudiosos existiam duas classes de sepulturas individuais dentro dos quais podemos chamar de monumentos: as que se designam por Kõkim, com nichos ou buracos escavados horizontalmente, furados perpendicularmente às paredes, de dois metros de comprimento em que o cadáver era colocado enterrando no buraco a cabeça em primeiro lugar, e outras em que existiam arcos em cujo semicírculo existia um banco de pedra onde era depositado o morto paralelamente à parede. Parece ser este último o lugar onde repousou Jesus morto, porque as mulheres viram dois anjos um na cabeceira e outro aos pés da mortalha.(vers 12). Junto ao santo Sepulcro atual existem as duas formas de tumbas, arqueologicamente documentadas.
O SANTO SEPULCRO:As recentes investigações arqueológicas demonstram que, no tempo da crucifixão de Jesus, as proximidades do Gólgota eram hortos, também usados como sepulturas. As escavações no subsolo da basílica e ao sul da mesma demonstram que desde o século VII aC esta zona foi usada como canteira. E que uma parte desta canteira, nos primeiros anos do cristianismo, foi transformada em horto e usada como lugar de sepultura. No lugar donde se supõe estava o Gólgota encontramos os restos de uma rocha pelada. Desde os primeiros anos o sepulcro de Jesus foi muito venerado. O momento mais crucial foi o segundo levantamento dos judeus e a total destruição de Jerusalém no ano de 135. Adriano expulsou os judeus e edificou sobre a antiga Jerusalém a Aelia Capitolina, levantando nos lugares mais sagrados templos aos deuses romanos. Especialmente sabemos pelos escritos que Adriano erigiu estruturas pagãs sobre o Gólgota e o santo sepulcro, fatos confirmados pelas escavações que provam a existência de muros, um celeiro e colunas que depois foram usadas por Constantino para as cisternas e o Anástasis. Aí estava seu capitolium. O lugar sagrado por excelência foi rededicado por Adriano aos deuses romanos. O espaço do Gólgota e a pendente contígua em que estava o Sepulcro foram enchidos de entulho para construir sobe eles o fórum e os templos de Júpiter e Vênus. O terreno foi rodeado por um muro e repleto de enormes quantidades de terra levantando uma esplanada nova sobre a qual colocaram as colunas da rua principal, o cardo, para terminar no fórum(praça) e nos templos. Assim o descreve Eusébio no século IV. No século III os visitantes cristãos nada sabem do Gólgota e do santo sepulcro, sepultados como estavam pelo aterramento de Adriano, entre eles o bispo Macário de Aelia Capitolina, que relatou em ´Nicéia no Concílio o abandono dos lugares sagrados de Jerusalém. Temos uma carta em que Constantino comunica a Macário seu projeto de destruir os templos de Adriano e de escavar o terreno para construir uma basílica. Assim o fez e temos testemunhas de que apareceu a rocha do Calvário, e a entrada do sepulcro perto dela. Os entulhos ocultavam uma velha cisterna para águas de chuva. No fundo da mesma encontraram-se alguns lenhos e pregos velhos. Cirilo de Jerusalém numa carta afirma ao imperador Constâncio que em tempos de seu pai foi encontrado o lenho da cruz. Sobre a piscina foi achada uma basílica a quem se deu o nome de Martirium. Sobre o sepulcro se construiu um santuário circular em cujo centro estava o sepulcro a que se deu o nome de Anastasis (ressurreição). Os dois edifícios foram logo unidos por pórticos galerias e escadas. O complexo foi consagrado em 14 de setembro de 335, cinco anos após a descoberta dos lenhos e pregos por S. Helena. A Igreja atual une ambas edificações Martirium e Anastasis e é praticamente a mesma que os cruzados levantaram em 1114.Podemos pois afirmar que o sepulcro estava bem perto do Calvário e que os lugares que hoje veneramos se conformam com os que a tradição mais antiga apontava como verdadeiros.
OS PANOS: A palavra Sindon (sindon também em latim) significa um pano de linho; foi o comprado(Mc 15, 46) por José de Arimatéia, limpo segundo Mateus( 27,59). Os três sinóticos falam de que nele foi envolto o corpo de Jesus.(Mt 27, 59; Mc 15, 46 e Lc 23, 53). Podemos traduzir ao português por lençol. Othonion é um pedaço de pano, em latim linteum às vezes pode indicar ataduras.Também existe linteamen( nis) que significa roupa de linho. A palavra é quase exclusiva de João que diz foi atado por othoiniois(linteis). Lucas a usa para dizer que Pedro encontrou os panos unicamente (24, 12). O que Pedro viu segundo João eram othonia (linteamina) e o Soudarion (19, 6)do latim sudarium um lenço, usado para o suor e para cobrir a cabeça; no caso de uma mortalha era o pano que cobria a cara e podia ser usado como atadura para impedir que a boca do morto ficasse aberta. Temos, pois, alguns relatos imprecisos, entre eles destacam o de Mateus, outros com detalhes mais minuciosos, entre eles destaca João. Podemos ver três tipos de panos: vendas com o latim mais preciso de linteum; o lençol em latim sindon como em grego e finalmente o detalhe de João do sudário, que é de suma importância. Os othonia que vê Pedro correspondem às vendas e ao lençol, que estavam keimena (posita), do verbo keimai (estar deitado em oposição a estar de pé) e que podemos muito bem traduzir por deixados, jacentes, como o corpo de um morto. Poderíamos traduzir por vazios? Não diretamente, mas visto que o corpo não estava lá, e que era ocupado pelos mesmos panos que o envolviam a conclusão é lógica e natural. Porém o sudário que cobria a cabeça de Jesus não estava deitado junto com os panos; mas separado à parte, embrulhado em um outro lugar. Vamos traduzir mais livremente: Viu os panos vazios no lugar onde antes envolviam o corpo; mas o sudário estava embrulhado fora dos panos em lugar separado deles. Ou seja sem que as ataduras fossem desatadas, formando um conjunto harmoniosamente jacente (o positum latino) viu o lenço que cobria a cabeça que estava como um embrulho em lugar separado das mesmas. Para entender o impacto sobrenatural que recebeu Pedro em Lucas 24, 12( o Thaumazo grego usa-se para explicar a maravilhosa impressão diante de um milagre) imaginemos um exemplo moderno. Temos enterrado um amigo ou parente. O caixão está bem fechado com pregos. Dois dias mais tarde o coveiro avisa que a tumba está aberta. Nos aproximamos e vemos o caixão no nicho tal e como o deixamos, bem fechado. Através do vidro dianteiro não encontramos a face amiga, não existe o corpo; os vestidos não envolvem nenhum corpo. Tudo fechado, mas a gravata que vestia ao redor do pescoço não está com os vestidos e a encontramos fora do caixão de madeira, num lado do nicho. Logicamente pensaríamos que alguma coisa completamente anormal ou extranatural tinha acontecido naquela tumba por outra parte não profanada. Isso foi o que Pedro e João viram. Pedro ficou maravilhado ou assombrado(Thaumazon de Lucas 24, 12), verbo usado ao contemplar um ato sobrenatural(At 3, 10). Pelo mesmos motivos, João acreditou na ressurreição.
PISTA: O sobrenatural, aquilo que ultrapassa sentidos, leis e lógicas normais existe? Podemos acreditar em relatos que fogem a experiência física de todos os dias? Pedro e João são as amostras das duas posturas diante do que comumente chamamos de milagre. 1o A dos que não aceitam outras experiências a não ser as sensíveis de todos os dias e 2o a dos que aceitam realidades que não se vêem e que não têm explicação física alguma. Para aqueles, os evangelhos com seus numerosos fatos extraordinários devem ter uma explicação humana e por isso alegam histerias, hipnoses, exagerações e lendas quando não falsidades e mentiras de uma tradição muito posterior que admite no tempo mitos e lendas que facilmente falseiam a realidade. Os que acreditam no sobrenatural porque é a unica causa que explica determinados fatos, como razão última metafísica( que está além da física), aceitam o milagre e especialmente o grande milagre da ressurreição. Aceito este fato, os outros fenômenos como a difusão do cristianismo, doutrina difícil e contrária aos sentimentos humanos, feito contra toda força ou imposição, são considerados como consequências de uma vivência única e irrepetível em que haviam testemunhas que se transformaram em apóstolos e enviados após virem Jesus vivo e ressuscitado. Foi uma vivência tão forte que excluía a dúvida como impossível. Por isso estavam completamente convencidos de que o Jesus que eles tinham como Mestre era na realidade o Seu Senhor. Eles viram, tocaram e conversaram não com um fantasma(Lc 24, 39-43) mas com um ser que tinha uma vida nova que de morto ressuscitou para formar parte da vida que ele promulgava eterna. Aí está a força do cristianismo e a base de sua fé. Por isso os evangelhos, como afirma Lucas no seu prólogo, são narrações verídicas dos fatos que essas testemunhas contaram como experimentadas por elas.
EXEMPLO: Conta a lenda que um homem andava solitário e triste pelas areias de uma praia. Sua sorte era azarada e sem perspectivas de dias melhores. Nesse momento ouviu uma voz: colhe todas as pedras que puderes e mete-as no teu bolso. No fim do passeio sentirás uma grande alegria que se converterá em tristeza. O homem foi colhendo algumas pedras, não muitas porque não acreditava totalmente na voz que o advertira. Quando acabou o passeio pela areia, meteu a mão no bolso para ver as pedras. Sua surpresa foi maiúscula. Elas se tornaram preciosas de muito valor. E então sentiu tristeza porque tinha recolhido só umas poucas. É assim como acontece quando rejeitamos as cruzes do sofrimento que se transformarão, como no caso do Senhor Jesus, em vitória e triunfo.