SAGRADA FAMÍLIA

(28/12/2003)

(Lc 2, 41-52)

(Pe. Ignácio, dos Padres Escolápios)

INTRODUÇÃO: Parece que além de dar provas da verdadeira natureza humana de Jesus, o Espírito Santo quis deixar um exemplo para todos os adolescentes de como devia ser seu comportamento com os pais terrenos e com o Pai dos céus. Este é o ensinamento que se deriva de seu exemplo, quando perdido e achado no templo e quando voltando a Nazaré crescia em todos as ordens.

AS FESTAS: A lei de Moisés mandava a peregrinação a Jerusalém de todos os maiores de treze anos nas três festas principais: Páscoa, Pentecostes e Tabernáculos (Dt 16, 16). Não parece que tiveram obrigação os galileus e muito menos as mulheres.

DOZE ANOS: Embora a idade era dos 13 anos após o BAR MITZWA, em que o menino era considerado maior de idade e portanto filho do mandato. Desde o aniversário dos 13 anos, o menino estava sujeito aos 613 mandatos da lei e por outra parte adquiria o privilégio de ser contado entre os Minyan (literalmente número), que era o número mínimo para formar o culto na sinagoga. Muitas vezes eram pagos porque deviam deixar o trabalho para resolver os assuntos comuns e religiosos que exigiam sua presença. Bem é verdade que a festa tal e como a conhecemos tem uma data inicial tardia, século XV. O primeiro Sábado que segue seu 13o aniversário é o dia de seu Bar Mitzwa. Mas antes disso o adolescente preparava-se aprendendo as noções fundamentais da história e tradições judaicas, as orações e costumes do povo, estudando os princípios que regem a fé judaica. Nesse sábado da comemoração o jovem recitava um capítulo da Torah e um capítulos dos profetas (Haftará) com a melodia tradicional para estes capítulos, baseada numa escala de notas musicais padronizadas para a leitura em público dos dois capítulos. A cerimônia religiosa era depois acompanhada com uma reunião festiva e familiar. Podemos dizer que era como a primeira comunhão. Escrito em aramaico o original talvez possamos compreender que 12 e 13 se confundem e que Jesus teria os treze anos. Mas como temos visto aos 12 anos já entrava dentro dos exercícios de preparação e isso talvez seja o que Jesus disse a Maria: Devo ocupar-me das coisas de meu pai.(2, 49).

A CARAVANA: O Sinedion grego indica um caminhar juntos, uma caravana(comitatus) Caminhavam dispostos em três seções: Na vanguarda estavam os mais jovens dispostos a repelir os bandidos com bastões e até espadas. No centro mulheres e crianças menores de doze anos e com os mais velhos os meninos maiores de doze anos. Os menores de doze anos podiam pois, estar com as mulheres ou com os anciãos. Somente à noite é que os membros de uma mesma família se encontravam. Geralmente acostumavam percorrer 32 km por dia. Mas isso dependia das fontes de água. A primeira jornada era até Beeroth a 16 km de Jerusalém, talvez pela dificuldade de encontrar água numa outra parada. No total eram três dias até a Galiléia. Foi assim que a ausência de Jesus, só foi notada ao fim da primeira jornada. Mais um dia de volta e mais um dia até encontrá-lo no templo. No total os três dias de que fala o evangelista, a não ser que o numeral seja tomado no lugar do indefinido, no lugar de adjetivos que as línguas semitas carecem, como alguns, poucos, vários, etc. de modo que o número três deixa de ser um cardinal para se transformar em plural mais ou menos definido.

ENTRE OS MESTRES: A palavra usada por Lucas não é a usual para designar os escribas, (Nomikoi ou yrammateis) mas didáskaloi com a qual Lucas designa o próprio Jesus (15 vezes) e que as línguas modernas traduzem por doutores. Há quem considere que no templo existia uma sinagoga e que nesta se ensinava a lei aos pequenos como em todas as demais da Palestina. Pode ser. Mas também era costume ensinar aos discípulos entre as colunas do pórtico de Salomão, como Jesus tinha costume de fazer: no templo: "estava sentado ensinando"(Mt 26, 55). Que os discípulos perguntassem era comum. Assim foram as perguntas dos fariseus(Mt 22, 15+), dos saduceus (Mt 22, 23 +) e do doutor da lei (Mt 22, 41+).A Rabi Hanina se atribui este ditado: "Tenho aprendido muito dos meus mestres e mais dos meus condiscípulos...Porém de meus discípulos mais do que todos".

A RESPOSTA: a) Na casa do meu Pai. Foi a preferida pelos padres da Igreja contra os gnósticos que rejeitava o AT e o Deus dos hebreus. Com estas palavras Jesus declara ser seu Pai o mesmo que habitava o templo de Jerusalém, ou seja Jahveh.(Sl 23,6).- b) Nos assuntos do meu Pai: como a vulgata traduz o texto grego. -c) Entre os amigos do meu Pai, pois os pais, Maria e José o buscaram inutilmente entre os consanguíneos e conhecidos. A resposta é que não era entre estes últimos mas entre os que eram amigos e conhecidos do Pai. O verdadeiramente importante era que Jesus devia amoldar sua vida às exigências de seu Pai, exatamente como o diria com toda claridade em Mt 12, 48 quando o buscam os parentes.

O CRESCIMENTO: É notável ver como Lucas repete em 2,52 o que tinha dito em 2,40:"O menino crescia e se fortalecia, cheio de sabedoria, e a graça de Deus estava nele". Tomando como modelo 1 Samuel 2:26: "Mas o jovem Samuel crescia em estatura e no favor do Senhor e dos homens". O único novo no Jesus de Lucas é o crescimento em sabedoria, sem dúvida uma clara conclusão de seu contato com os mestres de Israel. Porque a graça de Deus pode ser traduzida pelo "O senhor estava com ele". Graça aqui significa agrado pois vemos como Lucas acomoda o dito de Samuel a Jesus. A medida que Jesus crescia ia mostrando com fatos a sua sabedoria e cada vez mais Deus estava com ele e os homens admiravam sua bondade de modo que mais e mais cada dia era digno da admiração e beneplácito de Deus e dos homens.