Idade Média: período de obscurantismo?
(Revista Pergunte e
Responderemos, PR 005/1958)
Dom Estevão Tavares Bettencourt,
OSB
"A Idade Média terá sido,
em virtude da predominância da religião católica, um período de
obscurantismo?"
A Idade Média é por vezes
considerada qual "noite de mil anos" que se abateu sobre a
civilização, constituindo, pela barbárie e ignorância de seus homens,
verdadeira mancha no decorrer da história.
E' o que, conforme
alguns autores, a própria designação "Idade Média" deveria incutir.
Esta foi forjada pelos humanistas do séc. XVI, que com tal denominação
queriam caracterizar o período da língua latina que vai da Idade Clássica
antiga ao Renascimento da mesma no séc. XVI; entre duas épocas áureas
estaria uma fase intermediária ou "média", fase apagada ou decadente
na história do idioma latino. Em 1688 o historiador alemão Cristóvão Keller
(Cellarius) na sua "Historia Medii Aevi" (História da Idade Media) adotou pela
primeira vez o nome no setor da história da civilização — o que dava a entender
que o período decorrente entre a Idade Antiga e a Renascença foi igualmente
uma época apagada e decadente.
Nem todos os autores, porém,
concordam com tal modo de ver. O historicismo do século passado tinha a Idade
Média na conta de período cheio de realizações construtivas.
Vejamos o que há de objetivo
nestas diversas apreciações.
1. O período antigo ou
greco-romano da civilização termina com a ruína do Império Romano, o qual
cedeu aos golpes das invasões bárbaras (Roma caiu em 476). A Europa e a África
Setentrional foram ocupadas pelos germanos invasores, que, após haver derrubado
as instituições antigas, eram incapazes de reconstruir a vida social, pois
careciam de valores culturais correspondentes. Ora, tendo desaparecido a
figura do Imperador no Ocidente, a única autoridade capaz de tomar as rédeas da
situação européia dos séc. V/VII era a autoridade eclesiástica: o Papa, então,
os bispos e os monges se puseram a preservar da perda total os valores da
civilização greco-romana, utilizando-os na confecção de nova
síntese cultural.
Não há dúvida de que a
Religião Católica foi altamente benemérita neste trabalho de reconstrução;
criaram-se valores e instituições de vulto no início e no decurso da Idade
Média. Detendo-nos apenas na história da educação e da cultura, devemos
mencionar que foram os clérigos e monges que asseguraram o ensino primário nas
escolas catedrais, monacais e palatinas (isto é, erguidas respectivamente junto
a uma igreja catedral, a um mosteiro, a um palácio de rei).
Eis alguns documentos a
propósito:
Teodulfo, bispo de Orléans no
séc. VIII, promulgou a seguinte lei:
"Os sacerdotes mantenham
escolas nas aldeias, nos campos; se qualquer dos fiéis lhes quiser confiar os
seus filhos para aprender as letras, não os deixem de receber e instruir, mas
ensinem-lhes com perfeita caridade. Nem por isto exijam salário ou recebam
recompensa alguma, a não ser por exceção, quando os pais voluntariamente a
quiserem oferecer por afeto ou reconhecimento" (Sirmond, Concilia Galliae II 215).
Este decreto passou
verbalmente para as legislações eclesiásticas da Inglaterra. Freqüentemente os
concílios regionais dos séc. VIII/IX repetiram semelhantes normas. O III concílio
ecumênico do Latrão em 1179, por sua vez, lavrou o seguinte cânon:
"A Igreja de Deus, qual
mãe piedosa, tem o dever de velar pelos pobres aos quais pela
indigência dos pais faltam os meios suficientes para poderem facilmente
estudar e progredir nas letras e nas ciências. Ordenamos portanto que em todas
as igrejas catedrais se proveja um benefício (rendimento) conveniente a um
mestre, encarregado de ensinar gratuitamente aos clérigos dessa igreja e a todos
os alunos pobres" (cân. 18, Mansi XXII 227s).
O IV concílio
ecumênico do Latrão (1215) renovou este decreto.
Também o ensino superior na
Idade Média se ministrava por iniciativa, ou ao menos sob a tutela, de bispos e
príncipes cristãos. As primeiras Universidades foram fundadas por volta de
1100. Constituem uma das criações mais originais e valiosas da Idade Média: no
período greco-romano cada filósofo e cada mestre de ciências tinham sua escola
— o que implicava justamente no contrário de uma Universidade. Esta na Idade
Média reunia mestres e discípulos de várias nações, os quais constituíam
poderosos focos de erudição. Até 1440 foram erigidas na Europa 55 Universidades
e 12 Institutos de ensino superior, onde se ministravam cursos de Direito,
Medicina, línguas, artes, ciências, Filosofia e Teologia. Em 1200 Bolonha
contava dez mil estudantes (italianos, lombardos, francos, normandos,
provençais, espanhóis, catalães, ingleses, germanos, etc). O Papa Clemente V no
concílio de Viena em 1311, mandou que se instaurassem nas escolas
superiores cursos de línguas orientais (hebreu, caldeu, árabe,
armênio, etc), o que em breve foi executado em Paris, Bolonha, Oxford,
Salamanca e Roma.
Poder-se-iam multiplicar dados
deste gênero. Estes, porém, já dão a ver que a Idade Média não foi alheia à
cultura, justamente em virtude da influência da Igreja que nela se exerceu.
2. E' preciso, porém,
reconhecer uma particularidade da ciência medieval: os homens da época careciam
do aparato técnico necessário a experiências e investigações precisas; o seu
horizonte geográfico e astronômico também era bastante restrito. Sendo assim,
a ciência medieval era levada não raro a julgar os fenômenos segundo a sua
aparência e pouco habilitada a exercer o senso crítico. Outra conseqüência da
penúria de meios de observação é que os cientistas medievais procediam por
dedução mais do que por indução; não podendo formular as leis da natureza na
base de experiências exatas físico-químicas, os medievais as formulavam
recorrendo a princípios especulativos, abstratos, dos quais julgavam poder
deduzir a explicação dos fenômenos da natureza. Este trabalho, porém, era em
alta escala sujeito a erro: os medievais não raro julgavam (e nisto se
enganavam) que a Bíblia Sagrada podia ser utilizada para elucidar não somente
questões teológicas, mas também temas de ciências profanas, de sorte que, na
falta de outros critérios, apelavam para a Escritura a fim de resolver
problemas de ordem biológica, astronômica, etc. (haja vista o que ainda no séc.
XVII se deu no caso "Galileu", do qual trata "Pergunte e
Responderemos" n.° 4/1958 qu. 12).
Deve-se sublinhar que tal
atitude se devia em grande parte à falta de instrumentos precisos para a
investigação da natureza (falta bem compreensível na Idade Média, já que o homem
só aos poucos progride na conquista do mundo que o cerca). Não seria justo
dizer que os cristãos medievais tinham medo da ciência empírica e que as
autoridades eclesiásticas travavam os estudos a fim de evitar conflitos de
ciência e fé; entre os pioneiros dos avanços científicos medievais contam-se
eclesiásticos, monges e cristãos de valor, como Sto. Alberto Magno O.P.,
Rogério Bacon O.F.M., João Peckam O.F.M. (arcebispo de Cantuária), Dietrich de
Freiberg O.P.. Jordão Nemorário, Guilherme de Moerbeke O.P... .
Muito significativo é um dos
últimos depoimentos sobre o assunto, proferido em 1957 por um grupo de
estudiosos que, sem intenção confessional alguma, escreveram a história da
ciência antiga e medieval:
“Parece-nos impossível aceitar
a dupla acusação de estagnação e esterilidade levantada contra a Idade Média
latina. Por certo a herança (cultural) antiga não foi
totalmente conhecida nem sempre judiciosamente explorada;... mas não é menos
verdade que de um século para outro — mesmo de uma geração a outra dentro do
mesmo grupo — há evolução e geralmente progresso.
A Igreja... na Idade Média
salvou e estimulou muito mais do que freiou ou desviou. Por isto, embora só
queira apelar para a Antigüidade, a Renascença é realmente a filha ingrata da
Idade Média" (La science antique et médiévale, sous Ia direction de René
Taton, Presses Universitaires de France. Paris 1957, 581s).
Em particular com referência
ao fato de que só a partir de fins do séc. XIII se começaram
a fazer dissecações e observações em cadáveres humanos, dizem os mencionados
estudiosos:
"Como quer que seja, não
se poderia aceitar a opinião um tanto simplista segundo a qual a Igreja teria
sido a grande responsável da estagnação dos estudos de anatomia" (ibd.
580).
Estes testemunhos tão insuspeitos
levam a concluir que as crenças cristãs dos homens medievais não prejudicaram a
cultura humana, antes a favoreceram, apesar das conseqüências errôneas que em
matéria de ciências os medievais julgavam por vezes dever deduzir da sua fé. Dê
o observador muito maior atenção a outra faceta da cultura medieval: a
capacidade humana de especulação filosófica parece ter atingido então o auge da
sua clareza e agudez, criando as famosas Sumas de lógica, ontologia,
metafísica da Idade Média. Estas obras, continuando as dos grandes pensadores
gregos (principalmente de Aristóteles), até hoje são monumentos perenes, não
ultrapassados, da cultura humana. E', sem dúvida, este aspecto positivo que
merece preponderância numa apreciação objetiva da Idade Média.