SANTÍSIMA TRINDADE (Jo 16, 12-15)

(Pe Ignácio dos padres escolápios)

 

NÃO PODEIS SUPORTAR: Em Jo 15, 15. Jesus afirma que tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho dado a conhecer. Como é que agora afirma que há coisas que agora, neste momento, não podeis suportar (entender)? Logicamente parece que Jesus alude a um acontecimento histórico que eles não conseguem entender por agora. É de se supor que o tal acontecimento seja a paixão e morte de Jesus que naturalmente deveria destruir toda fé nele inspirada como era a de ser o Messias; pois no lugar de triunfo oferecia uma devastadora derrota. Quando observamos um grafito romano da época em que o crucificado era representado com rosto de asno, podemos afirmar que ante os olhos, não iluminados pela presença do Espírito da Verdade, esta última [a verdade] seria tão brutal que não poderia ser aceita (o bastazo grego) pelos discípulos.

ESPÍRITO DA VERDADE: O qualificativo desse Espírito aparece também em 14, 17 e 15, 26. Sua função vai precedida por quando, porém, vier . Isso nos leva a unir o Espírito com a ausência de Jesus na vida apostólica, e também com a aceitação da verdade, tão difícil sem essa presença, que exige uma verdadeira liderança explicativa, ou se queremos uma nova abertura à verdade como quem demonstra a realidade e oportunidade da mesma num futuro próximo. Por isso Jesus afirma Espírito(pneuma) é causa e chefe da verdade. Ele terá uma função especial, sem a qual essa verdade não seria aceita: Ele será como o guia a conduzir (odegeo= levar pelo caminho) os discípulos para aceitar como norma de vida a verdade que os fatos em breve a acontecer encerram (o futuro do versículo 13), e que agora os discípulos não poderiam tolerar. Poucos instantes antes Jesus tinha oferecido aos apóstolos uma visão desse Espírito que então chamou de Advogado (parákletos no ver 7). Sua atuação era convencer, como se faz num tribunal público, da inocência de Jesus e da culpabilidade dos seus algozes. Falando de convencimento, os primeiros a serem convencidos eram os próprios apóstolos da verdade na causa da qual seriam propagadores. Este Jesus -dirá Pedro, convencido e atuando como acusador - vós o matastes crucificando-o pelas mãos dos ímpios (At 2, 23).

GUIAR-VOS-Á: A função pois, do Espírito que aqui aparece como pessoa, e não unicamente como atributo ou qualidade dos apóstolos, é mostrar o caminho para a verdade, daí o eis (para). Essa verdade era a total, que sem a liderança do Espírito seria impossível compreender. A verdade não se impõe, mas é preciso buscá-la e nessa busca o Espírito oferece sua ajuda, sem a qual jamais chegaremos a encontrá-la. É a verdade total (pasa) pois parte dessa verdade, da qual Jesus forma a totalidade, pode ser encontrada por outras pessoas fora do círculo religioso do colégio apostólico. Porém a verdade total sobre Jesus, o Cristo e Filho de Deus, só é possível vê-la através da iluminação recebida pelo Espírito da VERDADE, sobrenome com o qual Jesus o designa.

NÃO FALARÁ POR SI MESMO: A preposição apo significa desde ou tendo como causa a si mesmo. A melhor tradução é a que existe como comparação com Jesus em 12, 49 em que este afirma que suas palavras não eram próprias mas prescritas pelo Pai que o enviou. Assim também o Espírito falará do que ouviu [em passado aoristo, no grego]. A questão está em quem falou para ser escutado pelo Espírito: Jesus ou o Pai.. Veremos a explicação no próximo versículo.

REVELARÁ AS COISAS FUTURAS: Como estamos sempre à caça de profecias, sempre pensamos nas mesmas. Mas parece que esse futuro é o tempo em que Jesus não mais estará com os discípulos e estes terão que interpretar assuntos tão graves e cheios da incerteza como a paixão e morte de Jesus. Como transformar o que evidentemente era uma derrota, em vitória ou glória, como reclama o evangelho de João(13, 31)? Essa seria a obra do Espírito. O verbo usado não é precisamente o de revelar mas de anunciar ( anaggello). O verbo indica re-anunciar, repetir de novo, ou melhor conclamar, à diferença do aggello, simples anúncio. Na LXX é freqüente em Isaías onde o encontramos 57 vezes como no caso de quem ente os outros anunciou estas coisas? Ou em 44, 7 e em 45, 19. Já no NT em João aparece 6 vezes, três neste trecho de hoje com o significado de revelar algo novo, como em 4, 25 em que a samaritana afirma que o Messias revelará ou declarará tudo.

O QUE O PAI TEM É MEU: O sentido não é de ter como atributos naturais, de modo a indicar uma única natureza entre Pai e Filho, mas de comunicação. Jesus está falando de uma revelação de acontecimentos futuros, e planos divinos sobre sucessos que precisamente vão definir a atuação divina na história humana, mudando pactos e verdades tradicionais. E é nesse ponto que Pai e Filho coincidem. Aquele como desenhador do plano, este como obediente executor do mesmo. É por isso que Jesus dirá que o Espírito toma do que é meu (do meu ofício de comunicador) e vo-lo anunciará. Em definitivo, o Espírito- inspiração, sopro de vida, vento vital, iluminação interior- como vemos em João 3, 8-19 será o novo Mestre que interiormente formará os discípulos, uma vez terminadas as atuações da paixão e morte de Jesus para continuar os ensinamentos do antigo Preceptor sem que exista interrupção ou novidade que retifique o caminho (nome recebido pelo primitivo cristianismo) que Jesus mostrou a seus discípulos durante sua permanência entre eles. Caminho, único verdadeiro, porque os ensinamentos de Jesus provinham todos do Pai e os conhecimentos do Espírito procedem todos de Jesus. Jesus glorifica o Pai manifestando sua verdadeira Natureza aos homens e o Espírito glorificará o Filho ao revelar a verdadeira natureza do mesmo. Porque assim como o Filho é emissário do Pai o Espírito será de hora em diante emissário do Filho. E assim como o Pai permanece em Jesus e é aí onde manifesta suas obras (Jo 14, 10) o Espírito permanecerá em vós(14, 16) e é com eles que Jesus realizará sua obra. Em seu humilde serviço, ambos, Filho e Espírito, serão glorificados como disse Jesus: Pai, chegou a hora: glorifica teu Filho, para que teu Filho te glorifique (17, 1). Glorificação e cruz serão uma mesma coisa. E a glorificação que tem como fonte o Espírito são as obras dos discípulos: Meu pai é glorificado quando produzis muito fruto (15, 8). Por isso Ele [o Espírito] me glorificará porque receberá do que é meu e vos anunciará (16, 14). Por outra parte sabemos que a obra com a qual Pedro de modo especial daria glória a Deus era sua cruz (21, 19). Em resumo: Assim como pela cruz Jesus cumpriu sua obra de glorificação do Pai, porque mostrou ao mundo a maior das obras divinas que é o amor de Deus aos homens (3, 14-16), será também pelo martírio dos discípulos que estes demonstrarão seu amor a Jesus. Martírio também em sentido pleno,pela entrega total aos homens dos que chamamos confessores que o Espírito mostrará de modo convincente porque Ele conduz seus eleitos num mundo ausente de verdadeiro amor.

PISTAS: 1) O labor escondido do Espírito na Igreja é manifestado pela sua voz interior que transforma o homem para este transformar suas circunstâncias. Ao contrário dos grandes planos do mundo que querem transformar as circunstâncias, enriquecendo as nações, para melhorar os homens. Mas o resultado é a pobreza interior que é provocada pela riqueza extrema. 2) A verdade completa sobre Deus e seu Cristo só pode ser compreendida sob a ação do Espírito Santo. Com um mesmo evangelho, há quem o toma como Francisco sem glosas e transforma o homem em santo, e há quem através das glosas escutam suas próprias idéias e opiniões como inspiradas, quando é a ambição ou o orgulho que as ditam.

EXEMPLO: Hoje, dia da solenidade da Santíssima Trindade, a Igreja nos propõe como contemplação a ser admirado, um dogma que diferencia os cristãos de outras religiões monoteístas que admitem uma única natureza em Deus, mas rejeitam as individualidades ou pessoas no mesmo. Por isso vamos tentar explicar os termos e por meio de um exemplo ilustrar o que sempre permanecerá um mistério: A física moderna fala de prótons, nêutrons, etc como partículas elementares. Mas na realidade as partículas mais elementares são os quarks. Cada próton ou nêutron está formado por três quarks. Estes se distinguem entre si pela carga elétrica, que os distingue entre up (acima) down (embaixo) e strange (estranho). Dentro de cada próton, por exemplo, realizam-se duas operações que recebem o nome de sabor e cor, qualidades que eles entre si mudam constantemente de modo a gerar forças de coesão que os mantêm unidos numa mesma partícula. Mas vamos ao caso particular da partícula delta. Ela está formada por três quarks idênticos em tudo, exceto a cor. Pela lei da cor nula ou branca, a soma das três cores deve dar essa cor que é a única encontrada na natureza. Do mesmo modo as três Pessoas se diferenciam entre si pela relação [cor] dentro da Trindade; mas é a cor branca da união em uma divindade a que atua como um todo fora do círculo íntimo, e portanto não se pode observar a diferenciação pessoal, que só existe no interior da Divindade. (Eu e o pai somos um) Em resumo: o que estas pessoas têm em comum? A natureza. O que as diferencia? A personalidade que depende de dois processos havidos dentro do círculo divino de Poder, Sabedoria e Bondade. Esse Poder, Sabedoria e Bondade são comunicados e compartidos no círculo divino, ao qual foi chamado pessoalmente Jesus e seremos chamados como participantes os Bem-aventurados