Pe.
Robert F. Taft, SJ
Vice-Reitor
do Pontifício Instituto Oriental, Roma
21a
Conferência de Kelly
Universidade
de Saint Michael
Toronto,
CANADÁ
1o
de dezembro de 2000
Não acho
que alguém que esteja a par das notícias religiosas possa ignorar que as
relações ecumênicas entre as Igrejas Católica e Ortodoxa Oriental estão
passando por um período de crise, talvez o pior deles desde o início do diálogo
ecumênico internacional oficial entre estas duas comunhões após o Segundo
Concílio Vaticano. A Oitava Sessão Plenária da Comissão Conjunta para o Diálogo
Teológico entre a Igreja Católica e a Igreja Ortodoxa entre 9 – 19 de Julho no
Mount St. Mary's College and Seminary em Emmittsburg, Maryland, terminou, como
se sabe, num impasse, ou pior: não faltaram aqueles que, em privado, a
estigmatizaram como um fiasco total. [1]
"Uniatismo"
A razão de tal impasse é o fenômeno denominado "Uniatismo,"[2] um neologismo pejorativo forjado para denotar
um método de união da Igreja que os Ortodoxos consideram ser político e não
religioso, e contrário à “eclesiologia da comunhão” da Igreja do primeiro
milênio.[3] Segundo o "Uniatismo",
uma Igreja é considerada agressora perante outra “Igreja irmã” cismática, que
absorve grupos de seus fiéis de maneira enganadora ao permitir que retenham suas tradições litúrgicas e canônicas
peculiares e, ao mesmo tempo, uma determinada autonomia. Este tipo de união,
considerando-se o resultado da pressão política reforçada pela violência, não
criou unidade mas sim novas divisões numa cristandade já fragmentada.
Para
entender o "Uniatismo" e o seu significado negativo, é necessário
compreender a natureza das uniões dos séculos XVI e posteriores e das Igrejas
Católicas Orientais que delas originaram-se. Independentemente das intenções
que as motivaram, estas reuniões não consistiram, exceto no sentido teológico
mais formal, numa restauração da comunhão que existiu antes do cisma entre o
Oriente e Ocidente. Elas representavam uma novidade da história da Igreja, uma
renúncia do passado, e daí a origem do neologismo eslavo “uniia” para descrevê-la.
Se o
Concílio de Florença de 1439 tivesse tido um bom resultado, o fenômeno do
“Uniatismo” nunca teria sido criado. Isso porque em Florença o Ocidente Latino
e o Oriente Bizantino tentaram encarar e negociar entre si como iguais. Mais
tarde, o repúdio dos ortodoxos em Florença, em 1484, provocou uma mudança clara,
apesar de, talvez, inconsciente, das táticas da Igreja Latina. Desiludidos com
o fracasso da tentativa de uma união geral, a Igreja de Roma começou assinar
acordos de união separados com grupos ortodoxos individuais, portanto, atraindo
para si as margens da ortodoxia em áreas sob o controle político das forças
Católicas. Para os ortodoxos, isso era pérfido, era como assinar um tratado de
paz separado oculto com aliados ao invés de buscar uma paz geral. Roma podia
responder que estava simplesmente buscando a união com uma Igreja Local (que,
de fato, a Igreja de Roma, como qualquer outra Igreja, tem todo o direito de
fazê-lo). [4]
Contudo,
sob o ponto de vista fenomenológico, as Igrejas continuaram desenvolvendo-se e,
no período imediatamente posterior ao Concílio de Nicéia, ainda era possível
ver a Igreja Universal como uma federação de Igrejas Locais sem a interferência
de estruturas superiores – como se, por exemplo, o Canadá fosse tão somente um
agrupamento de cidades independentes, não unidas em diferentes províncias como
são hoje. Portanto, os grupos ortodoxos que uniram-se à Roma não estavam tão
somente restaurando a unidade antiga, danificada, entre a Igreja Local e a
Igreja de Roma, apesar de ser isso mesmo que desejavam. Eles estavam também
separando-se de uma entidade, da sua Igreja Mãe Ortodoxa, e estavam sendo
absorvidos por outra, a Igreja Católica Latina do Ocidente. Em resumo, elas
estavam deixando a Igreja Oriental para assimilar-se à Igreja Ocidental. Não
estavam, pois, restaurando a comunhão entre o Oriente e o Ocidente, mas sim,
criando novas divisões.
Para os ortodoxos, tais uniões tiraram todo o problema ecumênico do seu
contexto adequado. Esta é uma opinião que hoje é compartilhada pela maioria dos
ecumenistas. Sob esta perspectiva, a separação entre as nossas Igrejas foi o
resultado de desacordos entre as hierarquias do Oriente e do Ocidente
referentes a questões eclesiásticas tais como a extensão e a autoridade da Sé
Romana, e a resolução destes problemas depende destas duas hierarquias juntas,
não de indivíduos ou de frações episcopais. Uma união parcial somente divide as
Igrejas Ortodoxas e engana os fiéis menos informados que seguem seus bispos em
boa fé, sem entender as questões envolvidas. Para os ortodoxos, tais uniões
parciais não são consideradas União, mas sim “Uniia”, uniões que rompem a integridade e que, numa disputa, se
submetem ao lado oposto prematura e traiçoeiramente, sem a permissão do próprio
grupo.
O confronto entre o Oriente e Ocidente através dos
séculos
O "Uniatismo" é, contudo, somente a ponta do icebergue, o resultado
do confronto de muitos séculos entre o Oriente e o Ocidente, que teve início na
Idade Média e que perdura ainda hoje. Como a origem do problema de hoje é a
agressão da Igreja Católica contra o Oriente, vamos revisar algumas das normas
católicas em relação ao Oriente, a maioria das quais serão, para o observador
objetivo, sob perspectivas modernas, uma comédia de erros.
A Igreja
Católica intrometeu-se de forma dramática na vida do Oriente Cristão durante as
Cruzadas e durante a Renascença, na “Era dos Descobrimentos”, a partir do
século XV, fundando estruturas eclesiásticas paralelas em terras da cristandade
apostólica e criando problemas que perduram até os dias de hoje. Desta maneira,
a Igreja Católica era leal à sua eclesiologia exclusivista e expansionista na
qual existia uma só cristandade válida, a sua própria, totalmente sob o domínio
do Bispo de Roma, que permitia usar seus prediletos para fazer aquilo que bem
entendia onde quer que fosse.
Antes da
era do "Uniatismo" no final do século XVI, Roma empenhou-se por uma
comunhão geral com os ortodoxos, enquanto tentava, ao mesmo tempo, convertê-los
para o rito latino.[5] Antes do Concílio
Florentino (1439), também as dioceses gregas em terras sob o controle dos
Estados-Cidades marítimos italianos, como nas ilhas do Mar Egeu, caíram
automaticamente sob o domínio eclesiástico latino. O mesmo aconteceu nos reinos
latinos que os cruzados conquistaram no Oriente Médio, onde as hierarquias
latinas foram impostas nas terras conquistadas. Mas a nível paroquial, o clero
e o povo praticamente não sofreram interferência alguma.[6]
Isso foi muito antes da cristalização do Cisma entre o Oriente e Ocidente no
século XVIII,[7] e não pode ser comparado com
um ato formal de união que separa os fiéis de suas Igrejas Ortodoxas para
integrá-los na Igreja Latina.
A
agressão do Ocidente contra o Oriente tomou vigor somente com os eventos
missionários da Era dos Descobrimentos, quando missionários católicos
espalharam-se pelo mundo seguindo os passos da colonização portuguesa. Não é de
admirar que as hierarquias locais de Igrejas antigas em lugares como a Índia
ficaram mais que desnorteados com esta invasão que foi, em realidade, apesar de
sem intenção, pouco mais que imperialismo eclesiástico.[8]
Nesta invasão, o papel dos missionários jesuítas, perfeito para a tarefa da
eclesiologia papista e universalista de Santo Inácio de Loyola, foi
fundamental. A intromissão repentina na vida das Igrejas locais por um grupo de
sacerdotes estrangeiros letrados, dinamicamente zelosos, obrigados à obediência
não à hierarquia local mas sim a um “bispo universal” estrangeiro a milhares de
quilômetros, somente poderia causar problemas. [9]
Na costa
Malabar do sudeste da Índia, sob o padroado português, os invasores latinos, em
1599, forçaram a união da estrutura hierárquica da Igreja apostólica nativa dos
cristãos de São Tomás e o jesuíta Francis Roz foi imposto como o primeiro
prelado latino dos sírios naquele mesmo ano. Arcebispos portugueses de
Angamali-Cranganore, todos jesuítas, governaram a Igreja de Malabar a partir
daí, até então independente, que existiu naquela região por todo um milênio sem
jamais ter sequer ouvido da existência de uma tal Sociedade de Jesus.
Chauvinistas, os jesuítas somente permitiam o trabalho em Malabar ao seu
próprio clero, e o resultado não foi difícil de prever: no dia 3 de janeiro de
1653, o povo exasperado revoltou-se. Reunindo-se ao pé da cruz perante a igreja
de Mattancherry, fizeram um juramento solene de ignorar a autoridade do
arcebispo de Cranganore e de expulsar os jesuítas. Este dia ficou marcado na
história como o “Juramento da Cruz de Coonan”. Os católicos nativos
sírio-malabareses ainda hoje levam com orgulho os visitantes até o símbolo da
sua revolta heróica contra os opressores eclesiásticos, os jesuítas. Me levaram
até lá no verão de 1986 e eu rezei por aquelas almas heróicas que foram
literalmente expulsas da Igreja Católica pelos malfeitores jesuítas portugueses
e pedi a Deus que perdoasse esses destrutores negligentes.
A missão
jesuíta na Etiópia, o primeiro encontro da Sociedade de Jesus com o Oriente
Cristão, ainda durante a vida do próprio Santo Inácio, foi um fiasco ainda
maior. A história vem narrada sob o título de “Prester John’s Business” do
maravilhoso clássico “The Progress of the Jesuits” de James Brodrick. Contudo,
nem o Brodrick nem o Santo Inácio estavam conscientes, pois ambos concordavam
com aquela eclesiologia típica anterior ao Vaticano II, do quanto ridículo
seria esta história para aqueles que concebiam a realidade de uma forma muito
diversa, não baseada no exclusivismo eclesiológico latino e nas pretensões
romanas.
A
história diz que na época em que navegantes da Península Ibérica descobriram as
Américas e colonizavam o resto do mundo, um aventureiro português chamado Peres
de Covilham entrou em contato com quem imaginava ser o mítico sacerdote rei
Preste João na pessoa de Negus de Abissínia. Este legendário potentado africano
que não tinha o menor interesse em entrar em contato com qualquer pessoa,
confinou Peres de Covilham pelo resto da sua vida, tendo a cortesia de
oferecer-lhe uma esposa para que melhor passasse o tempo. Vasco da Gama também
procurava este fabuloso Preste João em 1497 quando cometeu um erro e acabou
descobrindo a Índia, que foi rapidamente colonizada pelos portugueses.
Por fim,
Negus foi contatado novamente e, após algumas escaramuças e estratagemas,
estabeleceu-se um relacionamento e o etíopes, adeptos de uma Igreja
Pré-Calcedônia, chegaram a mencionar uma possível união eclesiástica, à qual,
apesar das suas falhas, a Igreja Católica, ao contrário do Oriente mais
introvertido e satisfeito consigo mesmo, nunca perdeu o interesse. E foi assim
que, obviamente, os jesuítas entraram na história. No dia 22 de dezembro de
1553, o eminente jesuíta Juan Alfonso de Polanco, primeiro secretário da
Sociedade de Jesus sob o comando de Santo Inácio, escreveu que o rei de
Portugal “requereu neste mês, com urgência, ao nosso Padre Inácio que nomeasse
doze elementos da Sociedade, incluindo um patriarca, para as terras de Preste
João..." Após muita consultoria e busca, não tanto pelas pessoas
apropriadas mas por qualquer um que pudesse dispor-se para tal empreendimento
naqueles tempos de tanto trabalho, Inácio de Loyola escolheu um português,
simples presbítero da Igreja Romana, para ser o patriarca da desafortunada
Etiópia. No dia 24 de janeiro de 1554, o Papa Julius III confirmou a nomeação
do padre João Nunhez Barreto, S.J., um nobre português, para ser o primeiro
patriarca católico da Etiópia.
Sob o
ponto de vista moderno, o absurdo dessas medidas é simplesmente espantoso,
seria como se o presidente George Bush pedisse às autoridades jesuítas
americanas que nomeassem alguns jesuítas americanos para chefiar a “Igreja
Oriental” síria estabelecida no Iraque depois da Guerra do Golfo. Obviamente,
tal decisão é, inevitavelmente, um anacronismo. Ninguém precisa ser um
entendedor dos primórdios da história da Sociedade de Jesus para perceber que
naquela época a sutileza na eclesiologia da comunhão não era uma especialidade
dos católicos, ou jesuítas, ou de qualquer um envolvido, nem pode-se esperar
que eles pudessem ter sido sutis.
Mas a
história não termina aqui. Fortalecido pelas instruções do seu presbítero
superior Santo Inácio, o neo patriarca e seu bispo coadjutor, o jesuíta
espanhol André d'Oviedo, partiram para a Etiópia. O patriarca João Nunhez
Barreto morreu em Goa em 1561 e Oviedo o sucedeu no trono patriarcal da
Etiópia, onde os jesuítas continuaram a trabalhar heroicamente por três quartos
de século até que, fácil de imaginar, foram expulsos.
O
problema começou sob o reinado de Negus Susneyios, que havia aceito o
catolicismo privadamente. Sob seu comando, a Santa Sé nomeou Alfonso Mendez,
S.J. para ser o novo patriarca. O patriarca Alfonso Mendez chegou na Etiópia em 1625 e no ano seguinte
foi proclamada a união da Igreja da Etiópica com Roma e os jesuítas continuaram
a repetir os mesmos erros que seus irmãos cometiam, contemporaneamente, em
Malabar. O calendário gregoriano e os métodos de jejum e abstinência foram
impostos pela força de armas. O patriarca Mendez quis até mesmo impor a
tradução da liturgia romana em geez. Inevitavelmente, o povo revoltou-se, os
jesuítas foram expulsos em 1636 e a Igreja Católica ficou proibida por duzentos
anos.
A era do "Uniatismo"
O
"Uniatismo" clássico originou-se num contexto parecido, desta vez não
no estrangeiro, mas nas missões domésticas, durante a Reforma Católica e a luta
com os protestantes pelas almas da Europa. Nesta luta, a Igreja Ortodoxa era,
de certo modo, um espectador no centro de fogo cruzado dos principais
beligerantes. O cenário era a Confederação da Polônia e Lituânia do século XVI
quando, no dia 19 de outubro de 1596, na igreja de São Nicolau da cidade de
Brest, no então Grão Ducado da Lituânia, cinco dos sete bispos ortodoxos da
Confederação da Polônia e Lituânia uniram-se à Santa Sé.[10]
Esta união, longe de ter sido “forçada” ou “imposta” aos ortodoxos, como se
ouve dizer com freqüência, foi o resultado não somente de prolongadas
negociações mas também de um movimento religioso paralelo propagado incansavelmente
por vinte anos pelo jesuíta polonês Piotr Skarga. Um dos grandes personagens da
Contra-Reforma Polonesa, Piotr Skarga foi para o seu país aquilo que foi São
Pedro Canisius para a Alemanha. O livro de Piotr Skarga intitulado “O
jedności Kościoła Bożego” [“Sobre a Unidade da Igreja de
Deus”], publicado em Vilnius em 1577, foi uma obra inigualável na promoção da
causa da conversão ao catolicismo.[11] O
segundo lugar da vigorosa promoção da causa católica ocupa o popular jesuíta
italiano Antonio Possevino, melhor conhecido na história por suas espetaculares
missões como núncio apostólico, especialmente à Corte de Ivan, o Terrível, onde
a questão da união da Igreja era rechaçada grosseiramente toda vez que fosse
abordada. No famoso evento que se tornou uma referência histórica famosa e que
foi também uma profecia ativa da qualidade das relações futuras entre ortodoxos
e católicos, o czar insultou o Papa e levantou o seu cetro contra o enviado
papal quando este insistiu sobre a causa da união da Igreja.
Mas estes
jesuítas, longe de terem inventado o "Uniatismo", como freqüentemente
são acusados, tomaram uma atitude desfavorável à ortodoxia rutena e favoreceram
a conversão dos rutenos para a Igreja de Roma, abertamente. Nestas alturas era
evidente que a possibilidade de um retorno geral à União de Florença era
inexeqüível e a discussão de Antonio Possevino com Ivan, o Terrível o
confirmou. Contudo, a idéia de uma união regional baseada nos precedentes
estabelecidos em Florença em 1439 (os rutenos ingressariam a Igreja Católica
como um corpo, preservando a sua própria hierarquia e rito) não foi invenção
dos jesuítas. Inicialmente, ao menos, a União não era considerada favorável por
nenhuma das três partes interessadas – Roma, poloneses e jesuítas –
tradicionalmente acusadas sem fundamento.
Longe de
ter sido o resultado de alguma estratégia católica preconcebida, o “Uniatismo”
foi uma invenção total e exclusiva dos bispos ortodoxos rutenos para sair da
difícil situação na qual a hierarquia ortodoxa rutena da época se encontrava,
entre Moscou e a Polônia, entre a Reforma e Contra-Reforma. É óbvio que estes
hierarcas não consideravam que fosse um rompimento com a ortodoxia e nem
desejavam que o fosse. Pelo contrário, tinham por finalidade proteger a unidade
da Igreja Ortodoxa Rutena que estava, naquela época, sob a pressão de uma
infinidade de fatores, incluindo o desejo dos bispos rutenos de preservar a sua
independência em relação às potentes Irmandades independentes suportadas pelos
patriarcas ecumênicos das terras rutenas, às presunções de Moscou no Oriente e
à pressão do proselitismo da Reforma e Contra-Reforma do Ocidente. Tudo isso
foi demonstrado amplamente pelos mais recentes históricos especialistas no
assunto em questão.[12] Na opinião bem
informada, equilibrada e objetiva do historiador Ambroise Jobert, "A União
de Brest não foi o resultado de uma política dos poloneses e romanos. Os bispos
rutenos, irritados com as reformas do patriarca de Constantinopla Jeremias II,
requereram-na, o tribunal da Polônia decidiu favoravelmente, com certa
hesitação, e Roma aceitou a União sem comentar nada sobre o assunto." [13]
Apesar da
grandíssima oposição dos ortodoxos e até mesmo da violenta perseguição dos
cossacos e mais tarde do Império Russo sob o reinado de Catarina II, a Grande
(1762-1796) e Nicolau I (1796-1855),[14] as
Igreja Católicas Orientais que nasceram da União de Brest de 1596 e de outras
uniões posteriores, consolidaram-se e desenvolveram-se, especialmente quando se
encontravam sob o protetorado de um regime católico, tal como o império
Austro-Húngaro, onde adquiriram o nome de “Greco-Católicos” para
diferenciarem-se dos católicos latinos.
A supressão comunista das Igrejas Católicas
Orientais
Tudo isso
mudou drasticamente com a expansão do império soviético verso ao oeste depois
da Segunda Guerra Mundial. Seria impossível julgar com justiça a tensa situação
ecumênica atual entre os ortodoxos e católicos orientais no ex-bloco comunista
do leste sem uma consideração objetiva do martírio das Igrejas Greco-Católicas
a partir do final da segunda guerra mundial até 1989. Atenuar ou negar este
aspecto da história seria visto com o mesmo desprezo à determinadas tendências
atuais que negam o holocausto. Como a Sua Santidade o Patriarca Ecumênico
Bartolomeu II disse após a Divina Liturgia na Catedral de São Jorge em Fanar na
festa de Santo André deste ano: “Visitas ao passado e exames das falhas humanas
devem continuar em todas as direções ... porque todo aquele que consente com os
delitos de outros ou os tolere através do silêncio, compartilha a
responsabilidade do autor."[15] E é
exatamente sob este espírito que eu narro o que segue.
As uniões
forçadas com a Igreja Ortodoxa começaram com o Pseudo-Sínodo de Lviv, capital
da Galícia (Halytchena) no oeste da Ucrânia, uma área ocupada em 1939 pelos
soviéticos aliados de Hitler e incorporada definitivamente na URSS no final da
Segunda Guerra Mundial. Lviv era a sede do metropolita da Igreja Greco-Católica
Ucraniana, à qual a maioria da população da Ucrânia Ocidental pertencia. Uma
paróquia ortodoxa polonesa em Lviv era a única igreja ortodoxa de toda a
região. A Igreja Ortodoxa Russa estava totalmente ausente. Somente após
consideração desses simples fatos é que as atuais reclamações dos ortodoxos
russos tão freqüentemente repetidas e publicadas sobre a perda de quase todas
suas igrejas da região da Galícia podem ser entendidas dentro de um contexto
apropriado.[16]
No
inverno de 1944-45 o regime soviético proibiu todo e qualquer contato da
hierarquia católica com o seu clero e fiéis e iniciou uma campanha de encontros
e propaganda forçados em favor da união com a Igreja Ortodoxa Russa. Os
oponentes eram aprisionados e torturados. No mês de abril de 1945 toda a
hierarquia Greco-Católica foi aprisionada e o regime soviético reconheceu o
“Grupo de Iniciativas”, formado por três sacerdotes católicos, para levar a
cabo planos do Governo, única autoridade acima da Igreja, dando-lhes instruções
de compilarem listas do clero que recusasse reconhecer a sua autoridade. Sob a
proteção da polícia, este grupo efetuou uma exaltada campanha de propaganda e
de ameaças. O NKVD pressionou o clero relutante a assinar uma petição para a
união com a ortodoxia. Aqueles que recusaram foram encarcerados. No final do
mês de fevereiro, treze sacerdotes católicos foram recebidos na ortodoxia em
Kiev e os dois membros celibatários do “Grupo de Iniciativas” foram consagrados
bispos ortodoxos em segredo. O líder do grupo, Havriyil Kostel'nyk, um
sacerdote casado, foi elevado à posição de arcipreste mitrado, a dignidade mais
elevada ao clero casado. [17]
Nos dias
8-10 de março de 1946, um "sínodo" de 216 sacerdotes aterrorizados e
19 leigos, orquestrado em Lviv sob a liderança deste grupo, aboliu a União de
Brest de 1596. Isso deu a entender que era um sínodo da Igreja Católica
Ucraniana e até os dias de hoje a Igreja Ortodoxa Russa o confirma e recusa
resolutamente repudiar seja o sínodo ou o próprio papel que desempenhou nesse
ardil. Mas, como as autoridades da Igreja Ortodoxa Russa estão bem conscientes,
a hierarquia completa da Igreja Católica Ucraniana estava aprisionada e toda a
junta do sínodo já havia sido convertida à ortodoxia, mas isso foi mantido em
segredo até que a farsa fosse ratificada. Esta ação foi seguida de prisões em
massa, interrogatórios, abusos, processos, banimentos e deportações, causando
incalculáveis sofrimentos e mortes.
As
autoridades da Igreja Ortodoxa Russa sempre defenderam que aquilo foi um sínodo
canonicamente legítimo da Igreja Greco-Católica Ucraniana que aboliu, de livre
e legítima vontade, a União de Brest “imposta a força” e até os dias de hoje
negam-se desmentir ou negar tal sínodo. As atas do sínodo foram publicadas em
ucraniano em Lviv em 1946 e em 1986 o Patriarcado de Moscou publicou versões
expurgadas em russo e inglês para comemorar os 45 anos de existência do vergonhoso
ardil.
A Igreja
Greco-Católica Ucraniana não foi destruída, sobreviveu em catacumbas para
voltar à tona mutilada mas vigorosamente viva quando lhe foi concedida
liberdade em 1989. Neste ano praticamente toda a Igreja Ortodoxa Russa do oeste
da Ucrânia, o clero, paróquias e fiéis, voltaram em massa à Igreja Católica.
Uniões
similares com a Igreja Ortodoxa foram forçadas em 1947 na Transcarpácia, em
1948 na Romênia e em 1950 na Eslováquia.
São fatos
históricos e são importantes por vários motivos. Primeiramente, ilustram a
falsidade demonstrável da acusação de que a Igreja Católica “reinventou” ou
“ressuscitou” um “Uniatismo” morto e desaparecido e, com isso, interrompeu o
diálogo ecumênico ortodoxo-católico. Uma versão mais sutil, que corresponde a
fatos históricos, nos leva a reconhecer as seguintes realidades. Os católicos
orientais foram forçados às catacumbas na década de 1940 por uma das mais
violentas e amargas perseguições da história cristã. Apesar de que isso foi
serviço dos regimes stalinistas, existem abundantes e irrefutáveis
evidências de que recebeu o apoio e/ou
a colaboração de ao menos alguns hierarcas ortodoxos e representantes
autoritários. Cada caso deve ser considerado separadamente e a justiça exige
evitar a generalização, mas não deve haver sombras de dúvidas de que
personagens tais como o Patriarca Justiniano Marina da Romênia e o Arcebispo
Makarij Oksijuk de Lviv e Transcarpácia, foram participantes ativos dessas
violações históricas dos direitos humanos. E um dos principais ideólogos ortodoxos
romenos dos tempos modernos, o padre ortodoxo e respeitado teólogo Rev. Dumitru
Staniloae (m. em 5 de outubro de 1993), proferiu uma sincera defesa vocal a
esta transgressão massiva dos direitos humanos, insistindo que a “união [dos
greco-católicos com a Igreja Ortodoxa que ocorreu em 1948] foi totalmente livre
e espontânea”.[18] Isso não é somente uma
tremenda mentira; é também a negação do terrível sofrimento de mártires.[19]
Depois
disso, representantes da autoridade ortodoxa continuaram promovendo por
quarenta anos uma campanha odiosa e mendaz referente a todos os aspectos da
vida e história das Igrejas Greco-Católicas e de suas “reintegrações à Igreja
Mãe” na década de 1940. Em 1987, durante a era de Gorbachev quando a bajulação
do partido comunista já não era mais uma questão de vida ou morte, o então
patriarca Pimen de Moscou proferiu o seguinte relato sobre estes eventos ao
jornalista italiano Alceste Santini:
Os
sentimentos anti-Uniatas dos fiéis da Galícia e da Transcarpácia foram
fortalecidos de forma especial durante a última guerra mundial, quando a
hierarquia dos Uniatas tomou o partido do inimigo da pátria, os invasores
nazistas alemães. Esta colaboração dos líderes da Igreja Greco-Católicas
provocou uma reação natural. Desta forma, a conclusão do processo de liberação
da união [com Roma], expressa nos Sínodos de 1946 em Lviv e de 1949 em
Mukatchevo trouxe uma grande satisfação aos fiéis da Galícia e da
Transcarpácia. [20]
A
história da hierarquia Católica Ucraniana e dos nazistas é uma calúnia
freqüentemente repetida pelos soviéticos que foram, não esqueçamos, aliados de
Hitler na invasão da Polônia e oeste da Ucrânia em 1939.[21]
É óbvio que, após vinte e um anos de domínio soviético, praticamente toda a
URSS inicialmente acolheu os alemães como libertadores.[22]
E não tem sentido o que diz o patriarca Pimen sobre a deslealdade dos bispos
católicos à pátria, pois antes da guerra a Galícia era parte da Áustria, não da
URSS. Além do mais, nenhum sínodo foi realizado em Mukatchevo, como Pimen sabia
perfeitamente bem; e já expliquei o significado do “sínodo” de Lviv.
Este é
apenas um exemplo dentre as, literalmente, dezenas deles que tenho sobre as
mendazes negações públicas do passado proferidas pelas mais elevadas
autoridades eclesiásticas ortodoxas do Bloco Soviético, uma negação que se
tornou ainda mais ridícula pelo fato de que até mesmo os agentes da NKVD responsáveis
pelo apressado sínodo de Lviv em 1946 já haviam divulgado seus segredos
publicamente e também na forma impressa. [23]
Exceto no
caso de alguns dissidentes religiosos condenados pelas autoridades da própria
Igreja e de alguns letrados seculares de boa vontade tal como o físico Andrej
Sakharov que denunciaram a farsa, admissões lentas e relutantes da verdade
começaram a ser expressas por algumas autoridades oficiais das Igrejas
Ortodoxas somente quando perceberam que aquele encobrimento mendaz tornava-se
embaraçosamente contra produtivo, pois a mídia mundial finalmente começou a
interessar-se pelo assunto e publicar a verdadeira história.
Neste
entretempo, as Igrejas Greco-Católicas (praticamente todas localizadas na
Galícia, Trasncarpácia e Eslováquia; muito menos na Romênia, onde a história e
circunstâncias foram muito diferentes), que permaneceram resolutas às próprias
convicções, saíram das catacumbas às quais tinham sido banidas e começaram
exigir o seu patrimônio e desmentir a difamação sistemática da própria história
à qual foram submetidos durante os últimos cinqüenta anos. Portanto, não
ocorreu um “renascimento do Uniatismo”,
mas sim terminou a perseguição e a vergonhosa conspiração do silêncio.
Com esse
fardo histórico nas costas, nenhuma pessoa íntegra e de boa vontade poderá
surpreender-se com as tensões atuais entre os Católicos Bizantinos e Ortodoxos
na ex-União Soviética, especialmente quando se considera a oposição dos
Ortodoxos em repudiar definitiva e oficialmente as “uniões” forçadas de
1946-1950.
Inevitavelmente,
a emergência das Igrejas Católicas Orientais das catacumbas induziu a conflitos
confessionais e a um renascimento da histeria tradicional anti-romana por parte
dos ortodoxos. Enquanto os católicos enfrentam esta questão através do exame de
consciência, com freqüência dolorido, grande parte das publicações dos
ortodoxos sobre o assunto, altamente preconceituosas, é, com freqüência, uma
mistura de histeria e de mentiras.[24]
Dolorido como tudo isso possa
ser à qualquer pessoa de bom senso e de espírito cristão, praticamente todo
mundo (exceto algumas Igrejas Ortodoxas locais que têm sistematicamente
boicotado o diálogo) concorda que o diálogo deve continuar. Mas como? As pessoas
de boa vontade em ambos os lados do diálogo concordam que, a partir de agora, o
“Uniatismo”, de acordo a definição que faço dele, deve ser rejeitado como um
método inaceitável. Mas o passado também deve ser considerado porque o passado
é o verdadeiro problema que bloqueia todo tipo de progresso. É por isso que o
Papa João Paulo II recentemente tem exortado repetidamente “a cura ou
purificação das lembranças” como um método de resolução de questões do passado.
Do meu ponto de vista como historiador, isso vai requerer que cada um dos lados
confronte o nosso passado comum com objetividade histórica e honestidade,
admitir os nossos erros e responsabilidades, pedir perdão e então virar a
página e continuar a caminhada em direção de um futuro esperançosamente melhor.
Podemos
mudar o futuro mas não o passado e é o amargo patrimônio deste passado que está
bloqueando todo o progresso ecumênico de hoje. As hostilidades criadas pelo
passado doloroso estão profundamente enraizadas na psicologia dos cristãos
orientais, tanto católicos como ortodoxos, tão profundamente enraizadas que
estupefazem um ocidental qualquer pouco informado, pois podem parecer infantis
e ridículas. Tudo isso fornece uma irrefutável confirmação da necessidade da
“cura ou purificação das lembranças”. No processo dualista de [1] enfrentar o
passado e [2] continuar adiante na direção de um futuro melhor, o passo 2 é um
trabalho do diálogo ecumênico oficial entre as nossas duas Igrejas. Mas o passo
1, contudo, “a purificação e cura das lembranças”, envolve todo mundo.
De muitas maneiras, esta cura
das lembranças históricas é o passo mais difícil. Isso porque nações e povos
não vivem de suas histórias mas de seus mitos. Como um historiador já disse –
acho que foi Timothy Garton Ash de Oxford -, "Uma nação é um grupo de
pessoas que mantém a mesma visão equivocada da sua própria história”. Assim,
nesse contexto, eu gostaria de sugerir alguns princípios hermenêuticos que
considero essenciais para chegar a uma visão equilibrada do nosso passado
comum.
Contrário
daquilo que geralmente imagina o não-historiógrafo, a história não é o passado,
mas uma visão do passado, uma realidade complexa em si mesma. Para que o
ecumenismo possa avançar, nós devemos deixar de lado a nossa própria visão, com
freqüência hagiográfica, do nosso passado e procurar entender como os outros
nos vêem. Como o criticismo e como a caridade, ele deve começar em casa. Eu sou
um jesuíta, eu ilustrei este ponto e já fiz um exame de consciência em alguns
aspectos do papel que desempenhamos no problema do “Uniatismo”.
Mas se
quisermos avançar na questão ecumênica, tal reflexão prática e determinada
sobre o nosso passado não deve ser restrita aos jesuítas e católicos. Também os
ortodoxos devem alcançar aquele estado onde poderão fazer o seu próprio franco
exame de consciência. Os defeitos históricos de imperialismo, poder e domínio
do cristianismo ocidental induziu aos crimes históricos pelos quais o Papa João
Paulo II pediu perdão em Roma no primeiro domingo da quaresma deste ano. Uma
resposta ortodoxa não demorou a chegar: o metropolita Kallinkos de Piraeus,
porta-voz oficial da Igreja Ortodoxa Grega,[25]
e o bispo da Igreja Ortodoxa Russa Pavel, de Viena,[26]
responderam ao pedido do Papa de perdoar e desculpar-se não perdoando e pedindo
desculpas, mas sim, declarando que a Igreja Ortodoxa nada fez de errado para
pedir perdão.
Estes
tipos de resposta não ajudam muito. Induziram a imprensa a sujeitar seus
autores ao sarcasmo e ao escárnio e, além disso, também foram falsos. Uma
pequena lista daquilo que os ortodoxos poderiam refletir se estivessem
interessados em examinar a própria consciência histórica, começaria nos tempos
bizantinos, com a conversão forçada dos judeus já nos séculos IV – V, mas
especialmente VI e VII; com a perseguição dos armênios e coptas após o Concílio
de Calcedônia (451 d.C.); as uniões forçadas dos armênios com a Igreja
Bizantina, por exemplo, no ano 590 d.C. sob o imperador Maurício (582-602),[27] um perfeito exemplo do “Uniatismo” ortodoxo,
repetido nos tempos modernos pela missão ortodoxa russa entre os assírios[28] e a “Ortodoxia do Rito Ocidental” da América
do Norte e, no passado, na França, [29] apesar
das repetidas alegações ortodoxas de que o “Uniatismo” é um fenômeno
exclusivamente Ocidental. Além do mais, podemos adicionar a incorporação, por
força política, ao Patriarcado de Constantinopla, de áreas que pertenciam por
direito antiquíssimo ao Patriarcado Ocidental sob jurisdição de Roma e a
imposição da autoridade eclesiástica bizantina em áreas conquistadas do oriente
não ortodoxo[30] ou da Itália meridional.[31]
Este
último exemplo fornece um paralelo interessante às Cruzadas, com as quais os
ortodoxos preocupam-se continuamente, queimando etapas cronológicas e agindo
como se as Cruzadas tivessem ocorrido ontem. No final do século VI d.C., o sul
da Itália era totalmente latino, exceto pelas colônias gregas de
Reggio-Calabria e algumas cidades costeiras. Essa situação mudou rapidamente a
partir do século VII, quando a campanha de Constante II (647-668) expulsou os
sarracenos da Sicília, restabelecendo a hegemonia imperial e eclesiástica grega
nesta ilha e na Calábria. A reconquista bizantina do sul da Itália ocorreu com
uniformidade através de todo o horizonte sócio-político, incluindo o
eclesiástico. Aqueles que deploram as invasões das Cruzadas Latinas no Oriente
e as suas criações de hierarquias latinas em competição com as estruturas
eclesiásticas orientais antiquíssimas já existentes esquecem, com muita
conveniência, que os bizantinos fizeram a mesmíssima coisa na Itália. A sua
ajuda militar contra as invasões árabes na Itália não foi menos desinteressada
que a ajuda latina contra os turcos durante as cruzadas, e as políticas
eclesiásticas bizantinas na Itália também envolveram e impuseram a
“bizantinização” das áreas que caíram sob seu controle político. Por exemplo,
em torno da metade do século VIII, os bizantinos removeram da obediência a Roma
e colocaram sob a jurisdição do patriarca da Nova Roma as dioceses de Calábria,
Sicília, Ilíria Oriental [a Albânia de hoje] e talvez também Otranto – todas
áreas historicamente dentro do patriarcado do oeste de tempos imemoráveis. [32]
Exemplos
dos períodos medieval e moderno teriam que incluir os massacres organizados em
Constantinopla nos anos imediatamente precedentes à Quarta Cruzada (1204), a
perseguição da Igreja Russa contra os “Ritualistas Antigos” do século XVII e
supressão forçada do Catolicosado Georgiano em 1811, a perseguição e martírio
de católicos no Império Russo após a divisão da Polônia e a colaboração ativa
de alguns líderes ortodoxos nos eventos após a Segunda Guerra Mundial que já
foram mencionados.
Obviamente,
alguns destes incidentes foram causados por Governos e seculares e não por
Igrejas e eclesiásticos. Mas o mesmo é verdade com eventos tais como as
Cruzadas. "A separação da Igreja e Estado" é um conceito “ocidental”
moderno sem nenhum significado quando aplicado aos séculos passados. Portanto,
mitologia e polêmicas à parte, nem “Uniatismo” nem o uso da força foram
invenções católicas. Foram componentes do espírito da época e pressão para
mudar de confissão religiosa foi exercida por calvinistas, católicos e
ortodoxos, da mesma forma.[33] Esse processo
tampouco foi tão somente interconfessional: aconteceu também dentro da
ortodoxia. Na medida que o Império Russo confiscou terras sob a jurisdição de
outras Igrejas Ortodoxas, os ortodoxos locais eslavos não russos, georgianos e
bessarabos foram incorporados, quisessem ou não, à Igreja Russa e sujeitos à
russificação religiosa e cultural. Em algumas áreas do leste da Polônia absorvidas
pela Rússia, os católicos latinos também foram sujeitos a esse processo e
alguns até mesmo perderam suas vidas na luta.[34]
O ódio inevitável que isso produziu contribuiu para exacerbar a violência
deplorável contra os ortodoxos e a destruição de igrejas ortodoxas no leste da
Polônia quando o país reconquistou a independência através do tratado após a
Primeira Guerra Mundial. [35]
Histórias
de tais crimes passados não justifica nada, é óbvio – mas elas servem para
explicar. Pois nada acontece sem razão e relatos de eventos trágicos sem uma
exposição daquilo que os provocaram, ou o relato somente daquela parte da
história que favorece a si próprio, não é história mas sim propaganda
confessional. Portanto, ao invés de imputar toda a responsabilidade pela
situação atual à Igreja Católica, até mesmo acusando a pessoa de João Paulo II,
como num comunicado oficial recente do Patriarca Alexiy II de Moscou,[36] uma análise imparcial dos fatos demonstraria
que a situação atual é um completo resultado das perseguições soviéticas e que
as dioceses ortodoxas russas que o Patriarca Alexiy diz terem sido destruídas
pela Igreja Católica, originalmente não foram absolutamente dioceses ortodoxas,
mas dioceses Greco-Católicas Ucranianas forçadas à confissão ortodoxa nos
eventos de 1946 já mencionados. Isso confirma-se pelo fato de que na Bulgária,
Hungria e Sérvia, os três países do Bloco Ocidental onde as Igrejas
Greco-Católicas não foram incorporadas por força à ortodoxia, não houve nenhum
desses problemas. As Igrejas Católicas Orientais naqueles países continuaram a
viver suas vidas em relativa paz e não representam nenhuma ameaça para ninguém.
Conseqüentemente,
toda história verdadeira deve ser integral, não seletiva, e comunidades maduras
devem aceitar a responsabilidade pelos seus passados integrais, não somente por
aqueles episódios seletivos que suportam uma visão prejudicial das suas
virtudes e os defeitos dos outros. Com respeito ao “Uniatismo”, então, os
católicos devem aceitar o fato de que, contrário às mitologias, atuaram através
da maior parte da história como agressores em relação ao Oriente Cristão e a
amargura que isso provocou deve ser depositada nua e crua aos seus pés.
Contudo,
os ortodoxos devem, igualmente, aceitar as suas próprias responsabilidades pelo
fenômeno conhecido como "Uniatismo." Nem todos os movimentos
“Uniatas” foram o resultado de maquinações católicas. O “Uniatismo” búlgaro
foi, ao menos parcialmente, fomentado pelo imperialismo ortodoxo grego
constantinopolitano em relação à Igreja Búlgara. E o minúsculo (numericamente,
mas não espiritual e intelectualmente) Exarcado Católico Russo da Rússia
imediatamente anterior à Revolução foi um movimento espontâneo de dentro da
própria Igreja Ortodoxa Russa, formado principalmente por intelectuais e
pessoas importantes, incluindo vários sacerdotes ortodoxos, que estavam
profundamente insatisfeitos com as condições da própria Igreja, que mais
parecia um departamento do Estado desde os tempos do Czar Pedro o Grande, que
recusaram, contudo, abandonar o seu próprio patrimônio religioso e abraçar
aquele do catolicismo latino.
Somente o
restabelecimento da comunhão entre as Igrejas Católica e Ortodoxa resolverá
estes problemas satisfatoriamente. Mas se, nesse ínterim, as soluções devam
permanecer provisionais, as respostas provisórias aos problemas pastorais e
ecumênicos derivados da existência das Igrejas Católicas Orientais devem ser
procuradas com caridade, objetividade e realismo, sem simplificações
anacronistas da história às quais estas Igrejas são, com muita freqüência,
sujeitas por aqueles que deduziram que a nova era do ecumenismo lhes permite
deixar para trás aqueles que consideram, com desdém, “Uniatas”, que podem ser enganados
com facilidade, dispensando suas críticas dos requerimentos básicos da decência
humana, verdade e justiça, sem mencionar a caridade cristã.
Enquanto
o fenômeno do “Uniatismo”, nas suas origens e nas causas destas origens, na sua
história e na sua realidade presente, não seja considerado com mais respeito
para a verdade histórica, eu vejo pouca esperança para qualquer progresso
substancial duradouro no ecumenismo Católico – Ortodoxo. Tanto os católicos
como os ortodoxos devem chegar ao ponto onde possam ver e discutir não somente
as origens do “Uniatismo”, mas também a sua história passada e presente – toda
a sua história – sem passar por cima da natureza problemática, em alguns casos
(não em todos), das suas origens, o seu desenvolvimento e a sua ideologia, como
os católicos tendem fazer; mas também sem lembranças seletivas, duplos
sentidos, histeria e até mesmo a total calúnia que os ortodoxos utilizam com
freqüência para tratar deste fenômeno.
Como o
historiador russo Medvedev expõe no título da sua devastadora exposição sobre o
Stalinismo, “K sudu istorii” - "que julgue a história." Queiramos ou
não, nenhum outro princípio jamais terá qualquer validade definitiva nos
assuntos humanos. Isso não quer dizer que não perdoemos, nem que não podemos
perdoar e que não devemos passar para a página seguinte e continuar. Contudo,
eu estou totalmente convencido de que, enquanto tanto os católicos como os
ortodoxos não deixarem de lado toda a propaganda confessional que usa a máscara
da história, encararem esta realidade sem antolhos ou óculos coloridos e verem
como ela realmente é, cada um aceitando suas próprias responsabilidades, onde
necessário, nos aspectos condenáveis da sua história, nós absolutamente não
vamos chegar a lugar nenhum.
Para os
ortodoxos, isso requer um reconhecimento da verdade em relação aos eventos
dolorosos da década de 1940. Enquanto os ortodoxos não cheguem a reconhecer
esta história abertamente e sem reservas e enquanto não admitirem os seus erros
e não repudiarem publicamente o papel ativo que seus líderes desempenharam na
história dolorosa da supressão destas Igrejas, a sua omissão em protestar este
crime contra a humanidade e as suas mentiras por mais de cinqüenta anos, será,
na minha opinião, continuar impossibilitando o verdadeiro progresso ecumênico.
Os tempos em que os sofrimentos e as sensibilidades dos Católicos Bizantinos
podiam ser ignoradas ou evitadas já passaram. Qualquer pessoa que ache que a
Declaração de Balamand, apesar de ter sido um grande avanço sob todos os pontos
de vista, tenha resolvido o problema por ter admitido que “meios inaceitáveis”
foram utilizados pelos Governos Civis no pseudo sínodo de 1946, não estará
sendo realista. Apesar de que a declaração em si seja verdadeira, do mesmo modo
seria verdadeiro descrever o Holocausto como “uma atividade não totalmente
favorável aos judeus”. Ora, isso não define o genocídio, da mesma forma que a
Declaração de Balamand não definiu o “eclesiocídio”.
Quê pode
ser feito a partir daqui? Deixemos uma coisa bem clara: enquanto uma solução
adequada, justa e mutualmente aceitável não for encontrada para estes problemas
causados pelo "Uniatismo," não pode-se utilizar defeitos nas origens
ou na história de qualquer Igreja para impugnar os seus direitos humanos
naturais de existência, de justiça e de uma própria história. O que foi dito
acima contra o "Uniatismo" de forma alguma pode justificar qualquer
dúvida do direito que os Católicos Orientais, sejam indivíduos ou Igrejas, têm
à lei natural de existência e do direito de serem exatamente aquilo que aspiram
ser. A vida não é uma lição de história e o direito à existência de qualquer
indivíduo ou grupo nunca pode estar à mercê de alguém fora deste grupo. Isso
inclui não somente o direito à existência – ou seja, o direito de não ser exterminado
fisicamente. Também inclui o direito à identidade e tradição e o direito à
própria história – ou seja, o direito de não ter o seu passado ou presente
caluniado e difamado.
A noção de que o direito à existência das Igrejas Católicas Orientais pode
ser desafiado com base nos acontecimentos de três ou quatro séculos atrás, é um
absurdo histórico e moral. Será que políticos, e até mesmo coerção,
contribuíram para o surgimento destas Igrejas? É óbvio que influenciaram, da
mesma forma que influenciaram o estabelecimento do Luteranismo e da Igreja
Anglicana. Ou será que alguém acha que Henrique VIII fez um plebiscito para
saber se a classe dos pequenos proprietários rurais ingleses queriam separar-se
de Roma? E será que alguém pensa que os jovens príncipes alemães que aceitaram
a Reforma, arrastando consigo todos seus principados e todos católicos do seu
território, levaram antes a questão à urnas?
Aqui eu
creio que podemos aprender algo do Ocidente secular moderno tão odioso. É esta
cultura “ocidental”, como o escritor da Igreja Ortodoxa Russa Alexandre
Solzhenitsin e outros ressaltaram, que inventou a “modernidade” e seus valores
tradicionais: uma vida pública democrática e civil; respeito aos indivíduos e
aos seus direitos civis e religiosos; uma tradição de serviços públicos e
beneficência em favor dos assolados ou desavantajados tanto a nível doméstico
como internacional; uma vida acadêmica, intelectual, artística e cultural livre
de repressão política ou da manipulação da ideologia do Estado, aberta a todos;
somente para citar alguns exemplos das suas qualidades. As pessoas educadas
nesta cultura “ocidental” freqüentemente zombada procuram adquirir hábitos de
opinião e juízo, modos de comportamento e de ação que, eu acho, devemos incutir
em todos aqueles que cheguemos a conhecer. Afastando deliberadamente a
condenação descomedida e a caricatura injusta imoderada, o virulento, o vil, o
emocional, o unilateral, o vituperioso, o rude e o ignominioso, a mente educada
tenta, ao invés, responder às críticas através do estudo dos fatos.
O que nós
precisamos é aquilo que a tão odiosa cultura acadêmica “ocidental” abraça: as virtudes seculares da imparcialidade,
reciprocidade e a capacidade de uma opinião objetiva, coerente e lógica. Também
na espiritualidade oriental estes ideais possuem raízes profundas. O título de
um artigo recente sobre os Padres do Deserto no periódico Sobornost,
“Honestidade Radical Sobre Si Mesmo”, refletiu uma virtude que fundamenta
qualquer espiritualidade genuína, mas uma virtude que, infelizmente, não se
encontra com facilidade na grande maioria do mundo cristão de hoje. Contudo,
são qualidades abraçadas por autores ortodoxos da diáspora que embeberam o que
há de melhor desta cultura. Por exemplo, as afirmações de que não há nenhuma razão
para os ortodoxos fazerem mea-culpa
contrastam os sentimentos que o Prof. Nicholas Lossky do Instituto de Teologia
Ortodoxa St. Serge de Paris expressou no 37o encontro do diálogo Católico – Ortodoxo na
França no dia 16 de maio de 1997, apelando por uma “ética de diálogo” que
compreenda uma “honestidade intelectual absoluta, especialmente na revisão da
nossa história comum e no reconhecimento das nossas próprias falhas..."
Eu creio
que as qualidades da honestidade, coerência, constância, autocrítica,
objetividade, imparcialidade, moderação e cortesia no tom e linguagem mesmo
quando em desacordo – que eu imperturbavelmente chamo de “ocidental” porque é
aí que elas originaram-se e onde tais qualidades são abraçadas e assumidas – já
são ideais elementares e realidades amplamente cultivadas no diálogo ecumênico
entre os Católicos Romanos e Anglicanos. A ênfase não cai na ausência de desacordos.
O que realmente importa é que, a nível oficial, desacordos podem ser discutidos
baseados em fatos, com cortesia, sem doestos, aspereza e difamações. É uma
fonte de profunda esperança: basta pensar que não muitos séculos atrás
Católicos e Anglicanos se matavam mutuamente ou nos conscientizar de como,
recentemente, os católicos obtiveram direitos civis básicos na Inglaterra.
Portanto, apesar de tudo, talvez haja esperança também para os católicos e
ortodoxos, mas enquanto os corações e mentes não mudem, nenhum dos nossos
esforços ecumênicos resultarão em algo substancioso para a unidade das Igrejas
de Deus. Não duvidemos por um só minuto de que isso repercute em toda a humanidade, para muito além da questão
da unidade Cristã. Uma lição que o Século XX, e especialmente o Holocausto, nos
deu é que não existe uma neutralidade ideológica. São somente duas as opções,
ou somos parte da solução ou parte do problema, um instrumento da paz e do amor
ou ideólogos da divisão e do ódio.
Falei a
verdade com franqueza. Espero que não tenha iludido a audiência. Como o Sr.
Conor Cruise O'Brien já disse, "Respeito pela verdade e coragem
intelectual para dizer a verdade: estas são qualidades de uma universidade real
e viva." [37]
Muito
obrigado pela sua atenção.
Pe.
Robert F. Taft, S.J.
PONTIFICIO ISTITUTO ORIENTALE
Piazza S. Maria Maggiore 7
00185 Roma, ITALIA
Notas de rodapé:
[1]Apesar
da linguagem diplomática costumeira do comunicado oficial à imprensa: SEIA
Newsletter on the Eastern Churches and Ecumenism, no. 58 (20 de julho de 2000)
2.
[2]Uso
a palavra “Uniatismo” entre aspas porque é um termo pejorativo que a maioria
dos Católicos Orientais consideram, imerecidamente, ofensivo.
[3]Para
obter uma análise recente justa e objetiva deste problema, consulte Ernst C.
Suttner, “Church Unity. Union
or Uniatism? Catholic-Orthodox Ecumenical Perspectives” (Roma: Centro
para Estudos Indianos e Inter-Religiosos/Bangalore: Dhamaram Publications,
1991).
[4]Sobre este parecer, consulte os comentários
de Suttner em “Church Unity” 5-6, e esp. 58-62.
[5]Por
exemplo, veja a Bula de Gregório IX (1227-1241) de 18 de julho de 1231 em A.G.
Welykyj OSBM (ed.), Documenta Pontificum Romanorum Historiam Ucrainae
Illustrantia (1075-1953), 2. vols., (Analecta OSBM, série II, seção III, PP.
Basiliani, Roma 1953-1954), vol. I (1075-1700) 19-20, e inúmeros outros
documentos concernentes; cf. James J. Zatko, “The Union of Suzdal, 1222-1252,”
JEH 8 (1957) 33-52, neste, 36; A.M. Ammann, Kirchenpolitische Wandlungen im
Ostbaltikum bis zum Tode Alexander Newski’s. Studien zum Werden der russischen
Orthodoxie (OCA 105, Roma 1936) cap. III.3.
[6]Por
exemplo, no século XIII, quando Chipre estava sob o domínio latino, os
ortodoxos tinham a liberdade de eleger seus próprios bispos.
[7]Consulte
K.T. Ware, “Orthodox and Catholics in the Seventeenth Century: Schism or
Intercommunion,: em D. Baker (ed.), Schism, Heresy and Relgious Protest
(Studies in Church History 9, Cambridge 1972) 259-276.
[8]Três
livros recentes ilustram de forma muito dolorosa a comédia de erros que têm
sido as normas católicas modernas em relação ao Oriente Cristão e especialmente
em relação à Rússia: G. M. Croce, La Badia Greca di Grottaferrata e la Rivista
"Roma e l’Oriente”, 2 vols. (Vaticano: Libreria Editrice Vaticana 1990);
A. Tamborra, Chiesa cattolica e Ortodossia russa. Due secoli di confronto e
dialogo. Dalla Santa Allianza ai
nostri giorni (Cinisello Balsamo [Milão]: Ed. Paoline 1991); L Tretjakewitsch,
Bishop Michel d’Herbigny SJ and Russia. A Pre-Ecumenical approach to
Christian Unity (Das östliche Christentum, Neue Folge, Bd. 39. Würzburg:
Augustinus Verlag 1990). Neste contexto, considere que os dois primeiros livros
citados representam um auto criticismo extremamente honesto de autores
católicos.
[9]
Este assunto foi tratado por E. Chr. Suttner em “Jesuiten — Helfer und Ärgernis
für die Kirchen des Ostens,” Der christliche Osten 49 no. 2 (1994) 80-95. O
Prof. Suttner, da universidade de Viena é um sacerdote Católico e não é um
inimigo da Sociedade de Jesus
[10]O
mais recente relato objetivo destes eventos e as suas conseqüências está na
obra de B.A. Gudziak, “Crisis and Reform The Kyivan Metropolitanate, the
Patriarchate of Constantinople, and the Genesis of the Union of Brest” (Harvard
Ukrainian Institute, Harvard Series in Ukrainian, Harvard University Press
1998). Veja também A. Jobert, “De Luther à Mohila. La Pologne dans la crise de la Chrétienté,
1517-1648” (Collection historique de l’Institut d’études slaves, Paris 1974). Relatos
mais breves desta situação com bastante objetividade histórica são enunciados
por Sophia Senyk em “Vicissitudes de l’Union de Brest au XVIIe
siècle,” Irénikon 65 (1992) 462-487; idem, “The Background of the Union of
Brest,” Analecta OSBM 21 (1996) 103-144; Silverio Saulle, “L’Unione di Brest.
Genesi e sviluppi storici,” Studi sull’Oriente cristiano 2/1 (1998) 137-164,
2/2 (1998) 137-167.
[11]Teve
duas edições principalmente porque os nobres rutenos, inimigos da União,
compraram e queimaram uma grande quantidade de primeira edição.
[12]Cf.
nota 10 acima.
[13]Jobert,
De Luther à Mohila 343. Para uma versão ortodoxa da mesma história, cf. também
Jean-Claude Roberti, Les Uniates (Fides 44, Paris 1992) 75.
[14]Suttner,
Church Unity 83ff; W. Lencyk, The Eastern Catholic Church and Czar Nicholas I
(New York 1966). Cf. outras referências de Suttner, Church Unity 124-5 em nota
70.
[15]Traduzido
do francês de acordo com o que consta em Irénikon 73 (2000) 112.
[16]Uma
avaliação justa e dentro do contexto somente pode ser feita sob a evidência dos
fatos. Por exemplo, a afirmação do Patriarca Ecumênico Bartolomeu I numa
entrevista a Odyssey (Agosto/Set. 1993) 34: “E na Rússia, mesmo que os Uniatas
tenham sido os proprietários de Igrejas antes de Stalin, hoje a proporção dos
Uniatas em relação aos Ortodoxos mudou. Hoje existem muito mais ortodoxos que
Uniatas, portanto estes últimos não podem reivindicar estas propriedades e
querê-las de volta, sejam elas escolas ou igrejas, pois para onde iriam os
ortodoxos? Onde iriam comungar-se? Nas ruas? Isso certamente não seria um
comportamento cristão.” Considerando a área em questão, a Galícia na Ucrânia
Ocidental, onde os Greco-Católicos eram e ainda são a maioria, essa afirmação é
simplesmente falsa. E, acrescento, onde é que os fiéis estão celebrando
liturgias nas ruas? Na Romênia. Na Romênia muitos Greco-Católicos Romenos,
despojados de suas igrejas, ainda estão celebrando liturgias nas ruas.
[17]Ele
foi assassinado, presumivelmente pelos seus detentores soviéticos, no dia 20 de
setembro de 1948.
[18]Ronald
G. Roberson, CSP, Contemporary Romanian Orthodox Ecclesiology: the Contribution
of Dumitru Staniloae and Younger Colleagues (tese de doutorado não publicada,
Pontifício Instituto Oriental, Roma 1988) 208-209; cf. as pp. 206-212 que
trazem uma exploração completa, com abundante bibliografia e citações sobre a
defesa da reintegração forçada de Staniloae. Ronald Roberson concorda com o
personagem sobre o qual decidiu escrever a tese e isso torna a documentação
apresentada ainda mais assoladora. Para saber mais sobre os negativos aspectos
da carreira de Stanisloae antes e depois do período comunista, consulte:
Olivier Gillet, Religion et nationalisme. L’idéologie de l’Église orthodoxe
roumaine sous le régime communiste (Collection «Spiritualités et pensées
libres», Éditions de l’Université de Bruxelles, Bruxelles 1997) 92, 136.
[19]A
publicação em periódicos de obituários laudatórios ocidentais, até mesmo
católicos (por ex.:, Irénikon 66, 1993; Sobornost 16:1, 1994), deste apologista
de um dos grandes crimes do século XX contra a humanidade sem uma só menção
sobre este aspecto da sua carreira deve ser considerado como escândalo moral.
[20]Mille anni di fede in Russia. Pimen,
Patriarca di Mosca e di tutte le Russie intervistato da Alceste Santini
(Cinisello Balsamo [Milano]: Edizioni Paoline, 1987) 216.
[21]Para
referências mais recentes sobre este assunto, consulte Werner Maser, Der
Wortbruch. Hitler, Stalin und der Zweite Weltkrieg (Munich: Günter Olzog
Verlag, 1994).
[22]Esta
matéria foi tratada com objetividade histórica por um autor que não é
absolutamente um apologista da Igreja Católica: Hansjakob Stehle, “Sheptyts’kyi
and the German Regime,” em P.R. Magocsi (ed.), Morality and Reality. The Life
and Times of Andrei Sheptyts'kyi (Canadian Institute of Ukrainian Studies,
University of Alberta, Edmonton 1989) 125-144. O Metropolita Sheptetskyi era o
chefe da Igreja Ucraino-Católica durante a guerra. Stehle explica que,
“Totalmente diferente do metropolita ortodoxo Polikarp [da Igreja Ortodoxa
Autocefálica Ucraniana] que, ainda em maio de 1944, ainda estava rezando pela
vitória de Hitler sobre os “Comunistas Judeus”, o Metropolita Sheptetskyi
depositou todas as suas esperanças exclusivamente na fé religiosa” (ibid. 139).
Para inteirar-se do testemunho de um judeu sobre os esforços que o Metropolita
Sheptestkyi fez para salvar os judeus de Lviv durante a ocupação nazista, veja
Rabbi David Kahane, Lvov Ghetto Diary (Amherst: University of Mass. Press,
1990).
[23]Consulte
Serge Keleher, Passion ad Resurrection — The Greek Catholic Church in Soviet
Ukraine 1939-1989 (Lviv: Stauropegion, 1993), com o seu rico apêndice de
documentos históricos (pp. 187-298), todos do período soviético, incluindo o
fascinante artigo, “Here We Are Lord!”, publicada pela primeira vez em russo no
popular periódico satírico soviético Ogonëk N° 38 (setembro de 1989) 6-8, que
fornece a verdadeira história do pseudo sínodo de 8 – 10 de março de 1946, com
o testemunho de um coronel de sessenta anos das forças de segurança soviéticas,
que participou da farsa, ironicamente intercalado com afirmações contemporâneas
do Metropolita Filaret da Igreja Ortodoxa Russa (hoje patriarca da Igreja
Ortodoxa Ucraniana – Patriarcado de Kiev) de Kiev e Galícia (p. 264) repetindo
as costumeiras mentiras, afirmando que a “união” orquestrada pelo pseudo sínodo
de Lviv em 1946 foi “livre”, de acordo com a definição “oficial” de “união” da
União Soviética. Veja B.R. Bociurkiw, The Ukrainian Greek Catholic Church and
the Soviet State (1939-1950) (Edmonton/Toronto: Canadian Institute of Ukrainian
Studies Press, 1996) 179-80, veja esp. 127 e 238-43; sobre Filaret, 241. Entre
outros documentos, muitos deles aparecem aqui em inglês pela primeira vez,
estão: Os Artigos da União de Brest; os Decretos do Sínodo Eparquial da Igreja
Greco-católica em Petrogrado em 29 – 31 de maio de 1917; a carta dos sacerdotes
greco-católicos a Molotov repudiando as atividades do “Grupo de Iniciativas”
criado em 1945 para instigar a “união” forçada com a Igreja Ortodoxa; a carta
pastoral de 15/28 de janeiro de 1950 dos bispos ortodoxos do oeste ucraniano e
Transcarpácia referente à “consolidação” da “união” com a ortodoxia e a
abolição de práticas católicas ou latinas da liturgia; “The Life of the
Ukrainian Catholic Church,” um documento de janeiro de 1980 da igreja das
catacumbas especificando que a Igreja continuou existindo e que a perseguição
continuava; a “Open Letter to His Holiness John Paul II from the bishops,
priests, monastics and faithful of the Ukrainian Catholic Church,” de 4 de
agosto de 1987, anunciando publicamente a sua emergência das catacumbas devido
às condições melhores que surgiram com Gorbachev; a apelação de 7 de abril de
1989 a Gorbachev; a carta de 7 de abril de 1989 do metropolita Greco-Católico
Ucraniano Volodemer Sterniuk de Lviv ao bispo Greco-Católico Ucraniano Isidoro
Boretsky de Toronto e Leste do Canadá, e a resposta deste; a carta pastoral de
27 de agosto de 1989 do mesmo metropolita Volodemer de Lviv e Galícia, primeiro
manifesto formal público do metropolita aos seus fiéis na Ucrânia; a carta
aberta de setembro de 1989 dos mais importantes intelectuais ucranianos a
Gorbachev. O desconexo relato conclui com testemunhos oculares do renascimento
espontâneo da Igreja no período de Gorbachev, seguidos por documentos
referentes ao encontro de Gorbachev com o Popa João Paulo II no dia 1 de
dezembro de 1989; a Declaração do Conselho para assuntos religiosos no Conselho
de Ministros da República Ucraniana Socialista Soviética referente à sua
intenção de resolver positivamente o problema da liberdade da Igreja
Greco-católica Ucraniana; e, finalmente, o Relatório do dia 17 de março de 1990
do Sínodo dos Bispos da Igreja Greco-católica Ucraniana sobre a interrupção das
negociações da “Comissão Quadrífida para a Normalização das Relações entre as
Igrejas Ortodoxas e Greco-Católicas do Oeste da Ucrânia.”
[24]Também
este problema pode ser entendido e resolvido somente com atenção voltada ao seu
contexto histórico objetivo. Muitas afirmações sobre o Patriarcado de Moscou
ditam claramente a posição ortodoxa neste assunto. Um exemplo recente será
suficiente. Acusando a Igreja Católica de proselitismo na Rússia e Ucrânia, o
Patriarca Aleksyi II da Igreja Ortodoxa de Moscou disse, no dia 10 de junho:
“Acho difícil entendê-los quando, no século XX, vejo três dioceses ortodoxas da
Ucrânia esmagadas por católicos, onde fiéis são expelidos de suas igrejas,
sacerdotes espancados e santos blasfemados...” O Patriarca acusou o Papa João
Paulo II por não ter condenado “as ações da Igreja Uniata, que ocupou uma série
de igrejas do Patriarcado Ortodoxo Russo e permitiu que outros locais fossem
profanados”. “Não é assim que vocês devem tratar uma igreja irmã, como os
católicos chamam os ortodoxos... O proselitismo, que faz com que pessoas
batizadas ortodoxas ou que são ortodoxas nas suas mais profundas raízes,
tornem-se católicas — também isso não deve acontecer entre igrejas irmãs. Isso
dificulta as nossas relações.” Como foi publicado em SEIA no. 57 (27 de junho
de 2000) 3. Veja, nesse sentido, a resposta muito cortês, respeitosa, de tom
moderado, mas franca do bispo Lubomyr Husar de Lviv, auxiliar do chefe da
Igreja Greco-Católica Ucraniana: “Risposta ad Alessio II,” Il regno. Anno XLV —
N. 865 (15 settembre 2000) 512-15; id., “I greco-cattolic rispondon,” [sic] La
nuova Europa N. 5 (settembre-ottobre 2000) 53-56.
[25]SOP
247 (avril 2000) 14;
[26]“Bischof
Pawel: ‘Mea cupa is der Orthodoxie unnötig’.” entrevista da KNS em Viena como
publicada por Gertraud Illmeier no “Pressespiegel pro Oriente” N. 115 (2000)
19-20: veja também Glaube in der 2. Welt
28 (2000) N. 6, pp. 6-7.
[27]Nina G. Garsoïan, “Secular Jurisdiction over the
Armenian Church (Fourth-Seventh Centuries),” em C. Mango, O. Pritsak (eds.),
Okeanos. Ensaios apresentados a I. ·evãenko (Harvard Ukrainian Studies 7,
Cambridge, Mass. 1983) 228; idem, “The Armenian Church between Byzantium and
the East,” em Treasures in Heaven: Armenian Art, Religion, and Society. Dissertações
apresentadas na Biblioteca de Pierpont Morgan num simpósio organizado por
Thomas F. Mathews e Roger S. Wieck, 21-22 de maio de 1994 (New York 1998) 7 as
referências em 11 nota 25. Ver também Suttner, Church Unity 39ff.
[28]Veja
J.F. Coakley, The Church of the East and the Church of England. A History of
the Archbishop of Canterbury’s Assyrian Mission (Oxford: Clarendon 1992) 216-234.
[29]Roberti,
Les Uniates 102-7; W.S. Schneirla, “The Western Rite in the Orthodox Church,”
2/2 (1958) 2045, e a discussão em ibid. 2/4 (1958) 37-38, 3/1 (1959) 36-37;
Missel orthodoxe. Rit occidental Gallican
de s. Germain de Paris (6e siècle). Italique pré-Célestinien
(début 5e siècle). Missel ou livre de la synaxe liturgique approuvé
et authorisé pour les églises orthodoxes de rit occidental relevant du
Patriarcat de Moscou. Version
française officielle établie sur le texte latin original. Édition
revue et typique (Collection «Documents liturgiques», supplément de la revue
«Contacts», n° 38/39, 2e/3e trim. 1962, Paris 1962) com
mais bibliografia na p. 96. De acordo com um relatório recente, o Vicariado
Ortodoxo do Rito Ocidental sob a jurisdição da Arquidiocese Cristã Ortodoxa
Antioquena da América do Norte conta
com 27 paróquias: Eastern Churches Journal 6/3 (1999) 150.
[30]Exemplos
em Suttner, Church Unity 38-43.
[31]Sobre
a história dos bizantinos no sul da Itália, veja Vera von Falkenhausen, “I
bizantini in Italia,” em G. Cavallo et alii, I bizantini in Italia (Antica
Madre, collana di studi sull’Italia antica, a cura di G. Pugliese Carratelli,
Milan 1982) 1-136.
[32]Veja V. Grumel, “L’annexion de l’Illyricum oriental,
de la Sicile et de la Calaabre au Patriarcat de Constantinope,” Recherches de
science religieuse 40 (1951-52) 191-200.
[33]As
nossas noções contemporâneas sobre a tolerância religiosa eram totalmente
desconhecidas naqueles tempos. Veja
O.P. Grell e B. Scribner, Tolerance and Intolerance in the European Reformation
(New York 1996).
[34]Suttner, Church Unity 85.
[35]Stephen Joseph Bachtalowsky, CSSR, Nicholas
Charnetsky, CSSR. Bishop-Confessor, traduzidos para o inglês por George J.
Perejda, CSSR (Yorkton, Saskatechewan: Publications of the Congregation of the
Most Holy Redeemer, Redeemer’s Voice Press, n.d.) 89-95.
[36]Veja
nota 23 acima.
[37]New York Times Review of Books (Sept. 10, 2000) 45.
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The Faculty of Theology of the University of St.
Michael's College, Toronto CANADA wishes to acknowledge and thank Robert F.
Taft for permission to publish this text without alteration. The
author holds exclusive copyright © of this text and reserves all rights.
(*) Nota do tradutor: O termo
“anamnésia”, apesar de literalmente significar, em português “reminiscência” ou
“recordação“, oposto de “amnésia” (sem o prefixo de negação –an), é usado aqui
pelo autor também para efeito de jogo de palavras: o sentido grego da expressão
“anamnésia” no rito bizantino conota um significado mais profundo, através da
grafia “anamnese”, e traz à memória o mistério da redenção, de forma especial
na epiclese (o "Unde et memores", da Missa de São Pio V).